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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A BIOLOGIA DO DESEJO, OU PORQUE É PERIGOSAMENTE ERRADO PENSAR NAS DEPENDÊNCIAS COMO UMA FORMA DE DOENÇA.

O título, e o resto, vem diretamente do livro “The Biology of Desire: Why Addiction is not a Desease” (A Biologia do desejo: porque a dependência não é uma doença –tradução minha que ainda não tem tradução para o português), do psicologo neurocientista e ex dependente, Marc Lewis.

O mistério da dependência, o que é, o que faz e o que fazer para acabar com ela, são tópicos discutidos diariamente em fóruns médicos, psicologicos, politicos, educanionais, entre amigos, em familia, no barbeiro, enfim, em qualquer lugar onde haja um vivente, lá está também a dependência. Nosso pavor dela. Nossa fascinação por ela.

Estima-se que, 1 em cada 10 americanos é dependente de álcool e/ou outras drogas, e se admitirmos que comportamentos como jogos de azar, comer compulsivamente, sexo e vídeo games podem ser viciantes de maneiras semelhantes, é provável que todo mundo tenha um parente, amigo ou conhecido, viciado em alguma forma de diversão, só que num grau destrutivo.

Mas o que exatamente está errado com eles?

Há várias décadas, tem sido lugar-comum dizer que os viciados têm uma doença. No entanto, os mesmos cientistas que uma vez pareciam sustentar essa afirmação começaram a desmantelá-la.

Antes disso, as dependências eram chamadas de “vícios”, vistos como falhas de moral e caráter. Essas pessoas eram criticadas, repreendidas e se lhes pedia que tivessem mais “força de vontade”, atitudes que se provaram espetacularmente ineficazes, embora, verdade seja dita, a maioria dos viciados consegue sair da coisa sem qualquer forma de tratamento.

No entanto, muitos não conseguem e, em meados do século 20, o movimento de recuperação, centrado em torno do método dos 12 passos, desenvolvido pelos fundadores dos Alcoólicos Anônimos, tornou-se, não só uma panacéia para todos os males, mas uma dádiva aos médicos, que, em não sabendo como tratar a coisa, muito agradecidos ficaram a terem para onde encaminar aqueles pacientes que absolutamente não seguiam ou seguem a coisa do “obrigado Doutor por salvar minha vida”, muito antes pelo contrário.

Essa abordagem acabou por se propagar para os chamados "vícios comportamentais", como jogos de azar ou sexo, atividades que nem sequer envolvem o uso de qualquer tipo de substância que altere a mente.

Grande parte da potência do AA vem de seu reconhecimento de que a tal força de vontade não é suficiente para vencer este demônio e que o uso de culpa, chicotadas e achincalhamento é contraproducente.

O primeiro passo requer que o participante admita sua impotência diante da dependência, tirando a recuperação da área do auto-controle e colocando-a no reino da transcendência. Os participantes admitem que são impotentes perante seja lá o que for que os vicie, e colocam toda a confiança num Poder Superior e no programa, para que estes lhe forneçam a força e a estratégia para sair do enrosco.
O princípio básico dos 12 Passos é que o vício é congênito e crônico: o dependente nasceu assim e não importa há quanto tempo não usa, vai continuar a ser um viciado por todo o resto de sua existência.

O florescimento do movimento 12 passos é uma das razões pelas quais agora, todos nós, ao invés de “vício” ou “hábito perigoso”, descrevemos a coisa como doença. Ter uma doença, implica em ser impotente para fazer qualquer coisa a respeito, a não ser seguir o tratamento prescrito. Uma pessoa com uma doença é Infeliz, coitada, ao invés de “fraca”, “sem força de vontade” ou “degenerada”. Algo inato no corpo, particularmente no cérebro, faz com que, ele ou ela sejam excepcionalmente suscetíveis a ficar viciados.
É mais ou menos como carregar uma granada na mão e a questão é simplesmente conter, de alguma maneira, o insano impulso de puxar o pino.

Outro fator de promoção do modelo de doença é que enfiou o vício na saúde pública, quer na forma de uma doença cujo tratamento pode ser pago por qualquer seguro saúde, quer como foco de centros de reabilitação com fins altamente lucrativos.
Só como exemplo, aqui vai um link para um centro na Califórnia, cujo preço médio para internação por 3 meses, gira em torno de US$ 350.000,00. clique aqui

Esta concepção da dependência como um fenômeno biológico, foi endossada ao longo dos últimos 20 anos, pelas novas tecnologias que vem permitindo aos neurocientistas não só medir o cérebro humano, mas também suas atividades, em detalhes cada vez mais reveladores. Com certeza, os cérebros de dependentes são fisicamente diferentes, às vezes impressionantemente diferentes dos da média das pessoas. Mas a neurociência deu e agora ela tira. O movimento de recuperação e reabilitação sempre teve seus críticos, mas, ultimamente alguns dos mais vocais têm sido os neurocientistas, cujos resultados uma vez lhe deu credibilidade.

