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segunda-feira, 17 de julho de 2017

ÓLEO DE CBD: USOS, BENEFÍCIOS E RISCOS

                        Ilustração da Cannabis sativa do séc 19(foto: Wikimedia Commons)

O QUE É

CBD é o nome de um composto encontrado na planta de cannabis. É um dos numerosos compostos encontrados na planta que se denominam canabinoides. Os pesquisadores têm analisado seus potenciais usos terapêuticos.Os óleos que contêm concentrações de CBD são conhecidos como óleo CBD, mas sua concentração e usos variam em diferentes óleos.

CBD É MACONHA?

Até recentemente, o composto mais conhecido em cannabis era o tetraidrocanabinol delta-9 (THC), que é o ingrediente mais ativo da maconha.
A maconha contém THC e CBD, mas os compostos têm efeitos diferentes.
O THC é bem conhecido pelo "barato" que altera a mente quando, dividido por calor, é introduzido no corpo (fumar o baseado ou comer biscoitinhos feitos com maconha).
O CBD não é psicoativo. Isso significa que não altera a mente ou humor, ou estado de espírito de quem o usa. No entanto, parece produzir mudanças significativas no corpo, e pode ter benefícios médicos.

A maior parte da CBD utilizada medicinalmente é encontrada na forma menos processada da planta de cannabis, conhecida como cânhamo.
O cânhamo e a maconha provêm da mesma planta, cannabis sativa, mas são muito diferentes.
Ao longo dos anos, os agricultores de maconha criaram seletivamente suas plantas (engenharia genética) para terem altas concentrações de THC e outros compostos que os interessavam, quer o cheiro ou seus efeitos no consumidor (isto não está no artigo, mas só a título informativo, a maconha usada hoje, é 80% mais potente do que a usada nos anos 60).

Por outro lado, os agricultores de cânhamo tendem a não modificar a planta, e então, são essas plantas de cânhamo são usadas para criar o óleo CBD.

COMO FUNCIONA: Todos os canabinoides, incluindo o CBD, se ligam a certos receptores do corpo, para produzir seus efeitos.
O corpo humano produz certos canabinoides por conta própria e ainda tem dois receptores para os mesmos, chamados receptores CB1 e CB2.

Os receptores CB1 são encontrados em todo o corpo, a maioria no cérebro, onde lidam com coordenação e movimento, dor, emoções e humor, pensamento, apetite e memórias, entre outras coisas menos importantes.

Os receptores CB2 são mais comuns no sistema imunológico, e afetam os processos inflamatórios e dolorosos.

Acreditava-se que CBD atuasse sobre esses receptores CB2, mas agora, parece que o CBD não age diretamente em nenhum dos receptores, tendo a ação de influenciar o corpo a usar mais de seus próprios canabinoides.

EFEITOS POTENCIAIS NA SAÚDE

Por causa da forma como a CBD atua no corpo, seus usos potenciais são muitos: é tomado por via oral, esfregado na pele e às vezes, inalado através de vapor ou usado intravenosamente.

ANALGÉSICO E ANTI INFLAMATÓRIO

É costumeiro usar drogas prescritas ou de venda livre para aliviar a dor e a rigidez, incluindo a dor crônica, e agora, parece que foi descoberta uma forma de fazê-lo, de forma mais natural.
Um estudo publicado no Journal of Experimental Medicine descobriu que CBD reduziu significativamente a inflamação crônica e a dor em ratos.Os pesquisadores sugerem que os compostos não psicoativos da maconha, como o CBD, podem ser um novo tratamento para a dor crônica, e o CBD já está em uso para algumas dessas condições, como esclerose múltipla e fibromialgia.

PARAR DE FUMAR E PARA ALIVIAR A SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA QUANDO DA RETIRADA DE DROGAS PSICOATIVAS

Há algumas provas promissoras de que o uso do CBD pode ajudar as pessoas a parar de fumar. Um estudo piloto publicado em Comportamentos Aditivos, descobriu que os fumantes que usavam um inalador contendo CBD composto fumavam menos cigarros, e não tinham nenhum desejo adicional de nicotina.Outro estudo similar publicado na Neuroterapeutica encontrou que o CDB pode ser uma substância promissora para pessoas que abusam de opióides.
Os pesquisadores observaram que alguns sintomas experimentados por pacientes com transtornos de uso de substâncias podem ser reduzidos pelo CBD. Estes incluem: ansiedade, alterações do humor, dor e insônia.
Estas são descobertas precoces, mas sugerem que a CDB pode ser usado para evitar ou reduzir os sintomas de abstinência.

EPILEPSIA E OUTRAS DOENÇAS NEURAIS

O CBD também está sendo estudado pelo seu possível papel no tratamento da epilepsia e distúrbios neuropsiquiátricos.
Uma revisão postada na revista Epilepsia, observou que o CBD tem propriedades anti convulsivas e baixo risco de efeitos colaterais.
Estudos do efeito da CDB em distúrbios neurológicos, sugerem que isso pode ajudar a tratar muitos dos distúrbios ligados à epilepsia, como neurodegeneração, lesão neuronal e doenças psiquiátricas.
Outro estudo, publicado no Current Pharmaceutical Design descobriu que a CDB pode ter efeitos semelhantes a certos medicamentos antipsicóticos e que pode ser seguro e eficaz no tratamento de pacientes com esquizofrenia.
Evidentemente, mais pesquisas são necessárias para entender como isso funciona.

