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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

BLOG DO FIM DE ANO

Fim de ano, tempo de reflexões. Este ano, não farei o blog costumeiro de resumos de acontecidos no ano que se finda. Por alguma razão, estou com a impressão de que, apesar de todos os fantásticos avanços da ciência, que pelo menos trazem esperança, estou com gosto amargo na boca. Aquela sensação dificil de definir, talvez ansiedade, de que, apesar de todas as esperanças citadas, enquanto humanidade, estamos num desejo de volta à Idade das Trevas, que parece encobrir o mundo com manto plúmbeo ( e óbviamente eis que traduzo o que sinto numa escrita bombástica).

Vai daí que decidi simplesmente postar duas fábulas, que me fazem muito bem. A primeira é do Robert Fulghrum, que considero o maior filósofo americano vivo, está na minha lista de gente que quero conhecer pessoalmente, antes de morrer, e com certeza, minha alma gêmea. Descobri, ao ler uns dos livros dele, que compartilhamos o horror das “reuniões de staff”, onde acho que um monte de gente, usualmente inteligente, emburrece repentinamente e assim permanece até o término da citada. Ele, numa reunião de professores, na faculdade onde dava aulas, conseguiu dormir tão profundamente que caiu da cadeira e se esfaqueou com uma daquelas faquinhas de escoteiro, que estava perdida em seu bolso, e sobre a qual caiu. Nunca cheguei a esse preciosismo, até mesmo porque não carrego comigo faquinhas de qualquer espécie, mas já escorreguei de muita cadeira, cabeceei e até babei uma vez. A segunda união de almas é nossa paixão por subir em árvores. Ele, claro, sendo americano, é portador de carteirinha da “Associação Internacional de Trepadores de Árvores”, com sede em Atlanta, GA. Eu, mais modesta italo/brasileira, me contento em estragar a venda de uma casa. Foi absolutamente sem intenção. Pois bem, alguns anos atrás, tomada de espírito natalino, eis que decido, num dos imvernos mais frios que já passei em Houston, até nevou, enfeitar as duas árvores postadas em frente à minha casa. Assim, vestida no melhor estilo cebola, desde aqueles calçolões vermelhos do Pluto, até tenis bem velho, luvas e boina de pescador, preta que nem minha era, mas de marido, enrolada em fios e luzes, vou à luta. E lá estou, bem plantada no meio da árvore, tentando me desvencilhar dos fios que nessa altura estavam mais enrolados que meus pensamentos, na casa vizinha chega uma familia, marido mulher e 3 crianças, acompanhados da senhora da imobiliária, que a casa estava à venda. E assim, continuando enrolada mas natalina até a medula, solto um sonoro “Bem vindos! Feliz Natal”. E tento acenar alegremente, o que foi uma péssima idéia, pois perdi o equilibrio, que já não é lá essas coisas, e lá vim eu abaixo, ainda embrulhada na que deveria ser uma alegria natalina. Ao contrário do Robert, não sofri nenhuma concussão, só fiquei toda ralada. A familia sumiu. Então sem mais, aqui vai:

TUDO O QUE DEVERIA SABER NA VIDA, APRENDI NO JARDIM DE INFÂNCIA
"Tudo o que eu preciso mesmo saber sobre como viver, o que fazer, e como ser, aprendi no jardim-de-infância A sabedoria não estava no topo da montanha mais alta, no último ano de um curso superior, mas no tanque de areia do pátio da escolinha maternal. Vejam o que aprendi:
Dividir tudo com os companheiros.
Jogar conforme as regras do jogo.
Não bater em ninguém.
Guardar os brinquedos onde os encontrava.
Arrumar a "bagunça" que eu mesmo fazia.
Não tocar no que não era meu.
Pedir desculpas, se magoava alguém.
Lavar as mãos antes de comer.
Puxar a descarga depois de usar a privada.
Biscoito quente e leite frio fazem bem à saúde.
Fazer de tudo um pouco – estudar, pensar, desenhar, pintar, cantar e dançar, brincar e trabalhar, de tudo um pouco, todos os dias.
Tirar uma soneca todas as tardes.
Ao sair pelo mundo, cuidado com o trânsito, ficar sempre de mãos dadas com o companheiro e sempre "de olho" na professora.

Pense na sementinha de feijão, plantado no copo de plástico: as raízes vão para baixo e para dentro, e a planta cresce para cima – ninguém sabe como ou por quê, mas a verdade é que nós também somos assim.

Peixes dourados, porquinhos-da-índia, esquilos, hamsters e até a semente no copinho plástico – tudo isso morre. Nós também. E lembre-se ainda dos livros de histórias infantis e da primeira palavra que aprendeu, a mais importante de todas: Olhe! Tudo que você precisa de saber está por aí, em algum lugar. A regra de ouro, o amor e os princípios de higiene. Ecologia e política, igualdade e vida saudável.

Escolha um desses itens e o elabore em termos sofisticados, em linguagem de adulto; depois aplique-o à vida da sua família, ao seu trabalho, à forma de governo do seu país, ao seu mundo, e verá que a verdade que ele contém mantém-se clara e firme. Pense o quanto o mundo seria melhor se todos nós – o mundo inteiro – fizéssemos um lanche de biscoitos com leite às três da tarde e depois nos deitássemos, sem a menor preocupação, cada um no seu colchãozinho, para uma soneca. Ou se todos os governos adotassem, como política básica, a ideia de recolocar as coisas nos lugares onde estavam quando foram retiradas; arrumar a "bagunça" que tivessem feito.
E é verdade, não importa quantos anos tem: ao sair pelo mundo, vá de mãos dadas, e fique sempre "de olho" no companheiro."

E a segunda parte, a fábula O SÁBIO E A VERDADE, não faço a mais remota idéia de quem seja, mas a escutava em muito bom italiano, de meu nonno Brando, que me ensinava que as verdades não precisam necessáriamente serem enunciadas como murros no nariz, grande professor esse meu querido “anarquista e ateu, graças a Deus”.

“Era uma vez um imperador que sonhou que tinha perdido todos os dentes. Acordou apavorado e mandou buscar um sábio, para que interpretasse seu sonho.
Senhor, que desgraça, exclamou o sábio, cada um de seus dentes caidos representa uma pessoa de sua família que vai morrer.
Mas que insolente! Berrou o imperador, e mandou chicotear com gosto o assim chamado sábio.
E mandou imediatamente que buscassem outro sábio.
Este chegando, e sendo dito do sonho, exclamou: Senhor, grande felicidade vos espera. Sua majestade terá vida mais longa do que todos em sua familia!
O rosto do imperador se iluminou e mandou que entregassem cem moedas de ouro ao sábio.
Um dos presentes, o curioso que sempre existe em qualquer lugar, ficou intrigado e foi falar com o sábio.
Como foi que isso aconteceu, perguntou ele. Sua interpretação foi igualzinha à do primeiro sábio, mas o tal levou chicotadas e você levou ouro!
Meu amigo, respondeu o sábio, tudo depende de como se veem as coisas.”

E assim, manto plúmbeo desaparecido, vos desejo que, em 2016 , ousem ver as coisas, saiam pela vida de mãos dadas, e se atrevam a escalar árvores.

Beijos

Patrizia

sábado, 19 de dezembro de 2015

16 MANEIRAS DE COMO MELHORAR SUA SAÚDE MENTAL EM 2016

Usualmente, as decisões de começo de ano, focam na saúde física, mas que tal pensar na mental este ano?
Enquanto nossa cultura, em geral, não fala dessa parte, provavelmente pelo estigma a respeito, bem estar emocional deveria ser nossa prioridade.
Globalmente, 1 em 4 pessoas sofre de algum problema mental em algum ponto de sua vida. Mas, mesmo que não se esteja passando por ansiedade ou depressão, focar em nossa saúde mental pode fazer de 2016 o melhor ano de nossas vidas.
Saúde mental afeta como pensamos, sentimos e agimos, diariamente, assim como influencia como lidamos com stress, como tomamos decisões e como nos conectamos uns aos outros. Então, se está decidido a colocar saúde mental no topo de sua lista de prioridades, aqui vão algumas maneiras simples de fazer isso:

1-FALE COM SEU MÉDICO
O primeiro passo de qualquer mudança saudável, é consultar um médico a respeito dos passos apropriados a serem tomados. Clinicos gerais usualmente podem aplicar testes de depressão e consultas de saúde mental. Daí podem referi-lo a um especialista que vai trabalhar com suas necessidades específicas.

2-PRATIQUE GRATIDÃO
A vida fica muito melhor quando se olha para o lado brilhante dela. Pesquisas sugerem que, o expressar as coisas pelas quais se é grato, desde seu cachorro até uvir no rádio sua música preferida, melhora seu bem estar mental.

3-EXPERIMENTA MEDITAÇÃO
A coisa tem uma montanha de beneficios, desde melhor concentração a melhora no bem estar de forma geral. Há vários métodos e nem é complicado. Só alguns minutinhos logo ao acordar ou antes de dormir, de formas a começar ou terminar o dia numa nota positiva.

4-FAÇA UM DIÁRIO
Colocar a caneta no papel pode ser uma experiecia liberadora e catartica. Tente manter um diário ou simplesmente escreva suas ansiedades, pique e jogue no lixo. Um estudo de 2012 descobriu que, escrever o que o está estressando e ai, jogar fora, pode ajudar a clarear sua mente. Também é aconselhavel escrever quando suas preocupações o mantém acordado à noite.

5-VAI FAZER TERAPIA
É sério. Do mesmo jeito que vai ao médico quando não se sente bem, a mesma coisa deveria ser aplicavel à problemas mentais.Há muitos métodos, desde “terapias da fala”até cognitivo comportamentais. Os profissionais de saude podem ajudá-lo a descobrir qual é a melhor para você.Falar a respeito dos problemas ajuda muito, porque dá uma prespectiva da coisa. Já, falar com alguém que foi treinado para tratar de problemas,é melhor ainda.

6-EXERCITE-SE PELO MENOS ALGUMAS VEZES POR SEMANA
Endorfinas são pura magia. Quando se faz exercícios, o cérebro libera essas particulas quimicas do bem, dando-nos imediata melhora no humor. Melhor ainda é exercitar-se ao ar livre. Pesquisa sugere que andar em grupos melhora os sintomas da depressão. Sim, seu cachorro pode e é parte de seu grupo. Mais de um, já é grupo.

7-APOIE-SE EM SEU SISTEMA DE SUPORTE
Afinal de contas, amigo é prá essas coisas. Um estudo de 2011 demonstrou que estar com seu melhor amigo/a pode reduzir stress. A pesquisa também demonstrou que as conexões sociais são imperativas para a saúde mental. Gaste o máximo possivel de seu tempo com quem você ama, jantando fora, ou simplesmente assistindo filme no Netflix com pipoca.

8- APRENDA
A seu próprio respeito e do mundo onde vive. Simples. Problemas mentais são muito mais simples de lidar se souber o que está acontecendo dentro de sua cabeça. Por exemplo, sabia que algumas condições podem ser genéticas? Aprenda o máximo possivel sobre sua condição ou a das pessoas com as quais convive. Conhecimento é poder. Então, mantenha um apetite saudável também por conhecimento em geral. Leia um livro, vai a um museu, aprenda uma nova lingua. Todas as pesquisas tem demonstrado que, o aprendizado continuo mantem a mente aguçada.

