Google+ Badge

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O OPOSTO DE DROGADEPENDÊNCIA NÃO É SOBRIEDADE.

Este ano faz 100 anos desde que as drogas (algumas) foram oficialmente banidas e vimos o desenvolvimento de teorias e práticas de todos os tipos, para se lidar com o problema. Os USA instituiu a “guerra às drogas” e aprendemos ou ouvimos histórias sobre dependências e dependentes, a dependência como doença e os milhares de tratamentos e/ou intervenções que parecem crescer como fungos por toda a parte. Tendo passado a maior parte de minha vida profissional trabalhando exatamente na área, aprendi umas coisas e tive que desaprender outras tantas. Algumas das coisas que me incomodavam profundamente no discurso do “nós bonzinhos que lutamos contra as drogas”,foram:

1-Nunca me senti lutando ou quis lutar contra drogas, pelos seguintes motivos:
a)Como médica, uso “drogas”, que em medicina são chamadas de medicamentos, para aliviar sintomas e promover tratamentos. De que maneira vou querer um mundo sem drogas? Quero sentir a dor de ser cortada feito galinha assada quando e se necessitar de uma cirurgia, porque, dentre as coisas usadas em anestesia, estão os derivados da heroína? Nem morta, Joana! Além de que, e ainda como médica, trato de gente, não de substâncias, as quais aprendi a usar conforme necessário.
b)Drogas são substâncias que não tem vida própria. Ela não vem voando e se insere em nosso organismo. Há que ter um ato volitivo de, buscar a substância e dela fazer uso, o que se chama de comportamento, e, para que um comportamento ocorra, há que existir uma motivação para o mesmo. Substâncias são como ferramentas. Se uso um martelo para, ao invés de pregar um prego na parede, promover uma fratura na minha testa, é culpa do martelo?
c)Quanto mais trabalhava na área, mais evidente ficava que há muito mais coisas sobre as quais é quase que proibido falar sobre o assunto; que a discussão a respeito não é livre, leve e solta como deveria, mas organizada por estruturas político/sociais que comandam a mídia e por conseguinte, a opinião pública. Senão, vejamos a história desde o início, e vou falar da história das drogas aqui nos USA, que é onde consigo material e estatísticas, não disponíveis, por exemplo, no Brasil.

2-Pelo fato de trabalhar com Drogadependentes, e por acreditar que, ao escutar o paciente, de uma forma ou outra ele/ela vai lhe explicar direitinho qual é o problema e a melhor forma de enfrenta-lo, após o que, o que tinha que fazer era transformar a coisa para o medicalês, e, junto com o paciente, desenvolver um plano para enfrenta-lo, tenho um certo horror a modelos “prontos e arrumados”, tipo assim roupa tamanho único, pois embora a ideia seja de que serve para todo mundo, na realidade não cai bem em ninguém.

3-Sou daquelas médicas antigas, que curtiu muito o aprendizado na faculdade (e, parodiando agora esqueci quem, detesto estudar, mas adoro aprender), trago comigo algumas noções básicas que continuam orientando meu pensamento. Uma delas é o conceito do que é e porque acontece uma doença num organismo:
“Doença é um conjunto de sinais e sintomas específicos que afetam um ser vivo, alterando seu estado de equilíbrio. O vocábulo é de origem latina, em que “dolentia” significa “dor, padecimento”. Para que uma doença se desenvolva (sempre que causada por agente externo, como, teoricamente é o caso das drogas dependências), há que se levar em conta: a) Virulência do agente patogênico; b) Estado do hospedeiro; c) Ambiente. Isto significa que, só o agente patogênico (o causador da doença) é apenas 1/3 da equação, ou seja, se o hospedeiro estiver em bom estado e viver num ambiente saudável e propício ao desenvolvimento, os efeitos do agente não serão sentidos ou as consequências serão muito menos sérias. Que o digam os sobreviventes da gripe espanhola, que nem na Espanha começou, que matou 1/3 dos europeus. Sobraram 2/3, incluindo minha vó Linda, que a teve mas sobreviveu, e bem, vindo a falecer com a provecta idade de 104 anos. E que o digam os milhões de jovens que fazem ou fizeram uso de alguma droga e nunca se tornaram dependentes. Ou aqueles que sofreram alguma fratura ou problema de dor, usaram derivados da morfina ou heroína por tempos e, resolvido o problema ou saídos do hospital, nunca mais usaram a coisa.

Isto posto, vamos ao ponto.

Drogas são um tremendo problema e um tremendo bom negócio na vida cá das Américas. Não são sequer problema novo, pois fazem parte da história desde o primeiro dia em que Cristóvão Colombo botou os pés no Novo Mundo, e os índios Taino o presentearam com tabaco. E, em existindo uma droga, existe uma solução para algo e um problema associado e tentativas de resolver o problema. Colombo não fazia a mais remota ideia do que fazer com as folhas recebidas, e conta a lenda que as jogou no mar, mas os marinheiros aprenderam com os índios as delicias do fumar, carregando o hábito de volta para a Europa, e logo esta se tornou um continente de dependentes de nicotina (as más línguas dizem que continua até hoje). Cem anos depois, o tabaco resgatou a primeira colônia inglesa na América (Jamestown, na Virgínia, fundada em 1607), que estava à beira do colapso. Em 1612, John Rolfe (mais conhecido como marido da Pocahontas), plantou tabaco, que foi vendido em Londres com imenso lucro. Daí o povo lá de Jamestown só plantou tabaco, o que os salvou da ruina financeira. Não fosse ele, quem sabe o que teria sido dos USA, ou se teria havido tal país.
Caso isso não bastasse, em 1619, a população masculina de Jamestown recebeu com enorme entusiasmo a chegada ao porto de um navio Inglês carregado de jovens mocinhas, compradas a preço de 120 libras de tabaco cada (mais ou menos 54 Kg), para se tornarem esposas. No mesmo ano, os virginianos também introduziram a escravidão, através da compra de 20 negros de um navio mercante holandês. Pelos 240 anos seguintes, escravidão e tabaco dominariam a sociedade da Virginia. O trabalho escravo ajudou os virginianos expandir, e rapidinho, a produção de tabaco, a partir de £ 60.000, em 1622, a 500.000 libras em 1627, para 1,5 milhões de libras em 1.630. E se pensarmos um pouquinho, não é lá muito diferente do trabalho dos plantadores atuais da planta da coca.

E, falando no citado, aqui o tabaco é um dos chamados 3 GRANDES. Os outros dois são o álcool e a nicotina. Chocado? Provavelmente porque essas 3 drogas são tão largamente usadas em nossa sociedade, que nem os usuários, nem ninguém mais definiria como “dependente”, dentro das fantasias que temos sobre os tais, pessoas que como eu vão feito um zumbi fazer o primeiro café da manhã, no minuto seguinte a rolar fora da cama. O fato é que as diferenças entre as 3 GRANDES, drogas que são legais, e suas primas ilegais é muito mais uma questão histórico cultural do que as qualidades intrínsecas das drogas. Cafeína é mais aditiva do que maconha. Álcool é mais intoxicante que cocaína. Tabaco estraga a saúde do usuário muito mais do que ecstasy. Tal qual qualquer outra droga, álcool, cafeína e tabaco são usados de forma recreacional, sem propósitos médicos, pelo simples fato que fazem os usuários se sentirem melhor (ou para os “oficialmente “dependentes, para não ter os sintomas de abstinência, que os fazem se sentir muito mal).

E a definição de dependência é exatamente essa: a necessidade compulsiva de uso de uma substância.

Com isso não quero dizer ou sequer insinuar que drogas são uma coisa boa ou inerentemente má, porque na realidade, como qualquer coisa, não são nem uma coisa, nem outra, tudo dependendo do uso que fazemos delas. Legais ou ilegais. Heroína, quando usada em anestesia, é um santo achado. Quando usada como droga de rua, é tremenda desgraça.O que quero dizer é que as usamos, quando não por imposição médica, simplesmente porque gostamos, desde a primeira criatura que, mastigando seu cogumelinho ou pedaço de cactos, descobriu que alterava a consciência. Pela sua ação, as drogas alteram a química cerebral e podem, temporariamente, fazer com que gente triste fique alegre e saltitante, doentes se sentirem melhor, cansados reencontrarem energia, tímidos se tornarem bravos, insones acharem seu sono, fracos se sentirem fortes, ansiosos relaxarem e gente muito feia se sentir sexy. Na realidade, as drogas não resolvem nenhum desses problemas, mas os mascaram bem pelo tempo que durar sua ação. E isso é suficiente para fazer com que se continue usando.

