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terça-feira, 26 de agosto de 2014

NOSSO MUNDO É DEFINIDO POR AQUILO NO QUE PRESTAMOS ATENÇÃO

“Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é, enquanto você está pensando sobre isso”. Daniel Kahneman, psicologo, ganhador do Premio Nobel de 2002 em Ciências Econômicas

Há milhões de coisas acontecendo a todo momento, algumas boas, outras ruins, um monte pelo meio do espectro. O conflito em Gaza não termina nunca, o surto de Ebola na África Ocidental piora, a Peste Bubônica retornou na China (no momento que escrevo já tem 2 casos aqui nos USA), polícia branca mata adolescentes negros com fé, gosto e vontade, políticos xingam os oponentes sem nada trazer de novo ao discurso, facções político/religiosas decapitam jornalistas... Pois estava eu pensando no quão difícil está sendo manter a sanidade, um pouco de esperança no futuro, e bom humor no geral, quando me cai do céu (figura de linguagem, pois caiu foi no meu e mail, diretamente de PubMed), um artigo da Barbara Fredrickson, psicóloga social da Universidade da Carolina do Norte, autora cuja pesquisa em Emoções Positivas e Psicofisologia gosto imensamente.

Só para se ter uma ideia do trabalho da acima citada, em 2000 recebeu o Prêmio Templeton, da Associação Americana de Psicologia, o Prêmio de Trajetória e Carreira da Sociedade de Psicologia Social Experimental em 2008, a Medalha Christopher Peterson em 2013, e sua pesquisa é suportada por ninguém menos que o Instituto Nacional de Saúde, aqui dos USA.

Sua teoria, chamada BROADEN-AND-BUILD (Amplie e Construa), explica o mecanismo e o porquê das emoções positivas serem importantissimas para sobrevivência, pois expandem a cognição e as opções comportamentais. Baseando-se em experiências prévias que demonstraram que todas as emoções levam a tendências e/ou ações específicas, concluiu que as emoções estão moldadas de formas a causar “mudanças momentâneas nos repertórios de pensamento-ação", que são séries de ações potenciais que corpo e mente estão preparados para realizar. Assim, essa expansão da flexibilidade cognitiva, evidente durante estados emocionais positivos, resulta na construção de recursos, os quais com o passar do tempo,se tornam riquissimas fontes de engenhosidade e possibilidades. E, embora um estado emocional positivo seja passageiro, seus benefícios perduram sob a forma de tratos, ligações sociais e habilidades que constroem o futuro. Não bastasse, há também a hipótese, ainda não de todo demonstrada de que emoções positivas podem desfazer os efeitos cardiovasculares das emoções negativas. Faz o maior sentido. Vejam, quando experienciamos stress, nossa frequência cardiaca, pressão arterial, açúcar no sangue e imunosupressão aumentam, pois são ações fisiologicas ou adaptativas otimizadas para ação imediata. Se não regularizarmos essas alterações depois que o stress passou, a coisa se torna crônica, o que pode levar a problemas sérios tais como doenças coronarianas.

E alguém acha que não ia ler um artigo dessa criatura, assim, de imediato, nesse momento de horror e tristeza? Pois é. Li, e não tinha nada a ver com o assunto, é uma revisão/ correção do trabalho prévio que ela desenvolveu, o que não teve a menor importância, pois o nome da criatura me fez lembrar uma montanha de coisas boas, interessantes, e necessárias em momentos que a esperança parece não sair, mas galopar para fora da janela.
Como disse no começo, coisas acontecem, todo o tempo, mas para cada um de nós,individualmente, só acontece aquilo no que se presta atenção. Esta máxima das ciências cognitivas, aprendi cedissimo, com minha nonna Linda, que padecia de um caso raro de surdez seletiva, só escutando o que lhe convinha, e o resto, quando perguntada, não fazia a mais remota idéia. Como? Como? dizia ela. Nunca escutei tal coisa! Minha surdez está piorando a cada dia!.
Quem imaginaria, muitos anos mais tarde fui aprender que nossa capacidade em focar em algo e suprimir aquilo outro, é a chave para contrôle de nossas experiências, e, a fim e a cabo, nosso bem estar. Diria que o fato dela ter sido imortal até os 104 anos é boa evidência do acima explicado.