9- ADOTE DIETA BALANCEADA
Que nada tem a ver com o modismo do dia.Coloque mais frutas e verduras na dieta. Nozes de todos os tipos também.

10- OUÇA MÚSICA DE FOSSA
Vail á, canta junto “O meu mundo caiu...”Ir fundo na melancolia pode ajudar a melhorar mais depressa. Pesquisas demonstram que musicas tristes ajudam na cura depois de um término doloroso. Podem ajudar também a derrubar algumas lágrimas, o que é bom para desafogar.

11-VIAJE
Algumas vezes, uma mudança de perspectiva envolve uma mudança de cenário. A ciência sugere que o simples fato de planejar uma viagem, já melhora seu humor, na medida que se antecipa a coisa toda. Também estar perto do oceano acalma.

12- DURMA MAIS.
Quem não adora uma desculpinha para ficar na cama? Falta de sono não só estraga sua saúde física, como também provoca um tsunami na mental. Deprivação de sono pode dificultar na regu;ação de emoções, e dormir mal pode ser sintoma de sérios problemas mentais. Procure ir para a cama 10 minutos mais cedo a cada dia, seja regular na hora de levantar e de dormir e para de tomar café pelo menos 6 hs antes de dormir. Álcool também não é bom para o sono, a não ser um copo de vinho ao jantar. Computador, tablet, cell então, são péssimos.

13- FAÇA UMA DESITOXICAÇÃO DIGITAL.
A mídia social nada mais é que um monte de slides muito bem escolhidos da maravilhosa vida de alguém mais, o que não evita de que sintamos um certa invejinha todas as vezes que alguém posta uma foto de sua festa fabulosa, seu carro novo ou o diamantão ganho no noivado, no exato momento em que estamos de camiseta velha e nossas unhas necessitam mais do que urgentemente da manicure. Farta pesquisa sugere que as pessoas podem sentir sintomas de depressão só de ficar no Face, causada por comparação interna, que está acontecendo, inconscientemente. O antidoto? Parar com isso. Fique o menos tempo possivel na coisa, para o bem de sua saúde mental, porque, embora ainda não tenha lido qualquer pesquisa a respeito, tenho certeza que a maravilha das fotos que aparece no FB tem uma relação inversa com nosso estado de espirito, ou seja, vemos fotos maravilhosas quanto mais em baixa estivermos.

14- SEJA GENTIL E EXPRESSE GENTILEZA
Quer se sentir bem? Faça alguém se sentir bem. Estudos e mais estudos demonstram que gentileza é uma coisa cíclica. Quando se faz o bem para alguém, isso faz com que eles se sintam bem, o que o torna mais feliz. Mesmo o mais pequeno dos gestos pode fazer a diferença. Tem um estudo fotográfico fantástico, mostrando o sorrisão de adolescentes mundo afora, quando alguém lhs dizia que eram lindos.

15- APRENDA A DIZER NÃO
Letrinha pequena, mas completa sentença. Esgotamento é fácil, no trabalho e em casa sem ela. Assegure-se de passar algum tempo sozinho e prioritize seu bem estar mental. Se não quer ir a uma festa, das milhares de fim de ano, não vá. Se está sobrecarregado no trabalho, veja o que é seu e o que está carregando que não lhe pertence. O cuidar de si mesmo NÃO É EGOISMO.

16-FALE COM OUTROS SOBRE SAÚDE MENTAL
Nunca se sabe a quem se pode estar ajudando. Gente como Demi Lovato e Colton Haynes fizeram projetos, documentários e séries de fotos a respeito de saúde mental, e todos nos ganhamos com isso. O único jeito de erradicar o estigma é continuar falando, e você pode ser parte da mudança. Vai firme.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

PALAVRAS VIOLENTAS LEVAM A ATOS VIOLENTOS?

"A receptividade das massas é muito limitada, sua inteligência pequena, mas seu poder de esquecimento é enorme. Em conseqüência desses fatos, toda a propaganda eficaz deve ser limitada a alguns poucos pontos que devem ser repisados e repetidos até que o último membro do público entenda o que você quer que ele entenda por seu slogan ". Adolf Hitler, Mein Kampf

Neste momento histórico, no qual parece que a retórica da violência se espalha feito retrovirus, este artigo da Sara Lipton, professora de historia na State University de NY, nos obriga a pensar muito seriamente. Porque pedir desculpas depois, ou simplesmente se eximir de culpas, não resolve muito. Aí no Brasil, temos os Bolsonaros da vida e a cultura da submissão e violência contra mulheres, a bancada evangélica do congresso estimulando o “nós santos contra vocês pecadores”, os congressistas se pegando a tapa em discussões sobre ética, lama se espalhando de canto a canto, a real e a figurada. Aqui, o Trump (que no ingles original, lá da terra de sua Majestade, significa peido), estimulando o pânico contra aqueles que não se parecem conosco, uma ala inteira, e grande, do Partido Republicano, o auto denominado “Tea Party”, em referência aos americanos que despejaram na baia de Boston o chá, provindo da Inglaterra, misoginistas até a medula de seus ossos, com discursos inflamados a respeito de tudo o que não é branco leite, nem rico. A extrema direita fazendo uma ressureição feito fênix na França, e, é claro, o ISIS, que simplesmente pulou a parte do discurso e foi diretamente a uma violência devastadora à tudo aquilo que mais assusta os sem discurso e sem razão: cultura e o poder da civilização, a qual, prestem atenção, é uma palavra feminina.

Para ler o artigo original, clique aqui http://www.nytimes.com/2015/12/13/opinion/the-words-that-killed-medieval-jews.html?smid=fb-nytimes&smtyp=cur&_r=0

“ A Procuradora-Geral Loretta E. Lynch recentemente expressou sua preocupação de que a retórica política anti-muçulmana provocaria um aumento nos ataques contra os muçulmanos. Alguns afirmam que o tiroteio em massa do mês passado em Colorado Springs, foi provocado pela afirmação de Carly Fiorina que Planned Parenthood era uma fábrica de "colheita de pedaços de bebês"; Dona Fiorina contrapôs que a linguagem não pode ser responsabilizada pelos atos de um homem "perturbado". Debates semelhantes têm sido ocasionados pelo espancamento de um homem latino-americano sem-teto em Boston, supostamente inspirado pela retórica anti-imigração do Donald J. Trump, e pela morte a tiros de policiais na Califórnia, Texas e Illinois, que alguns atribuíram aos sentimentos contra políciais nos protestos “Vidas Negras Contam”.

Nenhum historiador pretende ter insights sobre as motivações dos indivíduos, mas a história mostra que uma da retórica “incendiária” contra um determinado grupo pode incitar a violência contra esse grupo, mesmo quando não há qualquer necessidade da mesma. Quando um grupo é rotulado como hostil e brutal, seus membros são mais propensos a serem tratados com hostilidade e brutalidade. As imagens visuais são particularmente poderosas, estimulando ações que podem até nem serem intencionais pelos criadores das imagens.

A experiência dos judeus na Europa medieval oferece um exemplo preocupante. A teologia cristã oficial e a política em relação aos judeus, se manteve praticamente inalterada na Idade Média.A cerca de 1000 anos, o cristianismo condenou os princípios fundamentais do judaísmo e "os judeus" responsáveis pela morte de Jesus foram detidos. Mas os termos em que essas idéias foram expressas mudou tudo, radicalmente.

Até o ano 1100, as devoções cristãs eram focadas na natureza divina de Cristo e em seu triunfo sobre a morte. Imagens da crucificação mostravam um Jesus vivo e saudável na cruz, e por isso seus assassinos não eram o principal focos do pensamento cristão. Não havia polêmicas anti-judaicas, e as obras de arte retratavam seus algozes não como judeus, mas como soldados romanos(mais historicamente correto) ou como matutos sem noção.. Embora existam registros de esparsos episódios anti-judaicos como conversões forçadas, não havia, até aqui .um padrão consistente de violência anti-judaica.

Nas décadas em torno de 1100, uma mudança no foco da veneração cristã trouxe os judeus à tona. Em um esforço para estimular a compaixão entre os adoradores cristãos, pregadores e artistas começaram falar e pintar detalhes vívidos da dor de Cristo. Assim, ele foi transformado de juiz divino e triunfante, em salvador sofrido. Uma tática paralela, destinada a fomentar o sentimento de unidade dos cristãos, foi ressaltar a crueldade de seus supostos torturadores, os judeus.

Parte por esta identificação com um Cristo vulnerável, parte em resposta aos recentes sucessos militares turcos, e em parte porque um movimento de reforma interna estava questionando os fundamentos da fé, os cristãos começaram a se ver como se estivessem sendo ameaçados Em 1084 o papa escreveu que o cristianismo "caiu sob o escárnio, não só do Diabo, mas de judeus, sarracenos e pagãos". O "Aguilhão do Amor", uma releitura da crucificação que é considerada o primeiro tratado anti-judaico, foi escrito por volta de 1155-1180. Ele descreve os judeus como consumidos pelo sadismo e com sede de sangue, e assim, eles começaram a ser vistos como inimigos, não só de Cristo, mas também dos cristãos; foi nessa época que os judeus começaram a ser acusados de sacrificar ritualmente crianças cristãs.

Feroz retórica anti-judaica começou a permear sermões, peças de teatro e textos polêmicos. Judeus foram marcados como demoníacos e gananciosos. Em uma diatribe, o chefe do mosteiro mais influente da cristandade trovejou aos judeus: "Por que vocês não se chamam de animais irracionais? Por que não de bestas? "Imagens começaram a retratar os judeus como criaturas do mal com caricatos narizes aduncos.

Os primeiros registros de violência anti-judaica em grande escala, coincidem com esta mudança de retórica. Embora o papa, que pregou a Primeira Cruzada tivesse chamado apenas para uma "peregrinação armada", para retomar Jerusalém dos mussulmanos, as primeiras vítimas da Cruzada não foram os governantes turcos de Jerusalém, mas os residentes judeus da Renânia alemã. Relatos contemporâneos registraram os cruzados perguntando por que, se eles estavam viajando para uma terra distante para "matar e subjugar todos estes reinos que não acreditam no Crucificado", eles também não devem atacar "os judeus, que o mataram e crucificaram?"

Centenas, talvez milhares, de judeus foram massacrados em cidades onde haviam residido em paz por várias gerações. Em nenhum momento as autoridades cristãs promoveram ou consentiram com violência. A teologia cristã, que aplicava o verso do salmo "Não os mate" para os judeus, insistiu que os judeus não deveriam ser mortos por sua religião, e isso não tinha mudado. Clérigos estavam embasbacados para explicar os ataques. Um clérigo de uma cidade vizinha atribuiu os massacres a "algum erro da mente."

Mas nem todos os assassinos da Renânia eram loucos. Os cruzados começaram esse genocídio, na época da Páscoa. Ambos, cruzada e pregação da Páscoa, despertaram enorme raiva sobre a crucificação e medo dos inimigos hostis e ameaçadores. Não é de surpreender que as bandas armadas beligerantes transformaram tal retórica em ação anti-judaica.