Isso, e o fato que são um tremendo negócio, pois os dependentes pagam qualquer coisa para conseguir seu objeto de desejo. O café é hoje o segundo produto mais valioso do mercado, perdendo só para o petróleo, e como essa estatística é anterior à despencada de preço do assim chamado “ouro negro”, vai que de repente virou o primeiro. Uma única companhia, a Starbucks, vende mais de 8 bilhões de dólares, sim, bilhões com bi, de cafezinhos por ano. Os americanos gastam mais de 50 bilhões por ano com cigarros e 100 bilhões com álcool. Comparativamente, o mercado das ilegais é muito menor, mas, exatamente por serem mais difíceis, são muito mais “preciosas”. Cocaína é mais valiosa que ouro, pois 1 grama é vendida a 100 dólares, enquanto que uma grama de ouro está a 25. A maconha é o produto agrícola mais valioso dos USA, produzindo 36 bilhões de dólares por ano, enquanto o milho, segundo colocado, só 26.

Hoje quero falar do tremendo enrosco no qual nos encontramos, porque simplesmente não queremos passar pela dificuldade que é encarar de frente o problema. Como fazemos para reinserir no convívio, milhares, melhor dizendo, milhões de jovens perdidos? Queremos que retornem e tenham vidas plenas ou queremos simplesmente impor nossas crenças? Porque é que eu posso, e uso com gosto, minha droga de escolha, a cafeína, que é mais aditiva que maconha, mas critico seriamente o hippie saudoso que dá sua tragadinha no conforto de seu lar? Pior, também tomo meu bom vinho. É álcool. Intoxica. Cada um de nós tem uma ideia preconcebida do que vem a ser o droga dependente e de como trata-lo ou tratar a situação.

Fomos ensinados a pensar que, o que causa a dependência é a droga. Essa teoria foi concebida em cima de experimentação com ratos, na década de 60, e espalhada por uma organização chamada Partnership for a Drug-free América. Todo o mundo e seu primo, sabe do experimento e/ou viu as fotos. Simples. Bota-se o ratinho numa caixa, sozinho, com duas tijelinhas. Uma é água pura e a outra é água com heroína ou cocaína, e o ratinho fica obcecado com a água drogada. Pronto. Provado que drogas tem o efeito de fazer até o ratinho abrir mão de coisa tão necessária quanto água, para ficar só se drogando.

Acontece que um professor de psicologia, em Vancouver, lá no início dos anos 70, Bruce Alexander, achou a coisa muito esquisita, pensando o seguinte: “Bom, o rato está na gaiola sozinho, sem nada para fazer, deixa ver o que acontece se fizer o experimento um pouco diferente”. E fez o famoso experimento do “Rat Park”, que, resumidamente é o seguinte:
1-A teoria do Alexander era que, as drogas, de per si, não causam dependência, a qual ele atribuía às condições de vida. Numa palestra ao senado canadense, em 2001, disse: “As experiências anteriores, nas quais ratos de laboratório foram mantidos isolados em gaiolas de metal apertadas, amarrados a um aparelho de auto injeção, mostram apenas que " animais severamente afligidos, assim como pessoas com graves dificuldades, vão aliviar sua angústia farmacologicamente, se puderem."
2-O “Rat Park “era uma colônia de casinhas de 8,8m2 (200 vezes o tamanho de uma gaiola padrão de laboratório), na qual foram colocados entre 16 e 20 ratos de ambos os sexos, com abundância de alimentos, rodas e bolas para brincar, e espaço suficiente para acasalamento. Ratos que haviam sido forçados a consumir morfina por 57 dias consecutivos, foram trazidos para a colônia e lhes era dada a escolha entre tomar água pura e água com morfina. A maior parte deles, escolheu a água pura, tão logo tiveram a oportunidade de se misturar com os outros ratinhos.

Apesar disso, é interessante notar que as principais revistas cientificas (Science e Nature), recusaram-se a publicar o experimento que só saiu na revista Psychopharmacology em 1978. A publicação não obteve qualquer resposta e a Universidade (Simon Fraser) retirou os fundos de financiamento.

Um bom paralelo à teoria de Alexandre, foi a guerra do Vietnã, durante a qual, 20% dos soldados americanos se tornou dependente de heroína, causando um pavor generalizado na assim chamada “puritana América”, do que fazer com tantas “falhas morais “quando os pobres coitados retornassem à pátria mãe gentil. O que aconteceu foi que 95% dos soldados dependentes (segundo estudo publicado no Archives of General Psychiatry), simplesmente parou de usar. Muito poucos foram a clínicas de recuperação. Saíram da “gaiola “horrenda e voltaram para a colônia. Não precisavam mais da droga.

Outro, seria a dependência ao jogo, e podem acreditar, é tão destrutiva como qualquer droga, e no caso, ninguém se injetou um maço de cartas de baralho ou chips de roleta. Uma de minhas memórias do que chamo de “visões do inferno”, é a da primeira (e única vez) que fui a Las Vegas e vi, em todo lugar, aquele mundo de velhos em frente às maquininhas de jogo, com um balde de moedas ao lado. Horas jogando, sem conversarem ou trocarem uma palavra com quem estava ao lado. Repetição mecânica de movimentos e rituais.

Todos concordam que tabagismo é uma das coisas mais viciantes que existem, sendo que o “gancho químico “do vício é causado por uma droga chamada nicotina. Vai daí que quando os adesivos de nicotina foram desenvolvidos na década de 1990, houve uma explosão de otimismo, pois o dependente poderia receber todos os “ganchos químicos”, sem os efeitos colaterais, fedidos e mortais, do tabagismo. Eles seriam libertados de seus grilhões! E ai veio o balde de água fria do Gabinete do Cirurgião geral, informando que, apenas 17,7% dos fumantes, eram capazes de abandonar o vício com uso de tais adesivos. Muito, mas muito pouco mesmo, o que, mais uma vez demonstra que, apesar da história dos “ganchos químicos “ser real, é apenas pequena parte de muito maior problema.

Vamos ver algumas estatísticas a respeito da “Guerra às drogas”:

3 em 4 americanos acham que a “guerra às drogas “é uma tremenda falha. (Zogby/Inter-American Dialogue Survey: Public Views Clash with U.S. Policy on Cuba, Immigration, and Drugs. http://www.zogby.com/news/ReadNews.cfm?ID=1568))

Pesquisa com a Associação Nacional dos Chefes de Polícia, mostrou que, 82% deles acha que tal guerra foi e é uma falha (18th Annual National Survey Results of Police Chiefs & Sheriffs.http://www.aphf.org/surveyresults.pdf)

Gastos com Controle de Drogas através de estratégias duras de fiscalização aumentaram em 69,7% nos últimos 9 anos, enquanto gastos com Tratamentos e Prevenção cresceram só 13,9%. Recursos federais para redução de oferta (encarceramento, punição e erradicação) são o dobro dos programas redutivos (prevenção e tratamento). (U.S. Office of National Drug Control Policy. (February 2010). National Drug Control Strategy: FY 2011 Budget Summary. p. 17, Table 3. http://www.whitehousedrugpolicy.gov/publications/policy/11budget/fy11budget.pdf)

Apesar dos USA serem o local de nascimento da “Guerra às Drogas” e de terem algumas das mais duras penalidades a respeito das mesmas, também tem as maiores taxas de consumo de maconha e cocaína do mundo (Degenhardt L, Chiu W-T, Sampson N, Kessler RC, Anthony JC, et al. (July 2008). Toward a Global View of Alcohol, Tobacco, Cannabis, and Cocaine Use: Findings from the WHO World Mental Health Surveys. PLoS Medicine. http://www.plosmedicine.org/article/info:doi/10.1371/journal.pmed.0050141

Nos últimos 40 anos, a Guerra às drogas custou mais de 1 trilhão de dólares, o número de gente encarcerada aumentou 705%, e embora pretos e brancos usem drogas em proporções mais ou menos iguais, tem 10 vezes mais negros presos do que brancos. (http://www.thehouseilivein.org/get-involved/drug-war-today/)

O governo federal dos USA gastou, em 2010, 15 bilhões de dólares na “Guerra às drogas”, ou seja, cerca de 500 dólares por segundo (Jeffrey A. Miron & Kathrine Waldock: "The Budgetary Impact of Drug Prohibition," 2010.)