Como várias pesquisas demonstraram (no fim há alguns desses artigos), vencedores de loteria, a longo prazo, não são muito mais felizes que pessoas que ficaram paraplégicas depois de acidentes, pelo fato que, eventualmente, tanto o estar rico como o estar paralizado se tornou um pequeno pedaço de uma grande vida. Ou seja, pararam de prestar atenção no assunto.

O autor da citação com a qual iniciei o artigo, tem idéias interessantissimas a esse repeito:
“As pessoas acham que, se ganharem na loto, serão felizes para sempre, e óbvio, não o serão. No início, claro, por causa da novidade e por pensarem na coisa todo o tempo. Depois se adaptam e param de prestar atenção. Similarmente, as pessoas se surpreendem com o quão felizes paraplégicos podem ser mas, eles não são paraplégicos tempo integral. Eles fazem outras coisas. Eles curtem suas refeições, seus amigos, ler jornal, assistir filmes, etc… Tem a ver com alocação da atenção, e contolar a atenção pode ser a chave da felicidade. Ser capaz de controlar a atenção lhe dá poder, porque você sabe que NÃO PRECISA ficar só pensando numa emoção negativa que apareça”.

Com isso ele não está dizendo para virarmos ostras bem fechadas para o resto do mundo, sem qualquer idéia a respeito dos horrores lá fora, ou darmos uma de Maria Antonieta com “Não tem pão? Comam bolos.”(A pobre coitada nunca jamais proferiu tal frase, mas funciona como exemplo do que queria dizer, e também da força da propaganda, que faz com que, algo nunca dito, se torne uma verdade incontestável).

A idéia é o que fazer, para melhor contolar nossa atenção, num mundo cheio de noticias ruins, e mails, texts, facebooks, o escambau, tudo nos distraindo constantemente.
Pois aqui vão as dicas:

1-REAVALIE

COMO SE REAGE ÀS COISAS É MAIS IMPORTANTE DO QUE O QUE ACONTECE NA REALIDADE.

As pesquisas de Arnold e Lazarus mostram que reavaliar situações, focalizando na parte boa de acontecimentos ruins pode ser um grande passo a respeito de permanecer positivo.
Direcione sua atenção para alguns elementos da situação, para organizar as coisas de maneira menos confusa. Por exemplo, depois de uma explosão raivosa a respeito de uma partilha mais equitativa nas tarefas domésticas (frase finissima para o pensamento negro de “o FDP largou a toalha molhada em cima da cama, de novo!”), ao invés de continuar a focalizar no egoísmo e preguiça de seu parceiro, pode se concentrar no fato que, pelo menos, a fistula purulenta foi aberta, primeiro passo para cura e cicatrização da citada, solução do problema em questão e melhora de seu humor.

Já notou como, em qualquer conflito, de briga doméstica a religiosos das mais diversas estirpes destruindo patrimonio histórico uns dos outros, da discordância com um amigo a guerras terríveis, tudo se baseia no fato que nos recusamos a ver o ponto de vista do outro, e preferimos usar tudo o que temos para demonstrar o quanto esse outro é mau, culpado, horrivel, sei lá, ponha os adjetivos que quiser.

O psicologo George Bonanno, da Universidade de Columbia, acha que o desviar a atenção de uma experiência negativa, não só não é uma coisa mal adaptativa, como muitos de seus colegas consideram, mas que, pelo contrário, pode ser uma estratégia de enfrentamento fantástica. Segundo ele: “Mesmo em face de eventos terriveis, auto decepção e evasão emocional estão consistentemente relacionadas a melhor resultado. Mesmo quando a pancada é severa, como a morte de um ente querido, desviar o foco de seu sofrimento para qualquer outra coisa, pode aumentar sua capacidade de resilência.”

Assistam o filme “O Pianista”(The Pianist, 2002, Roman Polansky, baseado no livro The Pianist: The Extraordinary True Story of One Man's Survival in Warsaw, 1939-1945, de Jerzy Waldorff). Prestem bem atenção e me digam como foi que ele sobreviveu.
Para os que gostam de ler, aconselho veementemente “O homem em busca de sentido”do Vicktor Frankl.

2-COLOQUE SUA ATENÇÃO NAQUELES QUE ACREDITAM EM VOCÊ

Se você tem alguma experiência em palestras, já deve ter notado que sempre, não importa estar falando para 5 ou 500 pessoas, em Boston ou Tumbuctu, São Paulo ou Manaus, digo sempre tem aquele ser que foi lá só para mostrar ao mundo, da maneira mais desagradavel, ofensiva e chocante, o quanto suas idéias estão erradas. Suas, palestrante, não dele, chateante. Pois bem, que fazer? Como neutralizar aquela voz interna que berra “Danou-se”?

