Google+ Badge

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A CIÊNCIA DA FELICIDADE

O título, que muito gostei, vem de uma série da BBC, cujos links para os vídeos estão no final. O restante do artigo vem de extensa bibliografia no assunto, e também esta estará embaixo.

Usualmente, quando pensamos em felicidade, nos vem à mente cenas de balõezinhos multicoloridos subindo aos céus, jovens mancebos se ajoelhando e oferecendo à mocinha linda e espantadíssima, um diamante do tamanho de um ovo de codorna, o casal correndo na praia para aquele abraço malabarístico, enfim, coisas do gênero. Ou seja, o conceito de felicidade sempre foi algo bem vago, dependendo das preferências de cada um. Atualmente, a coisa está mudando, como bem explica Lord Richard Layard, Professor de Economia na London School of Economics e autor de "Happiness - lessons from a new science" (Felicidade - lições de uma nova ciência), pois neurocientistas estão medindo felicidade e prazer e dando a isso uma dimensão muito mais ampla do que a dos conceitos subjetivos.

O Professor Ed Diener, psicólogo da Universidade de Illinois, fez testes básicos, simplesmente perguntando a pessoas de todas as raças, credos, religiões, sexos, orientação sexual e status socioeconômico, numa escala de 1 a 10, o quão felizes se sentiam, e a coisa interessante é que o teste produziu respostas reais e válidas, além da possibilidade de predição das mais variadas coisas em suas vidas.Como ele mesmo diz, as medidas não são perfeitas, mas são tão boas quanto as usadas por economistas para predizer índices de crescimento ou de pobreza, e é tão sério que David Halpern (conselheiro do Primeiro Ministro na Inglaterra), disse à BBC que, nos próximos 10 anos, a eficácia de um governo será medida pelo quão felizes faz seus governados.
Não bastasse, os pesquisadores estão comparando os índices de felicidade, relatados pelas pessoas, com vários outros fatores, tipo estado civil, sexo, religião ou falta de, status econômico, status social, emprego e desemprego e até mesmo saúde no geral, e no quesito saúde, voltamos à antiquíssima pergunta do que veio primeiro, se o ovo ou a galinha, pois as pesquisas têm demonstrado que pessoas mais felizes também são mais saudáveis. E aí? São mais felizes porque são mais saudáveis ou são mais saudáveis porque são mais felizes?

Vou reproduzir ao pé da letra o que disse o Prof. Diener:

"Num dos estudos, a diferença de sobrevida entre o grupo mais feliz e o mais infeliz, foi de 9 anos. Ora vejam, se alguém fumar, vai cortar uns 3 anos de sua vida. Se alguém fumar ensandecidamente, um máximo de 6 anos. Então 9 anos é uma enorme diferença."

E agora o contraponto e o choque da descoberta: apesar do incrível aumento na riqueza e prosperidade após término da segunda guerra mundial, isto não nos tornou mais felizes, ou como diz o Professor Daniel Kahneman da Universidade de Princeton:

"Há montanhas de evidência demonstrando que maior riqueza não traz consigo maior felicidade e, aliás, em alguns casos, até diminui."

Está claro, a pesquisa sugere que países ricos tendem a ser mais felizes que os pobres, mas uma vez que se tem casa, comida e roupas, o dinheiro extra não traz extra felicidade. Chegaram à conclusão que, o ganho médio para ser feliz é de R$ 30.000 por ano (na conversão de hoje). Depois disto, os curiosos pesquisadores foram em busca de respostas para tão intrigante questão, e as respostas foram mais interessantes ainda.

Primeiro, foi a máxima biológica de que nós humanos nos adaptamos a tudo, incluindo prazer, e isto vai desde comer chocolate até comprar um carro novo ou joias ou roupas de grife. Problema está que, ao fazer essas coisas, temos um "surto" de felicidade que acaba rapidinho, enquanto levamos mais tempo para nos adaptarmos a coisas de maior significado, como amizades e relacionamentos.

A segunda coisa é que temos a mania de comparar nossa vida com como vemos a vida de outrem. Assim, pessoas ricas se sentem mais felizes quando se comparam a pessoas mais pobres. Enquanto a recíproca não é absolutamente verdadeira, pois os mais pobres se sentem absolutamente infelizes quando se comparam com os mais ricos.

A boa notícia é que podemos escolher com quem e o que nos comparamos, e aprender a nos adaptarmos mais rapidamente ao que dá significado à vida, tal como relacionamentos e metas.

Como todos concordam, não há nenhuma chave dourada ou segredo a ser revelado para encontrar a felicidade, mas há sim ingredientes “sine qua non” para desenvolvê-la, a saber: família e amigos, e quanto mais profundas forem estas relações, mais felizes seremos. O prof. Diener até sugere que amigos matam germes, pois, em sendo nosso cérebro a coisa que controla todas nossas reações orgânicas, um cérebro feliz e amigável torna o sistema imunitário mais forte. Da mesma maneira que stress provoca doenças, amigos nos protegem delas. Mas ainda, um economista, o prof. Oswald da Universidade de Warwick, desenvolveu uma fórmula segundo a qual, para compensar a falta de amigos, deveríamos ganhar um extra de R$ 200.000 por ano.

Devo ser honesta e informar que não entendi coisa nenhuma da fórmula da criatura, só estou repassando a conclusão, o que nem chega a ser novidade, pois para mim economistas são uma espécie absolutamente desconhecida, com um linguajar e ideação únicas e incompreensíveis para esta que escreve. Outro item importantíssimo é ter sentido na vida, isto é acreditar em algo maior do que nós mesmos, seja isso religião, espiritualidade, ciência, filosofia de vida. Aliás, velho Freud já dizia que os três únicos mecanismos de defesa que nos fazem bem na vida são o humor, sublimação e altruísmo (o altruísmo não é do Freud pai, mas da Freud filha, a Anna, que, em minha opinião, na área dos mecanismos de defesa, superou e muito o pai, função, aliás, de qualquer filho que se preze - adendo meu).