AJUDA A COMBATER O CÂNCER.
O CBD vem sendo estudado para uso como agente anticancerígeno.
Uma revisão postada no British Journal of Clinical Pharmacology observa que o CBD parece bloquear as células cancerosas de se espalharem pelo corpo (metástase), por suprimir o crescimento de tais células e até mesmo matá-las. Observaram ainda que o CDB pode ajudar no tratamento do câncer por causa de seus baixos níveis de toxicidade. Pedem que seja estudado junto com tratamentos padrão, para verificação de efeitos sinérgicos.

DISTÚRBIOS DA ANSIEDADE

Pacientes com ansiedade crônica são freqüentemente recomendados a evitar a cannabis, pois o THC pode desencadear ou amplificar a ansiedade e a paranoia.
No entanto, uma revisão da Neuroterapeutics sugere que a CDB pode ajudar a reduzir a ansiedade em certos distúrbios da mesma, tais como:

• transtorno de estresse pós-traumático
• transtorno de geral da ansiedade
• transtorno do pânico
•transtorno de ansiedade social
• transtorno obsessivo-compulsivo

A revisão observa que os medicamentos atuais para esses distúrbios podem levar a sintomas adicionais e efeitos colaterais, e que as pessoas tendem a parar de tomar as drogas por causa desses efeitos indesejados.
A CBD não mostrou efeitos adversos nestes casos até presente momento, e os pesquisadores pedem que o CBD seja estudado como método potencial de tratamento.

DIABETE TIPO 1

A diabetes tipo 1 é causada por inflamação quando o sistema imunológico ataca as células do pâncreas.
Pesquisa recente postada em Clinical Hemorheology e Microcirculation descobriu que CBD pode aliviar a inflamação no pâncreas na diabetes tipo 1, podendo este ser o primeiro passo para encontrar um tratamento baseado em CBD.

ACNE

Outro uso promissor para CBD é como novo tratamento para a acne, que é causada, em parte, pela inflamação das glândulas sebáceas hiperativas.
Um estudo recente, publicado no Journal of Clinical Investigation, descobriu que a CBD ajuda a reduzir a produção de sebo que leva à acne, em parte por causa do efeito anti-inflamatório no corpo.

DOENÇA DE ALZHEIMER

Pesquisa inicial publicada no Journal of Alzheimer's Disease descobriu que a CDB foi capaz de prevenir o desenvolvimento do déficit de reconhecimento social em indivíduos nos estágios iniciais do Mal de Alzheimer, o que poderia fazer com que, tais indivíduos, não perdessem a capacidade de reconhecer os rostos das pessoas que eles conhecem. Esta é a primeira evidência de que a CBD tem potencial para prevenir os sintomas da doença de Alzheimer.

EFEITOS COLATERAIS E RISCOS

Muitos estudos (em pequena escala), analisaram a segurança do CBD em adultos, e descobriram que é bem tolerado.
Não houve efeitos colaterais importantes no sistema nervoso central, nem efeitos nos sinais vitais ou humor entre as pessoas que o usam.
O efeito colateral mais comumente observado foi cansaço. Houve alguns casos de diarreia e alterações no apetite ou no peso.

Ainda há muito pouco dados para se saber de segurança a longo prazo, e,em crianças, nenhum teste foi realizado.
Tal como acontece com qualquer opção de tratamento, nova ou alternativa, um paciente deve discutir com um profissional de saúde qualificado antes de seu uso.

O que não está no artigo, mas é interessante se saber, é que tal óleo é vendido livremente, em qualquer lugar, sem receita médica, incluindo aqui no Texas, onde a lei de tolerância zero impede que pacientes em quimioterapia façam uso das pílulas de THC, que são amplamente usadas no alívio dos sintomas decorrentes de tais tratamentos, quase que no mundo todo.

CBD oil: Uses, health benefits, and risks
clique aqui

Cannabinoids as novel anti-inflammatory drugs
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Cannabidiol: Promise and Pitfalls
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The Biology and Potential Therapeutic Effects of Cannabidiol
Cannabinoids for epilepsy
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A critical review of the antipsychotic effects of cannabidiol: 30 years of a translational investigation.
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sexta-feira, 14 de julho de 2017

ESTUDO VINCULA PARASITAS INTESTINAIS A AUTORITARISMO

Não vou fazer a piada óbvia de que, quem sustenta governos autoritários tem, literalmente, minhocas na cabeça. Apenas traduzi o artigo. No final, há os links para o artigo original e outros igualmente interessantes.