Seguindo as boas lições de politicos e vendedores, que aprendem a, seletivamente, prestar atenção aos reforçadores positivos.Para criaturas de temperamento sanguíneo, como certos politicos, empresarios e vendedores, parece ser coisa natural o direcionar a atenção para além da negatividade que recebem.Como? Simplesmente desviando de caras feias no público presente e focando em caras amigáveis, apagando assim qualquer imagem perturbadora antes que essa possa ficar armazenada na memória.

3-BUSQUE O FLUXO

Só lembrando que “fluxo”é um estado ativo de atenção, no qual se está tão interessado e/ou focado no que se está fazendo, que o resto do mundo praticamente desaparece. É o exato oposto de, por exemplo, se largar por horas a fio na frente da TV.

Num exemplo impressionante do tipo de mentalidade que destroi boas experiências diárias, a maioria das pessoas reflexivamente diz que prefeririam estar em casa do que no trabalho, ao contrário do que mostra toda a pesquisa sobre “fluxo”, a qual demonstra que, quando no trabalho, as pessoas tendem a se concentrar em atividades que exigem sua atenção, desafiam suas habilidades, tem metas claras, e conduzem a feed backs oportunos que favorecem a experiência ideal.

4-TRANSFORME AS COISAS CHATAS NUM JOGO, NUM DESAFIO.

Csíkszentmihályi, a criatura que praticamente inventou o conceito de “fluxo”, acredita que, com um pouco de esfôrço e atenção, podemos tornar mesmo a mais estupidificante das tarefas, em algo mais satisfatorio. Para mim, não existe nada mais estulto do que passar roupa. Até hoje procuro saber quem foi que inventou a coisa, para, caso houver outro mundo e lá o encontrar, estar certa e segura de lhe dizer o que penso. Mas, há muitos anos atrás, uma amiga me fez ter a maior das epifanias. Pois estávamos ambas em começo de profissão, com todas as pressões inerentes ao momento histórico, e com roupas para passar para o resto da vida, quando ela me telefona e me convida para ir passar roupa na casa dela. Achei assaz esquisito, mas era sábado e, a não ser que quisesse ir ao hospital pelada na segunda feira, não ia ter jeito. Pois lá fui. Ela tinha ganho de alguém uma garrafa de champagne, e, entre champagne, boa música e muitas gargalhadas, demos conta, numa tarde agradabilissima, da roupa toda. Não estou insinuando que nos tornemos alcoolatras para suportar coisas chatas. Estou dizendo que, muito mais do que fazemos, é como o fazemos. Agora, mudei o repertório para botar em dia filmes que não deu tempo de assistir. Basicamente, é descobrir como melhorar algo que é muito chato, em algo interessante.

5-PROGRAME DESAFIOS PARA SEU TEMPO DE LAZER

Apesar de minha imorredoura paixão pelo cérebro, também sou uma realista convicta, e sei que o danadinho é preguiçoso, assim, se o deixarmos a seu bel prazer, ele vai escolher fazer o que é mais fácil ao invéz do que possa ser mais interessante ou divertido.
Citando Csíkszentmihályi (de novo): “Se forem deixados à sua própria sorte e programação genética, e sem um estímulo externo marcante para atraí-los, a maioria das pessoas tende a entrar em um modo de processamento de informação de baixo nível, durante o qual, ou se preocupam com coisas à toa sem possibilidade de solução, ou assistem TV.”

O antídoto para o tédio do assim chamado lazer, é prestar tanta atenção ao programar uma noite ou fim de semana produtivo como o fazemos com nossa jornada de trabalho.

