Google+ Badge

domingo, 14 de maio de 2017

13 RAZÕES “PORQUE” E O CONTÁGIO DO SUICIDIO

Este artigo é a tradução ao pé da letra, do artigo “13 Reasons Why and Suicide Contagion”, por Patrick Devitt, no Scientific American de 8/05/17 ARTIGO ORIGINAL
Observações e comentários meus no final

A série Netflix, “13 razões”, causou um furor. No show, uma estudante do ensino médio que se suicidou, deixou 13 gravações, uma para cada pessoa que ela acreditou ter contribuído de alguma forma para sua decisão final. Cada episódio refere-se a uma gravação individual. O penúltimo episódio retrata o suicídio de uma maneira horrível. Alguns dizem que a série é um retrato preciso e sensível da angústia interior de um indivíduo, e que nos ajuda a esclarecer as motivações por trás do comportamento suicida e o suicídio em si, o que é bom e pode ajudar outros em situações semelhantes. Os críticos, entretanto, estão preocupados com a glamorização do suicídio ou sua normalização, como opção legítima de lidar com a problemática interna, produzindo mais suicídios.
É fato conhecido que o suicídio pode ser um fenômeno contagioso. Suicídios por imitação (Copycat), foram notados em certos grupos, em diferentes momentos da história. Qualquer possível causa de tal contágio deve ser levada a sério, mas a ciência mostra que o papel que a ficção pode desempenhar na inspiração do suicídio é, na melhor das hipóteses, pouco claro. “13 Razões Porque” não é o primeiro trabalho de ficção a ser envolvido neste tipo de controvérsia. Romeu e Julieta de Shakespeare, foi acusado de glamorizar o suicídio. O romance de Johann Wolfgang von Goethe, As Dores do Jovem Werther (The Sorrows of Young Werther), lançado em 1774, descreve a dor e o sofrimento de Werther por causa de seu amor por Charlotte, que se casou com Albert, amigo de Werther. Incapaz de lidar com a coisa, Werther decide que um deles deve morrer e acaba se matando com um tiro, com a pistola de Albert. Acredita-se que a obra de von Goethe levou a uma onda de suicidios de jovens em toda a Europa, muitos dos quais estavam vestidos com a mesma roupa que a descrita usada por Werther, e usando pistolas semelhantes. Alguns até tinham as cópias do romance ao lado de seus corpos com a página aberta na cena do suicídio.
David Phillips, o grande pesquisador dos suicídios, cunhou o termo, "Efeito Werther", para se referir ao fenômeno dos imitadores. O resultado da pesquisa, na década de 70, foi a recomendação de que as histórias sobre suicídio não fossem colocadas na primeira página dos jornais.
Em Viena na década de 80, uma série de suicídios no metrô foi combatida pela decisão dos principais jornais da cidade de reduzir substancialmente a publicidade em torno dessas mortes. Depois de um tempinho, esses suicídios já não eram mencionados, o que coincidiu com uma queda progressiva no número dos mesmos, ilustrando o poder da mídia em fazer a coisa certa.
Contrario ao efeito Werther, é o efeito “Papageno”, que toma o nome do caráter Papageno na ópera de Mozart “A Flauta Mágica”. Nela, Papageno tenta se enforcar depois que se convence que nunca vai conquistar o amor de Papagena. Porém, aqui, ele é persuadido por três espíritos de crianças, a não acabar com sua vida.
As pesquisas tem mostrado que a cobertura excessiva da mídia de suicídios de celebridades, realmente leva a um aumento na ideação e nas tentativas de suicídio. As mulheres, com cerca de 30 anos, estiveram mais em risco do suicidio após a morte de Marilyn Monroe em 1962. Os pesquisadores do suicídio, King-wa Fu e Paul Yip, examinaram o impacto das mortes de 3 celebridades asiáticas nas tentativas de suicidio, usando uma série de comparações com as mortes nas semanas anteriores e posteriores aos citados suicídios. Eles descobriram um aumento substancial no número de suicídios na primeira, segunda e terceira semanas após a morte de cada celebridade, em Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan, em comparação ao período de referência. Foi pior com pessoas do mesmo sexo das celebridades suicidas.
No entanto, a evidência das pesquisas em relação a retratos ficcionais de suicídio na TV e no cinema é mais complicada. Pirkis e colegas revisaram a literatura sobre filmes e retratos televisivos de suicídio. O grupo foi incapaz de oferecer respostas conclusivas a perguntas sobre o impacto de suicídios ficcionais em relação a suicídios reais na população em geral.
Foram feitos estudos tentando avaliar o efeito da transmissão de um episódio da novela britânica “Eastenders” (2/3/1968). Este episodio mostrou uma overdose tentada por um caráter femininos de cerca de 30 anos. Os estudos tentaram avaliar o que aconteceu nos serviços de emergência no Reino Unido antes e depois do episódio. Alguns dos estudos forneceram evidências para um efeito imitador, mas alguns não. Achados mistos foram relatados em outros. Portanto, não se pode concluir se as representações fictícias de comportamento suicida no cinema e na televisão aumentam sua incidência na população. Embora seja certamente verdade que as representações exageradamente repetidas pela mídia de suicídio de celebridades terão um efeito imitador, parece que o público em geral é capaz de distinguir o fato da ficção.
Apesar disso, devemos estar cientes dos Efeitos Werther e Papageno. É difícil ver como a retratação fictícia do suicídio, de forma explícita, poderia ter um efeito positivo, a não ser que, naturalmente, as desvantagens do suicídio em termos de seu efeito sobre parentes e amigos também sejam fortemente retratados. De uma perspectiva dissuasiva, a natureza horrível do próprio suicídio pode ser uma característica positiva, e o mesmo poderia ser dito dos efeitos adversos sobre os sobreviventes. No entanto, a mensagem de que o suicídio pode ter uma simples, ou mesmo um conjunto simples de causas, ou que o suicídio representa algum tipo de solução, é infeliz. Nunca há uma razão, nem mesmo treze.