Por todo o resto da Idade Média, esse padrão foi repetido: Pregações sobre as cruzadas, proclamações de "inimizade" dos judeu ou acusações anti-judaicas infundadas foram seguidas por surtos de violência anti-judaica, que as mesmas autoridades que haviam despertado as zelosas paixões dos cristãos, agora, chocadas, foram incapazes de conter. Vemos isso na Renânia durante a Segunda Cruzada (1146), na Inglaterra durante a Terceira Cruzada (1190), em Franconia em 1298, em muitas localidades depois da Peste Negra em 1348, e na Península Ibérica em 1391. Às vezes, os agressores eram zelosos guerreiros sagrados, por vezes, eram oportunistas rivais nos negócios, às vezes pais em luto pela morte de suas crianças por acidente ou crime, ou com medo dos estragos de uma nova doença.

Alguns deles podem muito bem ter sido insanos. Mas sãos ou dementes, eles não pegaram suas vítimas em um vácuo. Foi a escoriação desumanizante e repetida, que levou os cristãos medievais a atacar as pessoas que tinham sido por muito tempo seus vizinhos.

Provedores da retorica anti-muçulmana, anti-imigrantes, anti-polícia . anti-aborto, anti gay, anti feminismo de hoje podem até nem ter a intenção de provocar violência contra os muçulmanos, imigrantes, policiais e profissionais de saúde. Mas, à luz da história, eles não devem se chocar quando a violência acontecer.”

E em minha modesta opinião, não deveriam não só se chocar, mas também serem responsabilizados pela violência que provocaram. É inconcebivel que um adulto ou adulta, que faz sua vida em politica, possa ser tão desligado mentalmente que não consiga imaginar as possiveis consequencias da instilação do ódio. Porque não é, nem nunca foi o amor que nos une.

Na psicologia das massas, o que une, mais do que tudo, é o medo e ódio comuns, voltados contra um inimigo, fora de nós mesmos e facilmente identificavel. Porque é muito mais fácil ver um cisco no olho do outro do que um galho inteiro dentro do nosso. E, provavelmente por causa disso que Freud foi e é tão odiado. Ele apontou, sem meias palavras, o galho dentro de nosso olho, quando colocou: “Quando Pedro fala de Paulo, aprendo muito mais sobre Pedro do que sobre Paulo.”.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

OS 5 MITOS DO TERRORISMO

Estamos vivendo, como diz a maldição chinesa, tempos interessantes. E assustadores. Em duas semanas, tivemos ataques terroristas em práticamente todo o globo, e me perdoem se considero a quebra das barragens no Brasil, só mais um, de tipo diferente. E, com o estimulo da mídia falada, escrita, televisada, internetificada, surtamos.

Aqui nos USA, a terra dos livres e dos fortes, os candidatos republicanos à presidência não perderam tempo em usar os acontecimentos como alavanca e, jogando lenha na fogueira, vieram a público declarar, após a perfeição da fala de Obama: "Nós não estamos bem servidos quando, em resposta a um ataque terrorista, aumentamos o medo e o pânico .Não são boas decisões se são baseadas em histeria ou num exagero dos riscos.”

Donald Trump: “Temos que rastear todos os mussulmanos nesse pais, e segui-los de perto. Também temos que considerar o fechamento de suas mesquitas.”

Ben Carson: “Os refugiados da Siria deveriam ser testados assim como testamos cães raivosos”.

Jef Bush e Ted Cruz acham que só deveríamos deixar entrar cristãos nessa terra, como se cristãos nunca tivessem praticado atos de terrorismo.

Aqui vai uma pequena amostra do que digo:

Europa: Ataques cometidos por islâmicos foram menos de 2%. Segundo a Europol (Agência anti terrorismo da União Européia), a grande maioria dos ataques foi de grupos separatistas. Em 2013 aconteceram 152 ataques, dos quais, só 2 de motivação religiosa e 84 por crenças separatistas. O grupo FLNC, francês, que quer a Córsega independente, em dezembro de 2013 fez múltiplos e simultâneos ataques a centrais policiais em 2 cidades da França.
No mesmo ano, na Grécia, o grupo esquerdista Força Militante Popular Revolucionária, matou a tiros duas pessoas do partido de direita. Na Itália, o grupo anarquista FAI perpetrou vários ataques terroristas, incluindo o mandar uma bomba a um jornalista. E a lista é longa...

Quantos de nós ouvimos falar disso? Pois é, pura questão retórica.
Ouviu falar dos terroristas budistas? Pois bem, budistas extremistas vem matando mussulmanos em Burna e há pouco tempo atrás, no Sri Lanka, queimaram suas casas, queimando 2 deles.
Ou terroristas judeus? O relatório do Departamento do Estado sobre terrorismo em 2013, mostrou 399 atos de terror cometidos por colonos israelenses, conhecidos como ataques de "etiqueta de preço". Estes terroristas judeus atacaram civis palestinos, causando lesões físicas a 93 deles e também vandalizaram dezenas de mesquitas e igrejas cristãs.

Um estudo do FBI sobre terrorismo cometidos em solo americano, entre 1980 e 2005 revelou que 94% dos ataques terroristas foram cometidos por não-muçulmanos. 42% por grupos latinos, seguido por 24% por grupos de extrema esquerda.
E num estudo de 2014, a Universidade da Carolina do Norte descobriu que, desde os ataques de 9/11, o terrorismo muçulmano custou a vida de 37 norte-americanos. Nesse mesmo período, mais de 190.000 americanos foram assassinados, sem nenhuma relação com terrorismo de qualquer espécie ou cor. (http://kurzman.unc.edu/muslim-american-terrorism/)

De fato, em 2013, foi mais provável ser morto por uma criança do que um terrorista. Naquele ano, 3 norte-americanos foram mortos no bombardeio da Maratona de Boston, enquanto 5 por crianças que, acidentalmente, dispararam uma arma.

Mas nossa mídia simplesmente não cobre ataques terroristas não-muçulmanos com o mesmo entusiasmo. Por quê? É uma decisão de negócios. Histórias sobre "outros", que são assustadores, vende mais e melhor. É uma história que pode simplesmente ser enquadrada como bem contra o mal com os americanos sendo os mocinhos e os muçulmanos, marrons e feios, os bandidos.

Fala sério, quando foi a última vez que ouvimos os meios de comunicação se referirem àqueles que atacam as clínicas de saúde da mulher (informo, a única coisa de saúde, gratuita nesta terra) como "terroristas" cristãos, embora estes ataques ocorram em 1 em cada 5 centros de saúde reprodutiva? Não vende bem. Afinal de contas somos uma chamada nação cristã, de modo que isso nos obrigaria a olhar para o inimigo interno, o que é extremamente desconfortavel. Ou pior, a gente muda de canal. É a mesma razão que não vemos muitas histórias sobre como reduzir os 30 americanos mortos a cada dia pela violência armada ou as 3 mulheres por dia mortas por violência doméstica.

E se acham que estou exagerando, informo que a CNN acabou de suspender uma jornalista, porque tweetou seu descontentamento com a lei passada no Congresso, a respeito de não permitir a entrada de refugiados sírios neste país. Seu tweet? “A Estátua da Liberdade inclina a cabeça, angustiada”.

E vamos ao artigo:

“O terrorismo provoca fortes emoções, e como consequências, lá vem os mitos . O primeiro começou em setembro de 2001, quando o presidente George W. Bush anunciou que "vamos livrar o mundo dos malfeitores" e que eles nos odeiam por "nossas liberdades". Este sentimento encarna, segundo o psicólogo da Universidade do Estado da Flórida, Roy F. Baumeister "o mito do mal puro", que sustenta que os autores cometem violência sem sentido e sem nenhuma razão racional.
Esta ideia é descartada por meio do estudo científico da agressão, na qual os psicólogos identificaram quatro tipos que são utilizados para um fim proposital (da perspectiva dos perpetradores): violência instrumental, tal como saque, conquista e eliminação de rivais; vingança, como vinganças contra adversários ou de justiça auto determinada; dominação e reconhecimento, como a competição por status e mulheres, sobretudo entre os jovens do sexo masculino; e ideologia, como crenças religiosas ou crenças utópicas. Os terroristas são motivados por uma mistura de todos os quatro.

Em um estudo de 52 casos de extremistas islâmicos que tiveram como alvo os EUA, o cientista político da Universidade de Ohio, John Mueller, concluiu que suas motivações foram, na maioria das vezes, instrumentais e orientadas para a vingança, uma "indignação” frente à política externa americana, em particular as guerras no Iraque e no Afeganistão, e o apoio do país a Israel no conflito palestino. A “ideologia na forma de religião" era uma parte da contrapartida para a maioria, mas não porque eles queriam espalhar a lei da Sharia ou estabelecer califados (alguns dos culpados seriam incapazes até de soletrar uma ou outra palavra). Pelo contrário, eles queriam era proteger seus correligionários contra o que era comumente visto como uma guerra concentrada sobre eles no Oriente Médio, pelo governo dos EUA.
Quanto à dominância e reconhecimento, antropólogo Scott Atran da Universidade de Michigan demonstrou que os homens-bomba (e suas famílias) são cobertoss com status e honra nesta vida e a promessa de mulheres na outra, e que a maioria "pertence a redes de família e amigos que morrem não apenas para uma causa, mas uns para os outros”. A maioria dos terroristas é composta de adolescentes ou jovens adultos, que, de per si já são particularmente propensas a movimentos que prometam uma causa significativa, camaradagem, aventura e glória.

Segunda falácia: os terroristas são parte de uma vasta rede global de conspirações controlados centralmente, contra a civilização ocidental. West-Atran mostra que é "um sistema descentralizado, auto-organizado e em constante evolução, com complexas redes sociais." Uma terceira noção falha é que os terroristas são gênios diabólicos, como quando o relatório da comissão de 9/11 os descreveu como "sofisticados, pacientes, disciplinados, e letais." Mas de acordo com o cientista político Max Abrahms da Universidade Johns Hopkins, após a decapitação da liderança do topo extremista das organizações terroristas que visaram o território americano, foi mostrado que não eram nem sofisticados nem intelectuais, mas tolos incompetentes. (Vamos pensar um pouco a respeito: que tipo de sofisticação é necessária para se carregar um fuzil, entrar num bar e simplesmente começar a atirar? Sofisticação é quando, mesmo que dê vontade de fazer isso, nos reprimimos pelo aprendizado moral.)
Exemplos não faltam: Richard Reid e seu sapato bomba no avião , em 2001, tendo sido incapaz de acender o pavio, porque molhou com a chuva;a bomba-cueca de Umar Farouk Abdulmutallab em 2009, o qual conseguiu apenas incendiar suas partes pudendas; o bombardeio da Times Square, de Faisal Shahzad em 2010, que conseguiu apenas a queimar o interior de seu Nissan Pathfinder; Rezwan Ferdaus em 2012, que conseguiu comprar explosivos falsos de agentes do FBI. Mais recentemente, em 2013, os bombardeiros da Maratona de Boston, que só tinham uma arma e nenhuma estratégia de fuga, além do seqüestro carro a gás que Dzhokhar Tsarnaev usou para atropelar seu irmão, Tamerlan, seguido de uma tentativa fracassada de suicídio dentro de um barco em terra.

