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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

COMO FOI QUE A “GUERRA ÀS DROGAS” COMEÇOU: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

Para que possamos entender o que estamos e porque estamos vivenciando hoje, é importante entender como foi que a coisa toda começou, assim, trago um resumo/tradução do livro “Chasing the scream: The first and last days of the war on drugs” Johann Hari, Bloomsbury, 2015 (Perseguindo o grito:Os primeiros e últimos dias da Guerra às Drogas – tradução minha, ao pé da letra, já que não sei o título em português)

“A promessa de travar uma "guerra implacável" contra as drogas foi feita pela primeira vez em 1930, por um homem esquecido hoje, mas que fez mais do que qualquer um para criar o mundo da droga em que vivemos agora. Seu nome: Harry Anslinger.
Em 1904, um menino de doze anos de idade, na Pensilvânia, visitando a fazenda de um vizinho, ouviu gritos lancinantes, uma mulher uivando como um animal. O marido da mesma, deu instruções apressadas ao menino: pegue meu cavalo e vá à cidade o mais depressa possível. Pegue um pacote na farmácia. Traga o pacote aqui. Já. O garoto, apavorado, fez o que lhe foi pedido, e tão logo entregou o pacote de drogas, os gritos da mulher pararam e ela se acalmou. Mas o garoto, nunca mais nem se acalmou nem esqueceu. Anos depois, escreveu que, naquele momento, convenceu-se que havia um grupo de pessoas que, embora à primeira vista parecessem normais, a qualquer momento poderiam tornar-se “emocionais, histéricas, degeneradas, mentalmente deficientes e depravadas”, caso entrassem em contato com o “grande agente transtornador”, as drogas. E assim foi que Harry Anslinger entrou na Guerra às Drogas.

Num outro dia, alguns anos antes, em Manhattan, um rico comerciante judeu ortodoxo, deu de cara com uma cena que não conseguia entender. Seu filho de três anos de idade, estava de pé, com uma faca, em cima de seu irmão mais velho, que dormia, pronto para esfaqueá-lo. "Por que, meu filho, por quê?", Perguntou o comerciante. O menino disse que odiava seu irmão. O menino ia crescer para odiar quase todo mundo. Viria a declarar: "a maioria da raça humana é idiota, lerda, sem juízo e sem cérebro." Ele esfaqueou, pessoalmente ou a mando, muitas pessoas. Normalmente, um homem com esse tipo de personalidade acabaria na prisão, mas este menino não. Ele foi entregue a uma indústria na qual, sua capacidade para violência não foi apenas recompensada, mas necessária: o novo mercado de drogas ilícitas na América do Norte. Quando finalmente foi baleado- vinte blocos, incontáveis assassinatos, e muitos milhões de dólares depois da tentativa em seu irmão, era um homem livre. Assim foi como Arnold Rothstein entrou na guerra contra as drogas, transformando o crime organizado num grande negócio, a partir do Proibicionismo. Provavelmente foi quem melhor definiu o capitalismo com o seguinte aforismo: "Dê as pessoas o que elas querem, e passará a dominá-las.”

Noutra tarde, em 1920, uma menina de seis anos, estava deitada no chão de um bordel em Baltimore ouvindo discos de jazz. A mãe dela acreditava que esta música era obra de Satanás e não deixava a menina ouvir em casa. Aí, a criança se ofereceu para realizar pequenas tarefas de limpeza para a madame do bordel local, com a condição de que, ao invés de ser paga um níquel como as outras crianças, ela poderia ficar horas ouvindo a música, que lhe dava um sentimento que não conseguia descrever. Ela estava determinada, um dia, a criar esse sentimento em outras pessoas. Mesmo depois que foi estuprada, usada, vendida, e depois que começou a injetar heroína para tirar a dor, esta música ainda estaria lá, esperando por ela. Assim foi como Billie Holiday entrou na guerra contra as drogas.

Quando Harry, Arnold e Billie nasceram, as drogas eram disponíveis no mundo todo. Em qualquer farmácia americana podia-se comprar produtos à base de heroína e cocaína. As misturas para tosse mais populares, continham opiáceos; um novo refrigerante chamado Coca-Cola continha cocaína. Na Grã-Bretanha, as mais elegantes lojas de departamento vendiam latas de heroína para as mulheres da sociedade.
Mas eles viveram numa época em que a cultura americana estava à procura de uma saída para a sua crescente onda de ansiedade: um objeto real, físico, que pudesse destruir, na esperança de que isso iria destruir seu medo de um mundo que estava mudando mais rapidamente do que os seus pais e avós jamais poderiam ter imaginado. Resolveram que seriam esses produtos químicos. Em 1914, há um século, resolveram destruí-los. Limpar o mundo de sua presença. Pronto, todos estariam livres. E assim, Harry e Arnold e Billie encontraram-se largados nesse primeiro campo de batalha, e pressionados ao combate.

