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domingo, 23 de fevereiro de 2014

COMO PREVENIR, REDUZIR E, DE MODO GERAL, LIDAR COM O STRESS

“Não há fatos, só interpretações.” Friedrich Nietzsche

Foi chamado de “A Doença do Século”, no século passado, mas pelo visto, continua crescendo e se desenvolvendo no presente, firme e forte. O que há de livros, revistas, artigos a respeito do assunto é assombroso, e cobre toda e qualquer área do conhecimento humano. Só em medicina e psicologia, há pelo menos 3 artigos diários em revistas especializadas, e mais um sem número em publicações para RH, negócios, educação, treinamento, gerenciamento, pedagogia, isso sem falar no trend mais “in”no momento, que é o tal de bem estar e espiritualidade.E parece que cada um tem uma receita infalível para acabar com a coisa. Daqui de meu ponto de observação, quer me parecer que as tais receitas infalíveis não tem funcionado a contento, provavelmente pelo fato de que, panacéias universais não existem e nós, humanos, temos a mania de sermos únicos. É por essa razão que, como bem constatei em minha carreira médica, duas pessoas do mesmo sexo, mesma idade e mesmo diagnóstico, reagem de formas totalmente diferentes ao mesmo remédio. Para um, é um milagre, para o outro, um desastre. Acho que isso é exatamente a parte “arte” da Ciência e Arte Médica, isto é, a capacidade de, junto com o paciente, descobrir o que, em cada caso, vai ou não vai funcionar. E é exatamente a mesma coisa com o Stress, isso é, cada um de nós precisa, antes de tudo, definir que significado damos à coisa.

À primeira vista, parece que nada é possivel fazer a respeito: as contas vão continuar chegando, não tem jeito de colocar mais horas no dia, as responsabilidades familiares e da carreira vão continuar existindo, gente abestalhada não vai diminuir em número ou abestalhação, o tempo aqui no Texas vai continuar maluco, os políticos insanos e, ao tentar colocar ar no pneu que está meio baixo, descobre-se que o tal pneu não é enchido a ar, mas com uma substância esquisita da qual nunca se ouviu falar antes...e para fechar com chave de ouro, aquele olhar prenho de desprezo/ridicularização/pena do frentista do posto.
Pronto. STRESSS comendo solto. A percepção de que sua vida saiu dos eixos. Para o mundo que eu quero descer!
E é aí que mora o perigo.

Durante esses anos todos, tenho aprendido algumas coisas, não só a respeito de stress, mas principalmente a respeito de percepção, que, por definição é a capacidade de ver, ouvir ou tomar conhecimento de algo, através dos órgãos dos sentidos.
Considerando que nosso cérebro interpreta as informações sensorias através de filtros, que nada mais são do que a soma de nossos aprendizados, memórias e emoções, isto é, na maior parte um tremendo lixão seletivo pelo qual só passa aquilo ao qual estamos acostumados a deixar passar, fica mais fácil entender o conceito de stress e o que fazer com ele. E aqui discordo do Nietzsche: fatos há, mas não conseguimos vê-los da forma que acontecem devido à nossa percepção.
Dá uma olhadinha em seu facebook. Vai entender, sem a menor sombra de dúvida, o que estou dizendo. No meu, tenho diferentes tipos de amigos. Tenho os de direita, de esquerda, de cima e de baixo, e adoro ler as diferentes postagens sobre o mesmo assunto. O programa mais médicos, por exemplo.
Os de esquerda tecem louvores sem fim ao programa e aos médicos cubanos, sem considerar que, embora poucos, tem gente de alguns outros países também. Os de mais para a direita, desancam o programa, apontam para o trabalho escravocrata, pois os passaportes dos tais trabalhadores de saúde estão retidos na embaixada cubana e o pagamento de boa parte do salário deles pago a Cuba, através de uma agência. Cuba informa que o dinheiro vai para uma caderneta de poupança à qual os médicos terão acesso tão logo voltarem. Se vai acontecer ou não, não sei, mas referindo-me a meu próprio lixão, depois do que Collor e Zélia fizeram com nossas poupanças, fico assaz ressabiada com a idéia.
Acontece que ninguém discute, ou se importa, com o que foi que fez acontecer esse programa, ou como se faz em medicina: O que é (doença) que está causando a febre (sintoma)?
E, a partir da falta de conhecimento da causa, dificilmente será possível tratar a doença, e, apesar da aspirina, a febre vai continuar voltando.

Que tal que nem com stress.(taubateanismo que achou uma maneira de se introduzir no contexto).

Assim, para identificar a causa real do stress, temos que dar uma boa olhada no espelho, ou seja, rever nossas atitudes, desculpas e hábitos.
CONHECE-TE A TI MESMO
Não só estava em letras garrafais na porta do Oráculo de Delfos, como é a pedra fundamental da psicanálise, e a coisa mais difícil desse mundo. Então vamos dar uma espiadinha...

Espelho, espelho meu...
Estarei eu explicando stress como “temporário” mesmo que não consiga me lembrar quando foi a última vez que tirei uma folguinha?
Ex: Tem um zilhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo na minha vida!
Estarei definindo stress como parte integrante de meu trabalho ou da minha vida em geral?
Ex: Por aqui é assim mesmo, loucura total!
Estarei culpando a outras pessoas ou acontecimentos pelo meu stress?

Resposta oraculiana do espelho: Enquanto você não se fizer responsável pelo papel que desempenha no criar ou manter seu stress, ele continuará fora de seu controle .
Ou como diz o Pequeno Príncipe: Tu és responsável por tudo aquilo que cativas...incluindo stress, digo eu.

DICAS COGNITIVAS E DA PSICOLOGIA POSITIVA PARA LIDAR COM O STRESS

Comece seu diário do Stress

Escrever no diário ajuda na identificação dos estressores costumeiros em sua vida, e a forma com a qual lida com eles. Todas as vezes que se sentir estressado/a, escreve no diário. Destarte, será mais fácil ver os padrões e temas comuns.
Escreva lá:
O que foi que causou o stress (caso não tiver certeza, comece com “acho que foi...”)
Como se sentiu, física e mentalmente.
O que foi que fez em resposta ao acontecido.
O que foi que fez para se sentir melhor.

Pense em como e o que faz para gerenciar ou enfrentar o stress. Se suas estratégias de enfrentamento são saudáveis ou não, funcionam ou não, porque, infelizmente, a maioria de nós lida com o stress de maneiras tão pouco eficaz que acabamos piorando o problema. Algumas vezes, até que estratégias ineficazes dão um aliviozinho imediato, mas a médio e longo prazo, pioram a coisa valentemente.