Um deles, é o acima citado Lewis, que diz: “A teoria da doença, e a ciência, por vezes usada para seu suporte, não levam em consideração a plasticidade do cérebro humano. Claro, "o cérebro muda com o vício”, mas a maneira como ele muda tem a ver com aprendizado e desenvolvimento, e não com a doença.Todas as experiências significativas e repetidas mudam o cérebro, e adaptabilidade e hábito são suas armas secretas. As mudanças provocadas pelo vício não são, contudo, permanentes e, apesar de serem perigosas, não são anormais.

Através da combinação de uma história emocional difícil, tremendo azar e as operações ordinárias do próprio cérebro, um viciado é alguém cujo cérebro foi transformado, mas também é alguém que pode ser empurrado ainda mais ao longo da estrada, para o desenvolvimento saudável. (Lewis não gosta do termo "recuperação", porque implica num retorno ao estado do viciado antes do vício, coisa com a qual concordo, pois é impossivel se voltar a ser o que se era antes de qualquer evento que, bem ou mal, modificou nossa vida.)

O livro que estou citando, é montado em torno de vários estudos de caso, cada um ilustrando um caminho único para a dependência. O esforçado empresário australiano que se enrola todo na "clareza, poder e potencial" que lhe dá o fumar metanfetamina, junto com a capacidade de poder trabalhar longas horas, enquanto drogado. A assistente social que se comporta abnegadamente em seu trabalho e casamento, enquanto constrói uma vida secreta, egoísta e desafiadora, ao roubar e tomar prescrições de medicação opiácea. Um irlandês tímido que começou a beber como forma de relaxar em situações sociais, devagarzinho começa a ver situações sociais como ocasião para beber e, em seguida, beber como motivo para esconder-se em seu apartamento por dias a fio.

Cada uma dessas pessoas teve uma "ferida emocional" de algum tipo, que a substância ajudou a lidar, pelo menos por um tempinho. Mas, uma vez iniciado o uso, o hábito eventualmente tornou-se auto perpetuante e, na maioria dos casos, em última análise, só serviu para aprofundar a ferida. Cada estudo de caso se concentra em uma parte diferente do cérebro envolvida na dependência e ilustra como a função de cada parte - desejo, emoção, impulso, comportamento automático - fica acorrentado a um único objetivo: consumir a substância viciante.

O cérebro é construído para aprender e mudar, mas também para formar caminhos para o comportamento repetitivo, desde escovar os dentes até meter o pé no freio, de modo que não precisemos pensar, conscientemente, em tudo que fazemos.
O cérebro se auto organiza, e todas essas propiedades são ótimas.O problema é que, no caso das dependências, são desviadas para ações ruins.

O vício, na realidade, é apenas um hábito, embora seja dificil entender o quão profundamente tal hábito possa estar gravado no cérebro.
A repetição de motivação – experiência, ou seja, a sensação de ter as preocupações levadas para longe, todas elas trocadas pelo nirvana da heroina, por exemplo, produzem mudanças no cérebro que vão definir experiências futuras.

Mesma coisa com o beber demasiado, que vai esculpir as sinapses que vão determinar os padrões de consumo futuros.

Mais e mais experiências e atividades se enrolam na experiência da dependência e provocam desejos e expectativas, como o sino que fazia o cachorro de Pavlov salivar, o sair de casa, o ir para ao bar preferido, ou todos os rituais desde o cheirar coca a injetar, de metanfetamina a heroina.
O mundo se torna uma série de sinais que apontam na mesma direção, ativando poderosos impulsos inconscientes para segui-los.

Em certo momento, o comportamento viciante se torna compulsivo, aparentemente tão irresistivelmente e automático como um reflexo. A pessoa pode até não querer mais a droga mais, mas esqueceu tudo, a respeito de viver, a não ser como procurar sua droga de escolha e usá-la.

Apesar disso tudo, todos os viciados que Lewis entrevistou para o livro, estão sóbrios agora, alguns através dos programas de 12 passos, outros através de regimes auto-concebidos, como a dependente de heroína que se auto ensinou a meditar, enquanto presa.

Obviamente não é surpresa que um psicólogo pense em alguma forma de terapia para abordar as motivações emocionais subjacentes dos dependentes, mas Lewis está longe de ser o único especialista a expressar esta opinião, ou a recomendar terapia cognitivo-comportamental como uma forma de remodelar o cérebro e redirecionar seus sistemas para novos padrões, não auto-destrutivos.

Sem dúvida, os AA e programas similares têm ajudado muitas pessoas. Mas também falharam outras tantas. Tamanho único não funciona, nem para roupas, tratamentos, ou vida em geral.Há um crescente corpo de evidências que vem demonstrando que, capacitar os dependentes, em vez de insistir para que adotem a impotência e a impossibilidade de se livrar de vez do hábito, pode ser um caminho.

Se dependência é uma forma de aprendizado que deu tragicamente errado, também é possível que possa ser desaprendida, e que a mutabilidade inata do cérebro possa definir novo e melhor aprendizado.

"Os viciados não estão doentes", Lewis escreve, "e eles não precisam de intervenção médica, a fim de mudar suas vidas. O que eles precisam é de um “andaime” social, sensível e inteligente, para segurar as partes de seu futuro no lugar, enquanto escalam em direção a esse futuro ".

E como concordo, deixando claro que, em alguns casos de pacientes com sérias patologias de base, como por exemplo, a esquizofrenia, o uso de anti psicoticos pode fazer milagres.