Billie Holiday no palco, cabelo puxado para trás, rosto redondo e brilhante nas luzes, voz riscada com a dor, em 1939, começou a cantar uma canção que se tornaria emblemática:
Southern trees bear a strange fruit, Blood on the leaves and blood at the root.
As árvores do sul dão uma fruta estranha, com sangue nas folhas e sangue na raiz.
Billy Holliday: Strange fruit

Antes dela, pouquíssimas mulheres negras tinham estado em palcos, e quando estavam, eram meras caricaturas, despojadas de todo o sentimento. Mas agora, aqui estava ela, Lady Day, uma mulher negra expressando tristeza e fúria contra o assassinato em massa de seus irmãos com seus corpos pendurados em árvores. Sua afilhada, Lorraine Feather, comenta: “Foi extremamente bravo. Naquela época, cada canção era sobre o amor. Não havia músicas sobre matanças, muito menos as sórdidas que estavam ocorrendo com negros no Sul dos USA. E aí aparece uma negra, fazendo exatamente esse tipo de música, sobre linchamento, sobre como seu pai havia sido morto O público ouviu, em silencio. Muitos anos mais tarde, este momento seria chamado de "o início do movimento dos direitos civis." Lady Day foi ordenada pelas autoridades a parar de cantar esta canção. Ela se recusou. Sua perseguição por parte do Federal Bureau of Narcotics começou no dia seguinte. Em pouco tempo, ela estaria morta.

Desde seu primeiro dia no cargo, Harry Anslinger tinha um problema, e todos sabiam disso. Tinha acabado de ser nomeado chefe do Bureau Federal de Narcóticos, pequena agência enterrada nas entranhas do Departamento do Tesouro em Washington, DC, que e parecia estar à beira de ser abolida. A Agência havia sido o antigo Departamento da Lei Seca, mas como a proibição tinha sido abolida, seus homens precisavam de um novo papel, rápido. Quando ele olhou para seu novo pessoal, poucos anos antes de iniciar sua perseguição a Billie, viu um exército se afundando, exercito esse que havia passado 14 anos em guerra contra o álcool, só para ver a vitória estonteante do mesmo. Estes homens eram notoriamente corruptos, torturadores e cruéis, e foi com eles que o acima citado decidiu limpar as drogas dos Estados Unidos para sempre.
E isso foi apenas o primeiro obstáculo. Muitas drogas, incluindo maconha, ainda eram legais, e o Supremo Tribunal havia decidido que as pessoas viciadas em drogas mais pesadas deveriam ser tratadas por médicos, e não abusadas pelo braço pesado da lei. Daí, seu orçamento do foi cortado em US $ 700.000. Harry acreditava que a resposta a ser dada a uma mão fraca, no pôquer, devia ser elevar drasticamente as apostas. Assim, comprometeu-se a erradicar todas as drogas, em todos os lugares em 30 anos. Conseguiu transformar um departamento em ruínas, com homens desanimados, no quartel-general para uma guerra global que iria durar cem anos e contando. Pode fazê-lo, não só porque era um gênio burocrático, mas também porque havia uma tensão profunda na cultura americana que estava à espera de um homem como ele, com uma resposta certa e segura para suas dúvidas sobre produtos químicos. (Tenho tanto medo de quem tem respostas definitivas e inabaláveis. A história nos tem mostrado os horrores consequentes).