E a terceira coisa é ter embutido nos próprios valores algo pelo qual se trabalhe, e que se trabalhe com algo que nos dê prazer.

Para compensar meu profundo desentendimento de economês, trago uma pesquisa que entendi perfeitamente. É a respeito de amizade entre mulheres, liderada pela Dra. Laura Cousino Klein, atualmente Professora de Saúde Biocomportamental na Universidade da Pennsilvania, na época do estudo, na UCLA. E a citada senhora, virou de ponta cabeça tudo que se pensava que se sabia sobre Stress. A descoberta se deu num daqueles fantásticos momentos de "Ai Jesus, vai que é isso mesmo!", quando duas mulheres cientistas, a Dra. Klein e a Dra. Taylor, estavam lá na UCLA tomando seu café e papeando (isso é real, e não minha costumeira apologia ao café e papo com amigos). Pois estavam brincando sobre quando mulheres ficavam estressadas, elas iam ao laboratório, limpavam o local bem limpadinho e depois se juntavam para um café e um papo, enquanto os homens iam pra algum canto resmungar solitariamente. Vai daí que as duas se deram conta que 90% da pesquisa sobre stress eram com homens e que nada se sabia sobre a resposta hormonal do stress em mulheres. E a partir dessa constatação, foram à luta e descobriram quais eram as diferenças, e faço um resumo da fantástica pesquisa:

Mulheres reagem ao stress com uma cascata de hormônios, grande como Sete Quedas, isto é, primeiro, mulheres liberam Oxitocina, como resposta inicial ao stress, enquanto homens liberam Testosterona. A Oxitocina funciona como um "amortecedor" para a resposta de luta ou fuga, que é a base do stress, enquanto a Testosterona diminui a ação da Oxitoxina. Esse "amortecimento" da resposta de luta ou fuga, faz com que, em momentos de stress, as mulheres tendam a cuidar das crianças e a se juntarem em grupos, e quando as mulheres se engajam neste comportamento de cuidar e se juntar, mais Oxitoxina é liberada, o que diminui mais ainda o stress e produz um efeito calmante.

Esse estudo tem enormes correlações, principalmente a respeito de saúde como um todo, além de explicar objetivamente o porquê mulheres costumam viver mais do que homens em todas as culturas conhecidas, além do que, seguindo o novo paradigma divisado pelas doutoras, estudos e mais estudos vêm mostrando que os relacionamentos sociais diminuem colesterol e pressão alta, a frequência cardíaca e o risco para infecções no geral.

E se isso não bastasse, o famoso estudo das enfermeiras, realizado pela Escola de Medicina de Harvard, demonstrou que quanto mais amigos as mulheres têm, menos problemas terão com envelhecimento, e mais felizes e satisfeitas serão com suas vidas, sendo o oposto absolutamente verdadeiro.

Então, a pergunta que não quer calar, além de quem matou JFK, é a seguinte: por que será que, apesar disso tudo, temos cada vez menos tempo para nossos amigos? Essa pergunta também foi feita pela pesquisadora Ruthellen Josselson, Ph.D., coautora do livro "Best Friends: The Pleasures and Perils of Girls's and Women's Friendships" (Melhores amigas: os prazeres e perigos das amizades de garotas e mulheres, Three Rivers Press, 1998), e reproduzo um pedacinho extremamente importante do citado livro:

"Sempre que ficamos sobrecarregadas com trabalho e família, a primeira coisa que fazemos é botar nossas amizades em segundo plano, afastadas, e isso, além de ser um tremendo erro, é o que torna o problema ainda maior, pois nossas amigas são nossa fonte de força. Nós cuidamos umas das outras, e temos a maior necessidade de ter um espaço sem pressão onde podemos fazer aquelas coisas especiais que só fazemos quando estamos com nossas amigas. Na realidade, é uma experiência que cura nossos males."

E é tão simples, não é mesmo? Um café e um amigo.

E esta é minha homenagem a todas as amigas e amigos maravilhosos que tenho a sorte enorme de ter. Podem deixar que o café eu preparo.

Cousino Klein L, Corwin EJ. "Seeing the unexpected: how sex differences in stress responses may provide a new perspective on the manifestations of psychiatric disorders"; Curr Psychiatry Rep. 2002 Dec;4(6):441-8.

Geary DC, Flinn MV. "Sex differences in behavioral and hormonal response to social threat": Psychol Rev 2002 Oct;109(4):745-50; discussion 751-3

Taylor, S. E., Klein, L.C., Lewis, B. P., Gruenewald, T. L., Gurung, R. A. R., & Updegraff, J. A." Behavioral responses to Stress:Tend and Befriend, not Fight or Flight" :Psychol Rev, 107(3):41-429.

The Nurse's health Study

 The Happiness Formula-BBC

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O QUE ACONTECE NO CÉREBRO DURANTE O ORGASMO? OU FAÇA AMOR E LARGUE AS DROGAS

Isto é a tradução, absolutamente não ao pé da letra, de alguns artigos que li ultimamente. Não traduzi ao pé da letra porque, até para mim que amo o assunto, tem tanta estatística e rigor científico, que, confesso, dá um certo soninho. Então, é a tradução do que entendi, mais uma porção de ideias que os artigos me produziram. Senhoras e senhores, convido-vos a uma fascinante viagem ao cerne de nosso ser. Mergulhemos, pois.

Já vimos em blogs anteriores que o cérebro tem um CENTRO DE PRAZER que nos informa quando estamos tendo uma experiência agradável, e assim reforça nosso desejo de repetir a coisa. É o CIRCUITO DE RECOMPENSA, que inclui qualquer tipo de prazer, de sexo a drogas, de uma gargalhada ao ouvir a música preferida. Só relembrando, algumas das áreas cerebrais relacionadas a prazer são:

AMIGDALA: regula as emoções
NÚCLEO ACCUMBENS: regula a liberação de DOPAMINA
ÁREA TEGMANTAL VENTRAL (VTA): libera DOPAMINA
CEREBELO: controla função muscular
GLANDULA PITUITÁRIA: libera BETA ENDORFINAS, que diminui a dor; OXITOCINA, que aumenta sensação de confiança (é liberada aos montes durante amamentação e um pouco menos com a simples estimulação dos mamilos, o que vem a provar que já temos todas as possibilidades de prazer embutidas em nosso ser, e é só necessário saber quando e como usar); e VASOPRESSINA, que dá a sensação de vínculo ou ligação.