Outra ficção é que o terrorismo é mortal. Em comparação com a média anual de 13.700 homicídios, no entanto, as mortes por terrorismo são estatisticamente mínimas, 33 aqui nos USA, desde 9/11 .

Finalmente, a quinta firula sobre terrorismo é que ele funciona. Em uma análise de 457 campanhas terroristas desde 1968, o cientista político da Universidade George Mason, Audrey Cronin, descobriu que nenhum grupo extremista conquistou um estado e que um total de 94% não conseguiu sequer ganhar um de seus objetivos estratégicos. Seu livro, de 2009, é intitulado How Terrorism Ends,Princeton University Press (Como termina o terrorismo). Ele termina rapidamente : os grupos sobrevivem oito anos em média, e mal, pela morte de seus líderes.

Temos de estar vigilantes, é claro, mas estes mitos apontam para a conclusão inexorável de que o terrorismo não é nada parecido com o que os seus autores gostariam que fosse.”
Para o artigo original clique aqui

Então gente, sugiro que se leia mais a carta de Antoine Leiris, aos que mataram sua esposa:

"Vocês não terão o meu ódio
Na noite de sexta-feira vocês acabaram com a vida de um ser excepcional, o amor da minha vida, a mãe do meu filho mas vocês não terão o meu ódio. Eu não sei quem são e não quero sabê-lo, são almas mortas. Se esse Deus pelo qual vocês matam, cegamente nos fez à sua imagem, cada bala no corpo da minha mulher terá sido uma ferida no seu coração.
Por isso eu não vos darei a prenda de vos odiar. Vocês procuraram-no mas responder ao ódio com a cólera seria ceder à mesma ignorância que vos fez ser quem são. Querem que eu tenha medo, que olhe para os meus concidadãos com um olhar desconfiado, que eu sacrifique a minha liberdade pela segurança. Perderam. Continuamos a jogar da mesma maneira.
Eu vi-a esta manhã. Finalmente, depois de noites e dias de espera. Ela ainda estava tão bela como quando partiu na noite de sexta-feira, tão bela como quando me apaixonei perdidamente por ela há mais de doze anos. Claro que estou devastado pela dor, concedo-vos esta pequena vitória, mas será de curta duração. Eu sei que ela nos vai acompanhar a cada dia e que nos vamos reencontrar no países das almas livres a que nunca terão acesso.
Nós somos dois, eu e o meu filho, mas somos mais fortes do que todos os exércitos do mundo. Eu não tenho mais tempo a dar-vos, eu quero juntar-me a Melvil que acorda da sua sesta. Ele só tem 17 meses, vai comer como todos os dias, depois vamos brincar como fazemos todos os dias e durante toda a sua vida este rapaz vai fazer-vos a afronta de ser feliz e livre. Porque não, vocês nunca terão o seu ódio."


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A QUE PONTO CHEGAMOS!

Ou DE COMO A INDÚSTRIA FARMACEUTICA VEM ALTERANDO PESQUISAS E RESULTADOS

Primeiro, a tradução do artigo, cujo original aqui pode ser visto http://www.scientificamerican.com/article/many-antidepressant-studies-found-tainted-by-pharma-company-influence/

"Depois de muitas ações judiciais e de uma resolução, em 2012, do Departamento de Justiça dos EUA, no mês passado uma revisão independente descobriu que o antidepressivo Paroxetina, não é seguro para os adolescentes. A descoberta contradiz as conclusões do julgamento da droga, que começou em 2001, que o fabricante GlaxoSmithKline tinha financiado, e em seguida, utilizado os resultados para vender a Paroxetina como sendo segura para adolescentes.

O julgamento original, conhecido como Estudo 329, é apenas um exemplo do alto nível de influência da indústria farmacêutica na investigação científica, incluindo ensaios clínicos da Food and Drug Administration, que exige financiamento das em presas farmacêuticas para avaliar seus produtos. Por essa razão, as pessoas que lêem artigos científicos como parte de seus trabalhos,têm contado com meta-análises, que são, em tese, revisões completas que resumem as provas,a partir de vários ensaios, em vez de confiar em estudos individuais.

Mas uma nova análise lançou dúvidas sobre essa prática, descobrindo que a grande maioria das meta-análises de antidepressivos têm alguma ligação com a indústria farmaceutica, com a correspondente supressão de resultados negativos. O mais recente estudo, publicado no Journal of Clinical Epidemiology, que avaliou 185 meta-análises, constatou que 1/3 delas foram escritas por funcionários da indústria farmacêutica. "Sabíamos que a indústria iria financiar estudos para promover seus produtos, mas é muito diferente financiar meta-análises, as quais têm sido, tradicionalmente, um baluarte da medicina baseada em evidências", diz John Ioannidis, epidemiologista na Escola de Medicina da Universidade de Stanford e co-autor do estudo.

Quase 80% das meta-análises na avaliação, tinham algum tipo de ligação com a indústria, seja através de patrocínio, que os autores definem como o financiamento direto, ou conflitos de interesse, definido como qualquer situação em que um ou mais autores trabalham ou trabalharam na indústria ou pesquisadores independentes que recebem qualquer tipo de apoio (incluindo honorários de palestras e bolsas de investigação). Especialmente preocupante, foi que o estudo mostrou que cerca de 7% dos investigadores tiveram conflitos de interesse não revelados. "Há uma certa hierarquia de papéis, que não estava associado com a pesquisa. As meta-análises estão no topo da pirâmide de evidência. Estou muito preocupado com os resultados, mas não os acho surpreendentes. A influência da indústria é apenas enorme. O que é realmente novo é o nível de atenção as pessoas estão dando agora ", diz Erick Turner, professor de psiquiatria da Oregon Health & Science University.

Os pesquisadores consideraram todas as meta-análises de ensaios clínicos randomizados para todos os antidepressivos aprovados, incluindo inibidores selectivos da recaptação da serotonina, inibidores seletivos de recaptação de serotonina e noradrenalina, antidepressivos atípicos, inibidores da monoamino oxidase e outros, publicados entre 2007 e Março de 2014.

Se os autores não relataram qualquer conflito de interesses, como é normalmente necessário, os pesquisadores examinam amostras aleatórias de artigos publicados pelo autor no mesmo ano, por declarações relevantes dos conflitos. Dois investigadores, que não conhecem os autores ou qualquer conflito potencial, daí avaliam se a meta-análise incluiu quaisquer declaração negativas ou advertência sobre a droga no sumário ou na conclusão do artigo.

Embora 1/3 dos estudos tenham sido escritos por funcionários da indústria, a maioria dos autores, 60%, foi de pesquisadores afiliados a universidades, independentes e mesmo assim, com conflitos de interesse. Para as 53 meta-análises onde o autor não era um empregado da indústria e não relatou quaisquer conflitos de interesse, 25% tinham conflitos de interesse não declarados, e que os pesquisadores identificaram em sua busca e incluiram na avaliação. As meta-análises que têm ligação com a indústria são muito diferentes daquelas que não têm. Aquelas ligadas à indústria dão cobertura muito mais favorável e tem menos ressalvas. Naquelas não ligadas à indústria, quase 50% tem ressalvas.

Meta-análises por empregados da indústria eram 22 vezes menos propensas a ter declarações negativas sobre a droga do que as dirigidas por pesquisadores independentes. A taxa de influência nos resultados é semelhante a um estudo de 2006 que examinou o impacto da indústria em ensaios clínicos de medicamentos psiquiátricos, o qual constatou que estudos patrocinados pela indústria relataram resultados favoráveis em 78%, em comparação com 48% em ensaios independentes.

Ioannidis acredita que as empresas farmacêuticas devem ser impedidas de financiar meta-análises, a fim de salvaguardar a objetividade. “Elas podem é muito bem financiar outros tipos de pesquisa, mas não quando se trata da avaliação final sobre se os pacientes devem tomar ou não um medicamento", diz ele.

Por definição, uma meta-análise deveria ser "a forma de avaliação mais abrangente possível, pois os médicos são bombardeados por informações todo o tempo e não conseguem, assim, fazer uma avaliação crítica completa por si mesmos. Meta análise passou a significar 'atalho” para toneladas de evidências”, diz Andrea Cipriani, professor de psiquiatria na Universidade de Oxford, que não estava envolvido neste estudo.

Cipriani concorda que é importante salientar a manipulação de meta-análises pela indústria farmacêutica. "Precisamos de destacar que este tipo de meta-análises se tornaram mais uma ferramenta de marketing do que uma ciência", diz ele. Mas Cipriani, que teve 7 artigos sinalizados na revisão, para conflitos de interesse relatados, pensa que é uma simplificação condenar todos os estudos com ligação com a indústria . Em vez disso, defende a transparência e diz que o principal problema é a falta de divulgação. Para seu crédito, mesmo com conflitos de interesse presente, todos os estudos de Cipriani incluíram advertências na conclusão ou resumo. Infelizmente, foi um dos poucos pesquisadores com conflitos declarados a fazê-lo.

Mas, as revistas científicas, muitas vezes, têm seus próprios conflitos de interesse, algo que Cipriani reconhece. Ioannidis e seus colegas originalmente tentaram publicar seu mais recente estudo em revistas de psiquiatria, onde achavam que seria mais pertinente, mas a recepção foi fria. "Algumas pessoas ficaram bastante irritadas com isso ,pois muitos de seus editores têm fortes laços com a indústria.", diz Ioannidis.

O preconceito também se mostra nas publicações científicas, que mostram uma preferência por novos resultados, positivos e estimulantes ao invés da replicação de estudos passados, replicação essa que é parte essencial do processo científico. Essa tendência existe, independentemente da fonte de financiamento ou tratamentos avaliados. Em um estudo, também publicado no mês passado, Turner encontrou influência na publicação e resultados inflacionados em vários estudos sobre Psicoterapias (não medicamentosas), financiados por vários Institutos Nacionais de Saúde.

Os antidepressivos são um dos maiores mercados farmacêuticos, com faturamento de US $ 9,4 bilhões, só nos EUA (2013). Cipriani e Ioannidis acreditam que o problema se estende a outros medicamentos com alto valor de mercado, tais como medicamentos cardíacos e para o câncer.

"O campo inteiro precisa de um exame de consciência", diz Ioannidis."

E eu não poderia concordar mais. Colocaria também que está mais do que na hora de termos sanções ralmente sérias a respeito do assunto.

Só para sublinhar a seriedade da situação, recordemos Andrew Jeremy Wakefield, pesquisador e cirurgião inglês, que em 1998 escreveu e publicou estudos fraudulentos , mostrando a ligação entre autismo e a vacina tríplice. Embora outros pesquisadores não conseguissem reproduzir seus resultados, foi só em 2004 que Brian Deer, reporter do Sunday Times, identificou o conflito de interesses, nunca revelados, de Wakefield, o qual, junto com seus colaboradores, submeteu crianças autistas a testes totalmente desnecessários, como colonoscopias e punções lombares. Mas foi só em 2010 que o Conselho Médico Britânico tirou a licença médica da criatura. Levaram 12 anos! E nesse ínterim, a vacinação para crianças diminuiu muito, dando base a esse movimento anti vacinação que está ai até hoje.