Exemplos:

a)Tenho duas amigas, vidas diferentes, profissões diferentes, idades diferentes, estados diferentes, que usam parte de seu ocupadissimo tempo servindo como voluntárias em Hospitais do Câncer. Já vi muita coisa triste nessa vida, mas é dificil achar algo tão avassalador como esses hospitais. Dá vontade de dobrar no chão e chorar de ódio/tristeza/revolta/dor/desespero, tudo junto, principalmente na ala infantil. Pois as duas lá estão, e fora essa característica comum, a segunda é que ambas são mulheres lindas, cheias de vida, com sorrisos de milhão de dólares, como dizem aqui, com tremendo bom humor e gosto pela vida. Estão no fluxo. Só não uso os nomes porque não pedi licença, mas elas sabem que são minhas heroinas e que quero ser igualzinha quando crescer.

b)Todo mundo já sabe do tal do desfio do balde de gelo para a campanha de doação para a Esclerose Lateral Amiotrófica ou Doença de Lou Gehrig, embora ainda tenha gente achando que o pessoal se molha todo para não pagar a doação e, em não entendendo o espírito da coisa, mostram crianças africanas tomando água em tampinha de garrafa. Pois bem, o ator Matt Damon, que além de ator é ativista social e fundou a Water.org, ONG dedicada a prover água potável e soluções sanitárias às regiões mais pobres da terra (http://www.water.org), aceitou o desafio da maneira mais brilhante possivel: usando água de seu vaso sanitário, informando que é mais limpa do que a disponível a milhões de crianças no mundo. Na mosca, duas vezes. Veja abaixo.
http://www.huffingtonpost.com/2014/08/25/matt-damon-ice-bucket-challenge_n_5710431.html?ncid=fcbklnkushpmg00000023&ir=Good+News
Basicamente, é o que Cristo disse a Lázaro: “Levanta-te e anda”, e qualquer outra hora comentarei sobre minha interpretação da morte como metáfora.

6-SABOREIE AS COISAS BOAS DA VIDA

Tal qual com comida, uma coisa é engolir um MacDonald em pé, só para encher o estômago, e outra é saborear um prato de Casoncei alla Bresciana, de preferencia no lago D’Iseo, na companhia de amigos queridos. São duas experiências sensoriais totalmente distintas, com consequencias idem. Aliás, a capacidade de “saborear”, de casoncei a um por de sol, de um livro ao sorrisão de uma criança, de uma boa piada a um bom vinho, é uma das habilidades das pessoas que se consideram felizes, como bem demonstra o seguinte experimento:
Um grupo de pessoas foi orientado a se concentrar em todas as coisas boas que poderiam encontrar, tipo o sol, as flores, gente sorridente andando pela rua, etc…..
Outro grupo era para se concentrar em coisas negativas, tipo lixo na rua, caras amarradas, sem teto, trânsito impossivel, etc, e o terceiro grupo foi instruido a andar só para exercício, procurando não prestar atenção no local. Depois de uma semana, os grupos foram testados, com os seguintes resultados:
O grupo que, deliberadamente se concentrou nas coisas boas, estava muito mais feliz que no início do experimento, o grupo que se concentrou nas coisa ruins, estava mais triste, e para os que andaram por exercício, nada mudou.

Isso demonstra que vemos apenas aquilo que estamos procurando ver, não necessáriamente o que lá está. A coisa boa é que podemos nos treinar a procurar ver as coisas boas, ao invéz de esperar passivamente para que venham até nós.
(RAPT: Attention and the Focused Life, Winifred Gallagher)

Atenção concentrada no trabalho ou no lazer, não só nos torna mais felizes momentaneamente, como também, junto com a seleção dos desafios que queremos superar, é o que nos transforma no tipo de pessoa que queremos nos tornar.

Não adianta ler todos os livros de auto ajuda existentes no mercado, se não estiver disposto ao trabalho constante, ao desafio diário, pessoal e intranferível, de ser a pessoa que você sonha encontrar.
Já não me lembro quem foi que disse isso, mas gravei essa frase numa plaquinha na minha escrivaninha:

“O QUE SOMOS, É IMUTÁVEL. QUEM SOMOS, NUNCA PARA DE MUDAR”.

PESQUISA SOBRE RELATIVIDADE DA FELICIDADE
Lottery winners and accident victims: is happiness relative? Brickman P, Coates D, Janoff-Bulman; J Pers Soc Psychol. 1978 Aug;36(8):917-27
Measuring the impact of major life events upon happiness. Ballas D, Dorling D.; Int J Epidemiol. 2007 Dec;36(6):1244-52. Epub 2007 Sep 28.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DEPRESSÃO PODE SER TRATADA, MAS É PRECISO COMPETÊNCIA

Decidi traduzir esse artigo da Kay Redfield Jamison, não só pelo fato dela ser considerada a maior especialista na área, mas também por ser um dos únicos dos que se seguiram à morte do Robin Williams que não é nem piegas nem exagerado, mas claro, conciso e direto ao ponto. No final, breve bio da autora e seus livros, os quais considero básicos para os que trabalham na área psi e excelentes para qualquer um que queira ter uma ideia do assunto. Como concordo tanto com suas palavras, nem sequer fiz comentários.