Exemplos de estratégias de enfrentamento nada saudáveis:

Fumar, beber em demasia, comer demais ou de menos, zumbizar na frente da TV, usar drogas, dormir demais ou de menos, procastinar ou encher seu dia com tanta coisa que não dá tempo de pensar, descarregar seu stress em outos, tipo berrar, xingar, ter ataques de birra ou realmente usar violência fisica.
Havia uma piadinha, nos meus tempos de residência, que dizia o seguinte:
O R4 desanca o R3, que desanca o R2, que desanca o R1, que desanca o interno. O interno vai e chuta o cachorro.
Então, se os seus métodos de lidar com o stress estão contribuindo para seu mal estar, fisico e mental, está na hora de desenvolver outros. Há várias formas de manejar o stress, mas todas implicam numa coisa só: MUDANÇA. Ou mudamos a situação, ou mudamos nossa resposta a ela.

Quando na dúvida entre fazer ou desocupar a moita, ajuda pensar no seguinte: EMAA (evite,mude, adapte ou aceite), isso porque não existe uma única resposta ou solução mágica. Não há nenhum método que vá funcionar em todas as situações, para todo mundo. Meio assim como sapato: é lindo, é seu número, mas não é confortável para seu pé. E assim, vai se experimentando com vários modelos, até achar o que cabe perfeitamente, achamos lindo e está dentro de nossas possibilidades de pagamento. Ajuda focalizar naquilo que nos acalma e nos faz sentir no controle da situação.

EVITE STRESS DESNECESSÁRIO

Não há nenhuma possibilidade de evitar totalmente o stress, nem a coisa seria saudável, pois, além de ser o motor necessário para viver, também não é uma boa idéia evitar situações que precisam ser definidas ou resolvidas. Isto posto, vamos ver quais os stressores que pode ser eliminados, e reitero que isto é só um exemplo, cada um há que achar os próprios.

Aprenda a dizer não

Saiba quais são seus limites e respeite-os. Tanto em sua vida profissional, quanto na pessoal, carregar mais do que aguenta é receita certa e segura para produzir stress, em escala industrial. Lembre-se que todos os animais, com exceção do jegue, se revoltam de alguma forma quando colocamos sobre eles mais peso do que aguentam. Menos o jegue, que arreia no chão com as 4 patas esparramadas. Então, não se comporte como um.

Evite pessoas que o deixam estressado

Se alguém, consistentemente o estressa, e não se consegue mudar o relacionamento, ou se limita o tempo que se passa com a pessoa ou se corta a relação. Pensamento cirúrgico: não funciona, corta fora. Se tiver 2, arranca 1, se só um, arranca o pedaço.

Controle seu ambiente

Se as notícias da TV o deixam estressado, desliga. Se o tráfego é horrendo, procura achar outro caminho, que pode ser até um pouquinho mais longo, mas tem menos carros entupindo tudo, e por aí vai.

Evite tópicos que façam subir sua pressão

Se fica nervoso ao discutir política, futebol ou religião, simplesmente não use os citados nas conversas. Se notar que discute sempre as mesmas coisas com as mesmas pessoas, pare de trazer o assunto à tona, ou no caso o sem noção apareça do nada, sorria, faça cara de paisagem, e saia de cena.

Pode sua lista de afazeres

Analize sua agenda, suas responsabilidades e tarefas do dia a dia. Se tiver coisas em demasia, diferencia o “deveria” do “necessário e obrigatório”. Coloca os “deveria” no final da lista ou elimina de vez. Impressionante como uma palavrinha tão pequena quanto “deveria” é capaz de causar tantos dissabores, culpas, manipulações e desgraças no geral. Na Inquisição, se o comportamento desviasse um pouquinho do como “deveria ser”, definido pela Igreja, a fogueira estava ali para acabar com os transgressores. Tenho certeza de duas coisas: a) Se a palavra fosse inconstitucionalissimamente, haveria muito menos problemas, devido à encrenca que é dizer uma coisa dessas e, b) Todos os “deverias” são definidos por outros e não por nós mesmos. Para nós, os deverentes, sobra a culpa de não estar à altura da situação, seja lá qual for.

MUDE A SITUAÇÃO

Se não dá para evitar, tenta modificar. Descubra o que pode fazer para mudar as coisas, de formas a que a situação não se repita. Na maioria das vezes isso implica mudarmos a forma como nos comunicamos e/ou nos comportamos no dia a dia.

Expresse seus sentimentos ao invés de engoli-los e guardá-los.

Se algo ou alguém está lhe chateando, comunique o que é, para a pessoa em questão, de forma aberta e respeitosa. Se não o fizer, além do stress continuar o mesmo, ainda vai desenvolver ressentimentos, que por sua vez aumentam o stress.

Esteja pronto para se comprometer.

Quando se pede a alguém para modificar o comportamento, temos que estar prontos para fazer o mesmo. Se as duas pessoas cederem um pouquinho, chances há que encontrem um bom meio termo em comum.

Seja mais assertivo

Isso quer dizer não sentar na fila dos fundos da própia vida. Pegue o touro pelos chifres, fazendo o possivel para antecipar ou prever enroscos. Caso, digamos, você tem uma prova amanhã, precisa estudar, e sua amiga muito conversadeira lhe telefona. Diga a ela que tem a prova e só pode ficar na conversa por 10 minutos, e, ao final dos quais, dispeça-se cordialmente.

Gerencie melhor seu tempo

Nada como o tempo, não só para passar, mas para causar stress sem fim. Quando estamos sobrecarregados e atrasados, é muito dificil ficar calmo e atento. Mas, se planejarmos com antecedência e sem sobrecarregamentos, dá perfeitamente para modificar a quantidade de stress nos esmagando.

ADAPTE-SE AO ESTRESSOR

Velho Darwin nos ensinou perfeitamente que, não é o mais forte que sobrevive, mas sim aquele com maior capacidade de adaptação, e Maquiavelli nos informou que quando não podemos vencer um inimigo, melhor seria nos aliarmos a ele. Assim, se não puder modificar o estressor, modifique a você mesmo, mudando suas expectativas e atitudes.

Reformule o problema

Tipo assim, ao invés de ficar ensandecido com o tráfego, que não resolve a coisa, pense que é uma oportunidade de parar um pouco e ficar um tempo sozinho para pensar e ouvir em paz suas musicas favoritas.

Ponha a situação estressante em contexto

Quão importante será a longo prazo? Vai ser importante daqui a um mes, ano? Vale a pena ficar todo nervoso por isso, arriscar da pressão subir, ter um derrame? Se a resposta for não, focalize seu tempo e energia em qualquer outra coisa.

Ajuste seus padrões

Perfeccionismo é uma das maiores fontes de stress que podem ser evitadas. Pare de fazer a cama para seu própio fracasso, exigindo perfeição, tanto de sua parte quanto dos outros. Defina padrões razoáveis e aprenda a estar bem com “suficientemente bom”. Winniccott, um de meus heróis, desenvolveu uma teoria inteira sobre o conceito de “Mãe suficientemente boa”, o que, inclusive disse ele, nem precisa ser a mãe biológica, mas qualquer pessoa que estiver desempenhando tal papel. Então sossega e vai ler os livros do acima citado.