Lembro perfeitamente quando a indústria farmacêutica, pelo menos na área da psiquiatria, passou, de colaboradora no trato do paciente, a gerente de médicos. Creio que o ano foi 1989, sou ruim para datas, mas o fato é que era uma segunda feira, cheguei no consultório, e minha secretária, normalmente um poço de tranquilidade e temperança, encontrva-se totalmente histérica. Pelo menos 50 telefonemas de pacientes, o que era um marco absolutamente inédito, mesmo para uma segunda.Segunda era o dia de chegar 2 horas antes do inicio de minhas consltas, para poder organizar a semana, responder a telefonemas e todas essas coisas. Então começamos, por ordem de chamada. Para fazer uma longa história curta, a Veja havia feito uma enorme reportagem, que eu não tinha lido, sobre o Prozac, ou como foi chamada, a pílula da felicidade. Aqui tenho que fazer um parêntese explicativo. O Prozac (fluoxetina), foi o primeiro dos antidepressivos chamados de Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina. É claro que antes dela, havia outros antidepressivos, que, em termos de resultados funcionavam tão bem ou melhor que os recaptadores. O problema era que, seus efeitos colaterais eram horrendos, no sentido mais lato da palavra. Lembro de toda a classe ter ficado chocada quando uma paciente, em uso de IMAO, comeu carpaccio, a pressão dela foi aos céus, teve um derrame e morreu. Costumávamos fornecer aos pacientes listas de alimentos proibidos enquanto no uso das citadas medicações.Então, de repente, o Prozac veio como uma alternativa salvadora, e, embora não livre de efeitos colaterais, pois nada o é, com certeza não matava pacientes se comessem carne vermelha.E até aí, tudo bem, tudo certo.

O problema foi que, a indústria farmaceutica descobriu que a mídia, em sua ânsia pela "noticia", podia e foi usada como propaganda. Vai daí que meus pacientes queriam saber porquê não estavam usando Prozac. Notar que, na época, a maioria de meus pacientes era de esquizofrênicos e/ou dependentes químicos, com muito poucos depressivos de permeio, a metade deles usando Prozac, os quais queriam aumentar a dose para ficar "felizes e contentes".

Levei uma semana, sem atender a nenhum caso novo, para rever, no consultorio, todos os casos e explicar a diferença, entre um artigo na mídia leiga, e um tratamento médico. Claro que fui ler o artigo, e quis matar, não só o jornalista que o escreveu, como também todo o corpo editorial e os médicos que tinham dado seu testemunho.Mas foi um marco importantissimo.

Por sorte, e para desespero de minha secretária, sempre usei o tempo necessário para fazer contratos com pacientes, isto é, explicar a eles a doença que tinham, como tal doença costumava funcionar, o que eu podia fazer, o que ele tinha que fazer, o que o remédio ia ou não ia fazer, como, quando e de que jeito, fora os possiveis efeitos colaterais mais importantes.

Tenho plena consciência que fui muito sortuda, desenvolvendo minha profissão do jeito que quis e do melhor jeito que pude. Nunca trabalhei em serviço público, nem com convênios, acertando meus honorários dependendo das possibilidades dos paciente. A maioria não pode fazer isso, estando limitada pelos desejos/demandas de seus convênios, que, cá entre nós, são simplesmente a maior praga da medicina.

E, a partir daí, deu no que deu. Isto não quer dizer, em absoluto, que não possamos tomar vergonha na cara, e retomar o que é nosso, isto é, o trato do paciente.

E, só de birra, releiam o juramento que fizemos:

"Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência.

Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra.

Nunca me servirei da minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu para sempre a minha vida e a minha arte com boa reputação entre os homens; se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o contrário."

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A BIOLOGIA DO DESEJO, OU PORQUE É PERIGOSAMENTE ERRADO PENSAR NAS DEPENDÊNCIAS COMO UMA FORMA DE DOENÇA.

O título, e o resto, vem diretamente do livro “The Biology of Desire: Why Addiction is not a Desease” (A Biologia do desejo: porque a dependência não é uma doença –tradução minha que ainda não tem tradução para o português), do psicologo neurocientista e ex dependente, Marc Lewis.

O mistério da dependência, o que é, o que faz e o que fazer para acabar com ela, são tópicos discutidos diariamente em fóruns médicos, psicologicos, politicos, educanionais, entre amigos, em familia, no barbeiro, enfim, em qualquer lugar onde haja um vivente, lá está também a dependência. Nosso pavor dela. Nossa fascinação por ela.

Estima-se que, 1 em cada 10 americanos é dependente de álcool e/ou outras drogas, e se admitirmos que comportamentos como jogos de azar, comer compulsivamente, sexo e vídeo games podem ser viciantes de maneiras semelhantes, é provável que todo mundo tenha um parente, amigo ou conhecido, viciado em alguma forma de diversão, só que num grau destrutivo.

Mas o que exatamente está errado com eles?

Há várias décadas, tem sido lugar-comum dizer que os viciados têm uma doença. No entanto, os mesmos cientistas que uma vez pareciam sustentar essa afirmação começaram a desmantelá-la.

Antes disso, as dependências eram chamadas de “vícios”, vistos como falhas de moral e caráter. Essas pessoas eram criticadas, repreendidas e se lhes pedia que tivessem mais “força de vontade”, atitudes que se provaram espetacularmente ineficazes, embora, verdade seja dita, a maioria dos viciados consegue sair da coisa sem qualquer forma de tratamento.

No entanto, muitos não conseguem e, em meados do século 20, o movimento de recuperação, centrado em torno do método dos 12 passos, desenvolvido pelos fundadores dos Alcoólicos Anônimos, tornou-se, não só uma panacéia para todos os males, mas uma dádiva aos médicos, que, em não sabendo como tratar a coisa, muito agradecidos ficaram a terem para onde encaminar aqueles pacientes que absolutamente não seguiam ou seguem a coisa do “obrigado Doutor por salvar minha vida”, muito antes pelo contrário.

Essa abordagem acabou por se propagar para os chamados "vícios comportamentais", como jogos de azar ou sexo, atividades que nem sequer envolvem o uso de qualquer tipo de substância que altere a mente.

Grande parte da potência do AA vem de seu reconhecimento de que a tal força de vontade não é suficiente para vencer este demônio e que o uso de culpa, chicotadas e achincalhamento é contraproducente.

O primeiro passo requer que o participante admita sua impotência diante da dependência, tirando a recuperação da área do auto-controle e colocando-a no reino da transcendência. Os participantes admitem que são impotentes perante seja lá o que for que os vicie, e colocam toda a confiança num Poder Superior e no programa, para que estes lhe forneçam a força e a estratégia para sair do enrosco.
O princípio básico dos 12 Passos é que o vício é congênito e crônico: o dependente nasceu assim e não importa há quanto tempo não usa, vai continuar a ser um viciado por todo o resto de sua existência.

O florescimento do movimento 12 passos é uma das razões pelas quais agora, todos nós, ao invés de “vício” ou “hábito perigoso”, descrevemos a coisa como doença. Ter uma doença, implica em ser impotente para fazer qualquer coisa a respeito, a não ser seguir o tratamento prescrito. Uma pessoa com uma doença é Infeliz, coitada, ao invés de “fraca”, “sem força de vontade” ou “degenerada”. Algo inato no corpo, particularmente no cérebro, faz com que, ele ou ela sejam excepcionalmente suscetíveis a ficar viciados.
É mais ou menos como carregar uma granada na mão e a questão é simplesmente conter, de alguma maneira, o insano impulso de puxar o pino.

Outro fator de promoção do modelo de doença é que enfiou o vício na saúde pública, quer na forma de uma doença cujo tratamento pode ser pago por qualquer seguro saúde, quer como foco de centros de reabilitação com fins altamente lucrativos.
Só como exemplo, aqui vai um link para um centro na Califórnia, cujo preço médio para internação por 3 meses, gira em torno de US$ 350.000,00. clique aqui

Esta concepção da dependência como um fenômeno biológico, foi endossada ao longo dos últimos 20 anos, pelas novas tecnologias que vem permitindo aos neurocientistas não só medir o cérebro humano, mas também suas atividades, em detalhes cada vez mais reveladores. Com certeza, os cérebros de dependentes são fisicamente diferentes, às vezes impressionantemente diferentes dos da média das pessoas. Mas a neurociência deu e agora ela tira. O movimento de recuperação e reabilitação sempre teve seus críticos, mas, ultimamente alguns dos mais vocais têm sido os neurocientistas, cujos resultados uma vez lhe deu credibilidade.

Um deles, é o acima citado Lewis, que diz: “A teoria da doença, e a ciência, por vezes usada para seu suporte, não levam em consideração a plasticidade do cérebro humano. Claro, "o cérebro muda com o vício”, mas a maneira como ele muda tem a ver com aprendizado e desenvolvimento, e não com a doença.Todas as experiências significativas e repetidas mudam o cérebro, e adaptabilidade e hábito são suas armas secretas. As mudanças provocadas pelo vício não são, contudo, permanentes e, apesar de serem perigosas, não são anormais.

Através da combinação de uma história emocional difícil, tremendo azar e as operações ordinárias do próprio cérebro, um viciado é alguém cujo cérebro foi transformado, mas também é alguém que pode ser empurrado ainda mais ao longo da estrada, para o desenvolvimento saudável. (Lewis não gosta do termo "recuperação", porque implica num retorno ao estado do viciado antes do vício, coisa com a qual concordo, pois é impossivel se voltar a ser o que se era antes de qualquer evento que, bem ou mal, modificou nossa vida.)

O livro que estou citando, é montado em torno de vários estudos de caso, cada um ilustrando um caminho único para a dependência. O esforçado empresário australiano que se enrola todo na "clareza, poder e potencial" que lhe dá o fumar metanfetamina, junto com a capacidade de poder trabalhar longas horas, enquanto drogado. A assistente social que se comporta abnegadamente em seu trabalho e casamento, enquanto constrói uma vida secreta, egoísta e desafiadora, ao roubar e tomar prescrições de medicação opiácea. Um irlandês tímido que começou a beber como forma de relaxar em situações sociais, devagarzinho começa a ver situações sociais como ocasião para beber e, em seguida, beber como motivo para esconder-se em seu apartamento por dias a fio.

Cada uma dessas pessoas teve uma "ferida emocional" de algum tipo, que a substância ajudou a lidar, pelo menos por um tempinho. Mas, uma vez iniciado o uso, o hábito eventualmente tornou-se auto perpetuante e, na maioria dos casos, em última análise, só serviu para aprofundar a ferida. Cada estudo de caso se concentra em uma parte diferente do cérebro envolvida na dependência e ilustra como a função de cada parte - desejo, emoção, impulso, comportamento automático - fica acorrentado a um único objetivo: consumir a substância viciante.

O cérebro é construído para aprender e mudar, mas também para formar caminhos para o comportamento repetitivo, desde escovar os dentes até meter o pé no freio, de modo que não precisemos pensar, conscientemente, em tudo que fazemos.
O cérebro se auto organiza, e todas essas propiedades são ótimas.O problema é que, no caso das dependências, são desviadas para ações ruins.