A ameaça psicológica de parasitas pode levar as pessoas a suportarem  governos autoritários, de acordo com um crescente número de pesquisas radicais e controversas.
Pode parecer absurdo, mas não parece tanto quando entendemos a teoria do parasita-estresse, a qual postula que, as pessoas que se desenvolvem em áreas infestadas de parasitas (definidas como qualquer organismo patogênico) pensam e se comportam de forma diferente para evitar a infecção. Elas tendem a ser menos abertas a estranhos,menos exploratórios e menos curiosas, ou seja, tem todos os traços que contradizem os valores progressivos.
As explicações para as causas dos governos autoritários geralmente incluem recursos naturais exploráveis, desigualdade econômica, falta de cultura ou ramificações da retirada de governos coloniais. Mas, quanto mais os cientistas aprendem como a prevalência de parasitas afeta a psicologia, mais essas explicações parecem incompletas.
Em 2013, biólogos realizaram um estudo baseado na teoria do parasita-estresse que analisou a relação entre prevalência de parasitas e autoritarismo em diversos paises. Os autores do estudo explicaram seu raciocínio:
"Porque muitos parasitas causadores de doenças são invisíveis, e suas ações misteriosas, o controle da doença historicamente dependia substancialmente da adesão a praticas comportamentais ritualizadas, que reduziam o risco de infecção. Indivíduos que discordavam abertamente, ou simplesmente não conseguiram se conformar a essas tradições comportamentais, representavam uma ameaça à saúde para si e para os outros ".
Os autores disseram que as tendências autoritárias em indivíduos, atendem a uma função de auto-proteção, e essas tendências podem aumentar temporariamente quando as ameaças se tornam psicologicamente salientes. Eles observaram que indivíduos que percebem a ameaça de doenças infecciosas tendem a:
• Tornar-se mais conformistas
• Preferem conformidade e obediência em outros
• Respondem negativamente àqueles que não se conformam
• Aprovam opiniões sociopoliticas conservadoras.
Os resultados do estudo mostraram fortes correlações entre a prevalência de parasitas e autoritarismo - tanto a nível estadual quanto individual.
A questão-chave, no entanto, era se indivíduos com traços autoritários provocados pela prevalência de parasitas estavam, de alguma forma, fazendo com que seus governos se tornassem autoritários. Assim, os pesquisadores realizaram quatro análises de mediação usando um procedimento de inicialização para ver se os dados batiam. Todos os quatro testes indicaram que os indivíduos estavam dando origem a governos autoritários e que os sustentavam.
Esses resultados são consistentes com as implicações lógicas da hipótese do estresse parasitário e são inconsistentes com uma explicação alternativa, sugerindo que a correlação entre prevalência de doença e autoritarismo se baseia unicamente no estabelecimento colonial de instituições estaduais.
O relacionamento estatístico pode ser explicado pelo fato de que as potências coloniais tendem a criar instituições políticas duradouras em áreas com pouca infestação parasitaria.
Embora alguns tenham questionado as descobertas do estudo, os cientistas continuam a realizar pesquisas com base na teoria do parasita-estresse. Outros estudos demonstraram relações estatísticas entre a prevalência de parasitas e:
• Ideologia política conservadora
• Tradicionalismo e coletivismo
• Menos abertura e mais conscienciosidade nos indivíduos
http://bigthink.com/stephen-johnson/are-parasites-shaping-geopolitics?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#link_time=1494958044

Pathogens and Politics: Further Evidence That Parasite Prevalence Predicts Authoritarianism
http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0062275

Extending the Behavioral Immune System to Political Psychology: Are Political Conservatism and Disgust Sensitivity Really Related?

The Behavioral Immune System: Implications for Social Cognition, Social Interaction, and Social Influence
http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0065260115000246


quarta-feira, 12 de julho de 2017

FATOS, MITOS E VERDADES SOBRE TOXICOLOGIA


Hoje, só vou fazer propaganda, com muito orgulho, do trabalho sensacional de meu colega de turma, Dr. Flavio Zambrone, PhD, toxicologista. Abaixo, coloco a idéia e razão para tal projeto, assim como link para a página e o video explicativo. Precisávamos tanto disso!

Drops é a primeira plataforma brasileira a selecionar e checar as notícias mais relevantes sobre os possíveis efeitos dos químicos que temos contato em nosso dia a dia. Através de um trabalho de pesquisa baseado no modelo jornalístico de fact checking, reunimos e disponibilizamos informações confiáveis sobre a ciência da toxicologia. Tudo com a dose certa de ciência.
Com a facilidade e velocidade com a qual as notícias se propagam atualmente muitos mitos se criam a respeito da toxicologia.
Ao identificar a necessidade de corrigir informações imprecisas e divulgar dados corretos sobre a ciência da toxicologia, o Instituto Brasileiro de Toxicologia (IBTox) cria o projeto Drops no início de 2017


domingo, 14 de maio de 2017

13 RAZÕES “PORQUE” E O CONTÁGIO DO SUICIDIO

Este artigo é a tradução ao pé da letra, do artigo “13 Reasons Why and Suicide Contagion”, por Patrick Devitt, no Scientific American de 8/05/17 ARTIGO ORIGINAL
Observações e comentários meus no final