Embora moradores de bairros desfavorecidos, de bairros com altas concentrações de minorias e de bairros com altas densidades populacionais relataram níveis mais elevados de vendas de drogas, também relataram níveis apenas ligeiramente mais altos de consumo das mesmas, juntamente com níveis mais elevados de dependência. Este resultado indica que misturando a venda de drogas com o uso, de modo que as áreas pobres e de minorias sejam vistas como foco do problema, é completamente errado. A descoberta é baseada em dados coletados em 41 locais, incluindo a cidade e áreas suburbanas (mas não rurais) em todas as regiões dos USA. (http://www.drugsense.org/cms/wodclock)

Ao longo das últimas quatro décadas, os governos (federal e estadual) dos USA, despejaram US $ 1 trilhão em gastos na guerra às drogas, conta paga pelos contribuintes. Infelizmente, esses dólares de impostos foram para o lixo. Em 1980, os Estados Unidos tinham 50.000 pessoas atrás das grades por violações das leis de drogas - agora temos mais de meio milhão. Os EUA são hoje o maior carcereiro do mundo, as drogas continuam a ser amplamente disponíveis e os recursos para prevenção e tratamento são escassos. Não só milhares de milhões de dólares de impostos foram desperdiçados, como também os gastos da guerra às drogas resultaram numa ampla retirada do dinheiro de outros serviços importantes. Dinheiro canalizados para a repressão às drogas significou menos financiamento para crimes mais graves, e que deixou a educação fundamental, saúde, serviços sociais e programas de segurança pública a lutar para operar com financiamentos insuficientes. Estamos trabalhando para mudar as mesmas políticas fracassadas de sempre e investir em programas de tratamento e educação eficazes. Estamos liderando o movimento para acabar com este dreno de nossa economia e para proteger os seus dólares de impostos do desperdício da guerra às drogas. (http://www.drugpolicy.org/wasted-tax-dollars)

Com sua teoria (a qual esposo), Bruce Alexander conseguiu se fazer odiar pelos dois lados da política: pela direita, que acha que dependência é uma falha moral, devido à falta de chinelada, falta de disciplina, puro hedonismo, excesso de festas, e coisas do gênero (se não me creem, procurem se informar de um grupo chamado Tough Love – Amor Exigente, sobre o que, no momento, me recuso a falar, e por isso coloquei um artigo do Washington Post a respeito, no final), e pela esquerda liberal que gosta de achar que a dependência é algo que acontece num cérebro sequestrado pela droga, a qual faz tudo sozinha, independentemente de qualquer outra condição. É perfeitamente contrária à teoria sobre a qual se baseia a tal “Guerra às drogas”, que funciona (apesar de todas as evidências em contrário) em cima do pressuposto que há que se erradicar uma montanha de substâncias químicas porque elas sequestram o cérebro das pessoas e causam dependência.

O problema é que as drogas, de per si, não são o que causa a dependência. Se fossem, não existiria dependência a jogo. Não existiriam dependências emocionais a relacionamentos que fazem tão mal a algumas pessoas. A única coisa que a tal da “guerra às drogas “conseguiu, com exceção de queimar dinheiro e recursos, foi aumentar todos os outros fatores que causam dependências, incluindo, e principalmente, a desconexão de indivíduos a seu grupo e seu ambiente. E quando falo em “desconexão”, falo por exemplo do isolamento sentido, e muitas vezes vivido pelos que sofrem de alguma doença mental (não é à toa que o maior consumo de drogas de toda espécie, de cigarro a heroína, está entre doentes mentais), onde a única maneira que encontram para alívio de seu sofrer, é a auto medicação com seja lá o que acharem. Falo do crescer em extrema pobreza, sem esperanças e sem recursos. Falo da falta de educação para a vida. Falo do não se sentir pertencendo ou fazendo parte. Falo do ser maltratado e desprezado. Falo de crianças que sofreram privações tão severas, que o cérebro “encolheu”.

Cuidar de um dependente (de qualquer coisa) ou alguém com algum distúrbio mental é muito mas muito difícil. É mais simples seguir os conselhos de “amores exigentes” ou de shows televisivos tipo “intervenção” e dizer ao dependente que ou ele/ela tome tento ou cai fora. E isso só piora a dependência. Aliás isso só piora qualquer coisa.

Nós humanos, necessitamos de ligações. Precisamos nos sentir conectados, fazendo parte, tendo turma, trocando toques, ideias, emoções e sonhos. Em gaiolas, solitários e abandonados, não importando se a situação seja real ou imaginária, vamos fazer besteira. E quanto maiores forem os castigos, as ameaças e os abandonos, pior a besteira.

Então, temos que mudar muita coisa, começando com nossas próprias cabeças e corações. O oposto de dependência não é sobriedade, mas sim, conexão.

Na próxima semana vou contar de esperanças que se tornaram belas realidades e como estão funcionando.

LAW ENFORCEMENT AGAINST DRUG PROHIBITION: http://www.leap.cc/

O EXPERIMENTO “RAT PARK” EM QUADRINHOS http://www.stuartmcmillen.com/comics_en/rat-park/#page-1

THE CULT OF PHARMACHOLOGY: HOW AMERICA BECAME THE WORLD’S MOST TROUBLE DRUG CULTURE, Richard DeGranpre, Duke University Press, 2008

THE TROUBLE WITH TOUGH LOVE http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/01/28/AR2006012800062.html

THE WAR WE ARE LOSING, Milton Friedman http://druglibrary.org/special/friedman/war_we_are_losing.htm



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

EM DEFESA DA LERDEZA

Estava aqui tendo um ataque de saudades de Carminha, minha secretária por tanto tempo que não precisa ser contado, e do mundo que costumava conhecer.
O ataque deveu-se a um momento no qual me dei conta que estava perfeitamente enlouquecida, pois, domingo de manhã, teóricamente dia universal, pelo menos para mim, de folga de qualquer ligação trabalho/foco/organização, me vi, com um pé, fazendo cosquinhas em minha cachorrinha, o outro fazendo força numa especie de pedal, que faz parte da fisioterapia, uma mão segurando o celular e a outra digitando, mandando e mail, textando, organizando artigos, selecionando rotas alternativas na estrada, fazendo lista de supermercado.
E só me dei conta da insanidade, porque súbitamente a cachorra ganiu, o celular saiu voando de minha mão, e dei um chute no pedal.
Que qui é isso, companheira?

Sentada no chão, acalmando a ganinte enfurecida canina, comecei a pensar sobre o que, sub repticiamente, estava me acontecendo. Primeiro, que detesto celular. Perdi inúmeros, passei com o carro em cima de um, outro foi assassinado por um pick up ao saltar do bolso de minha camisa, esqueço a coisa dentro de bolsas e gavetas, volta e meia tenho que pedir a alguém que me chame para descobrir onde foi parar. Pensava que a coisa existia com duas grandes finalidades: chamar assistência em caso de acidente de carro e tirar fotos, coisa na qual tenho melhorado bem. Aguento com bom humor as piadinhas de colegas mais versados tecnologicamente a respeito do meu citado, que já está sendo chamado de “antiguidade”, posto que é um I4, e já estamos no 6, escuto, com meio ouvido, os discursos sobre quantas possibilidades estou perdendo, e vou indo muito feliz com os computadores e Ipads da vida, onde, não só enxergo o que estou fazendo, como também consigo digitar sem ter que apagar 3 em 4 letras quando estou mandando msgs. Ou pelo menos pensava eu.

De repente, lembrei-me com a emoção de amante abandonada, como nunca me preocupei em aprender a mandar um fax, pois Carminha sabia, assim como sabia todos os telefones e aniversários de familiares, amigos e pacientes, bastando-me assinar os cartões. Nem com datas de contas a pagar, pois todas as segundas feiras, antes de começar os atendimentos, lá estava ela com a lista semanal de todas as necessidades. Para escrever artigos ou livros? Simples: pesquisa- organiza-escreve-passa para a Carminha-que passa para a Lucy da APM, e acabou meu problema. Só precisava me lembrar de, em caso de atraso no hospital, pedir para a secretária do hospital onde estivesse, para ligar para meu consultório para avisá-la e ela se encarregava de reorganizar todos, pois sempre detestei a coisa de paciente ter que ficar esperando na sala de espera. Se tem hora marcada, é meu dever honrar citada marcação.