O vício, na realidade, é apenas um hábito, embora seja dificil entender o quão profundamente tal hábito possa estar gravado no cérebro.
A repetição de motivação – experiência, ou seja, a sensação de ter as preocupações levadas para longe, todas elas trocadas pelo nirvana da heroina, por exemplo, produzem mudanças no cérebro que vão definir experiências futuras.

Mesma coisa com o beber demasiado, que vai esculpir as sinapses que vão determinar os padrões de consumo futuros.

Mais e mais experiências e atividades se enrolam na experiência da dependência e provocam desejos e expectativas, como o sino que fazia o cachorro de Pavlov salivar, o sair de casa, o ir para ao bar preferido, ou todos os rituais desde o cheirar coca a injetar, de metanfetamina a heroina.
O mundo se torna uma série de sinais que apontam na mesma direção, ativando poderosos impulsos inconscientes para segui-los.

Em certo momento, o comportamento viciante se torna compulsivo, aparentemente tão irresistivelmente e automático como um reflexo. A pessoa pode até não querer mais a droga mais, mas esqueceu tudo, a respeito de viver, a não ser como procurar sua droga de escolha e usá-la.

Apesar disso tudo, todos os viciados que Lewis entrevistou para o livro, estão sóbrios agora, alguns através dos programas de 12 passos, outros através de regimes auto-concebidos, como a dependente de heroína que se auto ensinou a meditar, enquanto presa.

Obviamente não é surpresa que um psicólogo pense em alguma forma de terapia para abordar as motivações emocionais subjacentes dos dependentes, mas Lewis está longe de ser o único especialista a expressar esta opinião, ou a recomendar terapia cognitivo-comportamental como uma forma de remodelar o cérebro e redirecionar seus sistemas para novos padrões, não auto-destrutivos.

Sem dúvida, os AA e programas similares têm ajudado muitas pessoas. Mas também falharam outras tantas. Tamanho único não funciona, nem para roupas, tratamentos, ou vida em geral.Há um crescente corpo de evidências que vem demonstrando que, capacitar os dependentes, em vez de insistir para que adotem a impotência e a impossibilidade de se livrar de vez do hábito, pode ser um caminho.

Se dependência é uma forma de aprendizado que deu tragicamente errado, também é possível que possa ser desaprendida, e que a mutabilidade inata do cérebro possa definir novo e melhor aprendizado.

"Os viciados não estão doentes", Lewis escreve, "e eles não precisam de intervenção médica, a fim de mudar suas vidas. O que eles precisam é de um “andaime” social, sensível e inteligente, para segurar as partes de seu futuro no lugar, enquanto escalam em direção a esse futuro ".

E como concordo, deixando claro que, em alguns casos de pacientes com sérias patologias de base, como por exemplo, a esquizofrenia, o uso de anti psicoticos pode fazer milagres.

The Biology of Desire  para baixar, clique aqui

sábado, 17 de outubro de 2015

3 MANEIRAS SIMPLES DE APROVEITAR A PSICOLOGIA POSITIVA E SE TORNAR MAIS RESILIENTE.


Notem que disse simples, não necessáriamente fácil.

Todos nós queremos ser felizes, menos o Contardo que só quer que a vida seja interessante (e eu aqui me perguntando se essa não é a melhor definição de felicidade). Mas o fato é que a maioria de nós pensa “felicidade” como algo que vem junto com coisas como dinheiro, sucesso, amor, carro do ano, diamante no dedo, conta na Suíça, enfim, coisas fora de si mesmo. Ou então, que alguns poucos felizardos nascem felizes, com pleonasmo e tudo, e o resto de nós, enfim, vai levando.

Pois informo que não é bem assim.

Todos nós nascemos com a tendência a algum tipo de TEMPERAMENTO, que, por definição, é o nível característico e individual de intensidade e/ou excitabilidade emocional, o qual é, em geral, reconhecido nas primeiras semanas após o nascimento. É considerado como indicação precoce de personalidade, embora a última seja uma mistura de temperamento com experiências, mistura essa que define traços que vão durar vida afora.
Embora haja 38 subtipos de temperamento, a maioria pode ser agrupada em 9 grandes traços:

NÍVEL DE ATIVIDADE
É a "velocidade” ou o quão ativa é a criança. O bebê está sempre se mexendo ou é do tipo tranquilo, que fica sossegadinho? Tem dificuldade em ficar parado? Está sempre em movimento? Prefere atividades sedentárias? Crianças altamente ativas podem canalizar essa energia extra para o sucesso nos esportes ou em carreiras de alta energia, com muitas responsabilidades diferentes.

NÍVEL DE DISTRAÇÃO
É o grau de concentração e atenção exibidos quando a criança não está particularmente interessada em uma atividade. Esta característica refere-se à facilidade com a qual os estímulos externos interferem com o comportamento em andamento. É a criança facilmente distraída por sons ou qualquer outra coisa que aconteça enquanto mama? É fácil de acalmar quando chateado? Distrai-se facilmente ao seguir rotinas? Alta distração é vista como positiva, quando é fácil desviar a criança de um comportamento indesejável, mas visto como negativa quando impede a criança de terminar o trabalho da escola.

ENERGIA/INTENSIDADE
É positiva ou negativa a depender do nível da resposta. A criança reage fortemente e em voz alta a tudo, até mesmo a eventos relativamente menores? Mostra se está feliz, triste ou irritada, fortemente e de forma dramática? Fica quietinha quando chateada? Crianças intensas são mais propensas a ter as suas necessidades satisfeitas e podem ter uma profundidade de emoções raramente experimentada pelos outros. Essas crianças podem ser dotadas em artes dramáticas, embora seja desgastante conviver com elas.

REGULARIDADE
O traço se refere à previsibilidade das funções biológicas, como apetite e do sono. A criança fica com fome ou cansada, em esquemas previsíveis? Ou é imprevisível em termos de fome e cansaço? Como adultos, indivíduos irregulares funcionam melhor em trabalhos que requeiram viagens, mudanças, ou horas de trabalho incomuns.

LIMIAR SENSORIAL
Relacionado à forma como a criança é sensível a estímulos físicos. É a quantidade de estimulação (sons, sabores, toque, mudanças de temperatura) necessárias para produzir uma resposta. A criança reage positiva ou negativamente a sons específicos? Se assusta facilmente com sons? É um comedor exigente, não come quase nada ou engole tudo que vê pela frente? Responde positiva ou negativamente à sensação da roupa no corpo? Indivíduos altamente sensíveis são mais propensos a ser artísticos e criativos.

APROXIMAÇÃO/RETIRADA
Refere-se a resposta característica da criança a uma nova situação ou a estranhos. A criança se atira em novas situações ou pessoas? Ou parece hesitante e resistente quando confrontada com novas situações, pessoas ou coisas? Criança que hesitam frente a coisas tendem a pensar antes de agir, sendo, portanto, menos propensas a agir impulsivamente durante a adolescência.

ADAPTABILIDADE
Relacionada com a facilidade com que a criança se adapta às transições e mudanças, como a mudança para uma nova atividade. A criança tem dificuldade com mudanças nas rotinas, ou com transições de uma atividade para outra? Levar um tempão para se tornar confortável a novas situações? Uma criança lenta na adaptação, tem menos chances de se meter em situações perigosas, e pode ser menos influenciada pela pressão do grupo.

PERSISTÊNCIA
É o período de tempo que uma criança continua em atividade em face a obstáculos. A criança continuar a trabalhar em um quebra-cabeça quando tem dificuldade ou larga tudo e vai fazer outra coisa? É capaz de esperar para ter suas necessidades atendidas? Reage fortemente quando interrompida em uma atividade? Quando uma criança persiste em uma atividade, quando mandada parar, é rotulada como teimosa. Quando uma criança fica com um quebra-cabeça difícil, é vista como sendo paciente. Crianças altamente persistentes provavelmente terão mais sucesso em atingir metas, enquanto as pouco persistentes podem desenvolver fortes habilidades sociais, porque percebem logo que outras pessoas podem ajudar.

HUMOR
Esta é a tendência da reação da criança em relação ao mundo, de forma positiva ou negativa. A criança vê o copo meio cheio? Se concentra nos aspectos positivos ou negativos da vida? Geralmente, parece feliz? É geralmente séria? Crianças graves/sérias tendem a ser analíticas e avaliar as situações com cuidado.

Pois bem, vamos deixar claro que o acima são só tendências, e não destino. É óbvio que, quando fazemos algo em cima de nossas tendências naturais, a coisa, seja lá o que esta for, sai mais fácil, e se, alguém com tendências artísticas resolve trabalhar como contador, vai ter enorme dificuldade em se sentir alegre e satisfeito.
Mas, felicidade, ou a vivência dela, é questão, como todo o resto na vida, de exercício e repetição constantes. Alguém acha que, se andar 15 minutos, uma vez por mês, vai trazer alguma melhora para sua saúde? Provavelmente, não. Então, por que será que achamos que, se lermos um livro ou assistirmos uma palestra de autoajuda, tudo mudará magicamente? Por que será que sofremos o inferno, esperando e querendo que “os outros “ou o mundo se modifiquem à nossa imagem e semelhança, e quando isso não acontece, nos frustramos de maneira horrível?



Porque, embora saibamos, intelectualmente, que a única constante na vida é mudança, visceralmente nos recusamos ao trabalho hercúleo de, não só nos conhecermos, mas de modificar, em nós mesmos, aqueles traços que nos atrapalham na vivência pessoal e coletiva.
Nos agarramos a ideias, percepções e conceitos com data vencida, da mesma maneira que nos agarramos a roupas e sapatos que não usamos há anos, que só entopem os guarda roupas, mas que, de alguma forma, foram importantes em algum momento de nossa vida passada. E que é só isso, passada.
E, como se sabe, guarda roupas ou cérebros entupidos, não deixam espaço para coisas novas.


O velho aforismo grego: CONHECE-TE A TI MESMO (γνῶθι σεαυτόν), gravado no frontispício do Templo de Apolo, em Delfos (sim, o mesmo do oráculo), vem sendo repetido sem parar, de Platão e Aristófanes, de Thomas Hobbe a Benjamin Franklin, de Freud ao filme Matrix, e consta como moto de fraternidades em Universidades, como a Delta-Delta-Delta (Autoconhecimento, Auto Reverência, Autodisciplina).
E nós continuamos nos recusando a dar o mergulho.

Vamos em busca de explicações para nossas vivências que vão de crenças em vidas passadas, a culpar abduções alienígenas, a crer em poderes de “olho gordo”, inveja de outrem, política municipal, estadual, federal, mundial, criando a mentalidade de “nós certos eles errados”, chegando às barbáries que assistimos todos os dias, de crianças a morrer de fome, a crianças a morrer em praias, fugindo de guerras tribais.