The Biology of Desire  para baixar, clique aqui

sábado, 17 de outubro de 2015

3 MANEIRAS SIMPLES DE APROVEITAR A PSICOLOGIA POSITIVA E SE TORNAR MAIS RESILIENTE.


Notem que disse simples, não necessáriamente fácil.

Todos nós queremos ser felizes, menos o Contardo que só quer que a vida seja interessante (e eu aqui me perguntando se essa não é a melhor definição de felicidade). Mas o fato é que a maioria de nós pensa “felicidade” como algo que vem junto com coisas como dinheiro, sucesso, amor, carro do ano, diamante no dedo, conta na Suíça, enfim, coisas fora de si mesmo. Ou então, que alguns poucos felizardos nascem felizes, com pleonasmo e tudo, e o resto de nós, enfim, vai levando.

Pois informo que não é bem assim.

Todos nós nascemos com a tendência a algum tipo de TEMPERAMENTO, que, por definição, é o nível característico e individual de intensidade e/ou excitabilidade emocional, o qual é, em geral, reconhecido nas primeiras semanas após o nascimento. É considerado como indicação precoce de personalidade, embora a última seja uma mistura de temperamento com experiências, mistura essa que define traços que vão durar vida afora.
Embora haja 38 subtipos de temperamento, a maioria pode ser agrupada em 9 grandes traços:

NÍVEL DE ATIVIDADE
É a "velocidade” ou o quão ativa é a criança. O bebê está sempre se mexendo ou é do tipo tranquilo, que fica sossegadinho? Tem dificuldade em ficar parado? Está sempre em movimento? Prefere atividades sedentárias? Crianças altamente ativas podem canalizar essa energia extra para o sucesso nos esportes ou em carreiras de alta energia, com muitas responsabilidades diferentes.

NÍVEL DE DISTRAÇÃO
É o grau de concentração e atenção exibidos quando a criança não está particularmente interessada em uma atividade. Esta característica refere-se à facilidade com a qual os estímulos externos interferem com o comportamento em andamento. É a criança facilmente distraída por sons ou qualquer outra coisa que aconteça enquanto mama? É fácil de acalmar quando chateado? Distrai-se facilmente ao seguir rotinas? Alta distração é vista como positiva, quando é fácil desviar a criança de um comportamento indesejável, mas visto como negativa quando impede a criança de terminar o trabalho da escola.

ENERGIA/INTENSIDADE
É positiva ou negativa a depender do nível da resposta. A criança reage fortemente e em voz alta a tudo, até mesmo a eventos relativamente menores? Mostra se está feliz, triste ou irritada, fortemente e de forma dramática? Fica quietinha quando chateada? Crianças intensas são mais propensas a ter as suas necessidades satisfeitas e podem ter uma profundidade de emoções raramente experimentada pelos outros. Essas crianças podem ser dotadas em artes dramáticas, embora seja desgastante conviver com elas.

REGULARIDADE
O traço se refere à previsibilidade das funções biológicas, como apetite e do sono. A criança fica com fome ou cansada, em esquemas previsíveis? Ou é imprevisível em termos de fome e cansaço? Como adultos, indivíduos irregulares funcionam melhor em trabalhos que requeiram viagens, mudanças, ou horas de trabalho incomuns.

LIMIAR SENSORIAL
Relacionado à forma como a criança é sensível a estímulos físicos. É a quantidade de estimulação (sons, sabores, toque, mudanças de temperatura) necessárias para produzir uma resposta. A criança reage positiva ou negativamente a sons específicos? Se assusta facilmente com sons? É um comedor exigente, não come quase nada ou engole tudo que vê pela frente? Responde positiva ou negativamente à sensação da roupa no corpo? Indivíduos altamente sensíveis são mais propensos a ser artísticos e criativos.

APROXIMAÇÃO/RETIRADA
Refere-se a resposta característica da criança a uma nova situação ou a estranhos. A criança se atira em novas situações ou pessoas? Ou parece hesitante e resistente quando confrontada com novas situações, pessoas ou coisas? Criança que hesitam frente a coisas tendem a pensar antes de agir, sendo, portanto, menos propensas a agir impulsivamente durante a adolescência.

ADAPTABILIDADE
Relacionada com a facilidade com que a criança se adapta às transições e mudanças, como a mudança para uma nova atividade. A criança tem dificuldade com mudanças nas rotinas, ou com transições de uma atividade para outra? Levar um tempão para se tornar confortável a novas situações? Uma criança lenta na adaptação, tem menos chances de se meter em situações perigosas, e pode ser menos influenciada pela pressão do grupo.

PERSISTÊNCIA
É o período de tempo que uma criança continua em atividade em face a obstáculos. A criança continuar a trabalhar em um quebra-cabeça quando tem dificuldade ou larga tudo e vai fazer outra coisa? É capaz de esperar para ter suas necessidades atendidas? Reage fortemente quando interrompida em uma atividade? Quando uma criança persiste em uma atividade, quando mandada parar, é rotulada como teimosa. Quando uma criança fica com um quebra-cabeça difícil, é vista como sendo paciente. Crianças altamente persistentes provavelmente terão mais sucesso em atingir metas, enquanto as pouco persistentes podem desenvolver fortes habilidades sociais, porque percebem logo que outras pessoas podem ajudar.