Destarte, em tendo terminado o dia de trabalho, livre, leve e solta estava para fazer o que bem me desse na telha, e descubro que, embora na época tivesse muito mais longas horas de trabalho do que tenho agora, tinha muito mais tempo disponível. Aqui, tive que aprender desde a mandar fax, aprendizado totalmente inútil, que, tão logo aprendi, desapareceu, como a tirar xerox com máquinas muito mais espertas do que eu, a editar e corrigir meus escritos, a organizar no Google todos os aniversários e acontecimentos, o que, tendo família e amigos espalhados nos 4 cantos do mundo, não é fácil, e ser informada, depois que comecei este blog em português, que estava com atraso de 2 revisões ortográficas, fato evidenciado com minha ideia insana, mas que me divertiu às pencas, de auto publicar, pela Amazon, meu primeiro livro totalmente fora de minha área, corrigido por santa Teresa e seu filho Henrique, que me informaram que não mais poderiam ver uma couve-flor na frente, de tantas que tiveram que hifenar.

E me lembrei do espanto, quando aprendi, numa visita à NASA, que a porcaria do celular que tinha na bolsa, era milhares de vezes mais potente que o computador que colocou o homem na lua ou o mais avançado dos computadores da IBM há 30 anos atrás. Fora a vergonha de pensar que a única coisa que estava fazendo com tal maravilha, era tirar fotos de flores e cogumelos esquisitos aqui do Texas. E da minha desconfiança a respeito dos assim chamados “multitaskers”, esses seres incríveis que fazem mil coisas diferentes ao mesmo tempo, e como, de repente, essa era a coisa certa a ser.

Artigos aos milhares foram escritos, o pessoal de RH subiu aos céus pela falta de foco, pois nos diziam que o Curriculum (e aqui se usa uma coisa esquisita, chamada de Resume), devia ser escrito de formas a chamar a atenção do profissional da área em menos de 15 segundos, que era o tempo que a criatura tinha para gastar com cada um. Acho que minha desconfiança também tinha um pouco a ver com inveja, posto que não sei multitaskear, preciso focar, e muito, no que estou fazendo, correndo o risco de, ao cantar e cortar tomates, provocar sérias lesões digitais. Então, o que foi que me aconteceu?

Aconteceu que “engoli” a ideia, muito americana, de “quanto mais, melhor.” Pensem comigo: todos os dias e todas as horas, somos assaltados com fatos, pseudo fatos, besteiras crassas, barulho, tudo passando como se fosse “informação”, e tentar separar o joio do trigo, isto é, o que precisamos saber do que há que se ignorar, é exaustivo. Há uns 30 anos, quando queria ir a um Congresso, informava Carminha, que ligava para o agente de viagens, que arrumava tudo. Ou quando entrava numa loja, informava o atendente do que queria, e ele/ela achavam o item no ato. Agora, fazemos as reservas, rodamos as lojas a procurar o que precisamos e as secretárias estão ocupadas com as coisas do departamento, e não com as necessidades dos humanos que compõem o citado. Isso sem contar as coisas fora do trabalho, casa, marido, filhos, pais, amigos, passatempos, cachorro, periquito e papagaio.

Assim, o celular tornou-se uma espécie de canivete suíço, Bombril com mil e uma utilidade, que incluem, mas não estão limitadas a browser da net, calculadora, agenda, e-mail, joguinhos, calendário, gravador, homem do tempo, GPS, Tweeter, Face book e lanterna para achar as baterias das lanternas quando há apagões. E usamos a coisinha o tempo todo, como parte da mania do século 21, de enfiar tudo o que fazemos em todo em qualquer momento em que estamos, teoricamente, sem fazer nada. É na fila do supermercado (Não, isso não faço mesmo, adoro conversar com o povo e/ou checar todas as revistas de fofocas de celebridades que lá estão, em toda sua glória), jantando em restaurantes (outra coisa que me irrita, o celular, não o jantar), na sala de espera do médico/dentista ou qualquer outra espera (faço com gosto), nos 3 minutos que leva para baixar um arquivo grande (lá vou eu checar Face book, com a desculpa esfarrapada de que, em lá tendo uma página, tenho que estar atualizada...em que, não sei bem), enfim, deu para ter uma ideia. Tornou-se um perigo a ida a um supermercado, que a criatura, manejando um carrinho mais do que cheio, está também digitando textos no seu I qualquer coisa.

E é ai que mora o perigo, pois, apesar de que pensamos que estamos realmente fazendo um montão de coisas ao mesmo tempo, isto não é nada além de ilusão diabólica.

Earl Miller, neurocientista do MIT e um dos maiores especialistas mundiais em atenção dividida explica: “Nosso cérebro não está aparelhado para executar múltiplas tarefas ao mesmo tempo. Quando pensamos que o estamos fazendo, na realidade estamos saltando de uma tarefa a outra, muito rapidamente, e, cada vez que o fazemos, há um custo cognitivo a pagar. Portanto, não estamos realmente mantendo um monte de bolas no ar como um malabarista, mas sim atuando como crianças confusas, mudando constantemente de direção, sem saber como chegar e ignorando o que está bem na nossa frente, preocupados com tudo o que não conseguimos ver. Assim, mesmo achando que estamos fazendo um montão de coisas, se estamos multi tarefando também estamos nos tornando muito menos eficientes.” (A tradução é minha. A fala dele é bem mais elegante).

O multitarefar aumenta a produção do hormônio do stress (cortisol) e do hormônio da resposta de luta ou fuga (adrenalina), o que hiperestimula nosso cérebro e causa um embaralhamento no processo de pensamento (os japoneses chamam de “nevoeiro mental"e acho a frase perfeita), o que, por sua vez cria uma espécie de dependência dopaminérgica no nosso sistema de recompensa, fazendo com que necessitemos mais e mais de estímulos externos, exatamente como ocorre na dependência de qualquer droga. Para piorar tudo, porque o cérebro quando dá de avacalhar, o faz em tamanho gigantesco, o córtex pré-frontal adora novidades, o que significa que a atenção pode ser facilmente sequestrada por algo novo - os proverbiais objetos brilhantes/piscantes que usamos para atrair crianças e cachorros. A ironia, para aqueles que estão tentando se concentrar em meio a atividades que competem com a atenção, é clara: a região do cérebro na qual mais precisamos confiar para permanecer na tarefa é facilmente distraivel. Atender o telefone, procurar algo na internet, verificar o nosso e-mail, enviar um SMS, etc., etc., e etc., cada uma dessas coisa é uma possibilidade de novidade, e os centros de recompensa cerebrais ganham uma inundação de opióides endógenos (e é por isso mesmo que nos sentimos tão bem e continuamos a repetir o comportamento, como qualquer droga dependente o faz), em detrimento do permanecer na tarefa inicial. É mais ou menos como se sente alguém, depois de uma semana em dieta muito restritiva, de repente entrar na Cristallo...e, ao invés de colher a grande recompensa que vem do esforço sustentado e concentrado, de dieta e exercícios, colhe a recompensa imediata, e cheia de açúcar dos docinhos piscantes. (Caso alguém prefira qualquer outra loja de doces, sintam-se à vontade para alterar. É que sou fã inconteste da Cristallo, desde criancinha, e conheço bem o “rush” opiáceo que tenho, sempre que entro em qualquer uma das lojas.)

Ainda me espanto quando, em reuniões de equipe (e aqui, para ser honesta, devo informar que detesto essas reuniões, pois acho que um bando de gente, usualmente inteligente, vira criança ranheta, cada um puxando sardinha para seu lado, raramente resultando algo que preste), as pessoas respondem ao celular dizendo “desculpa, não posso falar agora, estou em reunião’. Para que responder? Deixa o chamante deixar recado! Mas entendo que as expectativas mudaram muito, desde os tempos que os telefones ficavam na mesa do escritório ou em algum lugar da casa, e o povo entendia que, às vezes, a pessoa que era chamada podia não estar perto do telefone, ou ter saído, ou estar ocupada com outras coisas, e então, respeitosamente deixava-se recado para que nos chamassem de volta à melhor conveniência daquele que havia sido chamado. Como agora o celular passou a ser apêndice de orelha, e tem gente que vai até ao banheiro com ele, a expectativa é que todos estejam, todo o tempo, disponíveis para nossas necessidades.