Desde aquele dia na fazenda de seu vizinho, Harry sabia que queria limpar as drogas da face da terra, mas ninguém imaginava que, a partir de onde começou, poderia fazê-lo. Seu pai era um barbeiro suíço que havia fugido para evitar o serviço militar obrigatório, indo parar na Pensilvânia, onde teve nove filhos, sem possibilidade de pagar seus estudos. Por isso Harry, o oitavo, aos 14 anos foi forçado a trabalhar na estrada de ferro.Era um garoto determinado e insistiu em trabalhar por dinheiro nas tardes e noites para que pudesse continuar indo para a escola todas as manhãs. E foi trabalhando nessa estrada, que teve sua segunda visão de coisas escondidas e escuras, o que se tornou sua segunda obsessão, supervisionando um bando de imigrantes sicilianos. Mais tarde, veio a escrever como ele os ouvia sussurrarem a respeito de algo chamado “Mão Negra”.
Um dia, encontrou um dos trabalhadores italianos, Giovanni, dentro de uma vala, ferido. No hospital, Giovanni, terrorizado, contou-lhe que todos os sicilianos tinham que pagar proteção a um grupo chamado “Máfia”, que tinha vindo da Sicília para os USA. Tal grupo, disse ele, engajava-se em todo tipo de crime, e os trabalhadores da estrada de ferro tinham que lhe pagar uma “taxa de terror”, ou ir parar no hospital ou morrer. Anslinger ficou obcecado com a Máfia, numa época na qual a maioria dos Americanos nem acreditava que ela existisse. Passaram a acreditar, depois dos anos 60, com Edgar Hoover e o FBI.
Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, Harry tentou ir, mas como era cego de um olho (consequência de uma pedrada de um dos irmãos), foi recusado, mas como falava alemão fluentemente, foi trabalhar como diplomata/espião na Holanda. Lá, conheceu vários marinheiros que tinham que voltar para casa pois tinham se tornado dependentes de heroína, o que piorou sua obsessão iniciada na fazenda do vizinho.
No finzinho da guerra, estava óbvio que a Alemanha tinha perdido, e o Kaiser estava planejando abdicar. Ao Henry, foi dada a missão, pelo presidente dos USA, de ir dizer ao Kaiser para não abdicar, pois os USA temiam o caos que poderia acontecer seguindo a abdicação. Henry chegou ao Kaiser tarde demais, ele já tinha abdicado, e, pelo resto de sua vida, nosso herói se culpou pelo fato que seu atraso tinha dado base à ascensão de Hitler, e por conseguinte, à segunda guerra mundial. Concluiu que, o futuro da civilização dependia de suas ações. (Narcisismo pouco é bobagem).

Em 1926, foi mandado para as Bahamas. Era o pico do proibicionismo contra o álcool. Problema era que, os americanos queriam beber, e os contrabandistas queriam vender, de formas que o álcool corria solto nas ilhas, o que o apavorou sobremaneira, pois achava que as bebidas estavam cheias de horrendas doenças que iriam destruir os inocentes americanos, e, naturalmente, tomou a si a tarefa de evitar tal Armagedon. Como? Convencendo seus superiores que, a única forma de acabar com a coisa era por uso de “extrema força”. Das Bahamas para Washington foi um pulinho, tendo sido assaz sortudo em casar com Martha Dennison, que pertencia a uma das famílias mais ricas dos USA, os Mellon, e assim, o secretário do tesouro americano, Andrew Mellon, virou parente.
Não bastassem suas obsessões de base, também chegou à conclusão que imigrantes mexicanos e negros eram chegados a usar muito mais drogas que os brancos, e conseguiu sua primeira vitória e aumento de verbas para seu grupo, depois de se apresentar ao Congresso com o seguinte discurso:
“Ouvi dizer que, na Universidade de Minnesota, estudantes de cor estão indo a festas com estudantes brancas e conseguindo sua simpatia através de histórias de perseguição racial. Resultado: Gravidez”.
Indo em frente, decidiu educar o público a respeito de maconha (coisa que, anteriormente achava que não tinha qualquer problema), com o seguinte primor:
“Quando você fuma esta erva daninha, primeiro, vai ter uma raiva delirante, depois sonhos de caráter erótico e vai perder o poder do pensamento e finalmente, chegará ao ponto final inevitável: Insanidade. Você pode ficar chapado e sair e matar uma pessoa, e tudo antes mesmo de perceber que saiu de seu quarto, porque a maconha transforma o homem em uma besta selvagem. De fato, se o horrível monstro Frankenstein ficasse cara a cara com o monstro maconha, cairia morto de medo."
Durante anos, médicos falaram e lhe mandaram evidências de que estava errado. Sua resposta? Não só ameaçou a classe com sérias represálias, como também escreveu para os policiais em todo o país, ordenando-lhes que achassem casos nos quais a maconha teria sido a causadora de crimes. E as histórias começaram a aparecer.

