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quinta-feira, 14 de abril de 2016

TIROS QUE SAEM PELA CULATRA OU PORQUÊ FATOS NÃO VENCEM ARGUMENTOS

Vamos dizer que você está tendo uma discussão com um amigo sobre o aquecimento global ou quem foi o melhor goleiro na história das copas. Você apresenta a seu amigo um conjunto de fatos que você acha que vencem a discussão. E, no entanto, espantadissimo, pois acha que os fatos que apresentou claramente contradizem a posição do seu amigo, descobre que tais fatos falharam totalmente em corrigir a crença, falsa ou infundada, do citado amigo. Na verdade,ele está ainda mais agarrado à sua crença após ser exposto à informação corretiva.

Um grupo de investigadores da Universidade de Dartmouth estudou o problema do assim chamado "tiro pela culatra", que é definido como o efeito no qual "as correcções realmente aumentam os equívocos entre o grupo em questão."

O problema aqui pode ser a maneira como seu amigo está recebendo estas informações. Pode ser que seu amigo conhece a você e suas opiniões muito bem , e não acha que você seja exatamente uma fonte onisciente das mesmas, caso na qual pode haver acordo. A outra situação é um pouco mais complicada.

Quando se trata de receber informações de correção sobre uma questão, principalmente sobre politica, religião ou saúde, os autores do estudo destacam que “as pessoas normalmente recebem informações corretiva nos relatórios "objetivos" de notícias, opondo dois lados de um argumento contra o outro, o que é significativamente mais ambíguo do que receber uma resposta correta de uma fonte onisciente. Nesses casos, os cidadãos são susceptíveis de resistir ou rejeitar os argumentos e evidências que contradizem suas opiniões, uma visão que é consistente com um vasto leque de investigação”.

Assim, quando vemos uma notícia que apresenta ambos os lados de uma questão, nós simplesmente escolhemos o lado que concorda com nossa crença prévia, reforçando assim nosso ponto de vista. Mas, o que acontece com aqueles indivíduos que simplesmente não suportam desafios para seus pontos de vista, e seja lá o que acontece, só reforça mais e mais seu parecer original?

Os autores descrevem o efeito “tiro pela culatra" como um possível resultado do processo pelo qual as pessoas contra argumentam informações, de preferência incongruentes, de formas a reforçar seus pontos de vista preexistentes. Se as pessoas contra argumentam informações indesejáveis vigorosamente o suficiente, podem acabar com informações mais atitudinalmente congruentes em mente do que antes do debate, o que, por sua vez, leva a comunicar opiniões que são mais extremas do que teriam sido se tais opiniões não tivessem sido desafiadas. E aí, a vaca vai para o brejo.

Então, o que se pode fazer?

Julia Galef ( Presidente do Instituto para Racionalidade aplicada) diz que é preciso fazer uma mudança mental importante, ou seja, ao invés de pensar sobre o argumento como uma batalha a ser ganha, reformular a coisa como uma parceria, uma colaboração em que as pessoas, juntas, estão tentando descobrir a resposta certa.
Isso torna muito mais fácil a avaliação dos argumentos, quais são bons e quais são ruins porque todos estariam motivados para obter a resposta certa juntos, ao invés de ter que defender o argumento com o qual se entrou na discussão, como o correto.

Gosto imensamente dessa proposta. Infelizmente, também conheço o Raciocínio Motivado, que por definição é o “Tipo de estratégia de justificação inferida, utilizada para minimizar a dissonância cognitiva.”
Acontece quando nos agarramos a falsas crenças apesar de esmagadora evidência em contrário. Em outras palavras, ao invez de pesquisar de forma racional, a informação que confirma ou desconfirma uma crença particular, o que realmente procuramos é por informação que confirme o que já acreditamos. É uma forma implícita de regulação da emoção, na qual os circuitos cerebrais convergem em "juízos que minimizem os efeitos negativos e maximizem os afetos positivos associados com uma ameaça ou à realização de motivos ".

Exemplos de uma obviedade ululante, como diria o Nelson Rodrigues, não faltam, tipo o movimento anti-vacinação, que conseguiu trazer de volta doenças quase que totalmente erradicadas, o lobby pró-armas aqui nos USA, as dietas para perder peso, que cada mês tem uma nova, jurando que o cidadão vai perder 10 Kg por semana comendo o que quiser, enfim, a lista é infindável.

No excelente artigo “Motivated reasoning & its cognates” (Raciocínio Motivado e seus cognatos, tradução livre minha), no Projeto de Cognição Cultural da Faculdade de Direito de Yale (http://www.culturalcognition.net/blog/2013/5/15/motivated-reasoning-its-cognates.html) os gênios discutem que, na realidade, todo e qualquer raciocínio é motivado, porque seria totalmente sem sentido qualquer raiocínio que não o fosse.

Dizem eles: “O prospecto de que os seus próprios argumentos empíricos possam ser demonstrados falsos, cria o risco de “ameaça à identidade”, individual ou grupal, pois a pessoa ou todo o grupo ao qual esta pertence, terão que aceitar suas idéias como falsas. Além disso, a certeza com que os argumentos empíricos são transmitidos, tipo "é simplesmente um fato que. . . "; "Como eles podem negar a evidência científica sobre. . .? ", desperta suspeitas de má fé ou partidarismo cego por parte dos grupos . No entanto, quando os membros de grupos oponentes tentam rebater esses argumentos, são propensos a responder com a mesma certeza, e com a mesma falta de consciência de que estão sendo impelidos a creditar argumentos empíricos para proteger suas identidades. Esta forma de troca, que é a assinatura do realismo ingênuo, gera, previsivelmente, ciclos de recriminação e ressentimento.”

O problema então, surge sempre e quando pensamos que estamos sendo absolutamente racionais, que a idéia que defendemos nada tem a ver com nossas paixões pessoais, e uso o termo “paixão” no sentido neurofisiologico do termo, ou seja, uma emoção forte, sendo emoção “um estado psicologico complexo que envolve 3 componentes distintos: uma experiência subjetiva, uma resposta fisiologica e uma resposta comportamental ou expressiva (Hockenbury & Hockenbury, 2007))

Ou seja, não há qualquer possibilidade de sermos totalmente racionais ou, como dizem aqui, “nada pessoal”, o que me causa frouxos de riso. Pensa o seguinte: você é chefe de um escritorio, ou qualquer coisa, e a empresa tem que despedir uma pessoa, só porque está diminuindo suas atividades. Pois bem, você tem dois empregados, igualmente bons no que fazem, igualmente trabalhadores, mesma faixa etária, mesmas condições sociais. Um deles, vc acha super divertido, sempre pronto com a piadinha do dia. O outro é quetão, fica na dele, não é a mais expansiva das criaturas. Qual você despede? Seja honesto.

Nem filhos conseguimos amar igual, por mais que repitamos essa falácia socialmente. Não os amamos mais ou menos. Os amamos diferente, porque cada um tem uma personalidade, cada um tem um jeito, cada um é um universo.

Então tudo o que fazemos ou pensamos é absolutamente pessoal, tem a ver com quem somos, quem queremos ser, a que grupo queremos pertencer, e todo nosso comportamento externo é fruto desse “Eu” aprendido, esculpido, moldado, social e historico, com uma pitada de genética enfiada no meio.

Queremos mesmo mudar uma situação politico/social? Não vai ser chamando este ou aquele politico de todo e qualquer epíteto derrogatorio encontrado na lingua em questão. Não vai ser insultando os que discordam de nosso ponto de vista.

Vai ser dando uma boa olhada em nós mesmos e nos perguntando, por que, exatamente, defendemos este ou aquele ponto, ou como bem disse Sun Tzu, em “A arte da Guerra” há 2500 anos:

“Se você conhece seu inimigo e conhece a si mesmo, não temerá o resultado de 100 batalhas”.


Ou como brilhantemente sumarizou o agente Aloysius Xingu L Pendergast, no livro “Labirinto Azul”, de Preston e Child, ao ser questionado sobre o porque ter se livrado de apenas parte de sua fortuna, provinda de um ancestral muito sacana:

“Porque prefiro ser um pouco hipocrita a ser pobre”.

E la nave vá…

THE BACKFIRE EFFECT

WHEN CORRECTION FAILS