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terça-feira, 30 de julho de 2013

AS ALEGRIAS DA VELHICE (SEM BRINCADEIRA) por Oliver Sacks

Publicado no NY Times em 6 de Julho de 2013

Por que traduzir esse artigo? Porque é lindo, porque admiro demais o Dr. Sacks, porque me fez pensar e lembrar e cogitar a respeito de sexo de anjos e dos caminhos da vida. Me fez lembrar da primeira vez que ouvi seu nome, lá no começo da década de 80, quando fui convidada pela Johnson para assistir a première do filme “Tempo de Despertar – Awakening”, carregando comigo um estagiário lá de “Belzonte”, menino ótimo, outro que infelizmente sumiu nos caminhos ou descaminhos dessa vida. Esse artigo é do aniversário de 80 anos do já citado doutor.

“Noite passada sonhei com mercúrio – enormes e brilhantes bolhas de inquietação, subindo e descendo. Mercúrio é o elemento de numero 80, e o sonho me lembrou que, na quinta, terei 80 anos, euzinho.
Elementos e aniversários têm estado interligados desde minha infância, quando aprendi a respeito de números atômicos. Quando fiz onze anos, saí dizendo “Eu sou sódio”(elemento atômico 11), e agora aos 79, sou ouro. Há alguns anos atrás, quando presenteei um amigo com uma garrafinha inquebrável com mercúrio pelos seus 80 anos, ele me olhou de forma peculiar, mas mais tarde mandou-me uma carta em forma de piada, dizendo: “Tomo um pouquinho todas as manhãs, para minha saúde”.
Oitenta! Difícil de acreditar. Muitas vezes sinto que a vida está apenas começando, só para perceber que está quase acabando. Minha mãe foi a filha número 16, de uma prole de 18. Eu fui o mais novo de seus 4 filhos, o mais novo de todos os primos, o mais novo no ginásio. Fiquei com essa sensação de ser o mais novo, mesmo agora que sou quase a pessoa mais velha que conheço.
Pensei que ia morrer aos 41, quando tive uma queda enquanto escalava uma montanha sozinho. Fiz uma tala na perna, o melhor que pude, e comecei a me descer, montanha abaixo, só com meus braços. Nas longas horas que se seguiram, fui assaltado por memórias, boas e más. A maioria era de gratidão – gratidão pelo que recebi e gratidão por ter podido dar algo de volta. O livro “Awakenings” havia sido publicado no ano anterior.
Aos quase 80, com uma variedade de problemas médicos e cirúrgicos, nenhum deles incapacitante, sinto-me feliz por estar vivo, e, de vez em quando, quando o tempo está perfeito, me pego berrando “Estou feliz por não estar morto!” (Como contraponto a uma história que ouvi de um amigo, o qual, andando com Samuel Beckett em Paris, numa perfeita manhã de primavera, disse a ele “Um dia como este, não te faz feliz por estar vivo?”, ao que Beckett respondeu “Não vamos exagerar”).
Sou grato por ter experienciado muitas coisas, algumas maravilhosas, outras horríveis, e que fui capaz de escrever uma dúzia de livros, receber inúmeras cartas de amigos, colegas e leitores, e de curtir o que Nathaniel Hawthorne chamou de “intercurso com o mundo”.
Sinto ter desperdiçado (e continuo desperdiçando) tanto tempo. Sinto por ser, aos 80, tão horrendamente tímido como era aos 20. Sinto por não falar outras línguas e por não ter viajado e vivido outras culturas tão extensamente quanto deveria ter feito.
Sinto que deveria estar tentando completar minha vida, seja lá o que for que isso signifique. Alguns de meus pacientes com seus 90 e 100 anos, dizem “nunc dimittis” (Tive uma vida plena e agora estou pronto para ir). Para alguns deles significa ir para o céu, e é sempre o céu ao invés do inferno, embora Samuel Johnson e James Boswell apregoaram as maravilhas do inferno e ficaram furiosos com David Hume, que não tinha nenhuma dessas crenças. De minha parte, não creio, nem tenho qualquer vontade de crer em nenhum tipo de existência pos-mortem, a não ser na memória de amigos e na esperança que alguns de meus livros continuem “falando” a algumas pessoas depois de meu falecimento.
W.H.Auden costumava me dizer que ia viver até os 80 e depois “cair fora” (viveu apenas até os 67), e, embora já tenha morrido há 40 anos, ainda sonho com ele, assim como com meus pais e ex pacientes, todos idos há muito, mas que amei e foram importantes em minha vida.
Aos 80, os espectros da demência e do derrame pairam sempre presentes. Um terço de meus contemporâneos está morto, e muitos outros, com estragos físicos ou mentais profundos, estão aprisionados numa existência mínima e trágica. Aos 80, as marcas da decadência são mais do que visíveis. As reações são mais lentas, esquecemos os nomes frequentemente, e as energias precisam ser buscadas no fundo do poço, e mesmo assim, muitos se sentem cheios de energia e vida e nem um pouco “velhos”.
Talvez, com um pouco de sorte, consiga passar por essa mais ou menos intacto, e por mais alguns anos consiga manter a liberdade de amar e trabalhar, as duas coisas mais importantes da vida, como tão bem disse Freud.
Quando minha hora chegar, espero poder morrer com minha armadura, como o fez Francis Crick. Quando lhe foi dito que seu câncer tinha retornado, inicialmente não disse nada, simplesmente olhou à distância por alguns minutos e depois voltou a fazer o que estava fazendo, e quando pressionado a respeito de seu diagnostico, disse: “Seja lá o que for que tem um começo, tem que ter um fim”. Quando morreu, aos 88, continuava totalmente absorto em seu trabalho criativo.
Meu pai, que morreu aos 94, costumava dizer que os 80 anos foram uma das mais agradáveis décadas de toda sua vida. Ele achava, do mesmo jeito que eu também começo a achar, que não é um estreitamento, mas sim um alargamento da vida mental e das perspectivas. A criatura nesse ponto teve uma longa experiência de vida, não só da própria, mas de outras vidas também. Viu triunfos e tragédias, glórias e fracassos, revoluções e guerras, grandes conquistas e profundas ambiguidades. Viu o ascender de grandes teorias só para ver também a sua destruição pela teimosia dos fatos.
Fica-se mais consciente de nossa transitoriedade, e quem sabe, da beleza. Aos 80, a criatura pode dar uma olhada, e ter um vívido e vivido sentido de história, coisa que antes não é possível. Posso imaginar e sentir em meus ossos o que significa um século, coisa impossível quando tinha 40 ou 60.
Não penso na velhice como um tempo sombrio e terrível, ao qual se deva de alguma forma resistir e aguentar o melhor possível, mas sim como uma época de lazer e liberdade. Liberdade das falaciosas urgências da juventude, livre para explorar o que me der na telha, e a beleza de poder juntar pensamentos e sentimentos de uma vida inteira. Tô louquinho para chegar aos 80.”

Esse texto, como tudo o que li dele, me comoveu profundamente. Voltei anos de vida, quando vi o Awakening e aprendi ali, naquele momento, o significado de ser médico, que não é só ser muito bom em diagnóstico e tratamento, mas acima de tudo, e principalmente, desenvolver a capacidade de estar com o paciente e, junto com este, reescrever a historia de sua vida. Me esforcei muito para alcançar esta meta, que não é natural nos neurologistas (somos chegados a um certo encastelamento acima das coisas da vida, e nada explica isso melhor do que a velhíssima piada a respeito de dois amigos, um clinico geral, outro neurologista, que morreram e chegam às portas do céu, onde são Pedro os esperava; o neurologista lá vai e diz a Pedro o óbvio: olá, sou neurologista, e Pedro diz: sinto muito, neurologistas não entram aqui. O clinico entra em surto, pensando, cruz credo, se não aceitam neurologistas, imagine eu…mas depois que informa a São Pedro de suas credenciais, o velhinho o acolhe com todo o carinho e o leva a uma visita pelo céu. A alturas tantas, vê um cara futricando dentro da cabeça de outro, e não se aguenta e pergunta: “São Pedro, o Sr. disse que neuro não entra aqui, então quem é aquele cara?” E Pedro: “Meu filho, este é o problema. Aquele cara é Deus, e ele pensa que é neurologista”).
Graças às maravilhas da internet, volta e meia um ex paciente me encontra por aqui, e me manda um alô e alegra meu dia. Então entendo perfeitamente essa gratidão da qual ele fala, embora pelas minhas contas, esteja meio que distante dos 80, mas juro que chego lá, afinal, tenho fé (e como!) na danada da neuro, que continua sendo uma paixão.

Oliver Sacks é professor de neurologia na faculdade de Medicina da Universidade de NY. Nasceu na Inglaterra em 9 de Julho de 1933, de pai médico e a mãe uma das primeiras cirurgiãs daquele país. Aos 6 anos de idade, foi evacuado de Londres por causa da Guerra, e foi parar numa escola onde o diretor era sádico e fazia as crianças subsistirem com apenas beterrabas e algumas batatas, fora aplicar severos castigos físicos. Formou-se em medicina por Oxford, e mudou-se para NY em 1956, onde continua até hoje. Em 1966, foi trabalhar no Beth Abraham Hospital, um centro para doentes com Encefalite Letárgica, pessoas que não tinham se movido por anos, e seu trabalho lá é o livro “Awakenings”, que também é a base do Instituto para Música e Função Neurológica, no qual continua sendo consultor. Padeceu sua vida toda de Prosopopagnosia, ou cegueira facial, e ficou cego do olho direito, devido a tumor maligno no mesmo.

Seus livros, que fortemente recomendo:

Migraine (1970) - Enxaqueca
Awakenings (1973)- Tempo de Despertar
A Leg to Stand On (1984) – Com uma perna só
The Man Who Mistook His Wife for a Hat (1985)- O homem que confundiu sua mulher com um chapéu
Seeing Voices: A Journey Into the World of the Deaf (1989) – Vendo vozes: Uma viagem ao mundo dos surdos
An Anthropologist on Mars (1995)- Um antropólogo em Marte
The Island of the Colorblind (1997)- A Ilha dos Daltônicos
Uncle Tungsten: Memories of a Chemical Boyhood (2001)- Tio Tungstênio, memórias de uma infância química.
Oaxaca Journal (2002) – sem tradução em português
Musicophilia: Tales of Music and the Brain (2007) – Musicofilia, histórias de Música e do Cérebro
The Mind's Eye (2010)- sem tradução em português
Hallucinations (2012) - sem tradução em português

Trailer

domingo, 7 de julho de 2013

MUDANÇAS E NOSSO LADO ESCURO, MUITO, MUITO ESCURO

Seguindo que estou as manifestações aí no Brasil, passei de espanto (Como? Esqueceram o futebol?) para ufanismo desvairado (Gente, estão fazendo! Maravilha, estão fazendo!). Segui tudo que pude pela BBC e CNN, li interpretações dos mais variados lados, opiniões, piadas, enfim, facebook funcionando a toda. No momento, decidi ajudar como posso, nessa mudança incrível que está ocorrendo, que ainda não entendi direito qual é e o que pretende. Mas, como dizia minha mãe, dando uma de Cassandra (sim aquela que avisou os troianos que o cavalo era uma furada, ninguém acreditou nela, e o resultado todo mundo sabe), estou trazendo 5 experimentos em psicologia social que demonstram de forma muito clara que nós humanos, em grupo, temos uma certa tendência a fazer besteira. Séria, horrenda besteira.

Para os que já acharam que estou criticando as manifestações, muito, mas muitíssimo antes pelo contrário. Acredito firmemente que a única maneira de nos fortalecermos, como indivíduos e como grupo, é conhecendo nosso lado escuro e domando-o, porque ele está lá, prontinho para dar as caras, principalmente quando não estamos prestando atenção, ou como disse JFK: “O preço da paz é a eterna vigilância”.

1 - Conformidade/Conformismo – Os experimentos de Asch (1953)

Durante os anos 50 (século passado, meu povo), Solomon Asch conduziu e publicou uma série de experimentos demonstrando o grau no qual as opiniões de um indivíduo são influenciadas pelas do grupo. Estudantes universitários do sexo masculino participaram de uma simples tarefa "perceptual". Na realidade, todos, exceto um dos participantes eram atores, e o verdadeiro foco do estudo era sobre como o aluno restante (ou seja, o participante real) reagiria ao comportamento dos atores, os quais foram treinados para dar certas respostas previamente selecionadas. Foi feita cuidadosa construção experimental, colocando quantidade variável de pressão dos pares sobre o indivíduo.
Foi pedido a cada participante para responder uma série de perguntas, tipo, num gráfico qual era a linha mais comprida. No início, os atores começaram a responder corretamente, para não levantar suspeitas, mas aos poucos, foram adicionando respostas incorretas.
O estudo, que foi repetido “ad nauseam” com diferentes sujeitos, demonstrou que, quando cercados de pessoas dando respostas incorretas, pelo menos 75% dos estudados deram respostas incorretas após certo tempo, ou seja, pressão dos pares causa conformidade, fazendo com que as pessoas não acreditem na evidência que estão vendo com os próprios olhos.
O experimento todo foi feito com figuras geométricas, de formas que estas são universalmente conhecidas, isto é um circulo é um circulo aqui ou na China, de maneira a não haver introdução de variáveis de interpretação, coisa que muito acontece com palavras. Exemplo: No Brasil, pessoas condenadas pelo tribunal exercem cargos públicos. Você acha isso: Certo Errado

2. Ajudar – O experimento do Bom Samaritano (1973)

Os psicólogos John Darley e C. Daniel Batson queriam descobrir se religião tinha algum efeito no comportamento atencioso, aquele que oferece e dá ajuda.
Só recordando, o Bom Samaritano é uma história da Bíblia, na qual um Samaritano para e ajuda um homem ferido, enquanto hipócritas presunçosos passam direto, sem nem olhar (bom, sem nem olhar é interpretação minha, assim como “hipócritas presunçosos”, de cuja tradução mais ao pé da letra seria “beato fingido”, que tem muito menos tempero).
Os pesquisadores tinham 3 hipóteses:
a) Pessoas que se pensam religiosas teriam o mesmo comportamento de oferecer ajuda quanto os que não se pensavam assim.
b) Pessoas com pressa teriam menos probabilidade de oferecer ajuda que os sem pressa.
c) Pessoas que são religiosas por causa daquilo que a religião pode lhes oferecer, provavelmente dariam menos ajuda do que aqueles que são religiosos ou espirituais só porque gostam ou porque estão procurando algum sentido na vida.
Isto posto, recrutaram estudantes de seminários para um estudo sobre educação religiosa e fizeram questionários a respeito das religiões dos recrutados (para avaliar a hipótese c). Depois, começaram os procedimentos experimentais em um prédio e disseram aos pesquisados que teriam que ir a outro prédio para continuarem o experimento. No caminho, as criaturas encontraram um homem caído num beco (a condição da vítima era desconhecida: estará machucado ou bêbado?).
Os pesquisadores deram instruções diferentes quanto ao nível de urgência da chegada no outro prédio e quanto às tarefas a serem desempenhadas em lá chegando. Uma das tarefas foi a de preparar uma palestra a respeito de empregos no seminário, e outra, uma palestra a respeito do Bom Samaritano. Para alguns, disseram que já estavam atrasados, enquanto outros foram informados que chegariam a tempo se fossem rapidinho.
A “vítima” que os aguardava no beco, tinha que dar umas tossidas quando passassem (exatamente 2), e fizeram a seguinte graduação para a ajuda prestada:
0 = Não percebeu as necessidades da “vítima”
1 = Percebeu, mas não prestou ajuda
2 = Não parou, mas ajudou indiretamente (informou às pessoas que o esperavam no outro prédio)
3 = Parou e perguntou se a vítima precisava de ajuda
4 = Parou e levou a vítima até o prédio, deixando-a aos cuidados dos lá estacionados
5 = Recusou-se a deixar a vítima ou insistiu em levá-la até onde pudesse receber cuidados.
Depois da chegada dos estudantes no segundo prédio, cada um desempenhou a palestra que lhe havia sido pedida, após o que, responderam um questionário a respeito de “comportamento de auxílio”.
Descobriram que a quantidade de “pressa” colocada no sujeito influiu muito no comportamento de auxílio, enquanto o tema da palestra (trabalho no seminário e/ou bom samaritano) não influiu nada.
O que acharam, foi o seguinte:
No geral, 40% ofereceram algum tipo de ajuda à vítima; os em situação de pouca pressa, 63% ajudaram, pressa media 45% e muita pressa só 10%.
A conclusão foi que não há qualquer correlação entre prestar ajuda e religiosidade, sendo a única correlação a pressa que o indivíduo sente, mesmo quando o cidadão está apressado para palestrar sobre a parábola do Bom Samaritano. Parece então que a velha frase “A ética se torna um luxo na medida em que a velocidade de nossas vidas diárias aumenta” é fato, ou como disse Juca Chaves: “quem tem pressa come cru”, o que nem sempre é uma boa ideia, mesmo para os que, como eu, amam carpaccio.
Acho que isso se relaciona perfeitamente bem com o que está acontecendo no Egito, onde apressadamente elegeram um presidente, que no momento parece ter sido deposto, Deus sabe onde está e tem gente morrendo e matando nas ruas. Decididamente, péssima ideia.

3. Difusão de Responsabilidade - Experiência da Apatia do Observador (1968).

O efeito observador foi primeiramente demonstrado em laboratório por John Darley e Bibb Latané, depois que os dois se interessaram muito pela morte de Kitty Genovese, em 1964, e lançaram uma série de experimentos que resultaram num dos mais fortes e replicáveis efeitos em psicologia social.
No experimento padrão, o sujeito está sozinho ou em grupo com outros participantes. Aí é encenada uma situação de emergência, e os pesquisadores medem quanto tempo demora para os espectadores agirem, e se eles interveem ou não na situação. Esses experimentos demonstraram que, costumeiramente, a presença de outras pessoas inibe o ajudar.
Em 1969, Bill Bibb Latané e Judith Rodin encenaram o experimento com uma mulher em perigo: 70% das pessoas, quando sozinhas, foram ajudar a vítima, mas quando havia outras pessoas ao redor, só 40% foi prestar ajuda.
É o principio de “com tanta gente lá, certamente não precisam de mim”, que é o que, no geral, faz com que a vítima não receba qualquer ajuda, ou no caso presente dos movimentos e manifestações que estamos discutindo, eles morram antes de concluírem o objetivo desejado.

4. A Experiência da Prisão de Stanford (1971)

Este foi um estudo sobre os efeitos psicológicos de se tornar prisioneiro ou guarda de presídio, feito na Universidade de Stanford, sendo o mesmo chefiado pelo professor de psicologia Dr. Philip Zimbardo.
Dele participaram 24 estudantes do sexo masculino, aos quais foi aleatoriamente designado o papel de guarda ou prisioneiro, numa prisão fictícia no porão do prédio da psicologia, e os participantes se adaptaram a seus papéis muito além das expectativas do Dr. Zimbardo, posto que os “guardas” começaram a impor medidas cada vez mais autoritárias e, finalmente, submeteram alguns dos prisioneiros à tortura psicológica.
Muitos dos prisioneiros aceitaram passivamente o abuso psicológico e, a pedido dos guardas, imediatamente assediavam outros prisioneiros que tentavam impedir o abuso. O experimento afetou o próprio Dr. Zimbardo, que, em seu papel de supervisor, permitiu que o abuso continuasse. Dois dos prisioneiros abandonaram o experimento logo no início, e a pesquisa toda foi fechada 6 dias depois de começar.
Os resultados demonstraram a impressionabilidade e obediência das pessoas quando dispõem de uma ideologia que consideram legítima e a mesma tem apoio social e institucional. Tem sido usado desde então para ilustrar a teoria da dissonância cognitiva e o poder da assim chamada “autoridade”.
O triste fato é que o estudo demonstra que é a “situação” e não a personalidade do indivíduo que causa o comportamento.
Concorda, de modo científico, com o livro “As flores do Mal” de Baudelaire, livro que causou um peri cruzado de minha mãe, quando o pai dela, meu avô , me deu para ler e discutir com ele, lá pelos meus 16 inocentes aninhos, e é retomado lindamente por um estudo de um psiquiatra Chileno, comentando os anos e os fatos da era Pinochet no Chile. O estudo chama-se “La futilidad del mal”, e o nome do psiquiatra esqueci totalmente, pois li na era AG (antes do Google) e por mais que “google”, não acho, pelo que peço encarecidamente se alguém conhecer, tiver ou souber o nome do autor, por favor me informe.
O fato, triste demais, é que qualquer um de nós pode passar para o “lado escuro da força” só por estar numa situação que possibilite esse uso. Nem preciso dar exemplos, temos estampados em todo lugar gente de decência ilibada, virando ladrões de dinheiro público. Lembro da frase de Bill Clinton, em seu ultimo livro, quando lhe foi perguntado o porquê do caso com a Monica, e ele respondeu: “Porque podia”.

5. Autoridade - O Experimento de Milgram (1961)

Experiências em obediência a figuras de autoridade numa série de experimentos de psicologia social realizados na Yale University, pelo psicólogo Stanley Milgram, que medem a disposição dos participantes do estudo em obedecer a uma figura de autoridade que os mandou praticar atos que conflitavam com a consciência pessoal .
Este experimento começou em Julho de 1961, 3 meses depois do inicio do julgamento de Adolf Eichmann (nazista criminoso de guerra) em Jerusalém, devido à pergunta que Milgram propôs:
Será que Eichmann e seus cúmplices no Holocausto tiveram intenção mútua, pelo menos no que diz respeito aos objetivos do Holocausto?”, ou em outras palavras: “Será que havia um senso de moralidade entre os envolvidos no Holocausto?
E certo e seguro como dois e dois são quatro, as conclusões demonstraram que os milhões de cúmplices do horror, o foram apenas por seguir ordens, apesar destas violarem as mais profundas convicções morais individuais.
Esses experimentos têm sido repetidos inúmeras vezes, com resultados constantes em diferentes sociedades.
Os participantes deste experimento foram 40 homens, recrutados via anuncio de jornal e aos quais foi pago US$ 4,50.
Funcionou assim: O Milgram montou um enorme aparelho que, teoricamente produzia choques, começando com 30 volts e aumentando em 15 volts até chegar em 450. Os interruptores eram etiquetados com “choque leve”, “choque moderado” e “perigo, choque severo”. Os dois últimos tinha marcado apenas “XXX”.
Cada um dos 40 homens assumiu o papel de “professor”, que dava o choque num aluno todas as vezes que o mesmo desse uma resposta incorreta. Os “professores” pensavam que o choque era real, enquanto os alunos eram atores que tinham que representar o estar tomando um choque.
Na medida em que o experimento progredia, os “professores” ouviram os “alunos” pedir para serem liberados ou se queixarem de terem problemas cardíacos, e quando foi alcançado o nível de 300 volts, os “alunos” começaram as esmurrar as paredes e pedirem para ser liberados. Depois disso, recusaram-se a responder às perguntas. Aí os pesquisadores instruíram os “professores” a considerar o silencio como resposta errada e dar mais choque.
Muitos dos “professores” perguntaram ao pesquisador se não seria melhor encerrar o experimento, quando então o pesquisador deu uma série de comandos para incitar os “professores”.
“Por favor, continue”
“O experimento requer que você continue”
“É absolutamente essencial que você continue”
“Você não tem escolha e precisa continuar”
Como medida de obediência, foi usado o nível do choque que o “professor” estava disposto a dar.
Chocados deveríamos ficar todos nós ao saber que 65% dos tais professores deram o choque máximo. É importante saber que, embora a maioria dos “professores” tenha ficado extremamente agitada e raivosa em relação ao pesquisador, continuaram a seguir as ordens sem falhar, até o fim.

Então, a grande pergunta a ser feita e respondida por cada um de nós, honestamente, é a seguinte: “Será que somos capazes de, nas mesmas condições, agir diferentemente dos sujeitos do estudo?”
Gostaria muito de quem lesse esse artigo, me mandasse respostas a essa pergunta, quer no blog ou na página do FB. Manda anônimo, não estou interessada em nomes, só idade e gênero.

Catherine Susan "Kitty" Genovese
(7/7/193 - 13/03/1964). Foi esfaqueada até a morte, perto de sua casa. As circunstâncias de seu assassinato e a falta de reação dos vários vizinhos que assistiram a cena foi o que deu origem à pesquisa do que é chamado de “Fenômeno da Apatia do Observador” ou “Difusão de Responsabilidade”.

Otto Adolf Eichmann (19/03/1906 – 31/05 1962) Tenente coronel da SS Alemã e um dos maiores organizadores do Holocausto. Organizado que era, foi encarregado de toda logística do manejo da deportação em massa dos judeus, tanto para os guetos quanto para os campos de extermínio. Depois da queda de Berlin, fugiu para a Argentina, onde viveu e trabalhou até 1960, quando foi encontrado por agentes do Mossad e deportado para Israel, onde foi julgado, culpado e enforcado.

Teoria da Dissonância Cognitiva: É o desconforto sentido quando há, ao mesmo tempo, 2 ou mais cognições conflitantes, sejam elas ideias, crenças ou reações emocionais. O termo foi cunhado por Leon Festinger, em seu livro “When Prophecy Fails” (1956 – Quando as Profecias Falham), onde descreve o que acontece com um grupo de crentes em OVNI quando a realidade bate de frente com as ferventes crenças das criaturas no apocalipse já. No ano seguinte, publicou o livro “A Theory of Cognitive Dissonance” (A teoria da dissonância cognitiva), que continua sendo a mais estudada e influencial teoria da psicologia social.

Se algo ficou obscuro, espero esclarecer no próximo post, quando falaremos de percepção e relatividade, ou como os fatos são divorciados de nossa percepção dos mesmos.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

STRESS, ESSE INCOMPREENDIDO

Usualmente, quando alguém fala em stress, principalmente mídia falada, escrita, televisada, social e internética, é para falar dos malefícios e horrores da coisa toda.
Stress é ruim para sua saúde, para todas as atividades cognitivas, desencadeia de pressão alta a ataque cardíaco, engorda, brocha, enfraquece seu sistema imunitário, dá caspa, acne e prisão de ventre, diarreia e gases, e, se esqueci de algo, sintam-se totalmente à vontade para continuar a lista.
Mas, de fato, e seguindo pesquisas recentíssimas, é considerado, depois do riso libertador, a segunda melhor coisa para curar doença mortais. Chocados? Ainda não viram da missa a metade.

Estudos recentes têm demonstrado que o velho stress pode levar a aumento do crescimento psicológico e da produtividade.
A fim de investigar o impacto do mesmo, os pesquisadores avaliaram um grupo de 380 funcionários de um banco de investimentos de grande porte. As pessoas foram divididas em 3 grupos: um grupo assistiu vídeos a respeito dos benefícios dos stress; o segundo grupo assistiu vídeos sobre os danos dos stress; e o terceiro grupo não assistiu nada. Os vídeos continham histórias, piadas e fatos que os pesquisadores esperavam pudessem mudar as atitudes dos empregados em relação a stress, e a partir disso, desenharam medidas para quantificar as crenças dos sujeitos do teste a respeito de stress, numa graduação de 4 pontos, e descobriram que, os que tinham uma atitude positiva em relação a stress eram mais produtivos no trabalho e tinham menos sintomas do tipo dor de cabeça e fadiga.

Mais, o stress agudo, causado pelas tarefas mentais, os tornou mais amigáveis, generosos e confiantes durante os jogos, só não se tornaram mais extrovertidos. (Kaufer, Kirby e cols na UC Berkeley’s Helen Wills Neuroscience Institute)

E tem mais: um estudo da Universidade de Buffalo mostrou que o stress agudo melhora aprendizado e memória. Os pesquisadores treinaram ratinhos num labirinto, até que eles (os ratos, não os pesquisadores) aprendessem a passar por ele direitinho. Depois disso, puseram os ratinhos para nadar por 20 minutos, o que, pelo visto, é uma coisa extremamente estressante para ratos. Depois da nadada, colocaram os ratos de novo no labirinto e descobriram que completavam o percurso mais depressa e com menos erros do que antes da nadada.

Passado o momento de espanto, concluíram que o hormônio do stress, corticosterona, tem um efeito protetor no cortex pré frontal, o qual controla o aprendizado e as emoções, e desde que o cortisol se comporta de forma semelhante no cérebro humano, pelo visto o stress nos torna mais espertos.(Kaufer, Kirby e cols na UC Berkeley’s Helen Wills Neuroscience Institute)

Assino embaixo dessa teoria. Lembro com clareza meu horror perto de provas de bioquímica, coisa que detestava com paixão, e minha facilidade de decorar os nomes todos exatamente 3 dias antes das provas, coisa que não havia jeito de ocorrer nem logo depois de ter assistido a aula e revendo a matéria.

No campo médico, já se sabia que o stress:

Previne Gripes e Resfriados: Quando estamos pressionados por um prazo curto para fazer determinada tarefa, nosso corpo vai trabalhar com afinco para nos manter em boas condições, e isso porque o stress lá está para ajudar o sistema imunológico a combater vírus e bactérias, tendo função reguladora nas glândulas suprarrenais para balancear o sistema imunológico.

Acelera recuperação depois de cirurgia: Obviamente que cirurgia pode ser estressante, mas stress de curta duração causado por cirurgia pode ser benéfico, porque ajuda o organismo a se recuperar mais depressa.

Fortalece os laços emocionais: Stress de curta duração aumenta os níveis de oxitoxina, o assim chamado hormônio do amor. Por seu lado, a oxitocina inibe a produção de hormônios do stress e diminui a pressão sanguínea por ser vaso dilatador, isto é, dilata as artérias, o que ajuda a manter o corpo imune aos efeitos deletérios da ansiedade.

Melhora a Memória: Em situações de stress, a memória fica muito mais aguçada, e isto ocorre por causa da inundação de hormônios no córtex pré frontal, região do cérebro importantíssima para controle cognitivo e das emoções. Sou testemunha viva desse processo. Há muitos anos atrás, estava indo alegremente a pé para meu consultório, quando um casal de amigos parou o carro, insistindo em me dar carona. Não querendo parecer mais chata que meu costume, lá fui eu. Não tínhamos andado um quarteirão, quando vejo num flash um caminhão desses de fazer cimento, vir em desabalada carreira à nossa direita. Ouvi meu velho professor de neurologia berrando “protege cabeça e pescoço” e meu instrutor de paraquedismo uivando “posição fetal”. Como, não sei, mas fiz exatamente isso, virando uma bolota enfiada bem atrás do banco da motorista. Minha amiga quebrou um braço e uma perna, o companheiro do lado nem lembro mais quanta coisa quebrou, e eu me safei com um ralado no cotovelo direito. Mister se faz informar que nunca ouvi o Prof. Fontenelle alterando a voz, ao contrário do instrutor de paraquedismo, mas que ambos uivaram na minha ideia, isso com certeza fizeram e a eles sou grata.

Pode lutar contra tumores: Stress crônico pode causar insônia, destruir o sistema imunológico e causar um sem número de doenças, mas stress de curto prazo pode ajudar na luta contra câncer de pele. (Fong-Fong Chu e cols na City of Hope's Beckman Research Institute, Duarte, California)

Concluindo, stress é benéfico, mas como tudo o mais neste mundão de meu Deus, em quantidades moderadas, porque quando se torna crônico, causa danos sérios ao corpo e mente (e detesto essa divisão porque parece que a mente, que é função de um órgão chamado cérebro, não faz parte do corpo).

Na realidade, temos é que aprender a tratar o stress de forma mais amigável, como nosso aliado, e não lutar contra como se fosse o inimigo.

Lembrem-se, sem stress, não estaríamos aqui vivos e saltitantes, pois os hormônios do stress são uma ajuda fantástica para adaptação ao meio. Lembrar-se dos lugares onde aconteceu algo estressante é benéfico para nos ajudar a lidar tanto com novas situações, quanto o evitar as que provocaram stress.

“Moderação em tudo, especialmente na moderação” Ralph Waldo Emerson