Glenn Wilson, professor de Psicologia no Gresham College, em Londres diz que, só a oportunidade de poder desempenhar múltiplas tarefas, já é prejudicial ao desempenho cognitivo, e chama a isso de “infomania”. Sua pesquisa demonstrou que o estar numa situação na qual se está tentando concentrar em uma tarefa, e se é avisado que há um e-mail novo na caixa, pode reduzir em 10 pontos nosso quociente de eficácia. Compara a coisa ao uso de maconha, onde, embora alguns atribuam muitos benefícios à droga, incluindo uma maior criatividade, redução da dor e do estresse, é bem documentado que o seu ingrediente principal, o canabinol, interfere profundamente com a memória e com a capacidade de concentração. Wilson mostrou que as perdas cognitivas de multitarefa são maiores do que as perdas cognitivas do fumar maconha.

Russ Poldrack, neurocientista de Stanford, descobriu que, quando desempenhamos múltiplas tarefas, a informação ligada ao aprendizado, vai parar na parte errada do cérebro. Se alguém está estudando e assistindo TV, por exemplo, a informação da matéria estudada vai parar no corpo estriado, região especializada no armazenamento de novas habilidades e procedimentos, e não de fatos e ideias. Sem a distração da TV, a informação vai para o hipocampo, onde é organizada e categorizada, de formas a facilitar sua recuperação quando necessário.

E o já citado Miller, completa: “Não podemos desempenhar bem várias tarefas ao mesmo tempo. Quando dizemos que podemos, estamos nos iludindo, e acontece que o cérebro é bom demais nesse negócio de ilusão.”

Daniel J. Levitin, em seu livro “The Organized Mind: Thinking Straight in the Age of Information Overload” (A mente organizada: pensando direito na era da sobrecarga de informação – tradução minha, ao pé da letra, pois não conheço o título em português), fala dos custos metabólicos dessa sobrecarga, dizendo: “Pedir ao cérebro que mude de uma atividade a outra, faz com que o córtex pré frontal e o corpo estriado queimem glicose oxigenada, o mesmo combustível que é necessário para permanecer em uma tarefa. E a mudança rápida e contínua que fazemos ao “multitarefar”, faz com que queimemos o combustível tão rapidamente que nos sentimos exaustos e desorientados, mesmo depois de curto período de tempo. Literalmente, esgotamos os nutrientes de nosso cérebro, o que compromete nosso desempenho cognitivo e físico. Entre outras coisas, a alternância de tarefas repetidas leva à ansiedade, o que aumenta os níveis de cortisol, (hormônio do estresse) no cérebro, que por sua vez pode levar a um comportamento agressivo e impulsivo. Por outro lado, o permanecer na tarefa é controlado pelos corpos cingulado anterior e estriado, que ativam o córtex pré frontal (ou modo executivo central), o qual faz com que permaneçamos numa só tarefa até termina-la, reduzindo assim a necessidade do uso de glucose pelo cérebro. Para piorar a situação, multitarefar requer tomada de decisão: Respondo esta mensagem ou ignoro? Como respondo isso? Como posso apresentar este e-mail? Continuo o que estou fazendo ou dou um tempo? Acontece que tomada de decisão também gasta recursos neurais e pequenas decisões gastam tanta energia quanto as grandes. Uma das primeiras coisas que perdemos é controle de impulsos. Esta espiral rapidamente leva a um estado de exaustão no qual, depois tomar muitas decisões insignificantes, podemos acabar por tomar decisões realmente ruins a respeito de algo importante. Por que alguém iria querer adicionar mais peso ao já enorme peso diário de processamento de informações, tentando multitarefar?”

E é por essas e outras que, depois de ter ficado espalhada no tapete, com minha cachorrinha em cima do peito a me fazer discurso sobre a diferença entre o pedal e a barriga dela, me encher de saudade de Carminha e ter superado minha inveja dos multitarefadores, sou tomada por felicidade grande por ainda me dar o luxo de mandar cartões de natal e aniversários, daqueles que se escreve o endereço à mão e se coloca selo, ou então de usar meu tempo para, pelo menos, mandar um cartão eletrônico. Ou de fazer filminhos para os acontecimentos importantes na vida dos que chamo de “minhas crianças”. Ou de comer melancia pelo puro gosto de cuspir os caroços e observar as trajetórias. Sou uma antiguidade sortuda.

E se o preço a pagar são umas gozações cá e lá...tá barato!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

EM DEFESA DO ESCULACHO

“Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem”. Erasmo de Rotterdam

E lá se foi uma semana da tragédia em Paris. Saldo: 22 mortos (12 do Charles, 3 policiais, 4 pobres coitados que, pecado dos pecados, faziam compras num mercado, os 2 atiradores da revista e um assecla.). Concomitantemente, em Baga, na Nigéria, o Boko Haram, grupo islâmico extremista, fuzilou cerca de 2000 pessoas, em sua maioria velhos, mulheres e crianças, que “não conseguiram correr a tempo” (http://jezebel.com/boko-haram-massacre-kills-up-to-2-000-mostly-women-ch-1678541680 ), e uma menina de 10 anos, embrulhada em explosivos, foi explodida num mercado em Maiduguri, também na Nigéria, matando uns 20 e ferindo cerca de 50. E, cerejinha no bolo, a fantástica demonstração de “Je suis Charlie”, nas ruas de Paris, em nome da liberdade de expressão, tendo à frente os seguintes campeões da anteriormente citada: Presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, onde aconteceu o maior número de jornalistas presos, nos anos de 2012 e 13, Presidente Ali Bongo do Gabão, pais onde as críticas ao governo são francamente desencorajadas, via leis anti libelo e ataques físicos aos jornalistas, ministros do Egito, Algéria e Emirados Árabes, que como se sabe, são um primor na liberdade de expressão. O embaixador da Arábia Saudita, onde um blogger foi sentenciado a 1000 chibatadas por blasfêmia, os cabeças do conflito Palestina/Israel e o Putin, na terra do qual, acabou de passar uma lei, proibindo que pessoas transexuais tirem carta de motorista. E nem comento da fúria ressurgente da extrema direita na França, com Le Pen, nem das manifestações anti islâmicas na Alemanha, após comentário da Merkel, há cerca de um ano que “a experiência multicultural obviamente não funcionou”.

E o verdadeiro grande herói dessa história toda, Lassana Bathily, 24 anos, negro, muçulmano, imigrante, carregador de mercadorias num mercado kosher, salvou um bando de gente, enfiando-os no freezer. Cadê as honras?

E os artigos. Ah! Os artigos, os comentários em todas as mídias, preciosidades desde liberdade absoluta, incluindo irresponsabilidade pessoal, de poder mijar em porta de prédios, a comparar bullying e insultos pessoais a sátira, aos “somos contra assassinar mas... (ai vem a variedade: não se insulta fé, religião, religiosos, etc., etc., etc.,) a os totalmente delirantes feito o twitter do Rupert Murdoch (dono da Fox News entre outros meios midiáticos) “Talvez muitos Muçulmanos sejam pacíficos, mas enquanto eles não reconhecerem e destruírem seu próprio câncer jihadista, eles precisam ser responsabilizados”, twitter que foi mais do que brilhantemente esculachado por J.K. Rowling, que mandou: “Eu nasci cristã. Se isso faz com que Rupert Murdoch seja minha responsabilidade, eu me auto excomungarei.”; e Aziz Ansari, que escreveu: “Rups, será que podemos ter um guia passo a passo? Como poderiam meus pais, de 60 anos, morando em NC, ajudar a destruir grupos terroristas? Por favor ensine.” E continuou em outro twitter: ‘Você está se responsabilizando por toda a diabólica shit que os cristãos fizeram ou só por aquela que você mesmo faz?”

E é esse o poder, a beleza e a força do humor, da sátira, que foi o que modificou o mundo, desde seus primórdios, gostássemos ou não (como é meu caso), dos do Charlie. Porque a gargalhada escrachada, o sorrisinho torto, a língua solta, o pensamento desenfreado, além de nos meterem em problemas, também nos libertam de grilhões.