O Dr. Patrick Devitt é psiquiatra. Trabalhou na Irlanda, como Inspetor dos Serviços de Saúde Mental e nos USA. É co-autor do livro “Suicídio, uma Obessão Moderna” (Suicide: A Modern Obsession).

Concordo com o artigo. Também acho que todos os que trabalham em Saúde Mental deveriam ver a série. Pessoalmente, não gostei, e explico: A série se baseia numa adolescente chamada Hannah, e começa depois de seu suicidio. 13 pessoas recebem gravações, nas quais ela descreve como, cada uma delas, é responsável pelo mesmo. Embora o show mostre uma das causas de suicídio, o bullying, falha completamente em discutir ou mostrar que, o problema de base é Saúde Mental, melhor dizendo, falta ou enfraquecimento da mesma. E o problema é ainda pior com adolescentes, que ainda não tem um lobo frontal totalmente desenvolvido para correta avaliação de causas/consequências. Pior, sob meu ponto de vista, é o ter mostrado que a garota só se torna ponderosa depois de morta, manipulando a vida emocional dos sobreviventes, cujo estado de horror que estariam sentindo não é sequer mencionado. Apesar disso, continuo achando que o debate deveria ser amplo, geral e irrestríto, abordando uma variedade de aspectos, não necessáriamente nessa ordem:

1-Suicídio como Momento Psicótico: Momento no qual o teste de realidade não funciona . Um estado de pânico que toma todo o ser do indivíduo, durante o qual a idéia de acabar com tudo parece ser a única possibilidade (François Ladame)

2-Suicídio como Manipulação e/ou Vingança (que é exatamente o que a série mostra)

3-Mas, o que se precisa mesmo, é um debate sobre Saúde Mental. É acabar com o mito de “louco”versus “normal”. É se entender que saúde, seja ela qual for, não é uma constante com a qual se nasce. É preciso entender que, se a saúde do corpo depende de comportamentos contínuos, tipo dieta adequada, exercicio, higiene e sono, por que diabos haveria de ser diferente para saúde mental? É preciso entender que, se a hipertensão é chamada de “assassino silencioso”, por não haver, durante muito tempo, nenhum sintoma, até o primeiro infato ou derrame, o mesmo acontece para saúde mental.
Basicamente o que estou dizendo é que precisamos observar e colocar em cheque nossos preconceitos.
Para os que estão interessados, o livro abaixo é uma fonte de informação e possibilidades.

Relating to Self-Harm and Suicide: Psychoanalytic Perspectives on Practice, editado por Stephen Briggs, Alessandra Lemma, William Crouch (2008, Routlege)

Notas de pé de página

O suicídio é um fenômeno global. Representa 1,4% de todas as mortes em todo o mundo, tornando-se a 17ª causa de morte mundo afora. Intervenções eficazes e baseadas em evidências podem ser implementadas a níveis individual e comunitário para prevenção.Para cada adulto que morreu de suicídio, pode ter havido mais de 20 outras tentativas de suicídio. (OMS)

O suicídio é um dos principais problemas de saúde pública, pois está entre as principais causas de morte nos Estados Unidos. Mais de um milhão de pessoas morrem por suicídio em todo o mundo a cada ano. A taxa de suicídio global é de 16 por 100.000 habitantes. Em média, uma pessoa morre por suicídio a cada 40 segundos em algum lugar do mundo. As taxas globais de suicídio aumentaram 60% nos últimos 45 anos. É a Terceira causa de morte em pessoas entre 10 e 14 anos e a segunda entre 15 e 34 anos (CDC).
TAXAS DE SUICÍDIOS NO MUNDO POR 100.000 HABITANTES. QUANTO MAIS ESCURA A COR, MAIOR A TAXA COMO PODE SER VISTO NA TABELA NO CANTO ESQUERDO

TAXAS DE SUICÍDIO POR IDADE NOS USA. ESCURO PARA MULHERES. CLARO PARA HOMENS. GRUPOS DE IDADE NO AXIS HORIZONTAL