A série Netflix, “13 razões”, causou um furor. No show, uma estudante do ensino médio que se suicidou, deixou 13 gravações, uma para cada pessoa que ela acreditou ter contribuído de alguma forma para sua decisão final. Cada episódio refere-se a uma gravação individual. O penúltimo episódio retrata o suicídio de uma maneira horrível. Alguns dizem que a série é um retrato preciso e sensível da angústia interior de um indivíduo, e que nos ajuda a esclarecer as motivações por trás do comportamento suicida e o suicídio em si, o que é bom e pode ajudar outros em situações semelhantes. Os críticos, entretanto, estão preocupados com a glamorização do suicídio ou sua normalização, como opção legítima de lidar com a problemática interna, produzindo mais suicídios.
É fato conhecido que o suicídio pode ser um fenômeno contagioso. Suicídios por imitação (Copycat), foram notados em certos grupos, em diferentes momentos da história. Qualquer possível causa de tal contágio deve ser levada a sério, mas a ciência mostra que o papel que a ficção pode desempenhar na inspiração do suicídio é, na melhor das hipóteses, pouco claro. “13 Razões Porque” não é o primeiro trabalho de ficção a ser envolvido neste tipo de controvérsia. Romeu e Julieta de Shakespeare, foi acusado de glamorizar o suicídio. O romance de Johann Wolfgang von Goethe, As Dores do Jovem Werther (The Sorrows of Young Werther), lançado em 1774, descreve a dor e o sofrimento de Werther por causa de seu amor por Charlotte, que se casou com Albert, amigo de Werther. Incapaz de lidar com a coisa, Werther decide que um deles deve morrer e acaba se matando com um tiro, com a pistola de Albert. Acredita-se que a obra de von Goethe levou a uma onda de suicidios de jovens em toda a Europa, muitos dos quais estavam vestidos com a mesma roupa que a descrita usada por Werther, e usando pistolas semelhantes. Alguns até tinham as cópias do romance ao lado de seus corpos com a página aberta na cena do suicídio.
David Phillips, o grande pesquisador dos suicídios, cunhou o termo, "Efeito Werther", para se referir ao fenômeno dos imitadores. O resultado da pesquisa, na década de 70, foi a recomendação de que as histórias sobre suicídio não fossem colocadas na primeira página dos jornais.
Em Viena na década de 80, uma série de suicídios no metrô foi combatida pela decisão dos principais jornais da cidade de reduzir substancialmente a publicidade em torno dessas mortes. Depois de um tempinho, esses suicídios já não eram mencionados, o que coincidiu com uma queda progressiva no número dos mesmos, ilustrando o poder da mídia em fazer a coisa certa.
Contrario ao efeito Werther, é o efeito “Papageno”, que toma o nome do caráter Papageno na ópera de Mozart “A Flauta Mágica”. Nela, Papageno tenta se enforcar depois que se convence que nunca vai conquistar o amor de Papagena. Porém, aqui, ele é persuadido por três espíritos de crianças, a não acabar com sua vida.
As pesquisas tem mostrado que a cobertura excessiva da mídia de suicídios de celebridades, realmente leva a um aumento na ideação e nas tentativas de suicídio. As mulheres, com cerca de 30 anos, estiveram mais em risco do suicidio após a morte de Marilyn Monroe em 1962. Os pesquisadores do suicídio, King-wa Fu e Paul Yip, examinaram o impacto das mortes de 3 celebridades asiáticas nas tentativas de suicidio, usando uma série de comparações com as mortes nas semanas anteriores e posteriores aos citados suicídios. Eles descobriram um aumento substancial no número de suicídios na primeira, segunda e terceira semanas após a morte de cada celebridade, em Hong Kong, Coreia do Sul e Taiwan, em comparação ao período de referência. Foi pior com pessoas do mesmo sexo das celebridades suicidas.
No entanto, a evidência das pesquisas em relação a retratos ficcionais de suicídio na TV e no cinema é mais complicada. Pirkis e colegas revisaram a literatura sobre filmes e retratos televisivos de suicídio. O grupo foi incapaz de oferecer respostas conclusivas a perguntas sobre o impacto de suicídios ficcionais em relação a suicídios reais na população em geral.
Foram feitos estudos tentando avaliar o efeito da transmissão de um episódio da novela britânica “Eastenders” (2/3/1968). Este episodio mostrou uma overdose tentada por um caráter femininos de cerca de 30 anos. Os estudos tentaram avaliar o que aconteceu nos serviços de emergência no Reino Unido antes e depois do episódio. Alguns dos estudos forneceram evidências para um efeito imitador, mas alguns não. Achados mistos foram relatados em outros. Portanto, não se pode concluir se as representações fictícias de comportamento suicida no cinema e na televisão aumentam sua incidência na população. Embora seja certamente verdade que as representações exageradamente repetidas pela mídia de suicídio de celebridades terão um efeito imitador, parece que o público em geral é capaz de distinguir o fato da ficção.
Apesar disso, devemos estar cientes dos Efeitos Werther e Papageno. É difícil ver como a retratação fictícia do suicídio, de forma explícita, poderia ter um efeito positivo, a não ser que, naturalmente, as desvantagens do suicídio em termos de seu efeito sobre parentes e amigos também sejam fortemente retratados. De uma perspectiva dissuasiva, a natureza horrível do próprio suicídio pode ser uma característica positiva, e o mesmo poderia ser dito dos efeitos adversos sobre os sobreviventes. No entanto, a mensagem de que o suicídio pode ter uma simples, ou mesmo um conjunto simples de causas, ou que o suicídio representa algum tipo de solução, é infeliz. Nunca há uma razão, nem mesmo treze.


O Dr. Patrick Devitt é psiquiatra. Trabalhou na Irlanda, como Inspetor dos Serviços de Saúde Mental e nos USA. É co-autor do livro “Suicídio, uma Obessão Moderna” (Suicide: A Modern Obsession).

Concordo com o artigo. Também acho que todos os que trabalham em Saúde Mental deveriam ver a série. Pessoalmente, não gostei, e explico: A série se baseia numa adolescente chamada Hannah, e começa depois de seu suicidio. 13 pessoas recebem gravações, nas quais ela descreve como, cada uma delas, é responsável pelo mesmo. Embora o show mostre uma das causas de suicídio, o bullying, falha completamente em discutir ou mostrar que, o problema de base é Saúde Mental, melhor dizendo, falta ou enfraquecimento da mesma. E o problema é ainda pior com adolescentes, que ainda não tem um lobo frontal totalmente desenvolvido para correta avaliação de causas/consequências. Pior, sob meu ponto de vista, é o ter mostrado que a garota só se torna ponderosa depois de morta, manipulando a vida emocional dos sobreviventes, cujo estado de horror que estariam sentindo não é sequer mencionado. Apesar disso, continuo achando que o debate deveria ser amplo, geral e irrestríto, abordando uma variedade de aspectos, não necessáriamente nessa ordem:

1-Suicídio como Momento Psicótico: Momento no qual o teste de realidade não funciona . Um estado de pânico que toma todo o ser do indivíduo, durante o qual a idéia de acabar com tudo parece ser a única possibilidade (François Ladame)

2-Suicídio como Manipulação e/ou Vingança (que é exatamente o que a série mostra)

3-Mas, o que se precisa mesmo, é um debate sobre Saúde Mental. É acabar com o mito de “louco”versus “normal”. É se entender que saúde, seja ela qual for, não é uma constante com a qual se nasce. É preciso entender que, se a saúde do corpo depende de comportamentos contínuos, tipo dieta adequada, exercicio, higiene e sono, por que diabos haveria de ser diferente para saúde mental? É preciso entender que, se a hipertensão é chamada de “assassino silencioso”, por não haver, durante muito tempo, nenhum sintoma, até o primeiro infato ou derrame, o mesmo acontece para saúde mental.
Basicamente o que estou dizendo é que precisamos observar e colocar em cheque nossos preconceitos.
Para os que estão interessados, o livro abaixo é uma fonte de informação e possibilidades.

Relating to Self-Harm and Suicide: Psychoanalytic Perspectives on Practice, editado por Stephen Briggs, Alessandra Lemma, William Crouch (2008, Routlege)

Notas de pé de página

O suicídio é um fenômeno global. Representa 1,4% de todas as mortes em todo o mundo, tornando-se a 17ª causa de morte mundo afora. Intervenções eficazes e baseadas em evidências podem ser implementadas a níveis individual e comunitário para prevenção.Para cada adulto que morreu de suicídio, pode ter havido mais de 20 outras tentativas de suicídio. (OMS)

O suicídio é um dos principais problemas de saúde pública, pois está entre as principais causas de morte nos Estados Unidos. Mais de um milhão de pessoas morrem por suicídio em todo o mundo a cada ano. A taxa de suicídio global é de 16 por 100.000 habitantes. Em média, uma pessoa morre por suicídio a cada 40 segundos em algum lugar do mundo. As taxas globais de suicídio aumentaram 60% nos últimos 45 anos. É a Terceira causa de morte em pessoas entre 10 e 14 anos e a segunda entre 15 e 34 anos (CDC).
TAXAS DE SUICÍDIOS NO MUNDO POR 100.000 HABITANTES. QUANTO MAIS ESCURA A COR, MAIOR A TAXA COMO PODE SER VISTO NA TABELA NO CANTO ESQUERDO

TAXAS DE SUICÍDIO POR IDADE NOS USA. ESCURO PARA MULHERES. CLARO PARA HOMENS. GRUPOS DE IDADE NO AXIS HORIZONTAL


terça-feira, 7 de março de 2017

GUIA VISUAL DA ESQUIZOFRENIA




 O QUE É ESQUIZOFRENIA?

É uma doença mental grave que pode ser incapacitante . Cerca de 1% da população mundial dela sofrem. Pessoas com esta condição podem ouvir vozes, ter visões, ou acreditar que outras pessoas podem controlar seus pensamentos. Essas sensações podem assustar a pessoa e causar comportamento errático. Embora não haja cura, o tratamento geralmente consegue gerenciar os sintomas mais graves. Não  tem nada a ver com Múltiplas Personalidade. Vem do grego e significa Mente Cindida ou Despedaçada.
FMRI. Na parte de cima, sujeito de comparação não esquizofrênico. Na de baixo, sujeito esquizofrenico não medicado. Foto do Journal of Nuclear Medicine and Radiation Therapy

HISTÓRIA DA ESQUIZOFRENIA


Foi primeiro identificada e classificada pelo  Dr. Emile Kraepelin em 1887,como Demência Precoce mas a doença acompanha a humanidade desde o inicio de nossa história. Há relatos que datam de 2 milenios AC. Em 1911, o psiquiatra suiço Eugen Bleuler, cunhou o têrmo “Esquizofrenia”,descrevendo 2 grupos de sintomas: os positivos e os negativos, assim como seus subtipos: Desorganizada, Catatônica, Paranoide, Residual e Indiferenciada.
Embora essas classificações continuem sendo usadas, em nada ajudam a predizer o prognóstico, e assim a grande maioria dos psiquiatras tem usado outros sistemas baseados na preponderância de sintomas, se positivos ou negativos, na progressão do disturbio em têrmos de tipo , severidade e duraçãodos sintomas e co-ocorrência de outros distúrbios.

 SINTOMAS


Alucinações: Alterações dos sentidos (Visão, Audição, Olfato, Gosto e Tato). Na Esquizofrenia, as alucinações mais comuns são as auditivas, enquanto em certas formas de epilepsia, há alucinações olfativas e tácteis.
Exemplo: 
“Doutora, minha mãe e eu temos converado muito a respeito de muitas coisas, incluindo a senhora. Ela acha que está na hora da senhora morrer. Eu não quero realmente matá-la, mas minha mãe sempre esteve certa das coisas”(A mãe do paciente havia morrido havia mais de 10 anos, e foi nesse momento que a Dra aqui puxou uma cadeira para a citada senhora, e conversamos os 3 por cerca uma hora, com o paciente traduzindo a mãe, posto que informei que estava meio surda e ele ia ter que repetir o que ela dissesse. Quem foi que disse que stress e puro medo são sempre negativos? Às vezes lhe dão uma criatividade incrivel.)