Freud explicou o humor, como a coisa que acontece quando o consciente permite a expressão de pensamentos que a sociedade, no geral, suprime ou nega.Um superego benevolente permite um tipo de humor leve e reconfortante, enquanto um superego duro cria o humor sarcástico e amargo. Já um superego duríssimo, suprime totalmente qualquer possibilidade de humor. Alguém já viu alguma foto de Hitler, Stalin, Mao, Pinochet, Mugabe, Kim-Jong, Idi Amin Dada, Lenin, Sadam Hussein, Yahya Khan, Garrastazu Médici, o famoso triunvirato argentino da guerra das Malvinas, só para falar dos que me lembro, assim de cabeça, rindo às gargalhadas de si mesmos?

Aliás a guerra ao riso e à liberdade de pensamento, não é fenômeno moderno. A mitologia grega nos traz “Prometeu acorrentado”, que é o relato do castigo infligido por Zeus a Prometeu, cujo grande pecado foi roubar o “fogo do conhecimento” do Olimpo, e dá-lo aos homens. No Cristianismo, temos Eva sendo punida por ter comido o fruto da árvore do conhecimento (e cá na minha modesta opinião, Adão inventando a desculpa besta: “Senhor, foi a mulher quem me tentou!”).

Na Igreja Católica, temos o Index Librorum Prohibitorum, oficialmente nascido em 1559, para elencar os livros cuja leitura é aos católicos proibida, e que, embora oficialmente abolido em 1966 pelo papa Paulo VI, sobreviveu ao Concilio Vaticano II, sob forma de “guia bibliográfico”, aos cuidados do Opus Dei. Mas, muito antes disso, o primeiro Concilio de Niceia, em 325, proibiu a difusão das ideias de Ario, cujas obras foram queimadas, dando início a longa tradição, que até hoje perdura. A coisa mais irônica nessa história, é que Ario e os Arianos seus seguidores, acabaram sendo conhecidos pela insanidade nazista, como os loiros de olhos azuis, a raça perfeita em nome da qual se mataram, das formas mais perversas, 6 milhões de criaturas, em sua maioria judeus, mas também ciganos, qualquer um com deficiências físicas e/ou mentais, e, é claro, gays. Na realidade, Ario era um teólogo egípcio (consequentemente mais pro moreno do que loiro), que foi excomungado como herético, porque acreditava na não divindade de Jesus. Acreditava ele que o Cristo havia sido “adotado” por Deus Pai, e desta forma, dotado de poderes divinos para salvar a humanidade. A primeira lista de livros “heréticos”, se deve ao papa Gelásio I (o mesmo que eliminou a festa romana do amor pagão -14 de Fevereiro-e a substituiu por um santo, santificado naquele momento: são Valentim, e até hoje, na Europa e aqui nos USA, é o dia dos namorados), em 494.E a coisa foi ficando tão feia, que até a Bíblia foi proibida, quer as escritas em “línguas vulgares”, quer para aqueles que não fossem eclesiásticos. Para atarraxar mais ainda, que provavelmente o até aqui não bastava, eis que vem Alexandre VI (ele mesmo, Rodrigo Borgia, um dos mais senão o mais corrupto dos papas, com uma multidão de filhos ilegítimos, obcecado por sexo e vinganças, e que vendeu centenas de títulos cardinalícios porque simplesmente gostava de dinheiro. Depois dele foi instituída a castidade para padres) e institui o Imprimatur, isto é a autorização oficial a qualquer material escrito (Nihil obstat quominus imprimatur), que nada mais era do que censura preventiva.

Só para dar um gostinho, dentre os autores no Índex estão:
Alexandre Dumas (os dois, pai e filho), Anatol France, Curzio Malaparte, Dante Alighieri, Darwin,Descartes,Erasmo de Rotterdam,Francis Bacon,Freud,Galileo Galilei, La Fontaine ,Madame de Staël, Montesquieu, Nicolau Copérnico, Nicoló Machiavelli, Pascal, Pierre Larousse (esse mesmo, o do dicionário),Simone de Beauvoir, Stendhal,Voltaire,Victor Hugo (e, por uma questão de espaço, só coloquei aqui meus preferidos, tem bem mais do que isso).

E, já que estamos a falar de censura, que tal lembrar da Inquisição? A ideia da coisa foi para combater heresias. Começou no séc.12, na França, onde se acabou com os Cátaros, Valdenses, Hussitas, Beguines e Franciscanos Espirituais. No início, os Inquisidores eram escolhidos da Ordem dos Dominicanos, depois que se espalhou pela Europa toda, ficaram mais democratas, incluindo outras ordens. De Portugal e Espanha, espalhou-se pela América centra e latina, Ásia e África. Piorou muito no fim da Idade Média, como resposta à reforma Protestante, e com exceção dos estados papalinos, foi abolida no início do século 19, depois das guerras napoleônicas na Europa. Subsistiu como parte da cúria romana até 1904, quando ganhou o nome de Suprema Congregação Sagrada do Santo Ofício, e em 1965 tornou-se Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo agora papa emérito Benedito XVI, quando ainda se chamava cardeal Joseph Aloisius Ratzinger.

Pergunto eu, o que tem a ver a fé pessoal com a Instituição Religiosa, qualquer que seja essa? Jamais me ocorreria, melhor dizendo, pode até me ocorrer, mas não cometeria o ato de insultar a fé de qualquer pessoa, embora me reserve o direito de aplaudir em pé Dante Alighieri, quando coloca os papas Nicolas III e Bonifácio VIII no nono círculo do Inferno, sob o pecado de simonia, que é o abuso de privilégios, principalmente os clericais. Segundo bom Dante, isso equivale a prostituição espiritual, fornicação e estupro ((Inf. 19.1-4; 55-7; 106-11), pois é a perversão do sagrado matrimônio entre Cristo e sua Igreja. Ou como Erasmo de Rotterdan crítica, com muito humor, os excessos, tanto da Igreja Católica à qual sempre pertenceu, quanto os da reforma Luterana, apesar de ser amigo e admirador de Martin Lutero.

“A sátira é um gênero de literatura, artes gráficas e espetáculo, em que vícios, loucuras, abusos, e deficiências são tornadas ridículas com a intenção de humilhar corporações, governo ou a própria sociedade, em busca de melhoras. Embora seja geralmente concebida para ser bem-humorada, seu propósito maior é a crítica social, utilizando inteligência como arma e como ferramenta para chamar a atenção para problemas específicos e mais amplos de uma sociedade” (Elliot, Robert C.: "The nature of satire", Enciclopédia Britânica, 2004).

Historicamente, a sátira satisfez a necessidade popular de desmascarar e ridicularizar as principais figuras da política, economia, religião e outros reinos proeminentes de poder, pois confronta o discurso público, desafiando líderes e autoridades, expondo problemas e contradições. Por sua natureza e função social, tem desfrutado em muitas sociedades uma licença especial para zombar de indivíduos e instituições de destaque (na Alemanha e na Itália, há leis específicas para isso). O impulso satírico e suas expressões ritualizadas, tem a função de resolver tensões sociais, representando uma válvula de escape, que restabelece o equilíbrio e a saúde no imaginário coletivo, os quais são postos em perigo pelos aspectos repressivos da sociedade.

“Na história de nossa cultura, a sátira realizou o sonho popular de ridiculariza e profanar os gigantes político/econômicos/culturais, cuja reações punitivas certamente não foram condicionadas pela crítica estética, mas sim pela tolerância ou intolerância caracterizadas, naquele momento histórico, pela sociedade e seus governantes.”( Bevere, Antonio e Cerri, Augusto (2006) Il Diritto di informazione e i diritti della persona ).

E, devido a todo o acima citado, os que satirizam sempre tiveram problemas ao se contenderem com a falta de humor dos satirizados, que poder não acha graça ao se olhar no espelho.

E já que estamos falando de cultura islâmica, vamos recordar que, no século 9, Al-Jahiz introduziu a sátira (hija) na literatura árabe, iniciando com a ironização da preferência humana por grandes pênis, escrevendo: “Se o tamanho do pênis fosse um sinal de honra, a mula faria parte da honorável tribo de Quaraysh”. No século 14, Ubayd Zakani introduziu a sátira na literatura persa. Ele foi famoso por seus versos obscenos, relacionados a práticas homossexuais.