O caso que definiu Harry, e a América, foi o de Victor Licata, de 21anos, da Florida, conhecido como sensato e silencioso até o dia que fumou maconha, alucinou que havia homens querendo cortar seus braços, e para se defender, agarrou um machado e picou mãe, pai, dois irmãos e uma irmã.
A imprensa, alertada por Harry, fez Licata famoso. As pessoas começaram a acreditar que, se seu filho fuma maconha, ele, como Lacata, também pode lhe cortar em pedacinhos. Pela primeira vez, a imprensa americana, principalmente a de propriedade de William Randolph Hearst, tinha apoio de um departamento do governo dos USA, para espalhar boatos.
E a coisa funcionou lindamente. As pessoas começaram a clamar para que fosse dado mais dinheiro à Agencia de Harry, para que esta os salvasse dessa coisa terrível.
Muitos anos mais tarde, um professor de direito, John Kaplan, achou de dar uma olhada nos prontuários médicos do Victor Lacata e descobriu que o psiquiatra que o havia examinado, tinha registrado que o rapaz sofria de “insanidade “há muito tempo. Havia também o registro de vários familiares do rapaz com os mesmos problemas, 3 deles internados em asilos. Tal psiquiatra havia tentado, durante todo o ano anterior ao crime, internar o rapaz, mas a família havia insistido em cuidar dele em casa.
Se o Harry acobertou, negou, ou nem se preocupou em saber da opinião do psiquiatra, não se sabe, o fato é que a ideia que jovens se tornariam escravos dessa droga até se tornarem assassinos insanos, pegou. E ficou pior quando nosso herói descobriu que a Máfia poderia estar ganhando com o tráfico.

E lá foi ele incrementando sua campanha. O efeito mais assustador da maconha, avisou, acontecia com os negros, fazendo-os esquecer as barreiras raciais adequadas e desencadeando sua luxúria e desejo em cima das mulheres brancas. Claro, todo mundo falava sobre racismo de forma diferente na década de 1930, mas a intensidade de pontos de vista de Harry começou a chocar algumas pessoas, e quando foi revelado que ele se referiu a um suspeito, num memorando oficial como "nigger", o senador Joseph P. Guffey, da Pensilvânia exigiu sua demissão. Mais tarde, quando um de seus poucos agentes negros, William B. Davis, queixou-se de ser chamado de "nigger" por homens de Harry, Anslinger o demitiu.
Quando a Associação Médica Americana publicou um relatório desbancando algumas de suas reivindicações, anunciou que qualquer de seus agentes pego com uma cópia, seria imediatamente despedido. Quando descobriu que um professor chamado Alfred Lindesmith estava argumentando que os viciados precisavam ser tratados com compaixão e cuidado, instruiu seus homens a falsamente avisar universidade de Lindesmith que ele era associado com uma "organização criminosa", além de enviar uma equipe para dizer-lhe para se calar. Embora não conseguisse controlar o fluxo de drogas, estava descobrindo que podia controlar o fluxo de ideias.

Jazz era e é o oposto de tudo o que Harry Anslinger acreditava. É improvisado, descontraído, livre, segue seu próprio ritmo. O pior de tudo, é música mestiça composta por traços europeus e caribenhos, com ecos africanos, tudo acasalado em território americano. Para Anslinger, esta anarquia musical era evidência de uma recorrência dos impulsos primitivos que se escondem em negros, esperando para emergir. Ou, como ele mesmo escreveu em seus diários: "Parecia como as selvas na calada da noite, ritos indecentes incrivelmente antigos das Índias Orientais são ressuscitados na música desses negros. As vidas dos jazzmen tem cheiro de imundície."
Anslinger teve que lidar com uma cena musical composta por gente do calibre de Charlie Parker, Louis Armstrong, e Thelonious Monk, e queria vê-los todos atrás das grades. Tentou fazer uma grande apreensão nacional, num único dia. Seu conselho a seus agentes: “Atire primeiro ".

O único problema do Harry, em relação mundo do jazz, foi que, o povo que dele fazia parte era de uma solidariedade absoluta. Os homens de Anslinger raramente conseguiram encontrar um delator, e todas as vezes que um deles era preso, todos se cotizavam para pagar a fiança e soltá-lo.
No final, quando o Departamento do Tesouro disse a Anslinger ele estava perdendo tempo, tentando arrebentar uma comunidade que não podia ser fraturada, ele então reduziu seu foco, como um laser, na maior vocalista de jazz feminino existente.