HUMOR
Esta é a tendência da reação da criança em relação ao mundo, de forma positiva ou negativa. A criança vê o copo meio cheio? Se concentra nos aspectos positivos ou negativos da vida? Geralmente, parece feliz? É geralmente séria? Crianças graves/sérias tendem a ser analíticas e avaliar as situações com cuidado.

Pois bem, vamos deixar claro que o acima são só tendências, e não destino. É óbvio que, quando fazemos algo em cima de nossas tendências naturais, a coisa, seja lá o que esta for, sai mais fácil, e se, alguém com tendências artísticas resolve trabalhar como contador, vai ter enorme dificuldade em se sentir alegre e satisfeito.
Mas, felicidade, ou a vivência dela, é questão, como todo o resto na vida, de exercício e repetição constantes. Alguém acha que, se andar 15 minutos, uma vez por mês, vai trazer alguma melhora para sua saúde? Provavelmente, não. Então, por que será que achamos que, se lermos um livro ou assistirmos uma palestra de autoajuda, tudo mudará magicamente? Por que será que sofremos o inferno, esperando e querendo que “os outros “ou o mundo se modifiquem à nossa imagem e semelhança, e quando isso não acontece, nos frustramos de maneira horrível?



Porque, embora saibamos, intelectualmente, que a única constante na vida é mudança, visceralmente nos recusamos ao trabalho hercúleo de, não só nos conhecermos, mas de modificar, em nós mesmos, aqueles traços que nos atrapalham na vivência pessoal e coletiva.
Nos agarramos a ideias, percepções e conceitos com data vencida, da mesma maneira que nos agarramos a roupas e sapatos que não usamos há anos, que só entopem os guarda roupas, mas que, de alguma forma, foram importantes em algum momento de nossa vida passada. E que é só isso, passada.
E, como se sabe, guarda roupas ou cérebros entupidos, não deixam espaço para coisas novas.


O velho aforismo grego: CONHECE-TE A TI MESMO (γνῶθι σεαυτόν), gravado no frontispício do Templo de Apolo, em Delfos (sim, o mesmo do oráculo), vem sendo repetido sem parar, de Platão e Aristófanes, de Thomas Hobbe a Benjamin Franklin, de Freud ao filme Matrix, e consta como moto de fraternidades em Universidades, como a Delta-Delta-Delta (Autoconhecimento, Auto Reverência, Autodisciplina).
E nós continuamos nos recusando a dar o mergulho.

Vamos em busca de explicações para nossas vivências que vão de crenças em vidas passadas, a culpar abduções alienígenas, a crer em poderes de “olho gordo”, inveja de outrem, política municipal, estadual, federal, mundial, criando a mentalidade de “nós certos eles errados”, chegando às barbáries que assistimos todos os dias, de crianças a morrer de fome, a crianças a morrer em praias, fugindo de guerras tribais.

Homero, na Odisseia, colocou as seguintes palavras na boca de Zeus: “Como são loucos esses homens que nos culpam pelas consequências de suas tresloucadas ações. ” (OK, admito, minha tradução do italiano perdeu muito em sua força, mas dá para entender o conceito, não é?)
Então, sejam quais forem suas tendências temperamentais inatas, ou a soma total de suas experiências até o momento, sugiro os seguintes exercícios diários para desenvolver resiliência, e navegar, qual Ulisses, os mares bravios da existência:

EXPRESSE GRATIDÃO    
Gratidão nada mais é do que apreciação pelo que se tem, desde um teto sobre nossa cabeça, a saúde, gente que se importa conosco, amigos, família, momentos preciosos de solidão, livros, cachorro, periquito, papagaio, sei lá, enfim, tudo que consideramos importante. Quando reconhecemos o que é bom e belo em nossa vida, começamos a perceber que a fonte disso se encontra, pelo menos parcialmente, fora de nós mesmos. Desta forma, a gratidão nos ajuda na conexão com algo maior do que nossa experiência individual - seja isso outras pessoas, a natureza, um poder superior, o Universo, uma causa que nos é cara... separe alguns minutos todos os dias e pense sobre cinco coisas, pequenas ou grandes, às quais é grato. Anote-as, se quiser. Seja específico e lembre o que cada coisa significa para você, e só para você. Pessoalmente, adoro o exercício de escrever, o que além de tudo, me permite ver o fluxo depois de um tempo. As coisas que continuam, as que mudaram, as novas que foram aparecendo.

FORTALEÇA SEUS PONTOS FORTES
Para colher os benefícios de nossos pontos fortes, primeiro precisamos saber quais são (e lá vem de novo o “conhece-te a ti mesmo”). Infelizmente, de acordo com um estudo britânico, apenas cerca de 1/3 das pessoas têm uma compreensão útil de seus pontos fortes. Se fazemos algo que, para nós fica fácil, tomamos isso como garantido, e não como uma força a ser explorada. Se não tiver certeza de seus pontos fortes, peça a alguém para identificá-los. Pai, mãe, irmãos, primos, parentes e amigos, são ótimos para isso. Vão lhe contar histórias, anedotas, e no meio, suas forças e fraquezas, como ninguém. Meu pai tinha dois apelidos para mim. Um, era “cuor contento” (coração contente), pois dizia ele que eu era capaz de estar de bem com a vida, nas mais estapafúrdias situações. O outro era “divisão Panzer”, pois funcionava feito tanque de guerra alemão, na segunda guerra mundial: demorava para pegar, mas quando se punha em movimento, não havia o que os parasse. Quer metáfora mais clara? Pois é. E mesmo assim levei uma vida inteira para aprender a usar.
Certos pontos fortes são os mais estreitamente ligados à felicidade, e incluem gratidão, esperança, vitalidade, curiosidade e amor. Estas forças são tão importantes que vale a pena cultiva-las e aplicar em nossa vida diária, mesmo se, no começo, não nos venham de forma espontânea.

SABOREIE O QUE É BOM
A maioria das pessoas está pronta para experimentar o prazer em momentos especiais, tipo no casamento, férias, recebimento do diploma, paixão nova, essas coisas, enquanto os prazeres cotidianos deslizam sem qualquer efeito, feito água em penas de pato. Saborear significa colocar a atenção no prazer, enquanto e como este ocorre e, de forma consciente, desfrutar da experiência como ela se desenrola. Sabe aquele primeiro gole de café, recém-saído da cama? O cheiro que sai da xícara, a experiência da coisa escorrendo pela sua língua, descendo e o inundando de quentura? Pois é. Principalmente para aqueles que, como eu, acordam com apenas 2 neurônios, um que sobe, outro que desce e com enorme mata burro no meio. Passei bom tempo invejando esses seres superiores que saltam da cama cheios de energia, prontos para o dia, com um sorriso na cara. Agora, aprecio café. Apreciar os tesouros da vida, grandes e pequenos, ajuda a construir a felicidade. Fazer um punhado de coisas ao mesmo tempo (o odioso multitasking) é o inimigo de saborear. Pode se tentar com a maior fé, mas não dá para prestar completa atenção em várias coisas, ao mesmo tempo. Se lemos jornal, vemos TV e engolimos o café da manhã, certamente que não estamos extraindo todo o prazer que poderíamos, da refeição, ou do jornal, ou da TV. Se estamos andando no meio de um parque lindo, mas mentalmente revendo nossa lista de afazeres do dia, estaremos perdendo o momento.

Então, minha gente, conheçam-se a sim mesmos e embora Carpe Diem!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

NÃO, NÃO E NÃO. NÃO É POSSIVEL DESINTOXICAR O ORGANISMO.

Esse é um ajuntamento/resumo de montes de artigos na área. Estou ciente que quanto mais se fala no assunto, menos diferença faz, porque temos enorme dificuldade de abrir mão de nossas crenças, não importa quão absurdas sejam. Mas, otimista que sou, também acredito piamente que água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

De pepinos batidos com água a enemas das mais variadas substâncias, de fotos de modelos maravilhosas ao lado de uma pilha de vegetais, lhe contando o segredo de sua dieta alcalina, paleo, zero, e quantos mais nomes achar, a médicos, curandeiros, pai de santo, trainers, celebridades jurando por “super alimentos”, dieta do tipo sanguíneo, dieta do sol, da lua, da água, da sopa... é difícil não ser tragado pela indústria do “detox”.

A ideia de que podemos lavar nossos pecados calóricos é o antídoto perfeito para nossos estilos de vida cheios de junk food e vidas sociais regadas a álcool. Então, antes de comprar o novo livro sobre sucos, ou sair correndo para a clínica de irrigação do cólon, há algo que você precisa saber: a ideia de que é possível você lavar e enxaguar nosso sistema de impurezas e deixar os órgãos limpíssimos e novos é uma balela. É um conceito pseudo-médico projetado para vender coisas.
Não me entendam mal. Desintoxicação ou Detoxificação é um termo médico legítimo, mas que foi transformado numa estratégia de marketing, destinada a tratar/curar condições não existentes.

No cenário de verdadeira medicina, desintoxicação significa tratamento para níveis perigosos de drogas, álcool, ou venenos, como os metais pesados. Tratamentos de desintoxicação são procedimentos médicos que não são casualmente selecionados a partir de um menu de tratamentos de saúde alternativos, ou pegos na prateleira da farmácia. Desintoxicação real é feita em hospitais quando há circunstâncias que ameaçam a vida.

E aí entram as "toxinas”, que os provedores de saúde alternativa dizem eliminar. Esta forma de desintoxicação é simplesmente a cooptação de um termo real para dar legitimidade a produtos e serviços inúteis, confundindo os consumidores para que pensem que a coisa é “cientificamente baseada “ou pior “cientificamente provada”. Avaliar qualquer “detox” é simples, basta compreender a ciência das toxinas, a natureza da toxicidade, e como os rituais, kits e programas de detox funcionam para eliminar as citadas.

PREMISSAS

NOSSOS ORGANISMOS ACUMULAM TOXINAS

Há uma boa razão para acreditarmos na propaganda da comercialização da desintoxicação: parece que estamos programados para acreditar que precisamos dela, provavelmente relacionado à nossa susceptibilidade às ideias de magia. Os rituais de purificação são tão antigos quanto a história da humanidade. A ideia de que estamos de alguma forma nos envenenando e precisamos expiar nossos pecados parece ser parte da natureza humana, o que pode explicar por que ainda é parte da maioria das religiões do mundo.