Então, enquanto a Europa estava mergulhada nas trevas da Idade Média, o que chamamos de Islam desenvolvia-se culturalmente, com invenções como a matemática, medicina e sátira a rodo, e seu declínio iniciou-se exatamente quando foi posto um mulá, em cada sala de aula, para se certificarem de que o que fosse ensinado estaria exatamente de acordo com os escritos do profeta.

Infelizmente, pelo que tenho visto aqui nos USA, parece que queremos seguir pelo mesmo caminho do eterno retorno, expurgando autores como Mark Twain, porque fala sobre escravidão, expurgando livros de história quando os fatos históricos não se conformam com a visão do extremismo religioso, dando espaço enorme a esse mesmo extremismo na arena política, em detrimento do livre pensar.

Então, sim, Je suis Charlie e os milhares de muçulmanos mortos pelos próprios extremistas (aliás, a grande maioria dos assassinados) e todos aqueles que sofreram qualquer ataque por ter idéias diferentes do momento histórico/cultural no qual viviam, incluindo a estatística horrenda que aprendi recentemente, a respeito do Brasil, isto é, 87 jovens são assassinados por dia, e 77% são negros).

“Sempre pedi a Deus uma única coisa: Senhor, faça com que meus inimigos sejam ridículos. E Ele me atendeu.” Voltaire

“Charlie Hebdo não é uma revista “islamofaba, pela simples razão de que é ridículo acusar quem faz sátira, de fazê-lo por uma “persistente e irracional medo do islam”, ou quem faz uma piada sobre o Papa, de fazê-lo porque é “cristãofóbico”. Charlie hebdo é parte de uma grande tradição: a libertária, desbocada e anticlerical ironia que sempre esteve a tapas com os dogmas e conservadorismo endêmicos nas religiões. Todo leigo deve defender o direito de rir, comentar e criticar ideologias e sistemas de pensamento de todos os tipos sejam eles seculares ou religiosos. Arreliar idéias é o que fazemos todos os dias, com aqueles que votaram num partido diferente do nosso ou professam doutrinas que não compartilhamos. É a própria raiz da sátira. E é completamente diferente de uma pessoa insultando ou ironizando uma característica inata de outra, como a cor da pele ou etnia: na verdade, é o oposto do racismo.” (Giovanni Fontana –Piccolo Dizionario al contrario sulla strage di Parigi – Limes- revista italiana di geopolítica- http://temi.repubblica.it/limes/piccolo-dizionario-al-contrario-sulla-strage-di-parigi/67594?printpage=undefined)

Abaixo, livros que podem ser baixados gratuitamente. Farei isso, sempre que possível, com os pertinentes ao assunto em questão.

CÂNDIDO http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/candido.html

O ELOGIO DA LOUCURA http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/erasmo.html


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CARO NETINHO, MEMORIZE.

É início de ano e esse foi um presente que recebi de um amigo na Bahia. Não me lembro se comentei com ele minha paixão pelo Umberto Eco, o que não tem a mais remota importância, no frigir dos ovos. Decidi traduzir, porque é uma lição para todos nós, e não somente o netinho do citado. Neste artigo que saiu na revista ESPRESSO, o semiólogo e escritor manda uma carta ao netinho, com uma reflexão sobre a tecnologia e um conselho para o futuro: memorize, desde rimas infantis, à formação de seu time de futebol, ao nome dos empregados dos 3 Mosqueteiros, porque a Internet não pode substituir o conhecimento, nem o computador nosso cérebro.

“Caro netinho meu,
Não quero que essa missiva natalina pareça por demais deamicisiana, e exibisse conselhos a respeito de amor por nossos semelhantes, pela pátria, pelo mundo, ou coisas do gênero. Você não me daria atenção e, no momento de colocar tudo em prática (você adulto e eu ultrapassado), o sistema de valores estará tão modificado que, provavelmente minhas recomendações pareceriam datadas. Assim, quero ficar numa única recomendação, que podes colocar em prática desde já enquanto navegas no teu IPad, nem cometerei o erro de te aconselhar a não fazê-lo, nem tanto porque pareceria um avô chato, mas pelo simples fato que faço a mesma coisa. Posso apenas te recomendar que, se por acaso caires em algum site pornô que mostra o relacionamento entre dois seres humanos, ou entre um ser humano e um animal, de mil maneiras diferentes, tente não acreditar que aquilo seja sexo, entre outras coisas, muito monótono, porque na realidade é um show para te obrigar a não sair de casa e olhar para meninas de verdade. Parto do princípio que sejas heterossexual, caso não o sejas, adapta minhas recomendações a seu caso, mas olha para as meninas, na escola ou onde vais brincar, porque são muito melhores do que aquelas televisivas, e um dia, te darão satisfações maiores que aquelas on line. Acredita em quem tem mais experiência do que tens (se eu tivesse olhado só para sexo no computador, teu pai nunca teria nascido, e tu, quem sabe onde estarias, melhor dizendo, não serias coisa nenhuma).

Mas não era disso que queria te falar, mas sim de uma doença que atacou sua geração e mesmo a de gente mais velha, que provavelmente já está na faculdade: a perda de memória.

Verdade que se te der na telha de saber quem raios foi Carlos Magno
ou onde fica Kuala Lampur, é só apertar alguns botões que a Internet te responde no ato. Faça quando necessário, mas depois que o fizer, tente lembrar o que leu, para não ser obrigado a procurar de novo, caso aparecesse a necessidade, digamos, uma pesquisa na escola. O risco é que, como pensas que teu computador possa te responder o que quiser a todo instante, tu percas o gosto de meter as coisas em tua cabeça. Seria mais ou menos como, em tendo aprendido que, para ir da Rua X à Rua Y existe o ônibus ou o metrô, que permite que nos movimentemos sem esforço (o que é extremamente cômodo, portanto use sempre que estiver com pressa), venha a pensar que não tenha mais a necessidade de andar. Mas, se não caminhar o suficiente, vais te tornar “diferentemente habilitado”, como se diz hoje para os que são obrigados a andar em cadeira de rodas.Tá certo, sei que praticas esportes e portanto, sabes como movimentar teu corpo. Mas voltemos a teu cérebro.

A memória é um músculo, feito o das tuas pernas, e se não o exercitas, se atrofia e tu te tornas (do ponto de vista mental) “diversamente habilitado”, isto é (vamos falar claro), um idiota. E, além disso, desde que, para todos existe o risco de, quando envelhecemos nos apareça o Alzheimer, uma das maneiras de evitar tão desagradável incidente é exercitando a memória, sempre.

Assim, aqui vai minha dieta. A cada manhã, aprende algum verso, uma poesia breve, ou como fizeram com minha geração, “La cavallina storna” ou “Il sabato nel villagio”. E quem sabe, invente competições com os amigos para ver quem lembra melhor. Se não gostas de poesia, faça o mesmo com a formação dos jogadores de futebol. Mas não vale apenas saber quem são, hoje, os jogadores de seu time predileto, mas também os de outros times, e quem sabe, times do passado (imagina que lembro a formação do Torino quando o avião deles se arrebentou em Superga, com todos os jogadores a bordo: Bacigalupo, Ballarin, Maroso, etc.). Faça competições de memória, quem sabe sobre os livros que leu (quem estava a bordo da Hispaniola na busca da ilha do tesouro?
Lord Trelawney, Capitão Smollet, o doutor Livesey, Long John Silver, Jim…). Veja se seus amigos se lembram quem eram os empregados dos 3 Mosqueteiros e do D’Artagnan (Grimaud, Bazin, Mousqueton e Planchet). E se não quiser ler ‘Os três Mosqueteiros” (e não sabes o que estarás perdendo), faz com qualquer outra história que tenhas lido.

Parece uma brincadeira (e o é), mas verás como tua cabeça se encherá de personagens, histórias, lembranças de todos os tipos. Tenho certeza que já se perguntou porque, antigamente,os computadores eram chamados de cérebros eletrônicos: é porque foram concebidos no modelo de teu (nosso) cérebro, mas, nosso cérebro tem muito mais conexões do que qualquer computador, na realidade é uma espécie de computador que carregas entre tuas orelhas e que cresce e se fortalece com exercício, enquanto que o computador que tens na mesa à tua frente, quanto mais o usas, mais velocidade perde, e depois de poucos anos, tens que muda-lo. Ao invés disso, teu cérebro pode durar até os 90 e, aos 90 anos, se o mantiveste exercitado, vai lembrar de mais coisas do que lembra hoje. E de graça.