Em 1939, o Comitê La Guardia, promovido pelo prefeito de NY, Fiorello La Guardia, fez o primeiro estudo amplo, profundo e sério a respeito dos efeitos de fumar maconha, estudo este que contradisse sistematicamente tudo que nosso Harry vinha dizendo. Conclusão do estudo: “O fumar maconha não causa dependência no sentido médico da palavra. “Publicado em 1944, citado estudo enfureceu Anslinger, que o condenou como “Não científico.”
La Guardia Comitê: Estudo da Maconha Estudo da Maconha

No final de sua carreira, foi acusado de insubordinação, pois tentou impedir a publicação de um relatório as AMA (Associação Médica Americana), a respeito de Dependência, relatório esse editado pelo já nosso conhecido, Professor Alfred R. Lindesmith.
Espantosamente, foi nomeado de novo pelo presidente John Kennedy. Resignou ao cargo ao fazer 70 anos, após o que trabalhou por mais dois anos como representante dos USA na Comissão de Narcóticos na ONU, aposentando-se já totalmente cego. Faleceu em 14 de Novembro de 1975, aos 83 anos.”

Todos esses anos passados, e a contabilidade é a seguinte:
Mais de 1 trilhão de dólares gastos. Os gastos atuais são de 15 bilhões por anos, ou seja, 500 dólares por segundo.
Temos a maior população carcerária do universo, com cerca de 2,3 milhões de pessoas atrás das grades, sendo que mais de meio milhão delas estão por alguma infração das leis de drogas.
Se o comércio global de drogas fosse uma nação, estaria entre as 20 maiores economias do mundo, com estimados 320 bilhões de dólares por ano.
Há cerca de 230 milhões de usuários de drogas ilegais no mundo, mesmo assim, 90% deles não são classificados como problemáticos.
Se os USA taxassem as drogas ilegais como taxa álcool e tabaco, receberia cerca de 46,7 bilhões de dólares ao ano.
A legalização das drogas pouparia à nação cerca de 41000 milhões de dólares por ano, gastos em perseguição e encarceramentos.
Em 1980, havia 40.000 pessoas na cadeia por crimes relacionados a drogas. Hoje temos 500.000, com penas longas e excessivas para coisas como porte da droga. Não só as cadeias se tornaram enormes depósitos de doentes mentais, como também, a face do preconceito. Todas as pesquisas apontam que negros ou latinos não usam nem traficam mais do que brancos, mas mesmo assim, são presos 5 vezes mais.
Isso tudo reduziu o consumo? Não.
Os USA são número 1, mundialmente falando, no uso de drogas ilegais.
Que tal que nem, como se diz em Taubaté, com o que aconteceu com o Proibicionismo. Banir o álcool não fez ninguém parar de beber, só fez com que as pessoas parassem de obedecer à lei.
Ou como tão bem escreveu H. L. Mencken, em 1925: “A Proibição não só falhou em suas promessas, mas, na verdade, criou problemas sociais adicionais, graves e preocupantes. Não há menos embriaguez, mas muito mais. Não há menos crime, mas muito mais. ... O custo do governo não é menor, mas muito maior. O respeito pela lei não aumentou, mas diminuiu. "
Quando ignoramos um problema, nos recusamos a debate-lo e esperamos que desapareça por milagre ou por imposição de força, não estamos só sendo ingênuos, mas estamos a caminho de um desastre. Ignore colesterol alto, e veja os resultados. Ignore uma dorzinha no peito, e reze para que seja só acidez. Continue a exercitar um pé inchado. Quais serão os resultados?
A guerra às drogas falhou. Feio. Está mais do que na hora de enfrentar o problema,
Próximo e final post da trilogia, será sobre iniciativas que fizeram exatamente isso e está funcionando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

MINHA PRÓPRIA VIDA: OLIVER SACKS AO SABER QUE ESTÁ COM CÂNCER TERMINAL

Sei que prometi a segunda parte das dependências e estava justamente terminando,quando me chegou o e mail do New York Times, com o artigo do Sacks.E chegou num momento em que pensava em minha própria mortalidade. Ele está na minha lista de gente que quero conhecer pessoalmente antes de morrer. Pelo visto, não vou conseguir. Ele me fez rir e chorar com seus escritos, e no filme “Tempo de Despertar”, me mostrou que genialidade é muito mais do que descobrir um tratamento novo. É descobrir a vida, junto com o paciente. E então, tenho que traduzir o artigo, porque é mais uma lição de vida desse homem que é grande. Não vou dizer adeus porque mesmo quando ele morrer, vai continuar tão vivo dentro de mim, que vou poder continuar nossas conversas imaginarias a gosto. Esta tradução é meu agradecimento e celebração de uma vida que foi, e continua sendo bem vivida.