Embora cientistas tenham estudado há muitos anos o centro do prazer, foram poucos os estudos relacionados com sexo, e menos ainda em mulheres (claro, desde que Freud morreu se perguntando "O que querem as mulheres?", sempre fomos consideradas seres confusos demais para merecermos estudo sério, e é tanto verdade que só há menos de 10 anos que se fala no como diferentes são os sintomas de ataque cardíaco em mulheres, e continuamos morrendo mais do que homens em consequência desse descaso). Foi só no final dos anos noventa que cientistas da Universidade de Groningen, na Holanda, começaram estudos para determinar o que acontece no cérebro durante estimulação sexual, usando PET (tomografia por emissão de prótons) para ilustrar as diferentes áreas que são ativadas ou desativadas durante atividade sexual.

O interessante foi que, no cérebro, há muito pouca diferença entre o que acontece em homens e mulheres. Em ambos, a região bem atrás do olho esquerdo, chamada de córtex lateral órbito frontal, simplesmente "apaga" durante o orgasmo, o que faz o maior sentido, pois é a região do controle do comportamento consciente, e por definição, quando se tem um orgasmo, perde-se o controle. Isso também explica o porquê, pessoas extremamente controladoras têm enorme dificuldade de orgasmo.



A outra descoberta interessantíssima é que o cérebro de uma pessoa tendo orgasmo é 95% semelhante ao cérebro de uma pessoa usando heroína, daí o título que dei a este post, e também porque, tenho a maior certeza de que, se isso fosse conhecido ANTES de alguém se meter com drogas, as consequências da escolha poderiam ser muito diferentes.





E agora as diferenças: quando uma mulher faz sexo, uma parte do tronco cerebral chamada Periaqueduto, é ativada. Essa área controla a resposta de "luta ou fuga", ao mesmo tempo em que diminui a atividade em amigdala e hipocampo, áreas que, como já vimos, são centrais para produzir ansiedade e medo. Aí os pesquisadores teorizaram que deve ser por esse motivo que, quanto mais relaxada e à vontade uma mulher se sente, melhor é o sexo. Para mal de nossos pecados, as áreas do córtex relacionadas com dor são ativadas, o que demonstra a íntima ligação entre dor e prazer. Ainda bem que nenhum dos pesquisadores ousou levantar a hipótese que, lá no fundo, todas nós mulheres somos umas masoquistas, ou ia ter briga feia.



O estudo também demonstrou que, embora as mulheres consigam fingir tão bem um orgasmo a ponto de enganar os parceiros, o cérebro não mente jamais. Quando foi pedido às mulheres para fingirem um orgasmo, a atividade cerebral aumentou no cerebelo e outras áreas ligadas ao controle de movimentos, coisa que não acontece durante o orgasmo real

Agora, o que acontece com gente que não consegue ter orgasmos?
Em alguns casos de anorgasmia (incapacidade de ter orgasmo), sabe-se exatamente a causa. Certas drogas como Celexa, Zoloft e Aropax, isto é, antidepressivos da classe dos Inibidores Seletivos de Recaptação Serotonina (ISRS), podem causar anorgasmia como efeito colateral, por diminuir a produção de DOPAMINA, o neurotransmissor alegrinho que causa as sensações de prazer, reforçando o desejo da pessoa de fazer aquilo de novo. Algumas vezes o problema some de per si, outras vezes há a necessidade de mudar de medicação. Infelizmente, algumas pessoas sofrem do que é chamado de DISFUNÇÃO SEXUAL PÓS ISRS, que perdura por dias, meses ou até anos depois da suspensão do medicamento, e não se tem ideia do porquê isso ocorre, desde que, tão logo a medicação é suspensa, o cérebro recomeça a produzir dopamina.

Uma das consequências interessantes do estudo holandês foram os estudos que se seguiram, como, por exemplo, o da Universidade de Reutgers, com mulheres que ficam constantemente excitadas sexualmente, mas não conseguem alcançar o orgasmo (coisa que Charcot e Freud definiram como a base dos sintomas histéricos). Segundo esses estudos, feitos através de ressonância magnética, os cérebros dessas mulheres estão constantemente agitados, e assim, estão desenvolvendo treinamentos de feed back, nos quais as senhoras são ensinadas a acalmar seus superexcitados cérebros (minha avó dizia - calmare i bollenti spiriti ou acalmar o espírito fervente), de formas a relaxar o controle. Se funciona ou não, estudos posteriores dirão. Por enquanto, estou maravilhada de como observação dos antigos, psicanálise e neurociência se juntam num balé de vida.

Mais interessante ainda, são os estudos de orgasmo em locais que nada tem a ver com órgãos sexuais. Quando a coisa vem por estímulo dos mamilos, acredita-se que o estímulo vai para as mesmíssimas áreas dos órgãos genitais. Até aí já era conhecimento comum. Agora, o que pensar de relatos de orgasmos produzidos pelo toque de outras partes do corpo, tipo mãos e pés? Algumas pessoas descreveram orgasmos em membros que nem tem mais (o que é conhecido como síndrome do membro fantasma, isto é, o sentir sensações em membros que já foram amputados). Uma das razões pode ser o traçado do HOMÚNCULO CORTICAL, espécie de mapa que mostra a relação do córtex motor e sensitivo com as diversas partes do corpo.



Assim, por exemplo, uma pessoa que sente um orgasmo, digamos num pé fantasma, pode ser pelo fato de que passou por um "remapeamento" dos sentidos, porque no homúnculo, os pés estão próximos dos órgãos genitais. O pé não está mais lá para promover a sensação, vai daí que a área dos órgãos genitais toma conta do espaço, reforçando a máxima de que a natureza detesta vácuos.
Embora se saiba muito sobre o assunto, ainda há um universo desconhecido, como por exemplo, qual seria a vantagem evolutiva do orgasmo feminino, mas estou também segura que a maioria de nós não vai perder o sono por isso.