Também tem a memória histórica, aquela que não diz respeito aos fatos de tua vida, ou às coisas que leste, mas àquilo que aconteceu antes de teu nascimento.
Hoje, se vais ao cinema, tens que entrar em horário pré determinado, quando o filme começa, e assim que começa, alguém, vamos dizer assim, te pega pela mão e te diz o que está acontecendo. No meu tempo, podíamos entrar no cinema a qualquer hora, até mesmo na metade do filme, e procurávamos entender o que tinha acontecido antes (daí, quando o filme recomeçava, a gente via se tinha entendido tudo direitinho, além do fato que, se gostássemos do filme, podíamos ver e rever o que já tínhamos visto). Pois é, a vida é como um filme dos meus tempos. Entramos nela quando muitas coisas já aconteceram, há milhares de anos, e é importante aprender o que aconteceu antes que nascêssemos; serve para entender melhor o porquê, hoje, acontece tantas coisas novas.

Pois bem, a escola (assim como tuas leituras pessoais), deveria te ensinar a memorizar aquilo que aconteceu antes de teu nascimento, mas pelo visto não estão fazendo um bom trabalho a esse respeito, desde que várias pesquisas nos mostram que os jovens de hoje, mesmo aqueles já na faculdade, se, por acaso nasceram em 1990, não sabem (e talvez nem queiram saber) o que aconteceu em 1980 (e nem falemos do que aconteceu há 50 anos). As estatísticas nos informam que, se perguntas quem foi Aldo Moro, respondem que era o chefe das Brigadas Vermelhas, quando na realidade, ele foi morto por elas.

Mas não falemos das Brigadas Vermelhas, que continuam a ser um mistério para muitos, embora estivessem muito presentes há apenas 30 anos. Eu nasci em 1932, dez anos depois da tomada do poder pelos fascistas, e sabia até quem havia sido o primeiro ministro nos tempos da “marcha sobre Roma” (que é isso?). Talvez, a escola fascista o tenha ensinado para me explicar como era estúpido e mau o citado ministro (o imbecil Facta), que os fascistas tinham substituído. Certo, mas pelo menos, sabia. E, além da escola, um jovem hoje não sabe quem eram as atrizes do cinema de há 20 anos, enquanto eu sabia quem era Francesca Bertini,
atriz do cinema mudo, 20 anos antes de meu nascimento. Talvez porque folheava revistas velhas guardadas no sótão lá de casa, mas esse é o ponto, te convido a folhear revistas velhas, que é uma maneira de aprender o que aconteceu antes de teu nascimento.

Mas, porque é tão importante saber o que aconteceu antes? Porque, muitas vezes, o que aconteceu antes explica a razão de coisas que estão acontecendo agora, e de qualquer maneira, como para a formação dos jogadores, é um jeito de enriquecer a memória.

Atente que isso tudo, o podes fazer, não só com livros e revistas, porque é perfeitamente possível, via Internet, a qual é para ser usada, não só para trocar mensagens com amigos, mas também para trocar mensagens com a história do mundo. Quem eram os ititas? E os camisardos? Como se chamavam as 3 caravelas de Colombo?
Quando foi que os dinossauros desapareceram? A Arca de Noé tinha timão? Como se chamava o ancestral do boi? Havia mais tigres há cem anos do que hoje? O que era o Império de Mali? E quem falava do Império do Mal? Quem foi o segundo papa da história? Quando apareceu o Mickey?

Poderia continuar infinitamente, e seriam todas belas aventuras de pesquisa. E tudo para se lembrar. Chegará o dia em que estarás velho e estará se sentindo como se tivesse vivido mil vidas, porque será como se estivesses estado presente na Batalha de Waterloo,
tivesse assistido o assassinato de Júlio César e tivesses passado a pouca distância do local onde, Bertoldo o Negro,
em misturando substâncias para descobrir um jeito de fabricar ouro, por engano descobriu a pólvora e explodiu-se (e muito bem feito para ele).

Outros amigos teus, que não cultivaram a memória, terão vivido apenas uma vida, a deles mesmos, que deve ter sido muito melancólica e pobre em emoções.

Então, cultive a memória, e a partir de amanhã, memorize “La Vispa Teresa”.”

O que de melhor posso desejar a todos no ano que se inicia, do que viver mil vidas e mil aventuras? Avanti popolo!

http://espresso.repubblica.it/visioni/2014/01/03/news/umberto-eco-caro-nipote-studia-a-memoria-1.147715?ref=fbpe

La Vispa Teresa, de Luigi Salier, poeta completamente desconhecido, cuja única obra que todas as crianças italianas conhece, é essa (1850)

La vispa Teresa
avéa tra l’erbetta
a volo sorpresa
gentil farfalletta, e tutta giuliva
stringendola viva
gridava a distesa:
“L’ho presa, l’ho presa!”
A lei, supplicando,
l’afflitta gridò:
“Vivendo volando
che male ti fò?
Tu si mi fai male
stringendomi l’ale.
Dhe, lasciami! Anch’io
son figlia di Dio”!
Confusa, pentita,
Teresa arrossì,
dischiuse le dita
e quella fuggì!



Em 1917, Carlo Alberto Salustri, conhecido como Trilussa, continua a poesia de forma irônica, e é essa a versão que aprendi com meu tio Gino:

Se questa è la storia,
che sanno a memoria
i bimbi di un anno,
pochissimi sanno
che cosa le avvenne
quand’era ventenne!
Un giorno di festa,
uscendo di Chiesa
la vispa Teresa
alzava la vesta
per farsi vedere
le calze sciffonne,
che a tutte le donne
fan tanto piacere.
Armando, il pittore,
vedendola bella,
le chiese il favore
di far da modella.
“Verrete?” “Verrò,
ma badi però…!”
“Parola d’onore!”
rispose il pittore.
Il giorno seguente,
Armando, l’artista,
stringendo furente
la nuova conquista,
gridava a distesa:
“L’ho presa, l’ho presa!”
“Così mi fai male
la spina dorsale!
Mi lasci ! Che anch’io
son figlia di Dio!
Se ha il suo programma
ne parli a la mamma!”
A quella minaccia
Armando tremò,
dischiuse le braccia,
ma quella restò!
Perduto l’onore,
sfumata la stima,
la vispa Teresa
più vispa di prima,
per niente pentita,
per niente confusa,
pensò che l’onore
non è che una scusa.
Per circa tre lustri
Fu cara a parecchi,
fra giovani e vecchi,
fra oscuri ed illustri.
La vispa Teresa
fu presa e ripresa.
Contenta e giuliva
Soffriva e s’offriva!
(la donna che soffre
se apostrofa l’esse
ha tutto interesse
di dire che s’offre!)
Ma giunta ai cinquanta,
con l’anima affranta,
col viso un po’ tinto,
col resto un po’ finto
per trarsi d’impàccio
dai prossimi acciacchi,
apriva uno Spaccio
di Sale e Tabacchi.
Un giorno, un cliente,
chiedendo un “toscano”
le tese la mano,
così…casualmente.
Teresa la prese,
la strinse e gli chiese:
“Mi vuole sposare?
Farebbe un affare!”
Ma lui, di rimando,
rispose: “No, No!
Vivendo fumando
che male le fò?”
Confusa e pentita
Teresa arrossi,
dischiuse le dita,
e quello fuggì!
Ed ora Teresa,
pentita davvero,
non ha che un pensiero
d’andarsene in Chiesa.
Con l’anima stracca
Si siede e stabacca,
offrendo al Signore
gli avanzi di un cuore
che batte la fiacca.
Ma spesso guardando
con l’occhio smarrito
la polvere gialla
che resta nel dito,
le sembra il detrito
di quella farfalla
che un giorno ghermiva
stringendola viva.
Così, come allora,
Teresa risente
la voce innocente
che prega ed implora:
“Dhe, lasciami! Anch’io
son figlia di Dio!
Fu proprio un bel caso”
sospira Teresa,
fiutando la presa
che sale nel naso.
“Se qui non son lesta
mi scappa anche questa!”
E fiùta e rifiùta,
tossisce e sternùta,
il naso è una tromba
che squilla e rimbònba
e pare che l’eco
si butti allo spreco!
Fra un fiòtto e un rimpianto,
tra un sòffio e un eccì,
la vispa Teresa…
…lasciàmola lì!