Quando, em 1931, o artista americano Ralph Barton se suicidou, deixou uma nota explicando porquê, em meio a uma vida aparentemente boa e completa, ele escolhera morrer.

“Todos os que me conheceram ou ouviram falar de mim, terão uma hipótese diferente para explicar porque fiz isso, e a maioria das explicações estará errada. Tive poucas dificuldades reais e mais do que muitos em carinho e apreço. Apesar disso, meu trabalho se tornou tortura e me tornei causa de infelicidade a outros. Corri de uma esposa a outra, de uma casa a outra, de um país a outro, num ridículo esforço de escapar de mim mesmo.”
A razão que ele deu para seu ato foi “Uma vida inteira de melancolia, piorada por sintomas claros de insanidade maníaco-depressiva.”

Barton estava correto a respeito das reações dos outros. Muitas vezes, é mais fácil explicar um suicídio por causas externas, como problemas conjugais ou de trabalho, doenças físicas, estresse financeiro ou problemas com a lei do que é atribuí-lo à doença mental.

Certamente, stress é importante e muitas vezes interage perigosamente com a depressão. Mas o fator de risco mais importante para o suicídio é a doença mental, principalmente depressão ou transtorno bipolar (também conhecido como doença maníaco-depressiva). Quando a depressão é acompanhada por álcool ou drogas, o que é muito comum, o risco de suicídio aumenta perigosamente.

A depressão suicida envolve um tipo de dor e desespero que é impossível de descrever - e eu tentei. Sou professora de psiquiatria e escrevi sobre a minha doença bipolar, mas as palavras se esforçam para fazer justiça aos sentimentos. Como se descreve a sensação de passar de ser alguém que ama a vida a alguém que só deseja morrer?

Depressão suicida é um estado de horror e desespero gelado, agitado e implacável.

As coisas que você mais ama na vida se vão. Tudo é um esforço, o dia inteiro e noite afora. Não há esperança, não há sentido, não há nada. A carga, que se sabe, estamos sendo para outras pessoas, é intolerável. Assim também o é, a agitação da mania que pode ferver dentro de uma depressão. Não há nenhuma maneira de sair e à frente, uma estrada sem fim.

Quando alguém está nesse estado, o suicídio pode parecer uma escolha ruim, mas é a única.

Há tempos, tive depressão suicida. Sou um dos milhões de pessoas que passaram por tratamentos para a depressão e fiquei bem. Tive a sorte de ter um psiquiatra bem versado no uso de lítio, bem informado sobre a minha doença, e que também era um excelente psicoterapeuta.

Infelizmente, essa não é a experiência comum. Muitos profissionais de diferentes áreas, tratam a depressão, incluindo médicos de família, internistas, ginecologistas, bem como psiquiatras, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais.
Isso resulta em níveis de competência loucamente descontrolados.
Muitos dos que tratam depressão, não são bem treinados na distinção entre os tipos da mesma. Não há um padrão comum para o ensino do como chegar ao diagnóstico.
Distinguir entre depressão bipolar e distúrbio depressivo maior, por exemplo, pode ser difícil e erros acontecem. Um erro de diagnóstico pode ser fatal. Medicações que funcionam bem com uma pessoa, induzem agitação em outra.
Nós exigimos tratamentos bem informados, baseados em evidência para os cânceres e as doenças cardíacas. Deveríamos exigir o mesmo para as doenças mentais e a depressão.

Por exemplo: sabemos que o lítio diminui enormemente o risco de suicídio, em pacientes com distúrbios do humor como o distúrbio bipolar,e, apesar disso, só é usado em última instância. Também sabemos que medicação E psicoterapia funcionam muito melhor em conjunto, do que qualquer uma das duas separadamente. No entanto, muitos clínicos continuam a puxar a sardinha para sua própria brasa, quer exclusivamente na psicofarmacologia ou na psicoterapia.

E também sabemos que muitas pessoas com depressão suicida reagem bem à eletroconvulsoterapia (ECT), mas o preconceito contra o tratamento, ao invés da ciência, continua reinando em muitos hospitais, clínicas e consultórios.

Pacientes com depressão grave e seus familiares, devem ser envolvidos nas discussões sobre o suicídio, sempre que possível.
No geral, a depressão embota a capacidade de pensar e lembrar e, por isso, os pacientes devem receber informações sobre sua doença, tratamento e sobre os sintomas indicativos de risco de suicídio - como agitação, insônia e impulsividade, por escrito. (Na minha prática, uma cópia sempre foi dada aos familiares, só por via das dúvidas).

Uma vez que o paciente em depressão suicida tenha se recuperado, é valioso para o médico, paciente e familiares, discutir o que foi útil para o tratamento e que deve ser feito se a pessoa se tornar suicida novamente.
Nem sempre é fácil conviver ou se comunicar com pessoas deprimidas, pois a depressão, irritabilidade e falta de esperança podem ser contagiosas – assim, fazer planos quando o paciente está bem é o melhor caminho.

Uma diretriz antecipada que especifica os desejos do paciente, tanto a respeito de tratamento quanto de situações legais que possam surgir, pode ser útil. Eu tenho uma, por exemplo, que especifica que concordo com ECT se meu médico e meu marido, que também é médico, acharem que é o melhor curso de tratamento.

Pelo fato de ensinar e escrever sobre depressão e doença bipolar, muitas vezes me perguntam qual é o fator mais importante no tratamento. Minha resposta é :competência.

Empatia é importante, mas competência é essencial.

Tive a sorte de ter um psiquiatra que possuía ambas. Foi uma longa viagem de volta à vida, depois de quase morrer numa tentativa de suicídio, mas ele estava comigo, na verdade à minha frente, a cada lentíssimo passo do caminho.

To Know Suicide: Depression can be Treated but it takes competence http://www.nytimes.com/2014/08/16/opinion/depression-can-be-treated-but-it-takes-competence.html?_r=0

Kay Redfield Jamison é psicóloga clínica, escritora e a primeira e única psicóloga a ser professora de psiquiatria na Escola de Medicina John Hopkins, e até onde sei, no resto do mundo. Também é professora honorária de Inglês na Universidade de St. Andrews.
Durante sua carreira, ganhou inúmeros prêmios, aqui só coloco os mais interessantes:
Melhor Médico dos Estados Unidos, Herói da Medicina, Prêmios da Academia Nacional de Saúde Mental (NAMH) e da Fundação Americana para Prevenção de Suicídio.
Também foi uma das 5 pessoas escolhidas para a série televisiva “Grandes Mentes em Medicina.”
Começou a ter problemas com seu distúrbio bipolar, no início da faculdade, problemas esses que foram piorando, até uma séria tentativa de suicídio com medicação. Depois disso, entendeu que teria que tomar medicação pelo resto da vida, pois todas as vezes que parava de toma-la, surtos sérios aconteciam.

LIVROS

Uma Mente Inquieta (An Unquiet Mind: A Memoir of Moods and Madness): Foi escrito tanto para ajudar os médicos a enxergar o que um paciente vê como útil no Tratamento, quanto para ilustrar a importância de estar presente para os pacientes e não tentar acalmá-los com platitudes ou promessas de um futuro melhor

Tocados Pelo Fogo: A Doença Maníaco-Depressiva e o Temperamento Artístico (Touched with Fire: Manic-Depressive Illness and the Artistic Temperament)

Os restantes coloquei tradução minha, pois não encontrei em português.

Doença Maníaco Depressiva (Manic-Depressive Illness)

A noite cai depressa: Entendendo o Suicídio (Night Falls Fast: Understanding Suicide)

Exuberância: A paixão pela vida (Exuberance: The Passion for Life)

Nada mais foi o mesmo: Memórias (Nothing Was the Same: A Memoir)

domingo, 3 de agosto de 2014

CEM ANOS DA PRIMEIRA GUERRA, FUTILIDADE E CONSEQUÊNCIAS


“Se acha que o comportamento humano é desencorajante hoje, considere há um seculo. Um marciano podia ter dado uma olhada na Europa em 1914, e visto um continente pacífico e próspero, com uma cultura mais ou menos compartilhada. Quase todos tinham comida o suficiente. Os ingleses ouviam Wagner, os alemães saboreavam Shakespeare, os aristocratas russos imitavam os franceses, e todo mundo amava Mozart e as óperas italianas.
Daí, a Europa implodiu.
Dez dias antes do Império Austro Hungárico declarar guerra à Sérvia, em 28 de Julho de 1914, que acabou se tornando a Grande Guerra, as pessoas de todos os paises estavam comendo, trabalhando, sonhando com tudo, menos uma guerra, ou como um cientista político escreveu no jornal -The Atlantic, no ano seguinte: A guerra despencou em cima deles como um trovão.
Filósofos, especialistas e poetas, passaram os 4 anos seguintes arrancando os cabelos para encontrar explicações. Ridicularizaram a idéia de que o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, foi a causa. Segundo a maioria, foi só o pretexto.
Uma teia de alianças, enredos e manobras de diplomatas e generais arrastaram nações ambivalentes numa guerra desnecessária. Esses, os fatos.
Agora, quais foram as causas profundas?
Foi a ganância dos beligerantes ricos tentando ficar mais ricos.
W.E.B. Du Bois, o escritor e ativista negro, disse que era a competição pelas colônias mais ricas em recursos na África.
Foi uma luta entre liberdade e autocracia (embora a aliança da Rússia czarista com a França e Inglaterra minem esse argumento).
Segundo o filósofo e pacifista de Bertrand Russell, foi porque os instintos morais da humanidade haviam ficado muito atrás da busca pelas riquezas materiais.
Foi a insegurança psicológica da Alemanha, desencadeada pela supremacia naval da Inglaterra e pelo medo de uma possivel ascenção da Russia.
Foi, simplesmente, a insanidade da única espécia carnívora que mata os de sua própia espécie por nenhuma razão.
Ou todas as acima.
E para isso, mais de 16 milhões de homens foram para o abate, muitos deles de formas cruéis e criativas. Em trincheiras que se estenderam ininterruptamente por 475 milhas, do Mar do Norte até a fronteira com a Suíça, os alemães construíram muros usando cadáveres, de modo que as tropas francesas que capturaram uma trincheira, penduravam suas cantinas em tornozelos salientes.Ao longo do rio Somme, no norte da França, mais de 1 milhão de homens foram mortos ou feridos em 1916, para um avanço aliado de 7 milhas.Gás venenoso preenchia ¼ de todos os projéteis de artilharia disparados na frente ocidental em 1918. Mais de um terço dos homens alemães nascidos entre 1892 e 1895 morreram no curso da guerra.A matança disseminou-se para civis, na Inglaterra, e a França foi atacada pelos zepelins alemães. A guerra não era mais nobre, embora alguns que nela batalharam, o fossem acima e além de qualquer comparação.
O mundo se tornou um lugar mais desagradável após a guerra do que antes dela.
Foi uma guerra triste, sem nenhum sentido, pela qual continuamos pagando até hoje.
Um tratado de paz de durissimo e uma economia devastada produziram uma "geração perdida" de jovens alemães e levou diretamente à ascensão de Hitler e a uma conflagração ainda mais feia. O acordo secreto de Sykes-Picot secreto entre Grã-Bretanha e França, em 1916, desenhou limites arbitrários nos dividendos do pós-guerra no Oriente Médio em torno do Iraque, por exemplo, que estão dando problemas até hoje. A derrubada da monarquia russa e o colapso do Império Austro-húngarico, criaram uma Europa balcanizada que, recentemente, com a derrubada do avião da Malaysia Airlines em cima da conturbada Ucrânia, continua a machucar.
Todas as guerras nos dizem algo sobre os instintos mais básicos da natureza humana, e a Primeira Guerra Mundial (causticamente nomeada em 1918 por um jornalista inglês, que achou que não seria a última) mais do que a maioria. Sobre a natureza da cobiça, os perigos da insegurança, a facilidade de perder o controle humano sobre os acontecimentos humanos.
Nossa espécie evoluiu? Desenvolveu?
A contraprova é dolorosamente abundante: Os fornos dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Os Gulags de Stalin. Os genocídios no Camboja e em Ruanda.O retorno aos padrões de pensamento e comportamento do século VII, incitados pela revolução iraniana de 1979 e praticado por jihadistas de todo o Oriente Médio.
De fato, a evidência de que nos tornamos mais sábios desde a guerra destinada a acabar com todas as guerras, e que não fez nada do tipo, é bem pequena.
Apesar disso, se serve de consolo em meio às tragédias e desordem do mundo atual, o Homo sapiens parece ter sido mais estúpido no passado do que está sendo agora.”

The Tragic Futility of World War I-Burt Solomon

http://www.theatlantic.com/international/archive/2014/07/world-war-i-tragic-futility/375103/

Os 100 anos dessa guerra, celebrados em prosa e verso em todas as formas de mídia, me fizeram pensar num montão de coisas, desde meu avô bersagliere, que recebeu medalha no citado conflito, passando pela minha bisavó e a gozação horrivel que ela sofreu de seu neto, meu pai, quando Enrico Antonio Maria Montini, primo distante dela, tornou-se Papa Paulo VI, chegando ao artigo que traduzi acima. Artigo primoroso, do qual discordo na última frase, isto é, que o Homo Sapiens está mais esperto agora do que era no passado. Temos muito mais informação, conhecimento e tecnologia, sem a menor sombra de dúvidas. Melhoramos? Altamente discutível. O que minha bisavó e a gozação de meu pai tem a ver com isso? Conto. Um pouquinho da história da Itália que desde o primeiro Papa em Roma, esteve interligada com a história da Igreja Católica, ou como dizia o grande Indro Montanelli, “na Italia, até ateu é católico”. Católico, e anti clerical, pois os papas tinham por mania, quando alguma cidade-estado italiana lhe dava algum problema, de chamarem algum rei estrangeiro, com notada preferência pelos alemães, para descerem e matarem uns quantos problemáticos além de destruir o máximo possivel o local onde viviam. Não bastasse, também criaram a “aristocracia negra”, que é como são chamadas as familias aristocráticas que ganharam o titulo por parentagem com algum alto prelado. Assim, a gozação era em cima de, depois da familia sobreviver por centenas de anos, sem sequer um padre na mesma, catapimba, vem um e vira Papa. O consolo era que o sobrenome era diferente e que, pelo menos uma coisa o Montini tinha feito direito, que foi, no fim da segunda guerra mundial, quando nosso valente rei fugiu num navio para Portugal, esconder os netos do citado dentro do Vaticano, netos esses que haviam sido abandonados na pressa. E como covardia pouca é bobagem, a meio caminho de Portugal, declarou que a Italia não era mais aliada dos alemães. Pronto. Aliados subindo pelo sul, alemães baixando com fé pelo norte, italianos, só para variar um pouco, sanduichados no meio.

E voltemos à idéia do estarmos mais espertos. Há uma frase que todo mundo gosta de repetir e com a qual tenho profunda implicancia, que é “A história se repete”. Ora, a história é uma entidade feita e montada pela vida e ações de cada um de nós viventes em determinado momento, não pode se repetir. O que se repete são as besteiras que cometemos. Nós, primatas da espécie Homo Sapiens. Freud chamou a coisa de Compulsão à Repetição, dizendo que, quem disso sofria, caia na categoria dos neuróticos. Naturalmente que ai vem o DSM e acaba com a perfeição estética do discurso freudiano, enfiando todas as neuroses na classificação geral e insonsa de distúrbios da ansiedade.

E é aqui que a premonição do Bertrand Russell brilha como farol em noite escura: “Os instintos morais da humanidade ficaram muito atrás da busca pelas riquezas materiais”.

Quando vejo aqui, neste assim chamado primeiro mundo, políticos estimulando a população burra e ignara a assustar mais ainda as pobres das crianças que estão vindo de Honduras e Guatemala, muitas delas desacompanhadas, porque berram na televisão que estão trazendo doenças contagiosas que matarão todos os americaninhos; quando vejo os arautos do inferno a estimularem o ódio a outras crenças; quando vejo as tentativas de acobertar os problemas com os fractais na busca pelo petróleo… juro que duvido dessa esperteza.

Depois me lembro que tem o povo todo dos Médicos sem Fronteiras, a enormidade do trabalho da Fundação Melissa e Bill Gates, vacinando as crianças na Índia, África e onde mais precisar, tem aquelas criaturas que além de trabalhar o dia todo, ainda acham tempo para ajudar o vizinho doente, vão ser voluntários em hospitais, creches, asilos, vão cuidar de gente e animais abandonados, aí sou atacada por um afeto enorme pela raça à qual pertenço. Essa raça que criou os “moralmente comprometidos” aos montes, mas que criou, aos milhares e milhões esses heróis de todos os dias, que batalham, acima e além de qualquer fé, pressuposto político ou recompensa. Pensa só, num pai ou numa mãe, a criarem filhos decentes para o mundo.