O fato é que fico extasiada frente ao quanto se andou desde o final dos anos 70, quando participei de um estudo sobre o orgasmo e o eletroencefalograma, no centro de eletroencefalografia e psiquiatria biológica, na Universidade de Duke, até hoje centro de ponta em neurociência. Como era o menor dos peixinhos do aquário, fui a que teve que colocar os eletrodos nos participantes, observar e registrar. Lembro de coisas interessantíssimas do estudo, como por exemplo, a destruição de minha inocência de criatura do interior, que logo de cara achou que não haveria cristão que se dispusesse a participar daquilo. Obviamente que os 20 dólares aos participantes me mostraram a bobeira de minhas certezas. Depois, foi a parede de "pérolas" feita no escritório, em época onde o politicamente correto ainda não era moda, e uma delas era do cidadão que, à pergunta “preferência sexual”, mandou em letras garrafais: domingo de manhã. Outro, no quadradinho "nome", escreveu com fé: não tem a menor importância. Daí foi a observação, enquanto registro, que descobri ser a mesma que assistir a um filme pornográfico: nos primeiros 10 minutos, quer se agarrar o que estiver à frente e no restante do tempo, jura-se que nunca mais se repetirá aquilo.
Mas a maior descoberta foi a diferença entre o orgasmo registrado no EEG e o registrado pelos modernos holandeses, que não viram grandes diferenças entre homens e mulheres. Senhores, no EEG é muito diferente. Em homens, é pico e queda, sem grandes peripécias. Já nas mulheres, é um festival de subidas e descidas, parecendo a montanha russa espacial de Disneyworld.



Qualquer hora conto minha experiência ao relatar o supracitado estudo num congresso no Brasil, onde me puseram na mesa com famosa sexóloga. Por enquanto vos deixo com os links dos artigos originais abaixo, caso queiram ler.

 MEN VERSUS WOMAN ON SEXUAL BRAIN FUNCTION

BRAIN ACTIVATION DURING HUMAN MALE EJACULATION

.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

MOTIVAÇÃO OU AQUELA COISA QUE SEMPRE SOME QUANDO MAIS NECESSÁRIA



Por definição, é o processo que inicia, dirige e mantém comportamentos voltados a metas. É o que nos faz agir, desde tirando o posterior do sofá para ir buscar um copo de água no intervalo da novela, até estudar por anos a fio para se formar em medicina. E, só no exemplo acima, já aparecem problemas, como, o que é que nos faz valorizar uma coisa ao invés da outra? De onde vem essa valorização?

Na primeira parte, isto é, ir buscar um copo de água para matar a sede, é simples, relacionado diretamente com sobrevivência do indivíduo. Já 3 anos de colégio, mais 6 de faculdade, mais uns 4 de residência, absolutamente não está diretamente relacionado à sobrevivência primária, e, mesmo assim, todo o tempo, em todo o mundo, tem alguns que escolhem esse caminho, ou sei lá eu quantos anos para um PhD em física experimental, ou seja lá qual for a meta a longo prazo.

A neurociência da motivação humana tem sérias implicações em quase todas as áreas, de filosofia a autoajuda, de ética a economia, de psicologia a matemática, de aprendizado a repetição de padrões sem pensamento subjacente, e, até uns 15 anos atrás, o conceito era usadíssimo em todos os cursos dados em empresas para liderança ou motivação de empregados, mas bem pouco estudado em neurologia.

Os estudos pioneiros de Schultz, em 1998, com o sistema de recompensa dos neurônios do mesencéfalo, neurônios esses formadores de dopamina, abriu o campo para o estudo do comportamento motivado para obtenção de recompensa e o evitar consequências negativas. Tudo bem e tudo certo com animais de laboratório, bebês e adictos de todas as espécies, que ainda estão usando mecanismos primários para obtenção de prazer, e funciona assim:

Há um percurso no cérebro, que é chamado de circuito de recompensa. É assim chamado porque foi estudado e observado (é o que em ciência se chama evidência) que, quando se implanta um eletrodo num rato nessa área e se mostra ao mesmo que, se apertar uma certa alavanca ele vai se injetar com cocaína ou heroína, o ratinho fica apertando a citada alavanca até morrer de exaustão, recusando a apertar as alavancas que lhe dariam água e alimentos. Essa habilidade de se treinar de forma rapidíssima em comportamentos autoestimulantes sugeriu que essas áreas do cérebro estariam envolvidas no aprendizado de recompensa.
Veja o diagrama do circuito de recompensa:



Também era sabido que, se provocarmos lesões no circuito de recompensa dos ratos, removia-se o comportamento de busca de recompensa e prevenia-se a adição/dependência de drogas no animal, e até aí, tudo bem. O problema era: acontece o mesmo com humanos? Não se sabia nem se podia experimentar, até que o seguinte caso clínico foi relatado no American Journal of Psychiatry (Revista Americana de Psiquiatria):

"Paciente masculino, 34 anos, com longa história de uso de drogas é levado ao PS depois de ter se comportado de maneira muito estranha numa festa. Carrega consigo uma grande quantidade de comprimidos de metadona (opiáceo parecido com heroína), os quais começa a ingerir para evitar detecção dos mesmos, e faz uma overdose."

Aqui se faz necessária uma explicação: No cérebro há áreas chamadas de "mananciais”, que são as regiões onde as bordas de duas artérias se sobrepõem e onde há mais sangue, e é muito comum, em overdoses, acontecer um acidente vascular cerebral, hemorrágico ou isquêmico (popular derrame) nessas regiões. Acontece que uma área do circuito de recompensa vista acima, chamada de Globo Pálido, é exatamente uma dessas áreas, e o paciente que estamos descrevendo teve um derrame bilateral exatamente ali. Veja a Imagem de Ressonância Magnética mostrando:



E agora vem a parte interessantíssima: quando o cidadão volta a si, ele aparece com algo chamado Anedônia, que é a incapacidade de sentir alegria ou prazer, e é um dos sintomas da depressão. Além disso, perdeu sua dependência a drogas. Totalmente. "Depois da já citada overdose, o paciente tornou-se agudamente deprimido: anedônia, baixa energia, dificuldade de concentração e de memória, sentimentos de desespero e culpa, baixa autoestima, isolamento social, aumento do sono, e ganho de 20 Kg no ano seguinte ao derrame" (o que, em minha opinião causou o uso de drogas, que mascarou o quadro). Também desapareceram por completo as "fissuras" pelas drogas, todas, incluindo álcool, e ficou totalmente abstinente, como demonstrado por testes de urina mensais. E assim ficou provado que o sistema de recompensa, em nós humanos, funciona igualzinho ao dos ratos.

Agora calma, que não estou propondo que se façam ablações de globo pálido para curar dependentes, mas proponho sim o ensino às crianças da possibilidade de escolha entre se comportar como um rato com eletrodos implantados ou como seres humanos capazes de escolha, mas esse é um assunto para vários outros blogs. Aqui só usamos o exemplo para descrever o sistema de recompensa em humanos.

Então, motivação básica funciona por recompensa/castigo no circuito acima mostrado, e esse circuito por sua vez depende de Memória e de Aprendizado.

Como já vimos em posts anteriores, nosso cérebro é extremamente plástico, aliás, é o único órgão de nosso corpo que se modifica pela experiência. O lado escuro é que o danado é também muito preguiçoso, tendo a tendência a ficar usando ad infinitum os mesmos circuitos, se não for treinado desde cedo a fazer novas conexões. Funciona mais ou menos como uma pessoa andando em círculos, preocupada, olhando para o círculo sem ver saída, esperando um resultado diferente, fazendo as coisas iguais (o que Einstein chamou de insanidade).



Neuroanatômica e funcionalmente, a(s) memória(s), o aprendizado e os sistemas de atenção interagem com a motivação para determinar o comportamento, e, embora em geral sejam vistos como entidades separadas, na realidade são interdependentes e definem os 3 componentes da motivação que são: ATIVAÇÃO, PERSISTÊNCIA E INTENSIDADE.

ATIVAÇÃO: É a decisão de iniciar um comportamento, como, por exemplo, fazer a inscrição para o vestibular ou sair para comprar drogas.

PERSISTÊNCIA: É o esforço contínuo em direção à meta, apesar dos obstáculos. Continuando com o exemplo anterior, no caso do vestibular os obstáculos seriam o número de outros candidatos e passar muitas horas estudando, enquanto o resto do mundo está se divertindo. No caso das drogas, os obstáculos seriam a chance de ser pego pela polícia, só por falar em um.

INTENSIDADE: É a concentração e vigor colocados na busca da meta. Só observem um vestibulando estudando e um adicto buscando sua droga e entenderão no ato o tamanho da concentração e vigor de ambos.

Teorias da motivação há aos montes, então vamos relatar apenas as mais conhecidas, começando com sempre citado Platão, o qual em seu livro "A República", define sua ideia tripartida de ALMA, a qual consistiria de RAZÃO, ESPIRITO e APETITES, sendo que os últimos determinam basicamente o que Razão e Espírito vão fazer. Macchiavelli não poderia faltar com sua ideia de que o que motiva os seres humanos, acima e além de qualquer outra coisa, é dinheiro, poder e status, e se prestarmos atenção nas noticias mundo afora, fica difícil refutar o velho toscano.

Mais modernamente, veio a teoria motivacional dos instintos, isto é, que já chegamos a esse mundo com alguma programação nessa área, e o exemplo usado é o das aves, que, em chegando determinada estação do ano, migram sem ninguém ter ensinado. Já Freud estipulou que a maioria de nossas motivações é inconsciente, e tenho cá comigo que quando ele falou da "inveja do pênis", não estava falando exatamente do órgão, mas do poder que a este vinha associado, desde que, na época, mulheres eram complemento do masculino. E isso é tão verdadeiro que, aqui nos USA, no estado da Geórgia, mulheres só começaram a poder ter suas contas bancárias autonomamente, sem associação com pai ou marido, no finzinho dos anos 60 (sim, 1960).

E finalmente, a teoria Racional da Motivação, que postula que, em sendo os humanos entes racionais, seu comportamento e motivação para o mesmo é sempre racional. Informo que essa teoria está mais do que minada pela própria observação do comportamento humano, embora continue sendo usada, principalmente em economia, com os conceitos de "homos economicus" e "perfeita racionalidade" (vide definição no glossário).

Psicologicamente falando, a Motivação pode ser Intrínseca e/ou Extrínseca.

É INTRÍNSECA quando impulsionada por um interesse ou prazer na tarefa em si, em vez de depender de pressões externas ou um desejo de recompensa. Pessoas intrinsecamente motivadas são mais propensas a se envolver na tarefa de bom grado, bem como trabalhar para melhorar suas habilidades, o que irá aumentar as suas capacidades. Somos intrinsecamente motivados se e quando:

Atribuímos nossos resultados a fatores que estão sob nosso controle, o que é também chamado de AUTONOMIA.

Acreditamos ter as habilidades necessárias para alcançar nossos objetivos, o que é chamado de CRENÇA DE AUTOEFICÁCIA.

Estamos interessados em dominar um assunto ou tarefa e não apenas em tirar boas notas ou o pagamento no fim do mês.

É EXTRÍNSECA quando fazemos algo para alcançar um resultado, e vem do exterior do indivíduo. Motivações extrínsecas comuns são recompensas (por exemplo, dinheiro ou notas na escola). Pode ser também para mostrar o comportamento desejado, e ganhar um elogio ou para evitar punição (um exemplo típico é parar no farol vermelho - não paramos porque achamos que é a coisa certa a fazer, mas para evitar uma multa ou uma trombada. Aliás, a grande maioria de nosso comportamento social é derivada de motivação extrínseca, à qual chamamos de educação, e sobre o que Freud escreveu um livro inteiro, chamado de "O mal estar na civilização"). A competição é um motivador extrínseco, pois incentiva a pessoa a vencer e vencer os outros, não simplesmente para desfrutar as recompensas intrínsecas da atividade. Uma multidão torcendo e o desejo de ganhar um troféu também são incentivos extrínsecos.

Para entender bem o conceito, é só pensar em dois jogos: tênis e frescobol. No primeiro, faz-se de tudo para levar o oponente a cometer erros. Ganha quem fizer menos erros. Já no frescobol, a farra é não ter oponente, e faz-se de tudo para que o outro não erre. Já não me recordo quem foi o autor que escreveu um texto belíssimo com esses dois jogos e casamento, dizendo que, enquanto um casamento deveria ser como um jogo de frescobol, a maioria deles acabava num embate de tênis.

Infelizmente, a grande parte da pesquisa em motivação tem sido feita no campo da economia e negócios, posto que foi descoberto que empregados motivados são mais produtivos e consequentemente trazem mais lucros, que é exatamente o motivador maior de nossa sociedade. Certo ou errado, é o que é, e como a grande maioria das pessoas tem trabalhos só pela sobrevivência, o grande motor continua sendo o dinheiro, ou o status social decorrente do mesmo, o que nos remete à teoria maquiavélica da motivação.

Mas, como sou otimista, e tenho seguido de perto as tendências dessa geração novíssima que está agora na faixa de vinte e poucos anos, essa tendência parece estar mudando, devagar, com os mais novos procurando trabalhos nos quais tenham a possibilidade de desfrutar recompensas intrínsecas da atividade em si.

O que quero dizer com tudo isso é que, excluindo problemas genéticos e/ou lesões de qualquer espécie, nossos circuitos cerebrais para isto ou aquilo, são exatamente os mesmos, e o que faz toda a diferença é como os usamos. Vou trazer como exemplo, uma pesquisa recentíssima, a respeito de como se desenvolve a individualidade. Cientistas em Dresden, Berlin, Münster e Saarbrücken se colocaram a seguinte questão:

COMO É QUE OS ORGANISMOS EVOLUEM PARA INDIVÍDUOS QUE SE DISTINGUEM DOS OUTROS POR SUA PRÓPRIA ESTRUTURA CEREBRAL E COMPORTAMENTO PESSOAL?

Pois foram à luta, usando ratos, e concluíram que: EXPERIÊNCIAS PESSOAIS INFLUENCIAM O DESENVOLVIMENTO DE NOVOS NEURÔNIOS, LEVANDO A MODIFICAÇÕES MENSURÁVEIS NO CÉREBRO.

Então agora não é mais só teoria que o cérebro se modifica com a experiência. É fato. E casa lindamente com o outro fato básico da neurologia que diz: SOMOS O QUE FAZEMOS REPETIDAMENTE, e se isso não é uma enorme e grandiosa esperança de possibilidades, não sei o que possa ser.

Assim, me despeço felicíssima de estar viva e ter a oportunidade única de ver essas maravilhas todas acontecendo.

Caso queiram ler toda a experiência acima, que resumi no osso, está na revista SCIENCE, de Maio deste ano, e os pesquisadores são: Gerd Kempermann, Professor de Genômica da Regeneração (CRTD); Prof. Ulman Lindenberger, Diretor do Centro para Psicologia da Vida no Instituto Max Planck para desenvolvimento Humano (MPIB); Bióloga Julia Freund (CRTD) e Dr. Andreas Brandmaier, cientista de computação (MPIB).

GLOSSÁRIO

Homo Economicus: É o conceito de muitas teorias econômicas onde os seres humanos têm interesses racionais e a capacidade de fazer julgamentos em relação a seus fins subjetivamente definidos. Usando essas avaliações racionais, homo economicus tenta maximizar a utilidade como um consumidor e lucro econômico como produtor. Esta teoria está em contraste com o conceito de homo reciprocans, que afirma que os seres humanos são essencialmente motivados pelo desejo de serem cooperativos e para melhorar o seu ambiente.

Perfeita Racionalidade: Em economia e na teoria dos jogos, os participantes são considerados como tendo racionalidade perfeita, isto é, sempre agirão de maneira a maximizar sua utilidade, sendo capazes das mais complexas deduções para esse fim. São capazes de pensar em todos os resultados possíveis e escolher qual curso de ação resultará no melhor resultado possível. Notar que a Racionalidade Econômica e a Teoria dos Jogos são explicações completamente individualistas e são a base do Capitalismo, que nos faz acreditar que os donos do capital fazem suas escolhas em cima de cuidadosamente pensadas possibilidades, e não apenas em nome de seu lucro pessoal. (Informo que a última parte é pensamento meu, pois não acredito em nenhum momento nessa racionalidade, concordando muito com Machiavelli em sua teoria da motivação)

BIBLIOGRAFIA

Cognitive Neuroscience of Motivation


Experience Leads to the growth of New Brain Cells

In search of the Neural Circuits of Intrinsic Motivation

quarta-feira, 8 de maio de 2013

NÓS E NOSSAS EMOÇÕES: NEUROCIÊNCIA AFETIVA

"Cometemos erros não porque é tão difícil ver a verdade... nós os cometemos porque a via mais fácil e confortável de procurar esclarecimento é quando este concorda com nossas emoções, principalmente as egoísticas" Aleksandr Solzhenitsyn.

Aqui vai a terceira e última parte da promessa baiana. Óbvio está que não será a última vez que escreverei sobre esses assuntos, pelas razões que se seguem, não necessariamente nesta ordem: a) Adoro isso; b) Tem tanta pesquisa acontecendo que, de repente o que escrevo hoje, pode ser besteira amanhã; c) O assunto é tão vasto, que qualquer resumo acaba sendo muito pobre e, portanto, necessita ser enriquecido.

Por centenas de anos o estudo das emoções não foi considerado "ciência". Era a área dos poetas, escritores, pintores, enfim "artistas" em geral. Umberto Eco, no fantástico livro "O Nome da Rosa", desenvolve um drama épico sobre a discussão se Jesus teria rido. Apesar de todo o descaso, as emoções humanas sempre foram usadas e abusadas por todos os líderes, em qualquer campo.

Ditadores sempre usaram o medo como forma de controle, a Igreja Católica elevou a coisa à arte durante a Inquisição, e, no presente momento, pregadores evangélicos usam uma mistura de medo do futuro e desejo por melhora no presente de maneira brilhante. Pode não ser ética, mas é brilhante. Publicitários as usam para criar novas necessidades que absolutamente não são necessidades, e, em minha opinião, Steve Jobs foi o melhor deles, ao declarar: “Na maioria das vezes, as pessoas não sabem o que querem até que se mostre a elas". Notem a simbologia da maçã mordida, a mistura do pecado da desobediência e a procura do conhecimento, o feminino delicado e rebelde, curioso e atirado, mudando o mundo como ele mesmo o mudou, chamando todos os produtos de I (Eu) qualquer coisa. Eu telefono (iphone), iPad (eu absorvo) etc.. e etc...

E se ainda não me acreditam, deem uma lida no "Mein Kampf" (Minha Luta) do malfadado Hitler, onde ele especifica: "Faça com que a mentira seja grande, simplifique-a, continue repetindo-a, e logo todos acreditarão", ou esta outra pérola: "Pelo uso hábil e constante da propaganda, pode-se fazer com que um povo veja o céu como inferno ou uma vida extremamente miserável como o paraíso". Assustador, né?

E tudo isso acaba sendo obra e consequência de nosso cérebro.

Neurociência Afetiva é o estudo dos mecanismos neurais da emoção, combinando neurociência com o estudo psicológico da personalidade, emoções e humor.

Emoções relacionam-se com a atividade naquelas áreas cerebrais que direcionam nossa atenção, motivam nosso comportamento e determinam o significado do que ocorre ao nosso redor.

Agora, o que vem a ser uma emoção? Embora a grande maioria de nós saiba perfeitamente bem quando está sentindo uma, continua sendo a coisa mais difícil de definir, sendo que, na literatura científica, há mais ou menos 90 definições da mesma. Então, por questões de praticidade, vamos usar a mais simples, que é:

“Uma resposta de um organismo inteiro, envolvendo (1) excitação física, (2) os comportamentos expressivos, e (3) a experiência consciente”.

Isso explica porque, embora o cérebro faça a maioria do trabalho, ele não sente, sendo a sensação uma função corpórea.

Os trabalhos pioneiros de Paul Broca (1878), James Papez (1937) e Paul D.MacLean (1952) sugeriram que as emoções estão relacionadas a um grupo de estruturas no meio do cérebro, chamadas de Sistema Límbico, embora hoje se saiba que há muito mais do que essas áreas.

Assim, até o presente momento, posto que tenho certeza que logo, seguindo esse estímulo do Obama para mapeamento cerebral, vamos descobrir muito mais, ou até mesmo apagar o que até agora se sabe e renovar tudo, as estruturas cerebrais relacionadas às emoções são:

AMÍGDALAS: Duas coisinhas bem pequenas localizadas na parte da frente do hipocampo, pertinho dos lobos frontais. O que essas duas bolinhas à toa fazem é detectar e aprender quais partes do mundo que nos cerca são importantes e tem significado emocional. São primordiais para nossa sobrevivência, posto que geram MEDO quando percebem o potencial para uma ameaça, e usam memórias do passado para julgar a já citada ameaça.

TÁLAMO: É a parte que manda sinais sensoriais e motores, principalmente estímulos visuais, para o córtex. Também tem importante função na regulação dos estados de sono e despertar.

HIPOTÁLAMO: Como o próprio nome diz, localiza-se debaixo do Tálamo, e relaciona-se com as respostas emocionais que afetam o humor, o circuito de recompensa, o despertar, a temperatura interna e a regulação da ingesta de comida e água, através da liberação pela hipófise de muitos dos mais importantes neurotransmissores, como a vasopressina, o hormônio antidiurético, a oxitocina e o hormônio liberador de corticotrofina, entre outros. Também é chamado de "relógio biológico", pois regula certas funções corporais, tipo fome, ciclo menstrual e temperatura corporal como já dito acima. Assim, seguindo a linha do politicamente correto, daqui para frente não sou mais gorda, apenas uma desregulada hipotalâmica.

HIPOCAMPO: Estrutura no meio dos lobos temporais, basicamente relacionada à memória. Forma novas memórias e conecta sentidos diferentes, tais como os visuais, os de som e os do olfato, a memórias prévias. Permite que memórias sejam armazenadas por longo tempo e vai lá buscá-las quando necessário. Essa busca, faz junto com a amígdala, para avaliar o estímulo afetivo atual. Simples: se você já pisou numa cobra, como fiz muito tempo atrás, a visão, mesmo que só num filme, ou a simples palavra "cobra", me desperta horror puro, trabalho de meu caro hipocampo e amígdalas, que não me permitem esquecer, pois esse medo está relacionado à sobrevivência.

FÓRNIX: Principal via de saída do Hipocampo para os Corpos Mamilares. Parece ser o ponto principal no controle das funções de memória espacial, memória episódica e suas funções executivas. Com certeza tenho alguma lesãozinha nessa região, já que consegui me perder num hospital no qual trabalhei por 20 anos.

CORPOS MAMILARES: Importantes para Memória Rememorativa. (Só para clarificar, há vários tipos de Memória, o que será item específico de próximo blog). Essa memória é a última a ser perdida em demências, tipo Alzheimer, exatamente porque a perda se dá da frente para trás, e os corpos mamilares estão situados no fundinho do cérebro.

BULBOS OLFATIVOS: É o primeiro par dos Nervos Cranianos, localizado no lado ventral dos lobos frontais, e são os que fazem que nós percebamos e entendamos não só os cheiros, como a memória dos mesmos. A memória olfativa é a mais antiga do nosso sistema, e é por isso que se gasta tanto dinheiro na pesquisa de perfumes. Também é o que me faz lembrar de momentos muito felizes todas as vezes que sinto cheiro de canela, que me reporta a sábados de minha infância, quando minha mãe fazia uns bolinhos enrolados de canela, enchendo toda a casa com o aroma.