Focalize na parte boa

Quando todo peso do stress estiver puxando para baixo, para um minutinho para pensar em todas as coisas boas que estão na sua vida, aquele por de sol totalmente fantático, o deitar na grama comendo melancia e cuspindo os carocinhos para cima, seus filhos, netos, sobrinhos, cachorro, piriquito, papagaio, o gosto daquela trufa de chocolate, a gargalhada conjunta com um amigo, o primeiro beijo, o último teste vencido antes da formatura, ter se apaixonado por uma roupa e ela ter cabido, ter rido até ter dor de estomago por causa da sandália terrorista da sobrinha, ser recebida com pão de queijo mineiro no café da manhã, ganhar uma mãe baiana, fazer novos amigos, rever os velhos, enfim...
É simples e costuma colocar todas as coisas em perspectiva.

Ajuste sua atitude

A maneira como pensamos tem profundo efeito em como nos sentimos. Cada vez que temos um pensamento negativo a nosso respeito, o corpo todo reage como se fosse situação de emergência, isto é, as amigdalas no cérebro soltam sinais de alerta, o que faz com que as supra renais soltem cortisol(também chamado hormônio do stress)em pencas na corrente sanguínea, o que faz com que nossos musculos se contraiam, preparando o organismo para a mais primordial das tarefas, que é a sobrevivência e a decisão: luto ou fujo? Mas, como é só um pensamento, não há com que lutar, nem para onde fugir, de formas que ficamos encalacrados num círculo vicioso, o que, a fim e a cabo é a definição de stress crônico e o local de incubação de inúmeras doenças, dado que, uma das consequencias do excesso de cortisol é uma queda feia em nosso sistema imunológico. Mas, como o reverso também é verdadeiro, pensar coisas boas faz com que nos sintamos bem. Uma boa maneira de começar esse processo é eliminando de nosso vocabulário palavras como “sempre”, “nunca”, “deveria”ou “deveriam” que são as marcas indicativas de pensamentos auto destrutivos.

ACEITE

Alguns estressores não podem ser evitados ou modificados, são o que são, tipo a morte de um ente querido, uma doença grave ou perda de emprego. Nesses casos, a melhor coisa a fazer, é aceitar como são, tarefa às vezes extremamente difícil, mas que, a médio e longo prazo, muito melhor do que se degladiar com algo que não pode ser modificado.
Não é possivel controlar o incontrolável, e muitas coisas nessa vida estão muito além de nossa possibilidade de fazê-lo, como por exemplo, o comportamento de outras pessoas. Então, não adianta perder tempo se estressando a respeito.
Melhor é focalizar nossa energia nas coisas que podemos controlar, como por exemplo, a maneira como escolhemos agir em relação aos pepinos que surgem na vida.
Olhe para os inconvenientes da vida como uma oportunidade de aprendizado e crescimento. Se foram suas própias escolhas que pioraram ou causaram a situação, reflita sobre o caso e aprenda com seus erros.
Compartilhe suas emoções. Fale com um amigo no qual confia ou marca consulta com um terapeuta. O simples ato de expressar o que sentimos, de per si, é catártico, mesmo quando não há nada a fazer para alterar a situação. Abrir seu coração não é sinal de fraqueza nem vai fazer com que se torne um peso para os outros. Aliás, qualquer bom amigo se sentiria lisonjeado por ter sido escolhido para ser confidente.
Aprenda a perdoar, aceitando o fato que vivemos num mundo imperfeito onde todo mundo comete erros. Jogar fora raiva e ressentimentos é a única maneira de nos sentirmos realmente livres para irmos em frente com nossa vida.
E, por último, mas não menos importante, ACHE TEMPO PARA SE DIVERTIR E RELAXAR, vai dar uma andada, encante-se num parque, converse com amigos, solte a tensão suando na academia, escreva em seu diário, toma um banho demorado com direito a sais, velas perfumadas, um bom copo de prosecco, brinque com seu cachorro/gato, sei eu, vai fazer massagem, senta com um bom livro na mão, ouça música, assista a uma comédia...
Tirando suar na academia, que não gosto, todo o resto, para mim, opera milagres.

Um dos erros mais comuns que fazemos é quando, a primeira coisa que abandonamos são as atividades que nos dão prazer. Sei que estou encrencada quando me dá preguiça de andar com minha cachorrinha. Sinal patognomônico de perigo à vista.

Cuidar de nosso bem estar não é luxo, é necessidade.

E mantenha o bom humor, o que inclui a capacidade de rirmos de nós mesmos. O simples ato de rir é uma maravilha para o organismo, e equivale a 15 minutos na esteira.

Uma boa maneira de prevenir stress é adotando um estilo de vida saudável. Nada como boa saúde para trazer bom humor. Lembre-se do que diziam os antigos romanos e que continua verdade até hoje: MENS SANA IN CORPORE SANO.

Reduza a ingesta de açúcar e café. Do açúcar, concordo plenamente, mas não abro mão de meu café. Concordo que, para alguns, reduzir o café faz com que durmam melhor, e se esse é seu caso, vá em frente, tente tomar o último cafezinho no mínimo 6 horas antes de ir para a cama. Não beba para afogar as mágoas, que as tais, como toda a porcaria, boiam. Durma as horas que lhe são necessárias. Nada como falta de sono para dar mau humor e piorar tudo.

E finalmente, lembre-se: pisar no tomate, de vez em quando, faz parte da vida, assim como, faz parte da mesma, uma abusadinha cá e lá. Não há nenhuma necessidade de ser perfeito 24 hs ao dia, sete dias por semana. A única coisa é, por exemplo, não ir com sua grande amiga para uma noite de tapas e prosecco na véspera de uma reunião importantissima às 8 em ponto da manhã seguinte. A isso se chama querer entrar pelo cano.
Em tempo, as tapas que falo é a comida espanhola.

BIBLIOGRAFIA
Influence of Life Stress on Depression: Moderation by a Polymorphism in the 5-HTT Gene. A. Caspi, K. Sugden, T. E. Moffitt, A. Taylor, I. W. Craig, H. Harrington, J.McClay, J. Mill, J. Martin, A. Braithwaite, R. Poulton. Science 18 July 2003: Vol. 301 no. 5631 pp. 386-389
Optimism is associated with mood, coping, and immune change in response to stress. S.Segerstrom, S.E Taylor, M.E Kemeny, J.L Fahey. Journal of Personality and Social Psychology, Vol 74(6), Jun 1998, 1646-1655
Psychological stress and the coping process. Lazarus, R.S. New York, NY, US: McGraw-Hill. (1966)
Stress, social support, and the buffering hypothesis. Cohen, Sheldon; Wills, Thomas A. Psychological Bulletin, Vol 98(2), Sep 1985, 310-357
Stress response syndromes: PTSD, grief, and adjustment disorders (3rd ed.). Lanham, MD, Horowitz (1997)
Stress without distress. Seyle, Hans; Vie médicale au Canada français, Vol 4(8), Aug 1975, 964-968.
The end of stress as we know it. B.S.McEwen, E.N.Lasley. Washington, DC, US: Joseph Henry Press. (2002)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A PROPAGANDA DO BOCA A BOCA

No milênio passado, escrevi um livrinho, para a Associação Paulista de Medicina, chamado “Drogas: Uso, Mau Uso e Abuso”, e vinha lá (sim, achei no Google, quem postou não faço ideia, muito menos por onde anda minha cópia):

Uma droga é qualquer substância, exceto a comida, que tem determinados efeitos sobre qualquer sistema ou órgão do corpo, efeitos esses que podem ser benéficos ou maléficos.
Uma "droga"- como o álcool - não é necessariamente destrutiva, e medicação nem sempre é saudável. Uma diferenciação similar pode ser feita entre o uso prescrito de vitaminas e sais minerais e o abuso não supervisionado de tais substâncias.
É muito importante lembrar que as drogas mudam a química do organismo e que os indivíduos reagem de formas diferentes à mesma droga. Uma medicação que é saudável para alguém pode ser prejudicial ou até fatal para outros.
A - DEFINIÇÕES
Uso de droga: referindo-se a substâncias legais como o álcool e remédios prescritos, foi definido como tomar uma substância com um propósito determinado e nas doses e frequências apropriadas.
Distúrbio no uso de drogas: é tomar uma substância adequada para o propósito, mas não na dose e frequência apropriada.
Abuso de drogas: é o uso deliberado de uma substância não para seu propósito original, mas de forma a resultar em dano para a saúde ou habilidade funcional.
Por exemplo: foi receitado pelo médico um calmante para ser tomado na dosagem X. Se a pessoa sentir como "agradáveis" os efeitos do medicamento e passar a tomar 2 X, por sua conta e risco, isso passa a ser distúrbio no uso, porque está tomando uma droga para um determinado propósito, mas de forma inadequada.
Só se torna abuso quando o medicamento passa a ser usado em tal excesso que:
1-Os efeitos colaterais da medicação (no caso de um calmante, alteração dos reflexos, sonolência, etc.) passam a ser mais importantes que a própria medicação, trazendo consequências na habilidade funcional. Se alguém dirigir um carro sob os efeitos de qualquer droga que diminua os reflexos, a probabilidade de acidentes aumentará na proporção direta da diminuição da capacidade reflexa de reagir.
2-Comprometimento da saúde devido aos efeitos diretos e indiretos da droga. Exemplo: tomar antibióticos para gripe. Antibiótico como o próprio nome diz, é contra bactérias. A gripe é causada por vírus. Assim, não obtemos o efeito desejado (livrar-nos do sintoma), mas podemos provocar, pelo uso indiscriminado, uma diminuição da resistência do organismo às bactérias, de maneira a ficarmos vulneráveis a qualquer ataque das mesmas. O uso contínuo de alguma droga pode levar a tolerância, que consiste no organismo criar resistência aos efeitos da droga, sendo necessárias doses cada vez maiores para a obtenção do mesmo resultado.
Tolerância cruzada: é a relação entre diferentes drogas da mesma classificação. Uma pessoa que desenvolve tolerância aos efeitos do álcool, por exemplo, será mais resistente aos efeitos dos barbitúricos, os quais são classificados como sedativos.
Adição: refere-se ao abuso crônico de substâncias legais ou ilegais. Muitos especialistas atualmente preferem o termo "dependência da droga". A Organização Mundial de Saúde (OMS) define "dependência" como um estado onde drogas auto administradas produzem dano ao indivíduo e à sociedade.
Dependência física :é descrita como um estado no qual o organismo se ajustou à presença da droga. Quando a droga é retirada, surgem claros sintomas físicos de abstinência, geralmente envolvendo desconforto e dor. Em casos extremos, os efeitos de uma retirada súbita podem ameaçar a vida porque o organismo tornou-se dependente da droga.
Sintomas de abstinência tendem a ser o oposto dos efeitos da droga propriamente dita. No Brasil, Masur e Carlini no livro "Drogas - subsídios para uma discussão" definem dependência como o quanto a droga interfere na vida das pessoas, passando a ser o seu maior valor, e reservando o termo "Síndrome de Abstinência" como característica da dependência física.
Dependência psicológica: é definida como um estado caracterizado pela preocupação emocional e mental com os efeitos da droga e por uma busca persistente da mesma. A dependência psicológica não deve ser subestimada. Pode ser tão ou mais destrutiva que a dependência física.
Na realidade, dependência física e psicológica em geral funcionam concomitantemente, e não sabemos ainda qual das duas se instala antes, não sendo fácil separar os efeitos psicológicos dos físicos.


E por aí vai. O interessante, ao rever isso tantos anos depois, é descobrir que as definições continuam tão válidas quanto eram, e as mudanças foram:

a)Atualmente, o abuso de drogas prescritas, superou o de drogas ilícitas. A organização Trust for America’s Health informa que, aqui nos USA, cerca de 6 milhões de pessoas abusam de medicação prescrita por médicos, e que as mortes, devidas a esse abuso, no mínimo dobraram em 29 dos estados americanos. Em 10 deles, triplicaram e em 4, quadruplicaram, tornando-se assim a segunda causa acidental de morte, só atrás de desastres de carro.
b)Ao invés de diminuir, com toda a informação que temos, o numero de uso de drogas “off label”ou indicadas por parentes, amigos ou porque viu na TV, aumentou 4 vezes, e é desse caso que vou falar aqui. Só um adendo: “off label”significa também o uso de uma droga, recomendada para uma coisa, ser usada em outra. Por exemplo, o ácido valpróico, excelente anti convulsivante, tem sido usado rotineiramente, nos últimos 20 anos, para tratar, e devo dizer, com muito sucesso, cefaléias persistentes. Também se refere ao uso de medicamentos sem supervisão médica, como no caso são as vitaminas, suplementos, medicação homeopática, aurivédica e outras, assim como usar medicamentos de outra pessoa.

Desde que me lembro por gente, escuto o famoso “O que??? Seu médico mandou tomar isso???? Que absurdo gente!...A filha da prima do marido da Conchita, caso igualzinho ao seu, sem tirar nem por, tomou (seja lá qual for o nome da coisa) e ficou boa num átimo...”
“Dor nas costas? Mas menina, por que tomar essas coisas todas? Não viu que esses remédios vão fazer mal para seu (fígado, intestino, coração, pulmões, a escolher)? O amigo do tio da avó de minha manicure morreu tomando isso! Mas olha, tomando isso aqui (vitaminas, sais minerais, homeopatia, auryvedopatia, qualquer patia), é tiro e queda”.
“Para com isso, criatura! Toma isso aqui que é muito melhor!”
“É o que dá confiar nesses médicos, que vi na (TV, rádio, jornal, revista) que todos eles ganham da Indústria Farmacêutica, para ficar lhe empurrando essas coisas. Eu não, só uso coisas naturais. Nada de química neste corpo que é o templo do Senhor!” (E nesses casos tenho cócegas na língua para perguntar do que a criatura acha que seu corpinho é constituído, se não de química, mas depois que passei dos 40, tenho me controlado muito melhor).

Fato é que essa coisa do receitar fora de consultório médico ou hospital, continua viva e altiva, e quero crer que, ao contrário do que era quando criança, isto é, a informação era pouca, como também era difícil o acesso a médicos e hospitais, e o “cházinho da vovó” funcionavam na maioria dos casos, até porque, durante uma gripe, nada mais confortante do que o caldo que revivia até defunto, de minha nonna Linda (faço até hoje, o caldo, não a ressureição dos mortos), a informação hoje é tão facilmente alcançável que fica fácil a todos nós nos sentirmos um “Dr. House” .

É fato que a Indústria farmacêutica visa lucro, e é capaz de fazer coisas pouco éticas? Sem sombra de dúvida. É fato que alguns médicos escorregam pela ladeira do lucro fácil, ao lado da indústria farmacêutica? Sim, é.
Quero só lembrar que laranjas podres, infelizmente, existem em qualquer profissão, como padres pedófilos, advogados passando a mão nos ganhos de seus clientes e coisas no gênero. Isto posto, lembro que também, a maioria dos padres não é pedófila, nem advogado um mau caráter por princípio.

Lembro perfeitamente do quase infarto que padeci quando, ao voltar inesperadamente para casa, vejo minha mãe distribuindo minhas amostras grátis (na época, ganhava-se montanhas de amostras, ainda na faculdade, e eu as juntava para levar para asilos) para uma fila de gente na porta do sítio. O infarto deveu-se a duas coisas: primeira, eu achei que ela estava passando as coisas assim, tipo dando consulta gratuita, sem ser médica; segunda, que minha cabeça não só foi inundada de todos os horrores que poderiam acontecer por remédios errados, como também pela visão de minha mãe sendo presa por exercício ilegal da profissão. Acalmei-me um pouco quando vi que as pessoas entregavam a ela um papelzinho com o nome do remédio escrito, e ela ia nas caixas, pegar a coisa ou dizer que não tinha.
Depois que a fiz me prometer me passar as receitas das pessoas que eu tentaria conseguir os remédios, ficou com tempo livre, de forma que foi ler meus livros do Freud e analisar meu pai. Menos mal. O único que se deu mal foi o já citado pai, que não só tinha passado estoicamente pelo estudo de anatomia da filha (costumava estudar os ossos nele e em meu irmão, magros esqueléticos que eram), como estava passando pela tortura de ser neurologicamente testado com martelinhos para reflexos e exames sem fim de fundo de olho. Todo o acima, pensava ele, era medicina, quando cunhou a frase: “Não faça de sua filha uma médica. A próxima vítima pode ser você”, em cima de uma propaganda famosa na época. Mas psicanálise não! Era demais.

Ainda na faculdade, lembro do horror da epidemia de meningite, durante a qual, evidentemente, estava passando por estágio no Hospital Emílio Ribas. O horror não se deveu só à montanha de mortes, incluindo de médicos trabalhando na área, o fato de pacientes ficarem no chão porque não havia mais leitos, ou quando, até as luvas acabaram e lavávamos as mãos no álcool iodado e íamos em frente. Era também o horror de usar quantidades cavalares de antibióticos, e mesmo assim, o paciente morrer por resistência aos mesmos. Agora, temos a invasão das “super bactérias”, e tudo por causa do abuso que fizemos da medicação.

Temos a tendência de nos deixar levar por “testemunhos” e não ligar a mínima para evidências. Devo dizer que faz sentido. No geral, testemunhos são emocionalmente ricos, e mais interessantes do que evidência fria, plana, sem emocional. Adoramos o “milagre”, tipo a criatura que foi curada de câncer pelo bicarbonato do tal médico italiano, que naturalmente está sendo perseguido pela instituição da medicina e da Indústria Farmacêutica, e espalhamos o e mail a torto e a direito, sem nos preocuparmos em checar fatos, como por exemplo que, o acima citado nunca participou de congressos da Sociedade Americana de Cancerologia, onde, segundo o email foi ovacionado em pé, nem sequer ofereceu RX, tomografias ou qualquer testes que comprovasse os tumores que ele mesmo tinha diagnosticado, nem se dignado a juntar os casos para publicação e revisão. Tudo o que fez foi fazer uma página na net, onde qualquer um de nós escreve ou coloca o que bem lhe dá na telha. Tem um site, que adoro visitar porque as histórias me divertem demais, onde os escritores colocam todos os “fatos” de pessoas falecidas, como Elvis Presley , JFK e Marlyn Monroe, que na realidade não morreram, estão vivos e vivendo bem em lugares como a Micronésia. Tem fotos e tudo.

Ano passado, fiquei doente de tristeza, quando um parente inglês me pediu para achar o endereço de um médico aqui em Houston, que estava fazendo maravilhas no tratamento de câncer para crianças. No início fiquei surpresa, posto que nosso MD Anderson daqui é referência mundial para tratamento de câncer e nunca tinha ouvido o nome da criatura. Mas também, pensei, isso é uma enormidade, impossível conhecer todo mundo. E fui à procura. Descobri que, não só existe, como tem um pequeno hospital e um laboratório, onde fabrica o “famoso” soro para as crianças. Descobri também que as crianças, em estado terminal, vão morrer na pediatria do MD, na clínica dele, ninguém morre. Como tudo é particular e ele não recebe um tostão do governo, municipal, estadual ou federal, não há supervisão. Até o momento, nenhum familiar entrou com nenhuma ação contra ele porque: a) assinam uma enorme papelada na qual abrem mão de qualquer ação possível, por ser o tratamento “experimental”; b) Pais de crianças com esse tipo de diagnóstico fazem qualquer coisa só para ter um pouco de esperança, e com certeza eu também faria; c) a grande maioria dos pacientes vem da Europa ou do México; d) Nunca entrou com nenhum pedido para o FDA aprovar seu soro. Em suma, um salafrário que encontrou um campo fértil.

Passei o endereço com todas as informações. Vieram, fizeram o tratamento. Voltaram. A menina morreu. Os pais estão seguros que fizeram todo o possível, o que realmente fizeram, mas ele bem que avisou que provavelmente, era tarde demais.

E encerro, jurando que chega, não falo mais de propaganda médica, a favor ou contra. Continuo tendo dores de estomago todas as vezes que lembro o caso acima, e também já aprendi que só entendemos o que queremos ou podemos entender, ninguém convence ninguém de nada.
É o que considero o lado negro das neurociências. Sei que é assim, porque evidências e estudos assim o demonstram, mas continua aquele fiozinho de esperança, como o que ficou preso na caixa de Pandora.
Burro do Epimeteu que não escutou o que o irmão lhe disse.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

VOCÊ SOFRE DO TRANSTORNO: NÃO 24 HORAS DO DESPERTAR E SONO?

Desde que comecei minha carreira na área médica, padeço de profundo horror de propaganda de remédios. Qualquer um, até vitaminas e/ou suplementos. Mas nunca meu problema se tornou tão agudo quanto aqui na America, the beautiful. Começou logo de minha chegada, quando, ao descobrir que não entendia o inglês falado pelos texanos, eis que me pus a assistir TV o máximo possivel, para treinar o ouvido. Nada resolveu quanto ao entendimento da lingua esquisita falada aqui, posto que na TV, as pessoas no noticiario falam sem sotaque, inglês totalmente compreensível, incomparavel a seja lá o que era que os nativos murmuravam. Por outro lado, me deu uma saudade enorme das propagandas brasileiras (sim, sou fanática por propagandas, acho que são mais interessantes que o programa em si, e nunca vou esquecer o primeiro outdoor que vi do “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”.Os olhos daquele menino! Quase bati o carro na República do Líbano. Resta dizer que até hoje não sei qual é a marca do sutiã, mas isso não é culpa da propaganda, mas sim de meu desinteresse por aprender...me bastava ver). Aqui, os comerciais, no geral, são de uma bobeira ímpar, a não ser durante o Super Bowl e quando é comercial de comida ou de remédio. E aqui começa meu espanto. Que diferença da primeira vez que morei aqui, quando cantava a torto e a direito o comercial do AlkaSeltzer: ploc, ploc, fizzzz fizzzz..oh what a relief it is!

Agora, temos borboletas, pôr-de-sóis maravilhosos, cachorrinhos lindinhos, tudo para que não se preste atenção nas letrinhas bem pequenas em baixo, com nomes como “coágulo sanguíneo”, “ataque cardíaco”, “derrame”, “convulsões”, reações alérgicas mortais” e “morte”. E vou morrer sem entender a propaganda de uma dessas pílulas para “distúrbios da potência masculina”, que mostra um casal absolutamente maravilhoso, de meia idade, olhando um por de sol também maravilhoso, cada um dentro de uma dessas banheiras tipo antiga, bem no topo de um penhasco, com o aviso em letrinhas microscópicas : “Se sua ereção durar mais do que 4 horas, procure imediatamente um médico”. Jura?

Fora gente maravilhosa, natureza espetacular e animaizinhos graciosos, há outra coisa em comum: uma voz ao fundo, sedutora, ora masculina, ora feminina, lhe dizendo para falar com seu médico a respeito de começar a usar a nova maravilha.

Mas, o truque incrível e insidioso, é que a venda da droga chega bem subliminar, porque na realidade a coisa toda é a respeito do que parece uma aula sobre alguma doença, contando como aquela doença específica (de depressão a distúrbio bipolar, a distúrbio das pernas inquietas, a distúrbios mis da tiróide), tem sido sub-diagnosticada, citando barreiras e estigmas que cercam a coisa.

Aí meu lado italiano começa a querer rodar a baiana, posto que, durante toda minha vida profissional vi e vejo estigma aos montes cercando doenças psiquiatricas, principalmente esquizofrenia, que tem sido usada como explicação sempre que acontece um assassinato em massa, mas que não tem nenhuma celebridade indo à TV para dizer o quanto sofreu com a coisa. Nem tem nenhum comercial falando maravilhas de antipsicóticos em esquizofrenia, embora haja um, do Abilify, anti psicótico potente, mas o comercial é para depressão. E não estou nem falando para distúrbio bipolar com psicose. Pura depressão.

Da Alternet vem a seguinte informação:
“de Joan Lunden e Mike Piazza vendendo Claritin, a Doroty Hamil e Bruce Jenner vendendo Vioxx, as propagandas com celebridades vendendo medicamentos é um sucesso fenomenal. Por isso mesmo, a companhia farmacêutica AbbVie selecionou Sofia Vergara, ganhadora do Emmy, para liderar a campanha para diagnóstico e tratamento do Hipotiroidismo, campanha essa chamada de ‘Siga o Roteiro’, cujo objetivo é ‘educar’pacientes a respeito de levarem a sério o tratamento prescrito pelo médico.”

Claro que hipotiroidismo existe, mas a campanha acima citada capitaliza nas áreas cinzentas desse diagnóstico e na tendência humana de auto diagnóstico, desde que, de médico e de louco, todos nós temos um pouco. Pior, é tão bem feita que planta a sementinha de medo e dúvida: “Distúrbios da tiróide afetam 30 milhões de indivíduos nos USA...e 1 em cada 8 mulheres vai desenvolver a citada condição, durante a vida”. Aí, curiosas feito eu, vão checar a Harvard Health Publications, da Escola de Medicina de Harvard, e descobre que, para essa faculdade (ruins eles não é?) o número de sofredores de tal distúrbio é de, no máximo, 12 milhões.

Não bastasse, lógico que há o web site com informação sobre sintomas e tratamento, histórias de criaturas com o problema, cada um pode compartilhar a própria, e finalmente, um “roteiro” para como conversar com seu médico sobre o assunto. Claro, porque sem a receita médica, não dá para comprar o remédio cujo nome aparece e desaparece todo o tempo, e no tempo que leva para ler uma histórinha, já deu pra decorar também o nome do mesmo, que aliás vem impresso no tal roteiro, que eles deixam bem claro para imprimir, no caso de seu QI ser abaixo de 70, e você esquecer ou bloquear tal nome de sua memória.

Só para terem uma idéia, tal medicação, cujo nome me recuso a escrever, só no ano passado, desde que a Sofia iniciou a campanha, teve um aumento de 25% nas vendas, ganhando a companhia que o produz 153 milhões de dólares nos primeiros 4 meses. Não bastasse, a mesma companhia inventou a "National Academy of Hypothyroidism" (Academia Nacional do Hipotiroidismo), e a primeira coisa que se vê ao clicar no site, é uma senhora com distúrbio do desenvolvimento horizontal (em palavras não politicamente corretas, bem mais larga que longa), em cima de uma balança, com letras enormes perguntado “Seu hipotiroidismo está fazendo com que engorde?” E meu humor torto responde: “Com esse tamanho, sim, desde o nascimento”. Lá se aprende também que o tal pode estar causando stress, depressão e dores crônicas, tudo aquilo que, há 10 ou 15 anos atrás era causado por deficiências hormonais no período da menopausa. E, porque todos adoramos ganhar algo, eis que o site também ensina como se candidatar para receber benefícios de invalidez por hipotiroidismo.

Mas o que leva o Oscar de criatividade, pelo menos em minha opinião, é um que apareceu ano passado, a respeito de um obscuro distúrbio do ritmo circadiano chamado de “TRANSTORNO NÃO 24 HORAS DO DESPERTAR E SONO”, o qual traduzi ao pé da letra por não ter jamais ouvido falar da coisa, vai que em português tem outro nome e se tiver, me informem. Só para ter uma idéia da obscuridade da coisa, na Livraria Nacional de Medicina dos USA, só há 146 citações para o mesmo, enquando para a peste bubônica há 8463. (Como é que eu escrevia artigos antes do Google? O coisinha mais bem feita! Sim, fazendo propaganda do mesmo, há uma coisa chamada “Google Scholar”, que é um fenômeno, permitindo fazer pesquisa sem fim sobre o que der na telha!) Mas voltando, na propaganda do acima citado distúrbio, tem um cego dizendo que a cegueira dele nunca o impediu de fazer nada, mas que agora, depois do tal distúrbio, estava tendo problemas sérissimos.

E o remédio? Mais uma pílula para dormir, que, quimicamente, é prima de outra já existente, que é o Ramelteon, um agonista dos receptores de melatonina. Daí vai-se ao site e descobre-se que os sintomas básicos de tal distúrbio são: Incapacidade de pegar no sono ou de dormir a noite toda, sonolência durante o dia, com consequente queda de produtividade na escola ou no trabalho, problemas nos relacionamentos afetivos, alteração do humor e frustração contínua. Sintomas esses que, todos que passaram por residência médica sem dúvida sofreram, não por insônia, mas por deprivação do sono. Adiciono à lista a perda de namorado, que me aconteceu por dormir no sofá, antes do jantar, folheando os albuns de infância do citado mancebo que sua mãe tão graciosamente havia despejado em cima de mim, após plantão de 48 hs.

No site deles, aprendo que pode dar em qualquer um, mas é mais comum em cegos, além de ter um número de telefone, para falar com um/uma “educador de saúde.”

O site do CDC me informa que “15.000 idosos morrem a cada ano devido a uso de medicação que não precisariam estar tomando, devido a propaganda das mesmas”, e o NY Times informa que, em 2012, a GlaxoSmithKline pagou multa de 3 BILHÕES DE DÓLARES por promover usos não aprovados de seus antidepressivos mais vendidos (Aropax,Wellbutrin), além de não reportar problemas de segurança com sua droga para diabetes (Avandia) CLIQUE AQUI PARA ARTIGO ORIGINAL

Pois é.

Então o que tenho a dizer é, por favor, falem com e escutem seu médico. Não à toa, ele/ela foram a 6 anos de faculdade, uns 3 ou 4 de residência, a depender da especialidade. A meta da propaganda, qualquer uma, é criar novas necessidades para venda de determinado produto, e não para cuidar de nosso bem estar, que é um bem precioso e muito, mas muito frágil.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

QUANTO TEMPO ME RESTA?

Estava cá fumegando, presa em casa por motivo de tempo inclemente, e escaneando revistas pela net, quando, ao mesmo tempo, dou de cara com o artigo que se segue, e recebo a notícia de que uma amiga ouviu de seu médico que suas chances de sobrevivência não passam de 2%.

Do morno estado de fumegamento por prisão domiciliar, passei a franca erupção vulcânica: por que, em nome de tudo que é mais sagrado, um médico tem que jogar estatísticas como essa, na cara de pacientes? Qual a vantagem?
Não estou aqui pregando mentir ao paciente, mas há mais do que uma maneira de dizer as coisas. E, fora isso, se o paciente realmente confia no médico, não é uma forma de condução à uma profecia auto realizável? Mais ainda, com a quantidade de novidades acontecendo em cachoeira nos últimos tempos, como é possível fazer tal afirmação?
Vai daí que traduzi, ao pé da letra, o artigo que se segue. No final, como de costume, link para o artigo original.

Tão logo terminei de fazer a tomografia, comecei a rever as imagens. O diagnóstico foi imediato: massas enchendo os pulmões e deformando a espinha dorsal. Câncer. Durante meu treinamento em neurocirurgia, tinha revisto centenas de tomografias para colegas médicos, para decidir se uma cirurgia podia oferecer alguma esperança. E escrevia nas papeletas: “Doença metastática extensa – sem chance cirúrgica”, e ia em frente. Mas essa tomografia era diferente. Era a minha.
Sentei com inúmeros pacientes e seus familiares, para discutir prognósticos sombrios: é um dos mais importantes papéis que os médicos têm que desempenhar. É mais fácil quando o paciente tem 94 anos, está nos últimos estágios de demência e apresenta severa hemorragia cerebral. Para pessoas mais jovens, como eu, que tenho 36 anos, com diagnóstico de câncer, não há muitas palavras.
Minhas falas padrão incluem: “É uma maratona, então há necessidade de repouso diário”, e “doenças podem destruir ou fortalecer famílias, assim prestem atenção nas necessidades de cada um, e procurem apoio extra”.
Aprendi algumas regras básicas: seja honesto a respeito do diagnóstico e sempre deixe espaço para a esperança. Seja vago, mas preciso: “dias a semanas”, “semanas a alguns meses”, “meses a alguns anos”, “alguns anos para uma década ou mais”. Nunca citamos estatísticas, e usualmente pedimos para não googlar números relacionados à sobrevivência, pois achamos que o paciente médio não tem as nuances todas para entendimento das estatísticas.
As pessoas reagem de formas diferentes ao ouvir: “Procedimento X tem 70% de chances de sobrevivência” e “Procedimento Y tem 30% de chances de morte”. Colocado dessa maneira, as pessoas vão escolher sempre procedimento X, mesmo que os números sejam exatamente iguais.
Quando um amigo muito próximo desenvolveu câncer pancreático, tornei-me o perito médico para um grupo de sofisticadíssimos estatísticos, e mesmo assim os convenci a não checar estatísticas, dizendo que as curvas de 5 anos de sobrevivência estão desatualizadas há, pelo menos, 5 anos. De alguma maneira, achei que os números de per si são secos, e que a experiência diária do médico com doenças é totalmente necessária, para dar contexto. Fato é que sempre sinto o impulso para manter alguma esperança.
As curvas de sobrevivência, chamadas curvas de Kaplan-Meier, são as que usamos para medir progresso em tratamento de câncer, e traçam o número de pacientes que sobrevivem, por período de tempo.
Em algumas doenças, parecem com um avião, descendo devagar; para outras, feito bombas despencando. Médicos pensam muito a respeito dessas curvas, sua forma e o que significam. Na pesquisa de câncer cerebral, por exemplo, embora os números para sobrevivência média não tenham mudado muito, há um rabinho da curva que vem aumentando progressivamente, indicando que, alguns pacientes estão vivendo mais tempo. O problema é que não dá para saber onde um paciente individual se localiza na curva. É impossível, até mesmo irresponsável, ser mais preciso do que acurado.
Depois disso tudo, seria lógico pensar que, quando minha oncologista sentou para conversar comigo, eu não iria pedir logo de cara, informações estatísticas de sobrevivência. Mas, agora que atravessei a linha de médico para paciente, tive a mesma necessidade de números que a maioria dos pacientes.
Esperava que ela me visse como alguém que, não só entende estatísticas, como também a realidade médica das doenças, que ela pudesse me dar certezas, direto e reto, eu ia entender. E ela recusou: “Não, absolutamente, não”. Ela sabia muito bem que eu podia, e fiz, buscar todas as pesquisas na área. Mas, câncer de pulmão não era minha especialidade, e ela era uma especialista de fama mundial. A cada consulta, a luta livre começava, e ela sempre evitou ficar encurralada por qualquer tipo de números.
Agora, ao invés de ficar imaginando por que alguns pacientes persistem em perguntar estatísticas, comecei a querer saber porque os médicos se recusam a dizer as mesmas estatísticas, quando têm tanto conhecimento e experiência. Quando vi minha tomografia pela primeira vez, pensei que só teria alguns meses de vida. A tomo era feia. Eu me sentia mal. Perdi 15 Kg, tinha dores insuportáveis nas costas, e cada dia sentia mais fadiga. Meus testes mostraram níveis proteicos severamente baixos e contagem sanguínea idem, tudo consistente com a sobrecarga em meu corpo, que estava falhando na tarefa básica de sustentar a si mesmo.
Desconfiei, durante alguns meses, que estava com câncer. Havia visto montes de pacientes jovens com câncer, assim, não foi total surpresa. Os próximos passos eram claros: prepare-se para morrer. Chore. Diga para sua esposa que ela deve se casar de novo, e refinancie a hipoteca da casa. Escreva cartas, a muito atrasadas, para os amigos queridos. Sim, havia muitas coisas que tinha pensado fazer em vida, mas, às vezes, isso acontece, e nada poderia ser mais óbvio para uma pessoa que passa os dias tratando de traumas e câncer cerebrais.
Mas, na minha primeira consulta com a oncologista, ela mencionou a possibilidade de, algum dia, eu poder voltar a trabalhar. Ora essa, pensei, já não tinha virado um fantasma? Não, de jeito nenhum. Então tá, quanto tempo me resta? Silêncio.
Claro que ela não podia impedir minhas leituras. Debruçado sobre estudos, fiquei tentando encontrar um que me dissesse que meus números estavam no lado ascendente da curva. A maior parte deles me informava que pacientes com câncer de pulmão, em 70 a 80% dos casos, morrem em 2 anos. Não davam muito espaço para esperança. Mas, aí, olha só, a maioria dos pacientes era de idosos que haviam sido fumantes. Onde estavam os estudos a respeito de um neurocirurgião de 36 anos? Vai que juventude e saúde contam? Ou vai que minha doença tivesse sido descoberta tarde demais, tivesse se espalhado demais e eu estava em pior situação que os fumantes com mais de 65 anos?
Amigos e familiares providenciaram histórias do tipo “o amigo da amiga da mãe do tio do parceiro de tênis de meu barbeiro tem um filho com o mesmo tipo de câncer e já sobrevive há mais de 10 anos”. Inicialmente fiquei imaginando se todas as histórias eram da mesma pessoa, conectadas através dos proverbiais 6 graus. Eu as ignorei, achando que eram ilusões sem fundamento. Apesar disso, eventualmente, algumas delas passaram pelas rachaduras de meu estudado realismo.
E aí, minha saúde começou a melhorar, graças a uma pílula que tem como alvo uma mutação genética específica ligada ao meu câncer. Comecei a andar sem bengala e a dizer coisas do tipo: “Bom, provavelmente não serei tão sortudo como para viver uma década, mas vai que seja possível”. Uma pequena gota de esperança.
De certa forma, porém, a certeza da morte era mais fácil do que essa vida de incertezas. Não é verdade que os que estão no purgatório preferem ir para o inferno, e pronto, encerrar o assunto? Que deveria fazer? Me devotar à minha esposa, meus pais, meus irmãos, minha adorável sobrinha? Escrever o livro que sempre quis escrever? Ou será que deveria voltar a negociar meus possíveis contratos de trabalho?
O caminho adiante pareceria óbvio, se soubesse quantos meses ou anos ainda tenho. Diga-me 3 meses, e vou passar o tempo todo com minha família. Diga-me um ano, e tenho um plano, que é escrever o livro. Me dê 10 anos, e eu estou de volta a tratar doenças. A verdade óbvia que “se vive um dia de cada vez”, não ajudava em nada. O que tenho que fazer com aquele dia? Minha oncologista só dizia: “Não posso lhe dizer quanto tempo. Você tem que descobrir o que é mais importante para você”.
Comecei a perceber que o ter que encarar minha própria mortalidade, de certa forma havia mudado tudo e nada ao mesmo tempo. Antes do câncer, sabia que algum dia ia morrer, mas não sabia quando. Mas agora sabia disso agudamente. O problema não era exatamente científico. O fato da morte é inquietante. E, por outro lado, não há outra forma de se viver.
A razão pela qual médicos não dão prognósticos específicos, não é simplesmente porque não podem. Claro que, se as expectativas de um paciente estão muito além de qualquer probabilidade, do tipo alguém que espera viver 130 anos, ou que umas manchas na pele são sinal de morte eminente, os médicos tem o dever de trazer essas expectativas para o reino das possibilidades razoáveis.
Mas, a variedade do que é razoavelmente possível é tão grande! Tendo como base as terapias de hoje, posso morrer em 2 anos, ou posso alcançar a marca dos 10. Se adicionar a isso a incerteza quanto o que vai aparecer de tratamentos novos em 2 ou 3 anos, a equação se torna totalmente diferente.
Quando damos de cara com a nossa mortalidade, a ciência pode dar só um grama de certeza: sim, você vai morrer. Mas, o que queremos é um quilo de certeza, e essa não está em oferta.
O que os pacientes querem não é o conhecimento científico que os médicos escondem, mas sim uma autenticação existencial, a qual, cada um tem que descobrir por si mesmo. Ir fundo em estatísticas é o mesmo que querer matar a sede com água salgada. A angústia do morrer não encontra remédio em probabilidades.
Lembro-me do momento em que minha inquietação esmagadora cedeu. Sete palavras de Samuel Beckett, um autor que sequer tinha lido muito, aprendidas anos atrás na faculdade: “Eu não consigo continuar. Eu vou continuar.” Dei um passo à frente, repetindo e repetindo a frase: “Eu não consigo continuar. Eu vou continuar”. E aí, em algum momento, descobri que tinha continuado.
Estou há quase 8 meses de meu diagnóstico. Minhas forças substancialmente recuperadas. Em tratamento, o câncer está regredindo. Gradualmente, voltei ao trabalho. Estou espanando manuscritos científicos antigos. Estou escrevendo mais, vendo mais, sentindo mais. Cada manhã, às 5:30, o alarme toca, e meu corpo morto acorda com minha esposa a meu lado, e eu penso de novo, comigo mesmo: “Eu não consigo continuar. Eu vou continuar.” E no minuto seguinte, estou com minha roupa cirúrgica, indo para o centro cirúrgico, vivinho da silva: “Eu vou continuar.”


Paul Kalanithi é chefe de residência em neurocirurgia na Stanford University.

How long have I got left?