“Um mês atrás, senti que estava bem de saúde, até mesmo robusto. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas minha sorte acabou - algumas semanas atrás fiquei sabendo que tenho múltiplas metástases no fígado. Há nove anos, foi descoberto que eu tinha um tumor raro do olho, um melanoma ocular. Embora a radiação e lasering para remover o tumor, em última análise me deixou cego daquele olho, só em casos muito raros tais tumores formam metástases. Estou entre os 2% dos azarados.
Sinto-me grato por terem me sido concedidos nove anos de boa saúde e produtividade, desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado, e apesar de seu avanço poder ser retardado, não pode ser interrompido.
Cabe a mim agora, escolher como viver os meses que me restam . Tenho que viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que possa. Nisto me animam as palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava mortalmente doente aos 65 anos, escreveu uma pequena autobiografia em um único dia, em abril de 1776. Ele intitulou-a "Minha própria vida":"Agora estou considerando uma dissolução rápida", escreveu ele. "Sofri muito pouca dor com a minha desordem; e o que é mais estranho, não obstante o grande declínio da minha pessoa, nunca sofri um abatimento de ânimo dos meus espíritos. Possuo o mesmo ardor como sempre no estudo, e a mesma alegria na companhia. "
Tive sorte suficiente para passar dos 80, isto é, 15 anos a mais do que Hume, os quais foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei 5 livros e completei uma autobiografia ( com algumas páginas a mais do que a de Hume), a ser publicada na Primavera deste ano; Tenho vários outros livros quase concluídos.
E Hume continua: "Eu sou ... um homem de disposições leves, de temperamento controlado, de um humor aberto, social, e alegre, capaz de apego, mas pouco suscetível à inimizade, e de grande moderação em todas as minhas paixões."
Aqui me aparto de Hume. Embora tenha apreciado e vivido relacionamentos amorosos e amizades, e não tenha reais inimizades, não posso dizer (nem o diria qualquer um que me conheça) que sou um homem de disposições leves. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, com entusiasmos violentos, e extrema falta de moderação em todas as minhas paixões.
E, no entanto, uma linha do ensaio de Hume me parece especialmente verdadeira: "É difícil", escreveu ele, "estar mais desapegado da vida do que estou no presente momento."
Nos últimos dias, tenho sido capaz de ver minha vida a partir de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com um profundo senso de conexão em todas suas partes. Isso não significa que eu esteja acabado com a vida. Pelo contrário, sinto-me viva intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que me resta, continuar a aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar, se tiver força, e alcançar novos níveis de compreensão e percepção. Isso implicará em ter audácia, clareza e uso da palavra; tentar endireitar as minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para diversão (e até mesmo para algumas bobagens ).
Sinto-me focado e com perspectiva. Não há tempo para nada não essencial. Tenho de me concentrar em mim mesmo, no meu trabalho e meus amigos. Não vou assistir as noticias todas as noites, nem prestar qualquer atenção à política ou argumentos sobre o aquecimento global.
Isto não é indiferença, mas desapego - ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, o aquecimento global, a crescente desigualdade, mas estes não são mais o meu negócio; eles pertencem ao futuro. Alegro-me quando me encontro com os jovens sobredotados - mesmo aquele que fizeram minha biópsia e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.
Tenho estado cada vez mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, de mortes entre os meus contemporâneos. Minha geração está indo embora, e cada morte, senti como um descolamento, um rasgar de parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas também, não há ninguém como qualquer outra pessoa, nunca. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano, de ser um indivíduo único, para encontrar o seu próprio caminho, para viver sua própria vida, para morrer a sua própria morte.
Não posso fingir que estou sem medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado. Recebi muito, e dei algo em troca. Li, viajei, pensei, escrevi. Tive um intercurso com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.
Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, neste belo planeta, o que,de per si, tem sido um enorme privilégio e uma aventura.”
http://www.nytimes.com/2015/02/19/opinion/oliver-sacks-on-learning-he-has-terminal-cancer.html
Oliver Sacks, professor de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, é o autor de muitos livros, incluindo "Tempo de Despertar" e "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu."