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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

RESENHA 2013

É a época do ano na qual todo mundo faz, então lá vou eu fazer o mesmo, obviamente sob meu ponto de vista. Interessante que quanto mais envelheço, ou segundo os mais otimistas, mais experiência ganho, menos certezas tenho. Há momentos que bate uma certa nostalgia de minha adolescência, quando tinha todas as certezas, sabia de tudo, e o mundo é que não me entendia. Tenho saudade de meu dom quixotismo, que embora muito menos intenso, de todo não desapareceu, tendo ficado aquela base de tender a meter a lança nos maiores moinhos de vento, de forma a assegurar certa e segura contusão. Mas no geral, quando lembro toda a infelicidade que acompanha as certezas da adolescência, a saudade se vai rapidinho, e me lembro de minha avó, quando lhe perguntei qual era o segredo para tão longeva vida, me respondeu numa frase simples: “Sempre fiz o que quis”. Pois é. E nem o ter passado por duas guerras mundiais e ter sido uma das poucas sobreviventes da gripe espanhola, foram stress suficiente para deter sua imortalidade até os 104, sendo essa uma das razões pelas quais acredito que nossos problemas contemporâneos, não são causados pelo stress, de per si, mas pela maneira como o vivenciamos. E com isso declaro que, o ano de 2013 pode ser considerado um dos melhores anos na história da humanidade. Antes de me apedrejarem, considerem que, as forças mais importantes que determinam o que faz com que nossas vidas sejam boas, isto é, as coisas que determinam por quanto vivemos e se podemos viver livres e felizes, tendem numa direção ótima. Lógico que tudo isso pode ser revertido num segundinho por alguma desgraça natural em larga escala, mas que tivemos um extraordinário progresso, isso lá tivemos.

1-MENOS PESSOAS ESTÃO MORRENDO JOVENS E MAIS ESTÃO VIVENDO MELHOR E POR MAIS TEMPO

Segundo Angus Deaton, economista em Princeton, seu trabalho sendo em saúde global, informa: “Não há um único país no mundo no qual a mortalidade infantil não seja inferior ao que era em 1950”, e os dados da Organização Mundial de Saúde, confirmam: Mortes por sarampo caíram 71%(um salto de 50%) ,mortes maternas ao nascimento 50%, mortes por tuberculose 50%, e por problemas relacionados a HIV, 24% desde 2005. A expectativa de vida , em todos os lugares que a OMS cobre, aumentou bem entre 1990 e 2011. Em números: no início dos anos 50, em média e globalmente, era de 47 anos, agora é 70, ou seja, um salto de 50%. E o que causou tudo isso? Claro, inúmeros fatores, mas os mais importantes foram as inovações tecnológicas e políticas. Os avanços no método científico ajudaram a fazer pesquisas de alta qualidade, o que trouxe avanços incríveis na medicina e as tecnologias da informação permitem espalhar as descobertas pelo mundo em velocidades nunca dantes imaginadas. Tecnologia e democracia como bases do progresso humano, juntados à vontade de ajudar. Nações inteiras estão doando enormes quantidades de dinheiro a nações mais necessitadas para assistir na briga de doenças como HIV,AIDS e varíola. Só uma doação dos USA pagou pelo tratamento antirretroviral de mais de 5.1 milhões de pessoas na África, e quanto mais as pessoas conhecem e se tornam democratas, mais os governantes tem que prestar contas a seus cidadãos, os quais forçam já dito governo a atender suas necessidades ou pagar o preço eleitoral por isso.

Claro que estou falando em termos genéricos, pois bolsões de ignorância e retrocesso, sempre os há. Impossível esperar que, no primeiro dia do ano, os bilhões de habitantes da terra tenham acordado e, em uníssono, decidido praticar a gratidão e o senso comum de aceitar que as coisas nas quais acreditamos são nossa verdade, e mais nada, verdade essa que não deve ser impingida, sob nenhuma circunstância, ao resto do mundo. Por exemplo, aqui na terra de Tio Sam,temos o Movimento Anti-Vacina (United States Anti-Vaccination Movement- http://www.sciencebasedmedicine.org/antivaccine-use-the-law-when-science-fails-you/), composto por uma variedade de criaturas, de celebridades sem qualquer treinamento médico, a médicos que deveriam saber melhor sobre o que estão falando, mas o desejo da fama, cega,a amantes de teorias conspiratórias e maluquetos no geral. Todos eles creem piamente que o autismo é causado pelas vacinas. Dizem eles que o composto Timerosal nas vacinas triplices (sarampo/caxumba/rubéola), levou a um aumento do número de casos de autismo, sem levar em consideração que tal composto, que é um preservativo, nunca foi usado nas vacinas triplices, e, nenhuma vacina licenciada desde 1999 o contém, com exceção de algumas vacinas para Influenza e HIB. Sucede também que o número de casos de autismo, não diminuiu desde 1999, o que, por si só, desaprova toda a teoria, mas naturalmente lógica e racionalidade não são as pedras fundamentais sobre as quais fantasias são criadas, além de que, tais fantasias promovem muito mais venda de livros e aparências em shows de TV do que a crua realidade. E para o inferno se, doenças que deveriam estar erradicadas, estão fazendo retorno. Ainda bem que há mais gente bem intencionada, trabalhando a favor do bom senso.

2-HÁ MENOS PESSOAS SOFRENDO DE EXTREMA POBREZA E O MUNDO ESTÁ FICANDO MAIS FELIZ.

Há menos pessoas em abjeta penúria do que em qualquer outro momento histórico, e a classe média está vivendo o mais alto dos padrões de vida em toda a história da humanidade. Lógico que ainda estamos longe de resolver totalmente o problema da miséria, principalmente em certos países africanos e das américas, mas, como um todo, o mundo esta muito mais rico. Vamos aos números:

721 milhões de pessoas a menos vivem em pobreza extrema em 2010 do que em 1981 (é considerada pobreza extrema o ganhar 1 dólar e 25 centavos por dia, segundo o Banco Mundial), ou seja uma queda de 40% para 14% da população mundial de extrema penúria. A grande maioria do recente declínio vem da Índia e China, cerca de 80% da China. As reformas econômicas e sociais de lá, estimuladas pelo crescimento econômico global, foram incríveis, de 2,3% em 2012 para 2,9% em 2013. Claro que, como em tudo o mais, há os que vêem essa afluência da classe média como fenômeno terrível, que leva à cultura do consumismo e do narcisismo desatado, típico de sociedades capitalistas. Otimista que sou, acredito, como disse JFK, que o preço da paz é a eterna vigilância, isto é, educação para a vida, deveria ser matéria escolar, e faço notar que desde que a lista começou, ou seja dos povos mais felizes na face da Terra, países como Finlândia, Suécia e Dinamarca, estão nos primeiros lugares. E são francamente socialistas.

3. AS GUERRAS ESTÃO FICANDO MAIS RARAS E MENOS MORTAIS E A VIOLÊNCIA DO ESTADO CONTRA SEUS CIDADÃOS E DE UM CIDADÃO PARA OUTRO TAMBÉM ESTÃO EM FRANCO DECLÍNIO.

Steven Pinker em seu livro “The Better Angels Of Our Nature” (Os melhores anjos de nossa natureza – tradução minha, posto que não achei nenhuma tradução do livro para a última flor do Lácio, inculta e bela, como diria Camões), demonstra que, no longo arco da história humana, tanto guerras como outras formas de violência, como por exemplo a pena de morte, estão em franca decadência. Por exemplo: Nos últimos 50 anos, fomos de cerca 300 mortes por 100.000 habitantes durante a Segunda Guerra Mundial, para cerca de 30 durante a guerra da Coréia para menos de 20 na guerra do Vietnã. Claro que podemos pensar que isso se deu também pela melhora nos cuidados médicos, mas não dá para imaginar tão brutal declinio só por isso. Há também o fato que estamos tendo muito mais guerras civis do que guerras globalizadas entre nações. Pensemos no seguinte: a partir dos anos 50, a democracia espalhou-se pelo mundo feito fogo em subida,sendo que hoje, 60% do mundo vive em regime democrático, e as pessoas desenvolveram estratégias para melhor lidar com as causas das guerras e suas consequências. Isso quer dizer que um mundo democrático é também um mundo mais seguro. Um mundo onde, de forma um pouco lenta, mas certamente segura, estamos acabando com a fome e muitas doenças, e onde inventamos coisas como as Nações Unidas com todas suas operações de paz, como formas seguras de reduzir violência e diminuir os problemas causados por conflitos armados.

Quanto à violência de cidadãos contra seus semelhantes, vejamos o seguintes: escravidão, que já foi situação sancionada por governos, é ilegal em qualquer parte do planeta. A taxa de assassinatos na Europa diminuiu 35 vezes desde a Idade Média até o começo do século XXI, declínio este especialmente grande em anos recentes. Embora as taxas de homicídios tenham se elevado um pouco entre 1970 e 1990, em 2001 foram assassinadas, mundo afora, 557.000 pessoas, e o número baixou para 289.000 em 2008. Daí para a frente vem baixando constantemente em 75% das nações do mundo. Por que será? Alguns dizem que é pelo aumento das incarcerações, idéia que não bate absolutamente com a realidade pois, embora os USA e o Reino Unido tenham aumentado furiosamente o número de prisões e de encarcerados, outros lugares como Canadá, Holanda, Estônia, Suécia, reduziram dramaticamente as taxas de encarceramento e suas taxas de crimes violentos continuam despencando. A revista “The Economist”traz algumas boas explicações. Segundo eles, globalmente, a polícia tem trabalhado mais com as comunidades como forma de evitar o crime. Também tem mais recursos, tais como os testes de DNA, que facilitam a captura dos meliantes (ai Senhor que estou francamente atacada com português de antanhos). A epidemia do crack nos USA e da heroína na Europa caiu brutalmente. A rápida gentrificação, tornou os crimes nas cidades mais difícil, e o crescente barateamento dos bens de consumo tipo iPODs e DVDs, reduziu os incentivos para o crime, tanto do lado da oferta, quanto da procura, ou seja, roubar um DVD não traz nenhum proveito, sendo mais fácil comprar um do que passar pelo problema. Sei perfeitamente bem que isso não é verdadeiro no Brasil, mas olha só que ideia brilhante. Mas, há uma outra explicação, segundo Kevin Drum da Mother Jones, ou seja a ligação entre chumbo e crime. Sabe-se que a exposição a chumbo lesa o cérebro e pode ser fatal. Por causa disso, aconteceu uma campanha internacional que se iniciou em 1970, para que a gasolina não fosse laceada com chumbo, o que agora é uma realidade em 175 países do mundo, e aconteceu uma queda nos níveis corpóreos de chumbo de 90%, desde que essa prática foi se espalhando.

4-HÁ MENOS DISCRIMINAÇÃO NO MUNDO

Racismo, sexismo, anti semitismo, homofobia e outras formas de discriminação continuam a ser, sem sombra de dúvida, forças extraordinariamente poderosas, e as estatísticas, aqui nos USA, do aumento dos grupelhos de supremacistas brancos e genialidades associadas, depois que o Obama se tornou presidente, é prova cabal e suficiente, além de fazer arrepiar os cabelos. Mas, ninguém nunca disse que a imbecilidade foi erradicada da face da terra, e isso também não é razão para não considerar que, de forma globalizada, estamos vivendo a era menos discriminatória na história da humanidade. Naturalmente, não é lá enorme coisa, se compararmos com os horrores de eras prévias, mas mesmo assim, demos grandes passos. Vamos dar um salto de 150 anos no passado: os negros estavam em grilhões, judeus europeus eram rotineiramente massacrados em guetos, mulheres, mundo afora, não só não podiam trabalhar fora de casa como também eram totalmente subordinadas ao pai ou ao marido, os LGTB totalmente invisíveis, a não ser que fossem um Oscar Wilde, que enquanto esteve casado, levou na flauta, mas tão logo se apaixonou pelo rapaz, foi encarcerado e acabou morrendo pobre e esquecido. E mesmo no Brasil, ninguém mais repete, pelo menos não socialmente, a famosa frase de Dona Quitéria, no livro do Érico Verissimo “Incidente em Antares”: "No Brasil não há racismo porque preto conhece seu lugar."
Então sim, sem dúvida, estamos melhorando. O Índice de Desigualdade da ONU (estudo abrangente sobre saúde reprodutiva, inclusão social e patrimônio líquido de mercado de trabalho), demonstrou um decréscimo de 20% nas desigualdades por sexo, de 1995 a 2011, com consistente declínio, em escala global, em disparidades de salários, participação no mercado de trabalho e educação. E embora continue havendo enorme desigualdade, pelo visto 2013 foi o pior ano da história da humanidade para os sexistas. E quanto a discriminação da comunidade LGTB? No início de 2003, não havia casamento para eles, em nenhum estado americano. No final deste ano, 38% dos estados americanos aceitaram, ou melhor, votaram para que existisse.

OK, deixa tirar um pouquinhos meus óculos cor de rosa. Guerras, violência no geral, racismo, sexismo, homofobia ou qualquer forma de discriminação não vão sumir, de per si, num ato de auto imolação. Pufffffffffff virou fumacinha. Não vai não. É dever de cada um de nós nos melhorarmos e assim, melhorar o mundo onde vivemos. Não me lembro mais de quem é a frase “Ao invés de pensarmos o tempo todo em deixar um mundo melhor para nossos filhos, que tal pensarmos em deixar filhos melhores para este mundo?”, mas concordo com ela. Se cada um de nós sair um pouquinho fora de nossa zona de conforto, dentro do que acreditamos serem verdades absolutas, e começarmos a explorar um pouco mais esse mundão vasto e sem porteira, vamos descobrir maravilhas em nossos colegas humanos. Este ano, ao mesmo tempo que morreu um dos maiores exemplos de mudança pela aceitação das diferenças, o Mandela, também surgiu Papa Chico, arrebentando a boca do balão.

E como presentinho para ajudar nas famosas resoluções de ano novo, mando o link para as inspiradíssimas resoluções do TED  CLIQUE AQUI, esperando que todos nós possamos ser melhores no próximo ano. SALUTE!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

AGARRA O BODE

Porque é Natal, tempo de lembrar as coisas boas da vida, sentir saudades dos que foram e nos deixaram tanta coisa, reproduzo uma de minhas primeiras tentativas como blogueira, que é uma homenagem às minhas antepassadas, duas suiças e uma toscana. Inesquecíveis.

"Você não corre porque tem medo, mas tem medo porque corre" Burrhus Frederic "B. F." Skinner

Tarde modorrenta no sítio. Estou sentada na varanda meio que supervisionando o passeio de minhas duas avós e minha tia avó.

Digo supervisionando, porque vó paterna é meio cega, vó materna é meio surda, e apesar de ter diminuido bastante o tamanho de seus saltos, continua andando de salto alto, o que não é extremamente saudável, principalmente num gramado, e em descida.

Um pouco atrás, vem minha tia avó que, apesar de ser pouquissimos anos mais nova, continua achando que jamais passou dos 30, fato comprovado há alguns meses atrás, quando, irritada pela péssima atitude da TV, subiu ao telhado pra consertar a antena e de lá veio abaixo de ponta cabeça, tomando uma enormidade de pontos na sutura do rasgo que abriu no cocoruto. Nunca perdeu a consciencia, fato que, segundo ela, prova as excelentes condiçoes de seus ossos.

E la estão as três, quando, de repente, saindo do nada, lá vem um bode que meu irmão tinha adotado.

Embora tivesse visto a cena em câmara lenta, a coisa foi de rapidez fulminante, com o já citado metendo a cabeça no traseiro de vó materna, que saiu a voar pelos céus taubateanos, de salto e tudo.

Nestas alturas, já estava correndo a toda velocidade em socorro da vítima quando, minha tia avó se agarra de frente com o, neste momento, espantadíssimo bode, e lá vão êles num minueto ensandecido.

“Larga, larga”, grito eu.

“Largo não que se largar o cretino me chifra”, berra ela de volta.

Foram necessárias as forças combinadas do caseiro a agarrar o bode, e a minha a agarrar a tia, pra desatarrachar o insano duo, tudo regado a gargalhadas histéricas das duas avós que, nessa altura encontravam-se esparramadas pelo gramado, posto que a cega foi ajudar a surda , mas devido ao riso, e a certa falta de equilibrio, acabou caindo por cima.

O bode saiu correndo, certamente traumatizado, e o caseiro também se foi murmurando entre dentes qualquer coisa a respeito de italianos esquisitos.

Anos depois, estava lendo “O Mito da Liberdade”do Skinner, quando uma frase saltou do livro e me bateu na testa feito cacetada:

“VOCÊ NÃO CORRE PORQUE TEM MEDO. VOCÊ TEM MEDO PORQUE CORRE”

E ali estava. O pai da terapia comportamental tinha levado uma vida para definir o que minha tia havia me mostrado na prática, há tantos anos atrás:

PEGA DE FRENTE!

Grazzie zietta Un bel giorno, ci rivedremo...

E como é Natal, aqui vai um presentinho:  O MITO DA LIBERDADE

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A VENDA DO DISTÚRBIO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO

Roubei o título do artigo do Alan Swarz, no NYTimes, porque não consegui pensar em nada mais apropriado. Coloco o link do artigo original, no final.

O artigo todo é a respeito da palestra do Dr. Keith Conners, psicólogo, professor emérito na Duke University e iniciador da batalha para legitimar os Distúrbios da Atenção como doença, num recente congresso em Washington sobre os já citados distúrbios. E ele não está comemorando, muito antes pelo contrário, está em franco desespero, como mostra o início de sua palestra: “Os números fazem com que pareça uma epidemia. Bem, não é. É um absurdo. É uma invenção para justificar o uso de medicamentos em níveis sem precedentes e injustificáveis”.

E concordo muito com ele. Deixa fazer uma revisão. Já na residência, nos era ensinado que o Distúrbio da Atenção, com ou sem Hiperatividade, era uma coisa que dava em crianças, sumia miraculosamente quando a criança chegava na adolescência, e pronto, era isso, sem sequelas e sem problemas, mais ou menos feito gripezinha à toa. O único senão no problema era que, crianças com déficit de atenção eram incapazes de aprendizado e/ou sucesso na vida acadêmica. E isso, falo de final da década de 70, começo da década de 80.

Quando eu era criança, ninguém pensava, sabia ou imaginava qualquer coisa a respeito. Lá pelos meus 20 anos, comecei a achar que havia algo errado comigo. Todo mundo achava muito engraçado, mas para mim, não tinha graça nenhuma. Tenho inúmeras cicatrizes corpo afora, atestando a falta de graça do assunto. Minha paixão por subir em árvores quase sempre era seguida por quedas na descida, por ficar encantada com as azaleias em flor no Ibirapuera, esquecer de continuar pedalando e cair de cara no chão, sair com um sapato de salto e outro sem e entrar em surto ao me notar mancando sem saber por que, estacionar o carro no supermercado e voltar para casa a pé, citado carro totalmente esquecido no estacionamento. O cérebro a voar em mil direções diferentes durante aulas chatíssimas, estar em festas em conversa com grupo e me ver totalmente perdida quando alguém me perguntava algo sobre a tal citada discussão sem eu ter a mais remota ideia do que estava sendo discutido. Tropeçar na própria sombra, andando pelas calçadas esburacadas de Moema,onde sempre havia algo para chamar minha atenção, e a última, um ano atrás em Chattanooga, rolar ribanceira abaixo por ter querido fotografar uma florzinha no mato e simplesmente não ver o precipício. Além do problema nas costas, quase mato de susto minha pobre cachorrinha que me acompanha em minhas andadas. Essas e outras, me fizeram visitar neurologistas, mais ou menos a cada 3 anos, a partir dos 20, geralmente seguido a alguma distração tamanho federal. E sempre com o mesmo resultado, de carinhas sorridentes, explicando que, alto QI vem acompanhado de alguns percalços. Por um lado, gostava do elogio a respeito do QI, por outro lado, tenho razoável dose de autocrítica, e sei que não sou nenhum Einstein, nem perto. A parte boa era que conseguia e consigo focalizar minha atenção feito laser, infelizmente apagando o resto do mundo. Digo parte boa, porque me ajudou muito, como médica, a estar totalmente ligada ao paciente na minha frente, mas ruim porque vivia tomando susto, isto é, se estou prestando atenção em algo e acontece de alguma pessoa falar comigo, simplesmente não escuto, o que descobri, irrita as pessoas sobremaneira, e elas acabam berrando e me sobressaltando. Finalmente, já lá pelos meus 40 anos ou mais, um dos neurologistas que encontrei num simpósio, me disse que eu tinha razão, que obviamente padecia de déficit de atenção, e veio com a pergunta: Quer começar a tomar medicação? Mandei o cidadão catar coquinho. Ora essa! passo a vida a esborrachar a cara, procuro ajuda, todo mundo ri, aprendo a fazer listas e checagens para tudo, me esforço para parecer o mais normal possível, e agora quer me dar remédio? Ora tenha a santa paciência!

Mas, para uma coisa, serviu. Passei a estudar o assunto com toda a fé. E é sério.

Em neurologia, há o quase consenso de que os Distúrbios da Atenção afetam cerca de 5% das crianças, que é um distúrbio legítimo, o qual pode seriamente atrapalhar o sucesso na escola, trabalho e vida pessoal. Também se concorda que a medicação, em muitos casos, alivia a impulsividade grave e a incapacidade de concentração, permitindo o desenvolvimento do aprendizado. E o mais importante: como em todo e qualquer problema na área médica, existem graus, e não é só por apresentar um ou outro sintoma, que a pessoa deva ser medicada de saída. Isto é verdadeiro em qualquer área. Lembro perfeitamente a quantidade de discussões e brigas que tive com as pessoas tomando antibiótico para gripe, e que nunca adiantou explicar que gripe é causada por um vírus e que antibiótico é para bactérias. Agora, infelizmente, estamos todos sofrendo as consequências disso, com o aparecimento das assim chamadas “superbactérias”, resistentes a tudo que é antibiótico conhecido.

Agora, vejam os dados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças, que é o instituto nacional de saúde pública dos Estados Unidos -CLIQUE AQUI):

1- O Distúrbio da Atenção é o segundo mais frequente diagnóstico de longo termo, logo atrás da asma.
2- O diagnóstico foi feito em 15% das crianças em idade escolar.
3- O número de crianças em uso de medicação passou de 600.000, em 1990, para 3 e meio MILHÕES.
4- A prescrição de estimulantes quintuplicou desde 2002.

Ora, pensei eu, o aumento no número de diagnósticos pode ter acontecido devido ao fato de que agora, sabe-se onde e o que olhar, mas numa mais cuidadosa leitura, isso absolutamente não justifica a aplicação do citado a 15% da população infantil, ou seja, 10% a mais do que o esperado.
Continuando a leitura do artigo do Sawrz, comecei a recordar todo o enjoo que senti quando, a primeira coisa que notei nesta minha volta aos USA, foi a quantidade de propaganda de remédios na TV, de preferência em horário nobre. E não estou falando de uma aspirina ou um sal de frutas. Estou falando de medicação pesada, incluindo antipsicóticos. Lembro-me do susto que tomei quando vi pela primeira vez, na TV, a propaganda do Abilify, antipsicótico potente e caríssimo, e agora pasmem: para tratamento de depressão! E o artigo me informa do seguinte:

1-O aumento dos diagnósticos de déficit de atenção, e consequente prescrição de estimulantes, coincide com uma campanha de duas décadas da indústria farmacêutica, para divulgar a síndrome e promover as pílulas para médicos, educadores e pais.
2-Na já citada campanha, os gênios da propaganda incluíram comportamentos relativamente normais, como um descuido cá e lá e impaciência, como parte do problema, ao mesmo tempo em que exageraram os benefícios dos comprimidos. Anúncios na TV e em revistas populares, como People e Good Housekeeping, definiram esquecimentos e distrações comuns da infância como base para medicamentos que, entre outros benefícios, pode resultar em "trabalho escolar que corresponde à sua inteligência" e aliviar a tensão familiar.
3-Médicos, pagos pelas companhias farmacêuticas, publicaram pesquisas e deram palestras encorajando as maravilhas do fazer tal diagnóstico, com a consequência que, muita gente, incluindo médicos, passou a ver tais medicamentos como “benignos”, mais seguros que a aspirina, embora os tais tenham efeitos colaterais sérios e são regulados na mesma classe que morfina e oxicodone, por causa de seu potencial para abuso e dependência.
4-O Adderall entrou no mercado pela Richwood Pharmaceuticals, em 1993, quando houve um desaparecimento da Ritalina, o que levou milhares de pais em pânico a mudar para essa nova droga, apesar da companhia ser novíssima no mercado farmacêutico, e ser a primeira tentativa na área de um professor de primário do Kentucky, Roger Griggs. (Isto não está no artigo do Times, mas se quiserem ficar mais apavorados ainda, sigam este link CLIQUE AQUI ).

Mas, o que, a fim e a cabo, faz com que a propaganda seja tão eficaz? Segundo o Dr. Aaron Kesselheim, professor em Harvard, é porque a mesma fala e joga diretamente com os mais comuns temores dos pais a respeito de seus filhos. Todos queremos que nossas crianças tenham “sucesso”, seja lá a definição que damos ao termo, e, qualquer coisa que fuja um pouco da prescrição hollywoodiana do mesmo, nos assusta sobremaneira. Fora que, dar um comprimido é extremamente mais fácil que gastar tempo seguindo as crianças. Lembro-me de minha mãe, um dia eu lá pelos meus 10 anos, querendo saber por que ela não admitia que minhas notas fossem mais baixas que um nove. Oito e meio trazia sérios olhares reprovativos. A dita senhora parou no meio do que estava fazendo, e disse: “Senta, Patrizia.” Reconheci o perigo ali mesmo. Sou daquela geração que era chamada pelos pais por apelidos carinhosos. Quando o primeiro nome era invocado, sabia-se que havia problemas à vista. Primeiro e segundo nomes, problemão com certeza. Se a isso fosse adicionado o sobrenome, melhor correr. Sentei. E veio a primeira pergunta: “Você é retardada?”. Não fazia nenhuma ideia do que fosse um retardado, mas pela entonação, era óbvio que era algo muito ruim, terrível mesmo, ao que, obviamente respondi: “Não, claro que não.” Segunda pergunta: “Qual é seu trabalho?” Fácil essa, pensei astutamente, e respondi: “Sou criança, não tenho trabalho nenhum.” E aí ela acabou com minha astutice, dizendo: “Primeira resposta, correta. Segunda, errada. Certamente, você não é retardada, mas sim, você tem um trabalho e este é ir à escola, estudar e aprender. Por conseguinte, sendo inteligente e tendo um único trabalho, qual é o motivo pelo qual esse trabalho não possa ser desempenhado da melhor das formas?” Dez para Giuliana, zero para a astuta que vos fala. Aprendi ali, em menos de cinco minutos, o que é expectativa materna, como funciona o método Socrático, e a razão do porque mãe só tem uma. E, muitos anos depois, só posso agradecer. Déficit de Atenção ou não, fui muito bem na escola, aprendi, não tanto a gostar de estudar, mas com certeza amar aprender.

E isso tudo, para uma conclusão simples: sou médica, evidentemente adoro medicamentos que, quando bem dados, salvam vidas, às vezes de forma milagrosa. E é por isso mesmo que fico tão absurdamente apavorada quando vejo seu uso, mau uso e abuso. Não podemos nem devemos medicar a vida, e, além do mais, só o medicamento quase nunca funciona. Em qualquer situação. De Diabetes a Distúrbios da Atenção, de Depressão a Derrame, de Ataque Cardíaco a Alergia, só o comprimidinho não funciona. Há a necessidade de mudanças, às vezes radicais, no estilo de vida.

Segundo a Clinica Mayo, outra de minhas paixões, os tratamentos complementares para Distúrbios de Atenção são Yoga e/ou Meditação: O praticar as rotinas do yoga, de meditação e de técnicas de relaxamento, ajuda, não só a relaxar como a aprender disciplina, o que por sua vez, ajuda a gerir os sintomas do Distúrbio.

As dietas especiais, com eliminação de açúcar, trigo, leite, ovos, corantes artificiais e aditivos, não mostraram até o momento, qualquer relação consistente com melhora dos sintomas. Por outro lado, não se deve usar cafeína, que pode ter efeitos adversos em crianças com esse problema. Só lembrando que cafeína é encontrada não só no café, mas também em chá preto, chocolate, coca cola e todas as colas.

Vitaminas, Suplementos Minerais e Suplementos Fitoterápicos não mostraram qualquer benefício. (CLIQUE AQUI )

Então, para os pais, procurem profissionais nos quais tenham a mais absoluta confiança. Professores, vizinhos, amigos, celebridades da TV e tais, não são treinados para diagnóstico, de qualquer distúrbio.

E para meus colegas disturbados, só para dar uma lustradinha na autoestima, e como escrevi no livreto para meu neto gaulês, com o qual não codivido nenhuma genética, só alguns sintomas do Distúrbio, lembrem-se que Leonardo da Vinci, Einstein, Tomas Edson, Walt Disney, Mozart (CLIQUE AQUI) e mais um punhado de gênios, foram diagnosticados com a coisa. Outros atuais: Stephen Hawkings, Justin Timberlake, Will Smith, Michael Phelps, Sir Richard Branson, (CLIQUE AQUI).

Assistam a um filme antigo, de 1993, chamado "Strictly Ballroom".Não faço a mais remota idéia do título em português, decidi assistir por impulso, remexendo no Netflix, achando que era só a respeito de dança, coisa que adoro. É uma das mais bonitas aulas sôbre Distúrbios da Atenção, indubitavelmente melhor do que qualquer livro de texto.

The Selling of Attention Deficit Disorder  CLIQUE AQUI

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

PEDIDO DE DESCULPAS

Prezados todos que me leem,
Não sei se a culpa é minha, de ter feito alguma bobagem em meu aprendizado como blogueira, ou do Google mesmo, o fato é que desapareceu a barrinha onde vejo os comentários. Vejo que há comentários, mas não posso vê-los. Só os vejo no e mail da conta associada. Assim, respondi a todos, só para descobrir que a resposta não chega a ninguém. Então, se alguém precisar de comunicação urgente, pode usar o link do Curare n Facebook, que é https://www.facebook.com/curare.dolorem  CLIQUE AQUI
Tão logo esse problema for resolvido, prometo resposta a todos que não a receberam.

Abraços

Patrizia

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

NÃO SÃO SUAS VIDAS PASSADAS, SÃO AS VIDAS DE SEUS ANTEPASSADOS

“O que é uma ideia? É uma imagem que se pinta em meu cérebro”. Voltaire

Uma das coisas que mais gostava, quando no Shand’s Teaching Hospital, era os finais das Grandes Conferências Semanais, nos quais nosso chefe máximo, que usava um avental branco tão largo, que o mesmo o aplaudia quando andava, nos estimulava a soltar a imaginação a respeitos das possibilidades da neurologia. Até meu mau humor de ter acordado às 5 e meia da matina com o raio do rádio relógio berrando “dabliugegegegeeeeeeeeeee” (que ficava na sala e não no meu criado mudo, o que me obrigava a sair da cama para desligar o tormento), passava. Nesses momentos mágicos, éramos livres de soltar qualquer coisa que nos viesse à mente, sobre qualquer assunto. Numa época na qual o Projeto Genoma nem estava em consideração, computadores, se os havia, ainda eram coisas de cientistas da NASA, donughts eram considerados alimento primordial antes de conferências matutinas, e a genética que conhecia ainda era só a Mendeliana, o já citado chefe se derramava em teorias sobre mutações do DNA em neurônios. Em minha modesta opinião, era viajar na maionese, mas que viagem!

Pulamos uns 10 anos, e eis que surgem teorias e terapias de vidas passadas, coisas com as quais me diverti com gosto. Amigas queridas, terapeutas e não, embarcaram com fé na novidade. Procurei ser o menos ácida possível a respeito do assunto, não por acreditar, mas por respeito às já citadas, e afinal de contas, que mal pode fazer? A fé remove montanhas, segundo dizem. Nunca vi acontecer, mas, como disse Sheakspeare, “há mais coisas entre o céu e a terra do que sabe nossa vã filosofia”. E assim, passei anos escutando vidas incríveis vividas em outros tempos, onde pavor de fogo era explicado por ter ido à fogueira na inquisição, amores e desamores provinham de passados distantes, tudo tinha explicação e porquê. E, apesar de ser fã de carteirinha de Chico Xavier, decididamente não consigo entender como é que a humanidade continua crescendo em velocidade assustadora, se tem tanta alminha indo e voltando, e quando algo ruim me acontece, juro de pés juntos que noutra encarnação devo ter sido a irmã malvada da Lucrécia Bórgia, para ter que pagar tanto pecado.

Admito, nessa área não tenho qualquer compromisso com a racionalidade. Meu outro lado é racional/científico até a medula dos ossos. E foi esse lado que se levantou e aplaudiu de pé (esse lado e o resto de mim mesma, assustando minha cachorrinha, que placidamente repousava debaixo de minha escrivaninha) meu antigo chefe, ao ler o artigo de Dias e Ressler na revista Nature (CLIQUE AQUI).
O aplauso se deveu à visão de futuro da criatura, que acreditava que, pelo menos metade de nossos sonhos, pesadelos, delírios (em casos de pacientes psicóticos), nossas tendências a gostar de uma coisa ao invés de outra, pânicos e ansiedades, são causados por pedacinhos de material genético proveniente de nossos antepassados, que alteram o próprio DNA de nossos neurônios. Baseava-se ele em estudos que mostravam como o stress modifica o DNA de algumas células cerebrais. E agora, tantos anos depois, estão começando os estudos para demonstrar o que foi lá atrás sonhado.

Segundo o artigo, alguns “medos” podem ser herdados por gerações, coisas como ansiedade e dependências. Como é que acontece? Convencionalmente, sabe-se que, a única forma de transmitir informação biológica é através de sequências genéticas que contenham DNA (ácido desoxirribonucleico). Mutações aleatórias no DNA, quando benéficas, fazem com que os organismos se adaptem mais facilmente a mudanças, e, normalmente, este processo ocorre lentamente ao longo de muitas gerações. Por favor, não esqueçamos que Darwin NUNCA disse da sobrevivência do mais forte, mas sim do que mais rapidamente se adapta às condições mutantes do meio ambiente.

Pois bem, mais de 100 anos depois da Teoria da Evolução, alguns estudos tem demonstrado que fatores ambientais podem influenciar a biologia de forma mais rápida, através de modificações “epigenéticas” (1), as quais alteram a “expressão” (3) do gene, mas não sua sequência. Por exemplo, crianças que foram concebidas durante terrível período de escassez e fome na Holanda, em 1940, durante a segunda guerra mundial, tiveram risco muito aumentado de diabetes, problemas cardíacos e mais uma série de problemas, possivelmente por causa de alterações epigenéticas dos genes envolvidos nessas doenças.

Kerry Ressler, neurobiólogo e psiquiatra da Emory University, em Atlanta, começou a se interessar por herança epigenética depois de trabalhar com populações carentes na cidade, onde ciclos de dependência a drogas, doenças mentais e outros problemas parecem recorrentes em gerações. Devo concordar com ele, pois um dos meus maiores espantos quando trabalhei com dependentes em zonas rurais do Texas, foi conhecer famílias com 3 e 4 gerações de dependentes de metanfetaminas. Levem em consideração que, nessas famílias, as meninas estão tendo bebes tão cedo aos 12, 13 e 14 anos, de forma que uma bisavó pode ser tão nova (40 anos), se viver até lá. E ver isto em país de assim chamado primeiro mundo, como são os USA, é mais do que chocante. Provavelmente foi o que também chocou o Ressler, que considerou que, estudar as bases biológicas desses efeitos em humanos, ia ser por demais complicado, de maneira que, junto com seu colega Brian Dias, decidiu fazer o estudo com camundongos de laboratório, os quais haviam sido treinados para terem medo do cheiro de acetofenona, substância química cujo cheiro parece uma mistura de cerejas e amêndoas. Para instilar o medo, espalharam o cheiro ao redor de uma câmara onde estavam os ratos, que recebiam um pequeno choque elétrico ao sentir o já citado cheiro. Assim, aprenderam a associar o cheiro com dor, de forma a tremerem quando sentiam o cheiro, mesmo quando não levavam nenhum choque. E agora, a descoberta: essa reação foi passada a seus filhotes, que nunca tomaram nenhum choque, mas que começavam a tremer na presença do cheiro. Não vou aqui reportar todo o estudo com quais receptores do cérebro recebem o que, posto que, até para amantes de neurônios a leitura é de uma aridez desconcertante, o que me leva a pensar porque não é permitido nenhum humorzinho em artigos científicos, coisa que, em minha opinião, estimularia assaz o estudo, ao invés de afastar. Mas, divago. O ponto é que o estudo dividiu os cientistas. Uns com cara de “Nossa, que fantástico!”, outros com jeito de “Duvido-dê-o-dó”, que é a maravilha da ciência, até mesmo porque, a associação de cheiro com dor, continua um mistério de como realmente acontece. O fato é que este estudo foi chamado, pela maioria da comunidade, como “o estudo mais rigoroso e convincente, publicado até o momento, demonstrando os efeitos da aquisição epigenética trangeneracional.”

Esse palavrório todo se traduz no fato de que a comunidade cientifica está em profundo pânico, ao pensar que nossas células germinais, isto é, as que nos originam, possam ser tão plásticas e dinâmicas em resposta ao ambiente. Os autores do estudo acham que nós, humanos, herdamos alterações epigenéticas que influenciam nosso comportamento, só não sabem ainda como identificar. De minha parte, tenho certeza, nada científico, puramente de observação. Pois não estou fazendo exatamente o que meu nonno fazia comigo, me mostrando as constelações e assim me ensinando, de forma deliciosa, toda a mitologia grega e a base do comportamento de nós, ocidentais? É por acaso espanto, que amo Freud com paixão? Tudo bem, não vou dizer que recebi fatores epigenéticos de meu chefe da neuro na Florida, mas, com certeza, o que eu já tinha me permitiu curtir com fé os ensinamentos. E viajando na maionese vou eu, só imaginando quantas fantásticas vidas tenho dentro de mim, ganhas na mais pura loteria genética.

Muito obrigada a meus predecessores. Será que esse pavor horrendo que tenho de cobra veio diretamente de Eva ou será consequência do fato que uma se enrolou na minha perna, quando, recém chegada a Taubaté, no sítio, saía a fazer explorações noturnas? Mistério, mistério. E como não poderia deixar de ser, Ney Matogrosso invade minha cabeça a cantar “Pavão misterioso...pássaro formoso...tudo é mistério, nesse seu voar ...”Seja esse voar para o profundo de nosso ser, ou do país.


1-Epigenética é o estudo das reações e fatores que influenciam o desenvolvimento e manutenção das reações químicas de um genoma.
2-Genoma é um conjunto completo de DNA de um organismo, incluindo todos os seus genes. Cada genoma contém todas as informações necessárias para construir e manter esse organismo. Em nós, humanos, uma cópia de todo o genoma (mais do que 3 bilhões de pares de bases de DNA) está contida em todas as células que possuem um núcleo. E se isso, de per si, não o faz se maravilhar, não sei o que o faz.
3-Expressão do gene é o processo pelo qual a informação provinda de um gene é usada na síntese de um produto funcional desse mesmo gene. É um processo que acontece em todas as formas de vida conhecidas (vírus, bactérias, organismo uni e multicelulares), para gerar o maquinário macromolecular do que chamamos vida.

“A coisa mais incompreensível do universo é que ele é compreensível
”. Albert Einstein

domingo, 8 de dezembro de 2013

CUIDADO COM AS NOTÍCIAS

Este fim de semana, por algum motivo, minha página no Facebook foi inundada com a seguinte notícia:

O HIV é um vírus inofensivo e não transmite a AIDS”, afirma ganhador do Nobel
Por: Redação em 04/12/2013 às 9:59
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O doutor Peter Duesberg é agora “persona non grata” para a indústria da AIDS, e tudo porque ele provou que o HIV não transmite a AIDS.
Professor de Biologia Molecular da Universidade da Califórnia, Peter Duesberg teve a coragem de desafiar a indústria da AIDS, que é formada pelos produtores de medicamentos alopatas, de preservativos e pela medicina mercantilista – que vive da doença; não vive da saúde.
Ele mantém 4 mil pacientes diagnosticados como portadores do HIV, ou seja, os chamados soropositivos, que não tomam remédio algum; são proibidos de tomar remédio.
Não são 4.
Não são 40.
Não são 400.
São 4.000 pacientes e em quase a metade dele o HIV desapareceu espontaneamente, o que levou o doutor Peter Duesberg a concluir que a AIDS decorre exatamente do remédio que se toma para combater o HIV.
Eu li o trabalho do doutor Peter Duesberg e confesso que cheguei ao orgasmo da satisfação pessoal, porque, ainda que me falte engenho e arte, eu sempre desconfiei da existência de um submundo por trás da AIDS – um negócio lucrativo, por certo.
Segundo o doutor Peter, o HIV ( Human Immunodeficiency Virus )”é um vírus passageiro e inofensivo, existente muito antes da epidemia de AIDS”.
De fato, o HIV foi identificado e isolado em 1938 pelos cientistas Robert Gallo e Lue Montagnier e a AIDS é uma “invenção” da década de 1980.
O professor Peter Duesberg concorda que o HIV pode ser transmitido no ato sexual, mas, em relação à AIDS, ele provou que se trata apenas do “marcador substituto” – ou seja, é a variável intimamente relacionada com outra, que é a verdadeira causa da doença.
E, agora, pasmem! O doutor Peter Duesberg disse que “o consumo de drogas ( remédios ) equivocadamente usada para combater o HIV, leva à AIDS”.
Não por coincidência, todos que morreram de AIDS estavam sob cuidados médicos.
E, agora, pasmem novamente com o que disse o doutor Peter:
-“O AZT e outras drogas usadas para combater o HIV estão, na verdade, provocando a doença (AIDS) em pessoas que seriam HIV positivas saudáveis”.
Ao ler o trabalho do doutor Peter Duesberg eu me lembrei da música do Chico Buarque de Holanda, “Fado Tropical”, que diz assim:
- Todos nós herdamos do sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo, além das sífilis, é claro.
Ou seja: o HIV pode estar presentes no sangue e isto não quer dizer que a pessoa está condenada. E como ensina o doutor Peter, não deve jamais tomar remédio para combater o HIV.
Portanto, se um dia eu for diagnosticado como soropositivo eu nem me preocupo. E se vierem me dar remédio para combater o HIV eu chamo o doutor Peter.
Ah! Ia esquecendo de dizer que o doutor Peter Duesberg tem o apoio de dois prêmios Nobel de Química e acaba de ser contratado pelo governo da África do Sul para coordenar o programa de combate à AIDS.
E por que a tese dele não se alastrou?
Porque a mídia capitalista também depende da indústria da AIDS, pois é de lá que vem as gordas verbas publicitárias.
Então, gente, vamos deixar de paranoia e procurem ler o trabalho do doutor Peter. Apesar de ele ter sido considerado “persona non grata” pela indústria da AIDS, não conseguiram ( ainda ) destruir o trabalho dele.

Por Ailton Vilanova

http://valeagoraweb.com.br/mundo/bomba-o-hiv-e-um-virus-inofensivo-e-nao-transmite-a-aids-afirma-ganhador-do-nobel/


Antes de qualquer comentário, vou colocar os seguintes fatos:

1-Peter Duesberg nunca ganhou o Prêmio Nobel. Foi eleito, em 1986, para a Academia Nacional de Ciência, por ter isolado, pela primeira vez, o gene do câncer, com seu trabalho com retrovirus na década de 70.
2-O vírus da HIV foi identificado por Robert Gallo e Lue Montagnier em 1986 e não 1938, até mesmo porque Gallo nasceu em 1937, e por mais gênio que seja, com certeza não estaria pequisando vírus com um ano de idade.
3-Peter Duesberg não tem, nem nunca teve pacientes, tomando remédios ou não, pois seu trabalho de pesquisa é puramente microcelular. É Professor de Bioquímica, Biofísica e Biologia Estrutural, e sua página é a seguinte: http://mcb.berkeley.edu/labs/duesberg/. O que ele fez foi SUGERIR um estudo para as Forças Armadas nos EUA, para que checassem todos os novos recrutas para ver qual tinha HIV. Aí, para metade deles seria dada medicação convencional, e para outra metade, não, observando o que acontecia em ambos os grupos. Tal estudo nunca foi feito dado as óbvias implicações ético/morais do mesmo, apesar de ser sabido que as forças armadas fizeram estudos absurdos nas décadas de 40 e 50, depois, por clamor popular, não sei se tomaram jeito, sei que agora seguem protocolos universais de ética em pesquisa.
4-Peter Duesberg nunca disse que são os remédios que causam AIDS, até mesmo porque, milhares morreram ANTES do advento de qualquer medicação. O que ele fez foi estudar gráficos do abuso de drogas ilícitas durante os anos 60 e 70, superimpôs citados gráficos a outros ilustrando o crescimento da epidemia de AIDS e encontrou correlação entre ambos, não exatamente a respeito do abuso das ditas drogas, mas a respeito da intensidade e do tipo de drogas usadas, principalmente entre homens homossexuais, descobrindo que, muitos dos homeosexuais que desenvolveram AIDS, tinham longa história de abuso de drogas, principalmente uma apelidada de “popper”, que é nitrito, droga usada para tratar doenças cardíacas, a qual, não só provoca “barato”, como também relaxa os musculos anais, coisa que facilitava o intercurso. Ora, o nitrito é carcinogênico potente, e daí o Duesberg relacionou e tentou explicar o por que, homossexuais masculinos desenvolviam o sarcoma de Kaposi, enquanto que outros grupos de risco como hemofílicos e heterosexuais drogadependentes raramente o tinham. Em 1986, após 2 anos de pequisas, achou que a teoria do HIV a respeito da AIDS estava errada, e escreveu um artigo sobre o assunto
5-Peter Duesberg nunca foi contratado pelo governo da Africa do Sul, ou por qualquer outro, foi citado pelo Presidente Thabo Mbeki, da Africa do Sul, quando este tentou negar o uso de ARV por pacientes aidéticos.
6-Existe, ao que se sabe, um único paciente , homossexual de 47 anos, que esteve soropositivo sem qualquer sintoma e sem usar medicação, por 23 anos.

Isto posto, vamos ao artigo. Não sei nada sobre o autor do mesmo, criatura que responde pelo nome de Ailton Vilanova. Googlei e tem tantas respostas que não sei dizer qual é a real sobre citada criatura, mas se for jornalista, tem pouca consideração por veracidade, muito menos por checar fatos. Sou a favor, tipo fãnzoca de pom pom pela liberdade de expressão, mas também acredito que a tal liberdade não é sinônimo de meias verdades e completas mentiras.
E considero o artigo acima, não só mentiroso, como beira a criminalidade. Me digam, quantas pessoas vão se dar ao trabalho de checar tudo? O problema da AIDS não só está muito, mas muito longe de ser resolvido, como, infelizmente, após um decréscimo no final dos anos 90, está de volta feito vingança. Não vou aqui discutir as causas microbiológicas da coisa, até mesmo porquê, em não sendo microbiologista, nem epidemiologista, não tenho o conhecimento. Mas sou médica, antenada nos desenvolvimentos da medicina no geral, e velha o suficiente para ter visto, de perto, a vivo e a cores, o horror que foi a coisa nos anos 80.
É muito fácil falar, sem muito conhecimento de causa, a respeito de teorias conspiratórias da Industria Farmacêutica, aliás, parece que virou bordão nos últimos anos. Não estou aqui dizendo que a citada indústria é composta por santos preocupados apenas com o bem estar da população. Seria tão idiota quanto acreditar nas teorias préviamente citadas. A indústria farmacêutica, como qualquer outra, vive do lucro. Ponto. Daí a achar que que inventou todas as doenças, é de um raciocinio tão primário que beira o retardamento. Dizer que “...E como ensina o doutor Peter, não deve jamais tomar remédio para combater o HIV. Portanto, se um dia eu for diagnosticado como soropositivo eu nem me preocupo. E se vierem me dar remédio para combater o HIV eu chamo o doutor Peter.”, é incitar o descaso. Ou o autor pensa que todos os que lêem o artigo são doutores, com uma boa dose de raciocínio crítico?
Todos nós temos pensamento mágico, e todos nós queremos acreditar que dá para resolver problemas de alguma maneira miraculosa, sem ter qualquer trabalho para prevenir e/ou tratar a coisa. Como boa “gordinha”que adora uma boa mesa, sonho com a pílula que, sem qualquer efeito colateral, me deixará comer o que me dá na telha, a qualquer hora, em qualquer quantidade, sem mexer com meu colesterol e/ ou açúcar. A diferença é que sei que é puro devaneio de minha parte, e que, se não me exercitar e cuidar da alimentação, vou virar dona Redonda, com todos os problemas relacionados.
Adoro uma teoria conspiratória, e por isso mesmo me divirto muitissimo lendo os livros do Pendergast, e até faço parte da página de admiradores do mesmo no FB. É chamado de fantasia. Faz bem pra vida, estimula a imaginação.
Escrever um artigo vazio, sem qualquer respeito por fatos, e espalhar na Internet, é outra coisa. Rezo para que ninguém que tenha o vírus, ao ler o artigo decida que tudo bem, então paro com tudo, porque aí a coisa vira assassinato.
Prezado Ailton Vilanova, não só lhe faltam “engenho e arte”como muito bem colocou em seu artigo. Falta-lhe honestidade e compreensão do que lê ou diz que lê.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

DIVERSIDADE CULTURAL


Nesta altura do campeonato, considero-me uma imigrante profissionaI.
Este assunto costumava vir à minha cabeça raramente quando criança, de quando em vez na adolescência, bastante na idade adulta, e o tempo todo quando baixei no grande estado do Texas.

Pois vejamos: quando da mudança da Itália para o Brasil, foi mais ou menos assim: minha mãe informou, mostrou fotos ou desenhos, já não lembro, de frutas fantásticas das quais nunca tinha ouvido falar, subimos no navio em Genova, descemos em Santos e a vida continuou mais ou menos como de costume, adicionados que foram dois problemas: o da banana e o das pocinhas de lama.

O primeiro, deveu-se a uma revisão médica sui generis: quando na Itália, a fruta a ser comida, a maravilha, o portento, era a banana, provavelmente porque, na Itália do pós-guerra, meados dos anos 50, banana era uma raridade. No Brasil, a fruta foi mudada para maçã, naturalmente fruta rara no Brasil daquela época. Minha mãe recusou-se a fazer a troca, e assim pude crescer alegrinha comendo minhas bananas, das quais, a preferida era/foi/continua sendo, mesmo que seja difícil de achar, aquela bananinha mel, vendida em cachos no trecho final da Piaçaguera...ai que saudades.

O segundo foi a paixão imediata de meu irmão, na época com cerca de dois anos, por pocinhas de lama. Era só ver uma, e la ia ele, morto de alegria, sentar dentro...e como tinha pocinha!

Até aí não teria sido um desastre, não fosse a certeza de minha mãe que o pimpolho seria atacado por uma legião de germes tropicais, naturalmente muito mais horrendos e mortais que germes itálicos, tendo então que banhar e trocar completamente o desavisado, numa média de 6 vezes por dia, a depender das condições atmosféricas. E isso numa época que roupa se lavava no tanque, à mão.

E esses foram os grandes problemas que me lembro, o resto, pelo menos em minha opinião, foi interessantissimo. Mamãe discordou a respeito dessa minha visão por toda a vida.

Meu primeiro choque cultural ocorreu na Copa do Mundo, 1970, final Brasil/Itália, quando me descobri em total pânico sem saber pra quem torcer, naquela situação de nem a favor, nem contra, muito antes pelo contrário.Sufoco total. Acalmei-me pensando que, afinal de contas, Copa é de 4 em 4 anos, e as chances de toda final ser Itália/Brasil seriam poucas.
Certa estava, pois outra final entre ambos seria só em 94 quando o bestão do Baggio, o único jogador de futebol zen-budista na história da humanidade, chutou a bola pra lua, Itália vice, de novo.

O segundo choque foi alguns anos mais tarde, quando um grande amigo, que tinha crescido lá em casa, confessou que passou anos apavorado, até entender que, o que ele considerava a prévia de combate mortal, era apenas a família discutindo assuntos corriqueiros. Pensei na época... uai...e que eles não conversam? Também não pensei muito mais no assunto.

O terceiro foi mortal, abalando minhas mais profundas crenças sobre vida, relações, percepções e decepções, e veio após o já citado amigo ter assistido o “La Nave vá”do Fellini, quando me informou que finalmente havia entendido que, em tendo sido criada num ambiente como o descrito no filme, certamente havia perdido qualquer oportunidade de me tornar “normal”.

Como assim não sou normal? O que há de errado se, ao invés de usarem armas, o povo se digladia por poder, cantando? Vai me dizer que, jamais em momento algum se sentiu como que perdido num barquinho, no meio do oceano, e a dúvida como metáfora, sendo um enorme hipopótamo bem sentado à sua frente???
Aquilo doeu.

Mas, a vida anda, o tempo passa, há coisas a serem feitas, novidades a serem apreendidas, viagens, novos mundos a serem descobertos, crianças nascem, idosos morrem nessa incrível máquina de reciclar que é o mundo.
E assim, num belo dia, eis que me encontro no Texas. E sou chamada de “Alien”. E descubro que o green card é cor de rosa, e sou elevada à categoria de especialista em “Diversidade Cultural”.

Pensava eu, errôneamente pelo visto, que minha função era ensinar psicofarmacologia e distúrbios mentais, e nervosíssima me tornei com essa nova atribuição. Fui à luta.Muitas horas de sono perdidas depois, uma inteira floresta destruída de tanto papel que usei imprimindo artigos do santo Google, minha tábua de salvação no oceano revolto onde o hipopótamo era bem real, só me faltou o barquinho e o coro ao fundo cantando “Vá Pensiero”, eis que o momento “Eureka” veio quando, funcionando como tradutora para uma senhora mexicana e seu psiquiatra indú (cujo inglês era horrendo, embora tivesse vivido nos EUA desde os 3 anos de idade), a luz se fez.

Naquele cubículo com uma senhora baixinha, gordinha de trança pelo meio das costas, a se queixar em espanhol para um indú alto, magérrimo, marrom e de turbante, imóvel em sua cadeira aguardando a tradução feita por uma italo-brasileira de meia idade,branquela e sardenta, o óbvio ululante do Nelson Rodrigues materializou-se e o hipopótamo virou borboleta: quem foi que disse que somos feitos iguais?

Orgulhosamente informo que, tantos anos depois, as apresentações, aulas e apostilas no assunto, desta que voz fala, continuam a ser usadas naquele local. E a camiseta que usei na primeira aula pras turmas novas, amplamente reproduzida., e dizia o seguinte:

NO PARAÍSO DA COMUNIDADE EUROPEIA
Os cozinheiros são franceses
Os policiais são ingleses
Os amantes são italianos
Os dançarinos são espanhóis
E tudo é organizado por alemães.

NO INFERNO DA COMUNIDADE EUROPEIA
Os cozinheiros são ingleses
Os policiais são franceses
Os amantes são alemães
Os dançarinos são suíços
Os banqueiros são espanhóis
E tudo é organizado pelos italianos.
E vive la différènce!