Delírios:Alterações do Pensamento  O delírio mais comum na esquizofrenia, é o delírio persecutório.
Exemplo
Tive uma paciente, internada, que não podia passar perto de TVs porque, segundo ela, como era a amante secreta de uma famoso ator de telenovelas, a poderosíssima emissora havia implantado aparelhinhos em todas as TVs e se ela passasse perto de uma, um sinal seria mandado à central da citada e criminosos seriam mandados para destruí-la. Caso triste de delírio paranoico.

Paranóia: Medo, às vezes puro pânico, de maquinações horriveis contra o paciente.

Importante clarificar que Delírios e Paranóia não aparecem só na Esquizofrenia, também são comuns em Distúrbio Bipolar, algumas Epilepsias e em fanáticos de qualquer espécie.
Alguns sinais, como a falta de prazer na vida cotidiana e a retirada das atividades sociais, podem imitar a depressão.

COMO AFETA O PENSAMENTO


Pessoas com esquizofrenia podem ter problemas para organizar seus pensamentos ou fazer conexões lógicas. Eles podem sentir como amente está correndo de um pensamento não relacionado a outro. Às vezes, eles têm a "retirada do pensamento", a sensação de que os pensamentos são removidos de sua cabeça, ou de "bloqueio do pensamento", quando o fluxo de pensamento de alguém fica repentinamente interrompido.

 EFEITOS NO COMPORTAMENTO


A doença tem grande impacto em vários aspectos. As pessoas podem falar sem fazer sentido, ou comporem palavras (salada de palavras). Podem ficar agitados ou não mostrarem qualque expressão emocional. Muitos têm dificuldade  com hygiene pessoal e/ ou do local onde vivem. Alguns repetem comportamentos, como ficar andando em circulos ou de um lado a outro, sem propósito. Apesar dos mitos, o risco de violência contra outros é pequeno.

QUEM VEM A TER ESQUIZOFRENIA

Qualquer um. É igualmente comum entre homens e mulheres e entre grupos étnicos. Os sintomas geralmente começam entre  os 16 e 30 anos.  Tende a começar mais cedo em homens do que em mulheres e raramente começa durante a infância ou depois dos 45 anos. Pessoas com esquizofrenia ou outros distúrbios psicóticos na família podem ser mais propensos a tê-la

QUAIS SÃO AS CAUSAS


Ainda não se sabe.  Acredita-se que seja uma justaposição de ação genética, experiências pessoais, configurações cerebrais, a forma como determinadas partes do cérebro funcionam, assim como alterações em neurotransmissores como a dopamina e o glutamato.. Pode haver diferenças estruturais, também, como a perda de células nervosas que resultam em maiores cavidades cheias de líquido (ventrículos) no cérebro..

COMO É DIAGNOSTICADA


Não há testes de laboratório para isso (ainda), então o diagnóstico  normalmente baseia-se na  história e  sintomas da pessoa. Primeiro,  descarta-se outras causas médicas. Nos adolescentes, uma combinação de história familiar e certos comportamentos pode ajudar a prever o início da esquizofrenia. Estes comportamentos incluem a retirada de grupos sociais (isolamento), expressão suspeitas incomuns, e comportamentos repetitivos. Embora isso não seja suficiente para um diagnóstico, são sinais de alerta para buscar ajuda médica.

 MEDICAMENTOS

Medicamentos costumam reduzir sintomas como pensamento anormal, alucinações e delírios. Algumas pessoas têm efeitos colaterais sérios, incluindo tremores e ganho de peso. As drogas também podem interferir com outros medicamentos ou suplementos. Mas na maioria dos casos, a medicação é uma necessidade absoluta para o tratamento da esquizofrenia.

                                         
O PAPEL DA TERAPIA

A  terapia costuma ajudar no desenvolvimento  de melhores maneiras de reconhecer e lidar com os problemas, comportamentos e pensamentos, além de melhorar a forma de relacionamento com os outros. Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), as pessoas aprendem a testar a realidade de seus pensamentos e a gerenciar melhor os sintomas. Outras formas de terapia visam melhorar as habilidades de autocuidado, comunicação e relacionamento.

APRENDENDO A NAVEGAR O MUNDO

Os Programas de Reabilitação para a esquizofrenia ensinam as pessoas a fazer coisas cotidianas, como usar o transporte público, gerenciar dinheiro, comprar mantimentos, e/ ou encontrar e manter um emprego. Estes programas funcionam melhor quando a pessoa está usando os medicamentos adequados e também em terapia.

 MANTER O PLANEJAMENTO

As pessoas com esquizofrenia às vezes largam seus medicamentos por causa dos efeitos colaterais ou por não compreender a sua doença. Isso aumenta o risco de retorno de sintomas graves, o que pode levar a um episódio psicótico (é quando todo o contato com a realidade é perdido). Aconselhamento regular pode ajudar as pessoas a manter o  tratamento e evitar uma recaída ou a necessidade de hospitalização.

 PROBLEMAS COM TRABALHO/EMPREGO

As pessoas com esquizofrenia costumam ter muita dificuldade para encontrar ou manter um emprego. Isso ocorre em parte porque a doença afeta o pensamento, a concentração e a comunicação. Mas também porque os sintomas começam na idade adulta jovem, que é quando as pessoas estão começando suas carreiras. A reabilitação vocacional e ocupacional pode ajuda-los a desenvolver habilidades práticas de trabalho.