Homero, na Odisseia, colocou as seguintes palavras na boca de Zeus: “Como são loucos esses homens que nos culpam pelas consequências de suas tresloucadas ações. ” (OK, admito, minha tradução do italiano perdeu muito em sua força, mas dá para entender o conceito, não é?)
Então, sejam quais forem suas tendências temperamentais inatas, ou a soma total de suas experiências até o momento, sugiro os seguintes exercícios diários para desenvolver resiliência, e navegar, qual Ulisses, os mares bravios da existência:

EXPRESSE GRATIDÃO    
Gratidão nada mais é do que apreciação pelo que se tem, desde um teto sobre nossa cabeça, a saúde, gente que se importa conosco, amigos, família, momentos preciosos de solidão, livros, cachorro, periquito, papagaio, sei lá, enfim, tudo que consideramos importante. Quando reconhecemos o que é bom e belo em nossa vida, começamos a perceber que a fonte disso se encontra, pelo menos parcialmente, fora de nós mesmos. Desta forma, a gratidão nos ajuda na conexão com algo maior do que nossa experiência individual - seja isso outras pessoas, a natureza, um poder superior, o Universo, uma causa que nos é cara... separe alguns minutos todos os dias e pense sobre cinco coisas, pequenas ou grandes, às quais é grato. Anote-as, se quiser. Seja específico e lembre o que cada coisa significa para você, e só para você. Pessoalmente, adoro o exercício de escrever, o que além de tudo, me permite ver o fluxo depois de um tempo. As coisas que continuam, as que mudaram, as novas que foram aparecendo.

FORTALEÇA SEUS PONTOS FORTES
Para colher os benefícios de nossos pontos fortes, primeiro precisamos saber quais são (e lá vem de novo o “conhece-te a ti mesmo”). Infelizmente, de acordo com um estudo britânico, apenas cerca de 1/3 das pessoas têm uma compreensão útil de seus pontos fortes. Se fazemos algo que, para nós fica fácil, tomamos isso como garantido, e não como uma força a ser explorada. Se não tiver certeza de seus pontos fortes, peça a alguém para identificá-los. Pai, mãe, irmãos, primos, parentes e amigos, são ótimos para isso. Vão lhe contar histórias, anedotas, e no meio, suas forças e fraquezas, como ninguém. Meu pai tinha dois apelidos para mim. Um, era “cuor contento” (coração contente), pois dizia ele que eu era capaz de estar de bem com a vida, nas mais estapafúrdias situações. O outro era “divisão Panzer”, pois funcionava feito tanque de guerra alemão, na segunda guerra mundial: demorava para pegar, mas quando se punha em movimento, não havia o que os parasse. Quer metáfora mais clara? Pois é. E mesmo assim levei uma vida inteira para aprender a usar.
Certos pontos fortes são os mais estreitamente ligados à felicidade, e incluem gratidão, esperança, vitalidade, curiosidade e amor. Estas forças são tão importantes que vale a pena cultiva-las e aplicar em nossa vida diária, mesmo se, no começo, não nos venham de forma espontânea.

SABOREIE O QUE É BOM
A maioria das pessoas está pronta para experimentar o prazer em momentos especiais, tipo no casamento, férias, recebimento do diploma, paixão nova, essas coisas, enquanto os prazeres cotidianos deslizam sem qualquer efeito, feito água em penas de pato. Saborear significa colocar a atenção no prazer, enquanto e como este ocorre e, de forma consciente, desfrutar da experiência como ela se desenrola. Sabe aquele primeiro gole de café, recém-saído da cama? O cheiro que sai da xícara, a experiência da coisa escorrendo pela sua língua, descendo e o inundando de quentura? Pois é. Principalmente para aqueles que, como eu, acordam com apenas 2 neurônios, um que sobe, outro que desce e com enorme mata burro no meio. Passei bom tempo invejando esses seres superiores que saltam da cama cheios de energia, prontos para o dia, com um sorriso na cara. Agora, aprecio café. Apreciar os tesouros da vida, grandes e pequenos, ajuda a construir a felicidade. Fazer um punhado de coisas ao mesmo tempo (o odioso multitasking) é o inimigo de saborear. Pode se tentar com a maior fé, mas não dá para prestar completa atenção em várias coisas, ao mesmo tempo. Se lemos jornal, vemos TV e engolimos o café da manhã, certamente que não estamos extraindo todo o prazer que poderíamos, da refeição, ou do jornal, ou da TV. Se estamos andando no meio de um parque lindo, mas mentalmente revendo nossa lista de afazeres do dia, estaremos perdendo o momento.

Então, minha gente, conheçam-se a sim mesmos e embora Carpe Diem!

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

NÃO, NÃO E NÃO. NÃO É POSSIVEL DESINTOXICAR O ORGANISMO.

Esse é um ajuntamento/resumo de montes de artigos na área. Estou ciente que quanto mais se fala no assunto, menos diferença faz, porque temos enorme dificuldade de abrir mão de nossas crenças, não importa quão absurdas sejam. Mas, otimista que sou, também acredito piamente que água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

De pepinos batidos com água a enemas das mais variadas substâncias, de fotos de modelos maravilhosas ao lado de uma pilha de vegetais, lhe contando o segredo de sua dieta alcalina, paleo, zero, e quantos mais nomes achar, a médicos, curandeiros, pai de santo, trainers, celebridades jurando por “super alimentos”, dieta do tipo sanguíneo, dieta do sol, da lua, da água, da sopa... é difícil não ser tragado pela indústria do “detox”.

A ideia de que podemos lavar nossos pecados calóricos é o antídoto perfeito para nossos estilos de vida cheios de junk food e vidas sociais regadas a álcool. Então, antes de comprar o novo livro sobre sucos, ou sair correndo para a clínica de irrigação do cólon, há algo que você precisa saber: a ideia de que é possível você lavar e enxaguar nosso sistema de impurezas e deixar os órgãos limpíssimos e novos é uma balela. É um conceito pseudo-médico projetado para vender coisas.
Não me entendam mal. Desintoxicação ou Detoxificação é um termo médico legítimo, mas que foi transformado numa estratégia de marketing, destinada a tratar/curar condições não existentes.

No cenário de verdadeira medicina, desintoxicação significa tratamento para níveis perigosos de drogas, álcool, ou venenos, como os metais pesados. Tratamentos de desintoxicação são procedimentos médicos que não são casualmente selecionados a partir de um menu de tratamentos de saúde alternativos, ou pegos na prateleira da farmácia. Desintoxicação real é feita em hospitais quando há circunstâncias que ameaçam a vida.

E aí entram as "toxinas”, que os provedores de saúde alternativa dizem eliminar. Esta forma de desintoxicação é simplesmente a cooptação de um termo real para dar legitimidade a produtos e serviços inúteis, confundindo os consumidores para que pensem que a coisa é “cientificamente baseada “ou pior “cientificamente provada”. Avaliar qualquer “detox” é simples, basta compreender a ciência das toxinas, a natureza da toxicidade, e como os rituais, kits e programas de detox funcionam para eliminar as citadas.

PREMISSAS

NOSSOS ORGANISMOS ACUMULAM TOXINAS

Há uma boa razão para acreditarmos na propaganda da comercialização da desintoxicação: parece que estamos programados para acreditar que precisamos dela, provavelmente relacionado à nossa susceptibilidade às ideias de magia. Os rituais de purificação são tão antigos quanto a história da humanidade. A ideia de que estamos de alguma forma nos envenenando e precisamos expiar nossos pecados parece ser parte da natureza humana, o que pode explicar por que ainda é parte da maioria das religiões do mundo.

Hoje em dia não estamos mais preocupados com os “miasmas “ou o ato de pecar, tendo isso se transformado numa coisa chamada “autointoxicação”. Interessante é que a ciência descartou tal teoria lá pelo ano de 1900, quando iniciamos a ter uma melhor compreensão de anatomia, fisiologia, e das reais causas das doenças. Apesar disso, persiste a ideia entre os praticantes alternativos. A versão atual da autointoxicação argumenta que uma combinação de aditivos alimentares, glúten, sal, carne, fluoreto, medicamentos, poluição atmosférica, ingredientes das vacinas, OGM, e talvez a garrafa de vinho de ontem à noite, estão causando um acúmulo de "toxinas" no corpo.

Mas o que é “toxina" e como causa tais danos? Nada mais é do que um termo sem sentido que soa científico o suficiente para ser plausível. Uma característica uniforme dos tratamentos de desintoxicação é a incapacidade de nomear as toxinas específicas que esses rituais, sucos, kits e enemas irão remover. Por exemplo, a companhia RENEW LIFE (Renovação da Vida) promete:
“CleanseSmart (Limpeza Esperta) é parte de um avançado programa de limpeza com ervas, de 30 dias. É formulado para estimular o processo de desintoxicação do corpo pelos seus 7 canais de eliminação: fígado, pulmões, cólon, rins, sangue, pele e sistema linfático. No mundo tóxico de hoje, limpeza e desintoxicação são uma necessidade. Toxinas entram no nosso corpo diariamente através do ar que respiramos, do alimento que comemos e da água que bebemos. Ao longo do tempo, essas toxinas se acumulam e, lentamente, começar a afetar a nossa saúde de forma negativa.
Através de limpeza e desintoxicação, você fará com que seu corpo trabalhe melhor este processo de carga tóxica. A redução da carga tóxica no seu corpo diminui o risco de desenvolver problemas crônicos de saúde, melhora a saúde geral e a resposta imune, e pode aumentar os níveis de energia. CleanseSmart trabalha para limpar e desintoxicar o corpo inteiro, mas com foco em duas principais vias de desintoxicação do corpo - o fígado e o cólon. CleanseSmart é essencial para ajudar a eliminar a constipação e melhorar a saúde do intestino. ”

Note a linguagem vaga. Toxinas são aludidas, mas não nomeadas. Parece plausível, mas não é específico, e parece que, mesmo que se esteja bem e saudável (e, presumivelmente, livre de toxinas), ainda assim, uma desintoxicação é recomendada.

O cólon permanece o marco zero para os defensores da desintoxicação. Eles argumentam que uma espécie de lama tóxica (às vezes chamada de placa mucoide), se acumula no cólon, tornando-o terreno fértil para parasitas, Cândida (levedura) e outras porcarias. Felizmente, a ciência nos diz o contrário: placas mucosas e lama tóxica simplesmente não existem. É uma ideia inventada para vender tratamentos de desintoxicação. Pergunte a qualquer gastroenterologista (aquela criatura que vive olhando dentro dos cólons dos outros, para ganhar a vida) se já viu um. Não há um único caso documentado na literatura médica. Nenhum.

DOENÇAS SÃO RESULTADOS DAS TOXINAS
Os materiais de marketing para tratamentos de desintoxicação, tipicamente descrevem uma variedade de sintomas e doenças ligados ao acúmulo de toxinas: algumas, gerais, que podem ser aplicadas a qualquer pessoa (por exemplo, dor de cabeça, fadiga, insônia, fome) com algumas especificidades para assustá-lo (câncer, etc.). Quais toxinas causam qual doença ou como as toxinas causam os sintomas, nunca é realmente explicado. Aqui, novamente, vemos o contraste com a ciência real. Para estabelecer que mesmo um único produto químico pode causar a doença requer uma quantidade significativa de investigação (ou seja, todo o campo da epidemiologia). Apesar da variedade de toxinas que são requeridas para estar causando sua doença, alegações de marketing para tratamentos de desintoxicação jamais vinculam toxinas específicas a sintomas ou doenças específicas.

A realidade é que os nossos corpos estão sendo constantemente expostos a uma enorme variedade de produtos químicos, naturais e sintéticos. A presença de qualquer produto químico no corpo, (natural ou sintético) não significa que ele está fazendo mal. Muitas substâncias de origem natural podem ser excepcionalmente tóxicas e, consequentemente, o corpo humano desenvolveu um notável sistema de defesas e mecanismos para, tanto se defender contra quanto para remover substâncias indesejadas. A pele, rins, o sistema linfático e gastrointestinal, e principalmente o fígado, compõem nosso sistema de desintoxicação intrínseco, espantosamente complexo e sofisticado. É importante ressaltar que a dose faz o veneno - até mesmo a água pode ser tóxica (hiponatremia dilucional), quando consumidos em quantidades excessivas.

Os defensores da desintoxicação usualmente descrevem o fígado e os rins como filtros, nos quais as toxinas são fisicamente capturadas e retidas, e que, portanto, tais órgãos devem ser “limpos” periodicamente, como se lava uma esponja, ou o filtro do aspirador de pó. Mas a realidade é que rim e fígado não funcionam dessa maneira. O fígado realiza uma série de reações químicas para converter substâncias tóxicas em substâncias que possam ser eliminadas na bílis, ou rins. O fígado é órgão auto-limpante: as toxinas não se acumulam nele, e, a não ser que a pessoa tenha uma doença hepática, geralmente funciona sem qualquer problema. O rim excreta resíduos na urina, caso contrário, a substância permanece no sangue. Argumentar que qualquer órgão precisa de uma "limpeza" é demonstrar uma profunda ignorância da fisiologia humana, metabolismo e toxicologia.

TRATAMENTOS DE DESENTOXICAÇÃO REALMENTE REMOVEM TOXINAS

Se fizer uma busca na literatura médica a respeito do assunto, vai encontrar absolutamente nada. Não há qualquer evidência demonstrando que os tais kits de desintoxicação façam qualquer coisa, boa ou má que seja, ou que removam as tais toxinas ou que ofereçam benefícios para a saúde. O mesmo pode ser dito para o charlatanismo como enemas de café (não há nenhuma evidência credível para apoiar as reivindicações que enemas do café ajudam o organismo a "desintoxicar" compostos, ou ajudar a função do fígado de forma mais eficaz). Injeções de vitamina são outro tratamento que não oferece qualquer benefício significativo, nem têm qualquer efeito benéfico sobre a capacidade do fígado ou rins para que trabalhem de forma eficaz. Injeções de quelação são apregoadas como uma panaceia para todos os tipos de doenças, mas ao contrário da quelação real, que é administrada em hospitais, para casos reais de envenenamento, a quelação naturopata não é baseada em ciência e não parece fazer muita coisa (a não ser, provavelmente, o velho e bom efeito placebo, no qual, se a pessoa acredita que aquilo a fará se sentir bem, bem se sentirá por um tempo).

DESENTOXICAÇÃO PODE SER PREJUDICIAL?

Quando a coisa é uma simples alteração da dieta, provavelmente não fará mal algum. Coma mais quinoa e brocoli e menos alimentos processados, é conselho razoável para todos.

Tratamentos de desintoxicação homeopáticos também não causam qualquer dano, desde que não há nenhum ingrediente ativo nas tais medicações, e nada mais é que um elaborado sistema placebo.

Agora, quando se vai para tratamentos que contenham ingredientes ativos, aí a coisa começa a ficar arriscada.

Enemas de café são perigosos, pois podem causar septicemia, perfuração retal e abnormalidades eletrolíticas e até morte.

Injeções de vitaminas não são tão arriscadas, claro se seu provedor alternativo seguir as regras de esterilização adequadas. Mas, considerando que, muitos deles acham correto injetar coisas que foram feitas para ingestão oral, melhor pensar bem a respeito, antes de usar injeções de vitaminas ou quelação, considerando que não há qualquer expectativa de benefícios.

Então, que tal os “kits detox”?
Estes variam, mas no geral, contém, basicamente, laxantes, como o assim chamado “estimulante” para o fígado, leite de cardo (Silibum marianum).
Se o fígado não pode ser espremido, esticado e rejuvenescido, feito a pele, será que pode ser impulsionado a fazer um trabalho melhor? Cardo é o produto mais popular para a pretendida "estimulação “da eficácia do pobre coitado. Não existem estudos publicados demonstrando que tenha um efeito desintoxicante no fígado. Leite de cardo tem sido estudado em doentes com doença hepática alcoólica, e em doentes com hepatite B ou C, e não foi encontrado nenhum efeito significativo. Não há nenhuma evidência para sugerir que o consumo de leite de cardo irá purificá-lo de "toxinas" inominadas.
Usualmente, os outros componentes são: hidróxido de magnésio, sena, ruibarbo, cascara, enfim, todos laxantes, e lhe dão o efeito que você pode ver e sentir, uma baita diarreia. No entanto, estes ingredientes podem causar desidratação e desequilíbrio eletrolítico se não forem usados com cuidado. O uso regular de laxantes, como sena e cascara, não é aconselhável, devido ao risco de dependência e de depleção eletrolítica. Eles estão entre os laxantes mais potentes, normalmente usados por períodos curtos para aliviar constipação significativa ou para limpar suas entranhas antes de um procedimento médico. Com o uso regular, o intestino pode se acostumar com os efeitos, o que, por sua vez, resulta em prisão de ventre ao parar de usá-los. É um caso perfeito do tratamento causar a doença: após a desintoxicação, você fica constipado, e aí precisa de outra desintoxicação!
Efeitos colaterais podem continuar após o término da desintoxicação, coisas como náusea e diarreia, o que os que acreditam na coisa explicam como sendo “as toxinas deixando seu corpo”. Uma explicação mais plausível é que isso é simplesmente uma consequência do recomeço do processo digestivo, após um período de catarse, onde, dependendo da extensão e duração do jejum, a digestão foi pouca ou nenhuma, e a flora normal gastrointestinal pode ter sido severamente perturbada.
É o mesmo efeito visto em pacientes hospitalizados que, inicialmente tem dificuldade de ingerir alimentos depois de terem sido alimentados intravenosamente.
Os ingredientes nos kits detox, e a catarse resultante, podem irritar tanto o cólon que o pobre vai precisar de um tempo para voltar ao normal.
Perda de peso também não é incomum depois de uma detox, mas infelizmente é causada por perda de água e às vezes, tecido muscular, e a pessoa vai ganhar tudo de novo se a dieta e níveis de atividade física permanecerem os mesmos.

CONCLUSÃO

Qualquer produto ou serviço com as palavras “detox, purificação e/ou limpeza “em seu nome, só vai ser efetivo em limpar sua carteira do suado dinheirinho.
As ideias de desintoxicação e limpeza não têm nenhuma base na realidade. Não há nenhuma evidência que sugira que kits, rituais ou tratamentos de desintoxicação tenham qualquer efeito sobre a capacidade do nosso corpo de eliminar resíduos de forma eficaz. Por outro lado, podem prejudicar bastante. "Detox" centra a atenção em questões irrelevantes, e dá ao consumidor a impressão de que é possível desfazer decisões de estilo de vida com soluções rápidas. Uma boa saúde, não é encontrada num maço de ervas, numa garrafa de homeopatia, ou um saco de café enfiado no reto (o que considero um insulto aos apreciadores do dito cujo, o café, digo). As implicações e consequências de um estilo de vida com uma dieta pobre, falta de exercício físico, tabagismo, falta de sono, uso e abuso de álcool ou qualquer outra droga, não pode simplesmente ser lavado ou purgado.

Edrd Ernst, professor emérito de Medicina Complementar na Universidade de Exter, explica: "Há dois tipos de desintoxicação: uma é respeitável e a outra não é. A respeitável, é o tratamento médico de pessoas com vícios de drogas, com risco de vida. A outra é a palavra que está sendo sequestrada por empresários, curandeiros e charlatães, para vender um tratamento falso que supostamente desintoxica seu corpo de toxinas que você é levado a acreditar que acumulou. Se toxinas se acumularam em seu corpo de uma maneira que o mesmo não consegue se desfazer delas, você já estaria morto, ou certamente numa UTI. O corpo saudável tem rins, fígado, pele, pulmões que são desintoxicantes que funcionam 24 hs, 7 dias por semana. Não há nenhuma maneira conhecida, e certamente não através de tratamentos de desintoxicação, para fazer algo que funciona perfeitamente bem, no caso, um organismo saudável, fazê-lo funcionar melhor."

O melhor estilo de vida 'detox' é aquele no qual não se fuma nem se usa drogas, se faz exercício físico e se tem uma dieta equilibrada saudável como a dieta mediterrânea. Imagina só a cena de uma mesa rústica, debaixo de uma árvore, com o Mediterrâneo azul ao fundo, e em cima da mesa, carnes, peixes, azeite, queijos, saladas, cereais integrais, nozes e frutas. Todos esses alimentos nos dão todas as proteínas, aminoácidos, gorduras insaturadas, fibras, amido, vitaminas e minerais para manter o corpo e seu sistema imunológico (o maior protetor de problemas de saúde), funcionando perfeitamente.

Então, por que, com essa festa disponíveis (pelo menos o que está em cima da mesa, já que, a depender de onde moramos, a oliveira e o Mediterrâneo complicam um pouco) sentimos a necessidade de nos punir para sermos saudáveis? Estaríamos inconscientemente definidos por milênios culturais, a querer “detox”, dado que muitas das mais antigas religiões praticam o jejum e os rituais de purificação? Teria o despertar científico desviados os maus espíritos para a periferia, substituindo-os por toxinas ambientais, das quais achamos que temos que nos livrar?

Susan Marchant-Haycox, psicóloga em Londres, acha que não. Diz ela: "Tentar amarrar desintoxicação com práticas religiosas antigas não faz sentido. Precisamos olhar para nossa composição social de um passado muito recente. Na década de 70, apareceram todas essas academias, e de lá para cá tivemos a proliferação da indústria da beleza e da dieta, com as pessoas cada vez mais conscientes a respeito de determinados grupos de alimentos e assim por diante. A indústria da desintoxicação é apenas uma continuação daquilo. Há um monte de dinheiro em jogo e muitos fazendo o jogo”.

Peter Ayton, professor de psicologia na City University de Londres, concorda e diz: Todos nós somos suscetíveis a tais artimanhas porque vivemos em um mundo com tanta informação que ficamos felizes em diferir responsabilidade para outras pessoas que possam entender melhor as coisas. Por exemplo, para entender a composição de seu shampoo, você precisa ter PhD em bioquímica, coisa que a maioria de nós não tem. Então, se a coisa parece razoável e plausível e invoca um conceito familiar, como desintoxicação, então ficamos felizes em ir com a onda. Muitas de nossas decisões de consumo, são feitas na ignorância e na suposição, que raramente são contestadas ou esclarecidas. As pessoas supõem que o mundo é cuidadosamente regulado e que existem instituições benignas guardando-os de fazer qualquer tipo de erro. Um monte de marketing pesado alimenta essa ideia, subrepticiamente. Então, se as pessoas veem alguém com (aparentemente) as credenciais certas, pensam que estão ouvindo um médico respeitável e confiam em seus conselhos. "

E la nave vá.