Hoje em dia não estamos mais preocupados com os “miasmas “ou o ato de pecar, tendo isso se transformado numa coisa chamada “autointoxicação”. Interessante é que a ciência descartou tal teoria lá pelo ano de 1900, quando iniciamos a ter uma melhor compreensão de anatomia, fisiologia, e das reais causas das doenças. Apesar disso, persiste a ideia entre os praticantes alternativos. A versão atual da autointoxicação argumenta que uma combinação de aditivos alimentares, glúten, sal, carne, fluoreto, medicamentos, poluição atmosférica, ingredientes das vacinas, OGM, e talvez a garrafa de vinho de ontem à noite, estão causando um acúmulo de "toxinas" no corpo.

Mas o que é “toxina" e como causa tais danos? Nada mais é do que um termo sem sentido que soa científico o suficiente para ser plausível. Uma característica uniforme dos tratamentos de desintoxicação é a incapacidade de nomear as toxinas específicas que esses rituais, sucos, kits e enemas irão remover. Por exemplo, a companhia RENEW LIFE (Renovação da Vida) promete:
“CleanseSmart (Limpeza Esperta) é parte de um avançado programa de limpeza com ervas, de 30 dias. É formulado para estimular o processo de desintoxicação do corpo pelos seus 7 canais de eliminação: fígado, pulmões, cólon, rins, sangue, pele e sistema linfático. No mundo tóxico de hoje, limpeza e desintoxicação são uma necessidade. Toxinas entram no nosso corpo diariamente através do ar que respiramos, do alimento que comemos e da água que bebemos. Ao longo do tempo, essas toxinas se acumulam e, lentamente, começar a afetar a nossa saúde de forma negativa.
Através de limpeza e desintoxicação, você fará com que seu corpo trabalhe melhor este processo de carga tóxica. A redução da carga tóxica no seu corpo diminui o risco de desenvolver problemas crônicos de saúde, melhora a saúde geral e a resposta imune, e pode aumentar os níveis de energia. CleanseSmart trabalha para limpar e desintoxicar o corpo inteiro, mas com foco em duas principais vias de desintoxicação do corpo - o fígado e o cólon. CleanseSmart é essencial para ajudar a eliminar a constipação e melhorar a saúde do intestino. ”

Note a linguagem vaga. Toxinas são aludidas, mas não nomeadas. Parece plausível, mas não é específico, e parece que, mesmo que se esteja bem e saudável (e, presumivelmente, livre de toxinas), ainda assim, uma desintoxicação é recomendada.

O cólon permanece o marco zero para os defensores da desintoxicação. Eles argumentam que uma espécie de lama tóxica (às vezes chamada de placa mucoide), se acumula no cólon, tornando-o terreno fértil para parasitas, Cândida (levedura) e outras porcarias. Felizmente, a ciência nos diz o contrário: placas mucosas e lama tóxica simplesmente não existem. É uma ideia inventada para vender tratamentos de desintoxicação. Pergunte a qualquer gastroenterologista (aquela criatura que vive olhando dentro dos cólons dos outros, para ganhar a vida) se já viu um. Não há um único caso documentado na literatura médica. Nenhum.

DOENÇAS SÃO RESULTADOS DAS TOXINAS
Os materiais de marketing para tratamentos de desintoxicação, tipicamente descrevem uma variedade de sintomas e doenças ligados ao acúmulo de toxinas: algumas, gerais, que podem ser aplicadas a qualquer pessoa (por exemplo, dor de cabeça, fadiga, insônia, fome) com algumas especificidades para assustá-lo (câncer, etc.). Quais toxinas causam qual doença ou como as toxinas causam os sintomas, nunca é realmente explicado. Aqui, novamente, vemos o contraste com a ciência real. Para estabelecer que mesmo um único produto químico pode causar a doença requer uma quantidade significativa de investigação (ou seja, todo o campo da epidemiologia). Apesar da variedade de toxinas que são requeridas para estar causando sua doença, alegações de marketing para tratamentos de desintoxicação jamais vinculam toxinas específicas a sintomas ou doenças específicas.

A realidade é que os nossos corpos estão sendo constantemente expostos a uma enorme variedade de produtos químicos, naturais e sintéticos. A presença de qualquer produto químico no corpo, (natural ou sintético) não significa que ele está fazendo mal. Muitas substâncias de origem natural podem ser excepcionalmente tóxicas e, consequentemente, o corpo humano desenvolveu um notável sistema de defesas e mecanismos para, tanto se defender contra quanto para remover substâncias indesejadas. A pele, rins, o sistema linfático e gastrointestinal, e principalmente o fígado, compõem nosso sistema de desintoxicação intrínseco, espantosamente complexo e sofisticado. É importante ressaltar que a dose faz o veneno - até mesmo a água pode ser tóxica (hiponatremia dilucional), quando consumidos em quantidades excessivas.