QUANDO ALGUÉM PRÓXIMO TEM ESQUIZOFRENIA

Relacionamentos  costumam ser muito difíceis para pessoas com esquizofrenia. Seus pensamentos e comportamentos incomuns podem afastar amigos, colegas de trabalho e membros da família  O tratamento pode ajudar. Uma forma de terapia centra-se em formar e nutrir relacionamentos. Se você convive com alguém que tem esquizofrenia, é uma boa idéia juntar-se a um grupo de apoio ou fazer sua terapia, tanto para ter apoio quanto para aprender mais sobre o que eles estão passando

 ÁLCOOL E QUALQUER OUTRA DROGA SÃO UM RISCO TREMENDO

Pessoas com esquizofrenia são muito mais propensas do que a maioria da população a abusar de álcool e/ou drogas ilícitas. Algumas substâncias, incluindo maconha e cocaína, podem piorar os sintomas. O abuso de drogas também interfere nos tratamentos . Se você conhece alguém que está lidando com isso, procure programas de abuso de substâncias projetado para pessoas com esquizofrenia

CONVERSE COM SEU MÉDICO ANTES DE ENGRAVIDAR

Mulheres com esquizofrenia e que planejam engravidar, devem conversar com seus médicos para se certificarem de que seus medicamentos estão liberados para uso durante a gravidez. Embora não existam ligações definitivas entre os medicamentos para esquizofrenia e defeitos congênitos ou complicações graves na gravidez, é importante falar sobre isso com o seu médico em primeiro lugar.

 QUANDO É UM PARENTE

Usualmente é difícil convencer alguém com esquizofrenia a buscar ajuda. O tratamento geralmente começa quando um episódio psicótico resulta em uma internação hospitalar. Uma vez que a pessoa está estabilizada, os membros da família podem fazer o seguinte para ajudar a prevenir uma recaída:
Incentivar a pessoa a tomar a medicação
Acompanhá-lo a seus compromissos (medico, terapia, etc…)
Ser solidário e respeitoso

FILMINHOS CURTOS E ILUSTRATIVOS

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sábado, 4 de fevereiro de 2017

ERVAS, ESPECIARIAS E A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Nesse momento de puro stress que vivemos, com a ameaça laranja pairando feito vendaval sobre nossas vidas, tive que arranjar formas de lidar com o estressor. Isso, juntando-se ao fato de que, uma das melhores maneiras de manter o cérebro funcionando nesta provecta idade é expandir os horizontes para áreas nunca dantes navegadas, eis que vou pesquisar a milenar ciência da Ayurveda.
E isso tudo porque, semana passada, me descubro, sábado de manhã, parada feito estátua grega no meio de meu quintal, sem ter a menor idéia do que raios estava fazendo lá.

Tomei um susto e não me acalmou a lembrança de que sou dada a, por exemplo, sair do supermercado carregando uma montanha de pacotes, tentar ir à pé para casa, lembrar no meio do caminho que estava com o chevette cor de figo de minha mãe, voltar o caminho todo em busca do citado, passar meia hora no estacionamento buscando… Quando se tem 20 anos, é só uma distraçãozinha. Aos 60, é pânico do alemão!

Daí, lembrei do primeiro blog que iniciei e larguei, no inverno de Iowa. Chamava-se “Atrapalhos”, e seu objetivo era “Ligar memórias e aprendizado, idéias abestalhadas e ciência. Deve ser o que chamam de espírito da terceira idade“
E achei que estava na hora de retomar a idéia. Assim que ontem, em minha primeira aula, meu pensamento passarinhou para o famoso “Risotto alla Milanese”, da nonna Linda, com seus pacotinhos de açafrão que o zio Gino trazia da Itália, dado que, naqueles tempos, ela não o encontrava nem na barraca do Ito, lá no mercadão de Taubaté. O mesmo Ito que lhe ensinou que, mortadella em português, é mortandela, como passou a ser chamada na família dos italianos que faziam questão de falar a língua melhor do que os nativos.

E, pensando no Risotto, passei a considerar que, não fossem as especiarias da Índia, não haveria America. Pois vejamos: Nos séculos 15 e 16, as tais “especiarias” que são basicamente temperos, embora muitas sejam, foram e são usadas na fabricação de óleos, cosméticos e medicamentos, eram extremamente valorizadas na Europa, já que lá não brotavam, devido ao clima. Também na época, apareceu e cresceu a tal “burguesia”, e sua demanda por produtos considerados, à época, como luxo (ou, como bem disse o príncipe Salina, no Gattopardo, “as coisas, quanto mais mudam, mais continuam as mesmas”). No século XV, os comerciantes de Gênova e Veneza, tinham o monopólio das mesmas, pois, compravam principalmente de Índia e China, levando-as para a Europa via Mediterrâneo, com imenso lucro. No século XVI, os portugueses descobriram uma rota alternativa para o Oriente, indo pela costa da África, barateando custos de viagem e aumentando os lucros. Tornaram-se assim, uma potência econômica.

Mas, a história das especiarias é muito mais interessante que o simples comércio (que, a fim e a cabo, é a base de todo o resto, mas o tal “resto”e muito mais fascinante que a economia de mercado). Depois das cruzadas, os europeus tomaram gosto pelos sabores “esquisitos” (do latim - exquisito - que quer dizer algo procurado e escolhido com cuidado), e se estabeleceu o comércio Oriente-Ocidente, que, com a instalação da “Pax Mongolica”entre os séculos XIII e XIV, muito se expandiu. O que as fez ainda mais especiais, não foram apenas seus usos nos alimentos, cosméticos, afrodisíacos e medicamentos, mas também pelo fato de que, em sendo compradas secas, tinham enorme resistência a mofo e pragas, coisas extremamente comuns nas longuíssimas (na época), viagens marítimas. Tornaram-se tão importantes que foram usadas como moeda corrente, constituíram-se como dotes de noivas, heranças, poupanças e divisas, pagamentos de serviços, impostos e dívidas, e formas de presentear (leia-se subornar) magistrados.

Aí, Constantinopla foi tomada pelos otomanos, que dificultaram tudo, proibindo tal comércio pelos cristãos.

Portugal e Espanha foram à luta, na busca de caminhos alternativos, Portugal via oriente, contornando a África, e Espanha via Ocidente, o que levou Colombo a descobrir a América.

A descoberta da nova rota, por Vasco da Gama, reduziu de imediato o preço das tais especiarias, ficando mais fácil para os venezianos comprar as mesmas em Lisboa, pela metade do preço, do que dos turcos em Alexandria. Por outro lado, com as colônias no continente americano, os europeus nelas introduziram o plantio das citadas, não só barateando os custos, mas também fazendo com que os habitantes das mesmas passassem a usá-las, em detrimento das especiarias nativas.

Nos séculos seguintes, com o advento e crescimento da ciência baseada em evidências, a descoberta da célula, dos antibióticos, enfim, toda a base da medicina ocidental, as grandes corporações criando cosméticos que prometem beleza eterna instantânea a preços inflados, a indústria dos alimentos, as filosofias de “quantos mais melhor”, o tudo já, a sabedoria milenar ficou relevada a algo “não científico”, nada imediato, portanto, não fonte de lucro.

E a vida dá voltas. O mau uso e abuso de antibióticos nos trouxe as bactérias ultra resistentes, a indústria dos alimentos nos deu a pandemia de obesidade e diabetes, não ganhamos a beleza eterna, mas sim um monte de stress de tentar parecer jovem, antenado e no topo do mundo, sempre, a qualquer preço. As falhas, não são mais usadas para aprendizado, mas sentidas como obliteração do social imposto, com consequente abuso de tudo, de álcool a Oxycontin. O tal mercado mostrou que não sabe se regular sózinho, companhias e estados mostraram que não são entidades de per si, funcionando ou não na exata medida em que funcionam seus componentes humanos.
E a medicina começou a redescobrir que práticas e ervas e especiarias de há muito relegadas a segundo plano, funcionam e bem na na esfera humana.

Minha ídola desde sempre, a Clínica Mayo, tem cursos e práticas de yoga e meditação, agora consideradas técnicas de ponta no combate ao stress. E tem também a mais nova Clínica do que eles chamam de Medicina Complementar, na qual, para meu espanto e prazer, fui aprender o uso dos Tuméricos. Para exemplificar, aqui vai um dos links da citada clínica
Nutrição e Dor:clique aqui.

Mario Sergio Cortella brilhantemente diz: “A finalidade de fazer pamonha não era obviamente comer pamonha, a finalidade era ficar junto. E especialmente que as crianças tivessem uma ideia: Que as coisas para acontecerem, elas demoram um processo. Dá trabalho, apanha, pega, faz, cozinha, rala, ri, brinca, briga e vive junto.
Agora é prático: você compra a pamonha pronta” original aqui

E engorda, porque ficou olvidado o ralar, correr, rir, brincar, rolar a tapa, gastar energia, aprender processo e finalidade.

Tal qual risotto de restaurante ou comprado pronto, que salta o processo de:
Ir ao açougueiro preferido de minha mãe, que lhe fornecia os melhores cortes, a pedido dos fregueses, e que acabou preso porque descobriram que, a maneira prática que havia descoberto, para agradar o freguês, era ir, ele mesmo, matar e esquartejar a vaca. Único senão, era que as citadas vacas não lhe pertenciam.

Ajudar avó na feitura do caldo, feito com diferentes cortes de carne, mais uma cebola, um tomate e exatamente 3 talos de salsão, a ferver junto, devagar até que a carne estivesse quase liquefeita, carne que era almoço de todas as segundas feiras como “bollito”.

Retirar todo o acima do caldo.

Esperar o caldo esfriar para retirar a gordura.

Filtrar o caldo para retirar qualquer gordurinha besta que tivesse escapado da primeira retirada

Lavar o arroz

No panelão, exatas 2 colheres de azeite de oliva, joga-se o arroz.

Busca-se os saquinhos de açafrão, a serem cuidadosamente abertos e despejados no arroz. Mexe o todo com a colher de pau específica para o caso, aquela já amarelada pelo açafrão.

E aí, devagar, muito devagar, vai-se aos poucos colocando o caldo, até que a casa toda é invadida pelo cheiro incomparável.

Sem querer, sem pensar ou filosofar a respeito, ganham-se os benefícios anti inflamatórios do turmérico e os incomparáveis do cozinhar junto, que é arte, medicina e filosofia, tudo numa cozinha.

Aqui vai o que a ciência diz hoje sobre citada especiaria:

Turmérico é uma especiaria que vem da planta do mesmo nome (Curcuma Longa). Dependendo de que parte da planta está sendo usada, temos o cominho, o açafrão e o curry. Seu princípio ativo é o curcumin, que funciona diminuindo a inflamação. Está sendo investigado como tendo propriedades anti cancerígenas, embora até o presente momento ainda não haja evidência suficiente de seus benefícios nessa área. Vem sendo usado como anti inflamatório e analgésico natural. Também é usado para acelerar o processo de cicatrização de feridas, tratamento de caspa e para diminuir o crescimento de pelos no corpo. Nos cuidados da pele, é usado como limpeza, para controlar aparecimento de rugas e melhorar condições como eczema, acne e psoríase.

E a inocente aqui achando que era só para o risotto da nonna!