GIRO CINGULADO: Esta estrutura, localizada logo acima do corpo caloso, é um fenômeno, pois suas partes têm diferentes funções, cada uma mais complicada que a outra, tais como regulação de afetos, controle vísceromotor, seleção de respostas, controle motor esquelético, processamento visoespacial e acesso à memória. Não bastasse, sua parte anterior (córtex cingulado anterior) é importantíssimo para a atenção e tarefas cognitivas comportalmentalmente complexas. Parece também ser muito importante em relação à consciência, e principalmente à consciência emocional subjetiva, assim como na iniciação da motivação para comportamento. Explica o porquê, embora já se tenham usado 3 florestas amazônicas de madeira para escrever livros a respeito de motivação, esta não funciona de fora para dentro.

Outras estruturas relacionadas à emoção são:

GÂNGLIOS DA BASE: Grupo de núcleos localizados de cada lado do Tálamo. Relacionados à MOTIVAÇÃO.

CÓRTEX ORBITO FRONTAL: Estrutura relacionada com a tomada de decisões e a influência das emoções na decisão tomada.

CÓRTEX PRÉ FRONTAL: É a parte mais anterior do cérebro, atrás da testa e em cima dos olhos. Fantástica estrutura que regula as emoções e o comportamento, por antecipar as consequências de nossas ações, assim como em regular nossa capacidade de retardar a gratificação, por manter as emoções lá guardadas por longos períodos de tempo e por organizar nosso comportamento na direção de metas específicas. Como já vimos no blog anterior, essa parte do cérebro só fica totalmente funcional lá pelos 21 anos, e é por isso que os adolescentes têm costumeiro comportamento impulsivo e os pais precisam funcionar como o córtex pré frontal dos mesmos, para regular já citado comportamento. Também a maior parte dos estudos em psicopatia, síndrome caracterizada por falta de empatia e de remorso, atividades criminosas, comportamento antissocial, egocentrismo, charme superficial, manipulação dos sentimentos de outros, irresponsabilidade e impulsividade, tem concordado que deve haver alguma lesão, real ou funcional nessa área.

STRIATUM VENTRAL: Grupo de estruturas subcorticais , sendo que uma delas, o NÚCLEO ACCUMBENS está relacionado na experiência de emoções positivas direcionadas a metas. Pessoas drogadependentes mostram grande aumento de atividade nessa área quando encontram o objeto de sua dependência.

INSULA: O córtex da Insula tem importante função na experiência física da emoção, pois está conectado com outras estruturas cerebrais que regulam as funções autonômicas (frequência cardíaca, respiração, digestão, etc.). Essa região também processa as informações do gosto, portanto importante na emoção de repugnância/nojo.

CEREBELO: Tem importante função na regulação das emoções, e estudos de lesões cerebelares têm demonstrado que uma disfunção do mesmo costuma atenuar a experiência de emoções positivas sem alterar as negativas. Assim, agora os estudos do cerebelo e suas lesões têm trazido à tona hipóteses interessantíssimas a respeito da função evolutiva do mesmo, de forma que parece ser um ponto mediador do medo para melhorar as chances de sobrevivência, além de um regulador na resposta neural para estímulos que sentimos como recompensa, tipo dinheiro, drogas de abuso e orgasmo. Impressionante como o Cerebelo cresceu desde meus tempos de faculdade, quando era uma coisinha à toa, que regulava o equilíbrio, junto com algumas estruturas do ouvido interno.

Em neurologia estuda-se o que são chamadas EMOÇÕES BÁSICAS, a saber, RAIVA – MEDO - ALEGRIA – TRISTEZA - NOJO - SURPRESA. São consideradas básicas pois, como diria Buckovsky, estão na cara e têm a mesma expressão autonômica e muscular em qualquer lugar, qualquer cultura, qualquer língua, e além disso estão relacionadas com sobrevivência e não dependem de constructos sociais.



Vamos ver o que acontece na mais estudada das emoções, o MEDO:

O estímulo (que pode ser qualquer coisa, desde ver uma cobra, aranha ou qualquer bicho peçonhento até imaginar um barulho esquisito às 3 da madrugada, quando se está em casa sozinho - lembrando Freud, o estímulo pode ser real ou imaginário, mas o medo produzido é sempre muito real), atinge a Amigdala, que toca um valente alarme, às vezes até mesmo antes que tenhamos consciência da situação. Fração de segundo depois, o alarme atinge o Córtex sensitivo que vai, ou reforçar o alarme ou mandar a informação de "falso alarme", de volta para a Amigdala. Se for falso alarme, a atacada se acalma. Se reforçado for o alarme, a amigdala dispara a reação básica de "ataque ou fuga", ou seja, o por demais conhecido mecanismo de stress, que faz com que:

Aumente a frequência cardíaca, pois o coração precisa bombear mais sangue para os músculos, já que estes vão ter um enorme trabalho durante a resposta de luta ou fuga. Com mais sangue, os já citados músculos, os esqueléticos (nas costas, braços pernas e pescoço) se expandem, enquanto os músculos viscerais se contraem para proteção dos órgãos internos. Os pelos de braços e pernas se estendem (piloereção, mecanismo que, em nossos ancestrais mais peludos os ajudava a parecerem maiores), e finalmente sudorese, que é uma maneira de "resfriar" os músculos superaquecidos. Não bastasse, as suprarrenais liberam cortisol, que é chamado o hormônio do stress, com consequente aumento de glicose circulante. Em suma, o organismo se prepara para ataque ou defesa. E fico aqui pensado como, nós humanos pós modernos, gênios da tecnologia, conseguimos transformar tão fantástico mecanismo em doença.



Então, cumprida a promessa, espero que o que faltou tenha ficado esclarecido. Próximo blog será essa coisa que escapa quando mais precisamos dela, chamada MOTIVAÇÃO.