Os defensores da desintoxicação usualmente descrevem o fígado e os rins como filtros, nos quais as toxinas são fisicamente capturadas e retidas, e que, portanto, tais órgãos devem ser “limpos” periodicamente, como se lava uma esponja, ou o filtro do aspirador de pó. Mas a realidade é que rim e fígado não funcionam dessa maneira. O fígado realiza uma série de reações químicas para converter substâncias tóxicas em substâncias que possam ser eliminadas na bílis, ou rins. O fígado é órgão auto-limpante: as toxinas não se acumulam nele, e, a não ser que a pessoa tenha uma doença hepática, geralmente funciona sem qualquer problema. O rim excreta resíduos na urina, caso contrário, a substância permanece no sangue. Argumentar que qualquer órgão precisa de uma "limpeza" é demonstrar uma profunda ignorância da fisiologia humana, metabolismo e toxicologia.

TRATAMENTOS DE DESENTOXICAÇÃO REALMENTE REMOVEM TOXINAS

Se fizer uma busca na literatura médica a respeito do assunto, vai encontrar absolutamente nada. Não há qualquer evidência demonstrando que os tais kits de desintoxicação façam qualquer coisa, boa ou má que seja, ou que removam as tais toxinas ou que ofereçam benefícios para a saúde. O mesmo pode ser dito para o charlatanismo como enemas de café (não há nenhuma evidência credível para apoiar as reivindicações que enemas do café ajudam o organismo a "desintoxicar" compostos, ou ajudar a função do fígado de forma mais eficaz). Injeções de vitamina são outro tratamento que não oferece qualquer benefício significativo, nem têm qualquer efeito benéfico sobre a capacidade do fígado ou rins para que trabalhem de forma eficaz. Injeções de quelação são apregoadas como uma panaceia para todos os tipos de doenças, mas ao contrário da quelação real, que é administrada em hospitais, para casos reais de envenenamento, a quelação naturopata não é baseada em ciência e não parece fazer muita coisa (a não ser, provavelmente, o velho e bom efeito placebo, no qual, se a pessoa acredita que aquilo a fará se sentir bem, bem se sentirá por um tempo).

DESENTOXICAÇÃO PODE SER PREJUDICIAL?

Quando a coisa é uma simples alteração da dieta, provavelmente não fará mal algum. Coma mais quinoa e brocoli e menos alimentos processados, é conselho razoável para todos.

Tratamentos de desintoxicação homeopáticos também não causam qualquer dano, desde que não há nenhum ingrediente ativo nas tais medicações, e nada mais é que um elaborado sistema placebo.

Agora, quando se vai para tratamentos que contenham ingredientes ativos, aí a coisa começa a ficar arriscada.

Enemas de café são perigosos, pois podem causar septicemia, perfuração retal e abnormalidades eletrolíticas e até morte.

Injeções de vitaminas não são tão arriscadas, claro se seu provedor alternativo seguir as regras de esterilização adequadas. Mas, considerando que, muitos deles acham correto injetar coisas que foram feitas para ingestão oral, melhor pensar bem a respeito, antes de usar injeções de vitaminas ou quelação, considerando que não há qualquer expectativa de benefícios.

Então, que tal os “kits detox”?
Estes variam, mas no geral, contém, basicamente, laxantes, como o assim chamado “estimulante” para o fígado, leite de cardo (Silibum marianum).
Se o fígado não pode ser espremido, esticado e rejuvenescido, feito a pele, será que pode ser impulsionado a fazer um trabalho melhor? Cardo é o produto mais popular para a pretendida "estimulação “da eficácia do pobre coitado. Não existem estudos publicados demonstrando que tenha um efeito desintoxicante no fígado. Leite de cardo tem sido estudado em doentes com doença hepática alcoólica, e em doentes com hepatite B ou C, e não foi encontrado nenhum efeito significativo. Não há nenhuma evidência para sugerir que o consumo de leite de cardo irá purificá-lo de "toxinas" inominadas.
Usualmente, os outros componentes são: hidróxido de magnésio, sena, ruibarbo, cascara, enfim, todos laxantes, e lhe dão o efeito que você pode ver e sentir, uma baita diarreia. No entanto, estes ingredientes podem causar desidratação e desequilíbrio eletrolítico se não forem usados com cuidado. O uso regular de laxantes, como sena e cascara, não é aconselhável, devido ao risco de dependência e de depleção eletrolítica. Eles estão entre os laxantes mais potentes, normalmente usados por períodos curtos para aliviar constipação significativa ou para limpar suas entranhas antes de um procedimento médico. Com o uso regular, o intestino pode se acostumar com os efeitos, o que, por sua vez, resulta em prisão de ventre ao parar de usá-los. É um caso perfeito do tratamento causar a doença: após a desintoxicação, você fica constipado, e aí precisa de outra desintoxicação!
Efeitos colaterais podem continuar após o término da desintoxicação, coisas como náusea e diarreia, o que os que acreditam na coisa explicam como sendo “as toxinas deixando seu corpo”. Uma explicação mais plausível é que isso é simplesmente uma consequência do recomeço do processo digestivo, após um período de catarse, onde, dependendo da extensão e duração do jejum, a digestão foi pouca ou nenhuma, e a flora normal gastrointestinal pode ter sido severamente perturbada.
É o mesmo efeito visto em pacientes hospitalizados que, inicialmente tem dificuldade de ingerir alimentos depois de terem sido alimentados intravenosamente.
Os ingredientes nos kits detox, e a catarse resultante, podem irritar tanto o cólon que o pobre vai precisar de um tempo para voltar ao normal.
Perda de peso também não é incomum depois de uma detox, mas infelizmente é causada por perda de água e às vezes, tecido muscular, e a pessoa vai ganhar tudo de novo se a dieta e níveis de atividade física permanecerem os mesmos.

CONCLUSÃO

Qualquer produto ou serviço com as palavras “detox, purificação e/ou limpeza “em seu nome, só vai ser efetivo em limpar sua carteira do suado dinheirinho.
As ideias de desintoxicação e limpeza não têm nenhuma base na realidade. Não há nenhuma evidência que sugira que kits, rituais ou tratamentos de desintoxicação tenham qualquer efeito sobre a capacidade do nosso corpo de eliminar resíduos de forma eficaz. Por outro lado, podem prejudicar bastante. "Detox" centra a atenção em questões irrelevantes, e dá ao consumidor a impressão de que é possível desfazer decisões de estilo de vida com soluções rápidas. Uma boa saúde, não é encontrada num maço de ervas, numa garrafa de homeopatia, ou um saco de café enfiado no reto (o que considero um insulto aos apreciadores do dito cujo, o café, digo). As implicações e consequências de um estilo de vida com uma dieta pobre, falta de exercício físico, tabagismo, falta de sono, uso e abuso de álcool ou qualquer outra droga, não pode simplesmente ser lavado ou purgado.

Edrd Ernst, professor emérito de Medicina Complementar na Universidade de Exter, explica: "Há dois tipos de desintoxicação: uma é respeitável e a outra não é. A respeitável, é o tratamento médico de pessoas com vícios de drogas, com risco de vida. A outra é a palavra que está sendo sequestrada por empresários, curandeiros e charlatães, para vender um tratamento falso que supostamente desintoxica seu corpo de toxinas que você é levado a acreditar que acumulou. Se toxinas se acumularam em seu corpo de uma maneira que o mesmo não consegue se desfazer delas, você já estaria morto, ou certamente numa UTI. O corpo saudável tem rins, fígado, pele, pulmões que são desintoxicantes que funcionam 24 hs, 7 dias por semana. Não há nenhuma maneira conhecida, e certamente não através de tratamentos de desintoxicação, para fazer algo que funciona perfeitamente bem, no caso, um organismo saudável, fazê-lo funcionar melhor."

O melhor estilo de vida 'detox' é aquele no qual não se fuma nem se usa drogas, se faz exercício físico e se tem uma dieta equilibrada saudável como a dieta mediterrânea. Imagina só a cena de uma mesa rústica, debaixo de uma árvore, com o Mediterrâneo azul ao fundo, e em cima da mesa, carnes, peixes, azeite, queijos, saladas, cereais integrais, nozes e frutas. Todos esses alimentos nos dão todas as proteínas, aminoácidos, gorduras insaturadas, fibras, amido, vitaminas e minerais para manter o corpo e seu sistema imunológico (o maior protetor de problemas de saúde), funcionando perfeitamente.

Então, por que, com essa festa disponíveis (pelo menos o que está em cima da mesa, já que, a depender de onde moramos, a oliveira e o Mediterrâneo complicam um pouco) sentimos a necessidade de nos punir para sermos saudáveis? Estaríamos inconscientemente definidos por milênios culturais, a querer “detox”, dado que muitas das mais antigas religiões praticam o jejum e os rituais de purificação? Teria o despertar científico desviados os maus espíritos para a periferia, substituindo-os por toxinas ambientais, das quais achamos que temos que nos livrar?

Susan Marchant-Haycox, psicóloga em Londres, acha que não. Diz ela: "Tentar amarrar desintoxicação com práticas religiosas antigas não faz sentido. Precisamos olhar para nossa composição social de um passado muito recente. Na década de 70, apareceram todas essas academias, e de lá para cá tivemos a proliferação da indústria da beleza e da dieta, com as pessoas cada vez mais conscientes a respeito de determinados grupos de alimentos e assim por diante. A indústria da desintoxicação é apenas uma continuação daquilo. Há um monte de dinheiro em jogo e muitos fazendo o jogo”.

Peter Ayton, professor de psicologia na City University de Londres, concorda e diz: Todos nós somos suscetíveis a tais artimanhas porque vivemos em um mundo com tanta informação que ficamos felizes em diferir responsabilidade para outras pessoas que possam entender melhor as coisas. Por exemplo, para entender a composição de seu shampoo, você precisa ter PhD em bioquímica, coisa que a maioria de nós não tem. Então, se a coisa parece razoável e plausível e invoca um conceito familiar, como desintoxicação, então ficamos felizes em ir com a onda. Muitas de nossas decisões de consumo, são feitas na ignorância e na suposição, que raramente são contestadas ou esclarecidas. As pessoas supõem que o mundo é cuidadosamente regulado e que existem instituições benignas guardando-os de fazer qualquer tipo de erro. Um monte de marketing pesado alimenta essa ideia, subrepticiamente. Então, se as pessoas veem alguém com (aparentemente) as credenciais certas, pensam que estão ouvindo um médico respeitável e confiam em seus conselhos. "

E la nave vá.