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terça-feira, 30 de abril de 2013

CÉREBRO E MENTE

O Cérebro é mais amplo do que o Céu
Pois - colocai-os lado a lado -
Um o outro irá conter
Facilmente e a Vós também

O Cérebro é mais fundo do que o mar
Pois considerai-os - Azul e Azul -
Um o outro irá absorver
Como as esponjas à Água fazem

O Cérebro é apenas o peso de Deus
Pois Pesai-os - Grama a Grama -
E eles só irão diferir - se tal acontecer -
Como a Sílaba do Som

Emily Dickinson

Este artigo, escrevi em 1997, para a Revista "Diagnóstico e Tratamento",da APM. Informo que só reaproveitei o título e a estrutura, pois quase todos os dados mudaram enormemente de lá para cá, sendo essa uma das coisas mais fascinantes que a neurologia ensina: a precariedade de nossas certezas.

A estrutura mais complexa do universo(pelo menos o que até agora conhecemos)é a massa de cerca 1,5Kg dentro de nosso crânio, chamada cérebro. É composto por cerca de 100 bilhões de neurônios, que é aproximadamente o mesmo número de todas as estrelas em nossa galáxia e o número de galáxias no universo conhecido.
Como qualquer máquina complexa, o cérebro contém uma grande quantidade de peças, cada uma das quais tem subdivisões, que têm mais subdivisões,até chegar às "porcas e parafusos" que são os neurônios.

Apesar do espetáculo, o cérebro é um órgão, e a Mente é uma das funções desse órgão.

Entender isso é básico para que possamos sair do campo da mera opinião e organizar ações efetivas para a resolução de problemas. Entender a inter-relação entre órgão e sua função significa sair da posição maniqueista do "a mente pode tudo" ou "poder do pensamento positivo", posto que esta mente e este pensamento são produto e pôr conseguinte limitados pelas leis físicas e biologicas que delimitam o funcionamento de órgãos e sistemas de todos os mamíferos, nós incluídos.

A segunda limitação da mente se dá pela presença ou não de disfunção mental, que longe de ser um castigo pelos Deuses enviado, acontece por desequilibrios como qualquer outro órgão de qualquer sistema.

Peguemos por exemplo o estômago, cuja função, juntamente com boca, esôfago e intestinos, é a digestão.

Imaginem então, que por uma série de agressões externas, como por ex. comer todo o tempo comida muito condimentada, beber em excesso, fumar demais etc., este estômago desenvolva uma inflamação conhecida como gastrite. Eis que a partir disso, muita coisa começa a mudar, iniciando pelo humor da pessoa, que ninguém é feliz com dor de barriga, até alterações drásticas dos hábitos de vida. Ninguém com gastrite sente o mínimo constrangimento de ir ao médico e tomar seus remediozinhos, posto que a gastrite é "real" , num órgão palpável e perfeitamente visível em qualquer radiografia.

Quando a questão é a "mente", o assunto muda de figura, passando para o domínio do imponderável. Fica um pouco mais difícil aceitar que uma alteração da mente possa ser causado pôr algo tão prosaico como uma "gastrite" cerebral, por excesso de "condimentos" na alimentação desse mesmo cérebro, sendo que esses "condimentos" no caso podem ser desde excesso de estímulos ou falta deles, até conseqüência de alterações de humor interno, causadas pela própria gastrite , lá embaixo no estômago, como antes falávamos.

Para que o órgão cérebro funcione adequadamente, existem as condições básicas que são:

estrutura: já vem embutida no desenvolvimento embrionário, e salve erros, desenvolve-se a contento.

maturação: ao nascermos, nosso cérebro pesa cerca de 350 a 400 g, e ao final de sua maturação, por volta dos 6-7 anos vai a 1300/1400 g , que é o peso que se manterá por toda a vida, salvo alterações demenciais ou perda de substância por traumatismo(Embora o cérebro esteja totalmente formado nessa idade, muitas das funções dos lobos frontais só estarão totalmente desenvolvidas lá pelos 21 anos,e é por isso que os entes chamados adolescentes - aborrecentes para muitos - tem tanta dificuldade em controlar seu comportamento,necessitando de franca supervisão parental mesmo que a detestem. Se não a tiverem, irão procurar qualquer sub grupo que lhes proporcione estrutura e hierarquia, e é aqui que entram as gangues e a sub cultura das drogas, mas esta é matéria para o próximo blog).

alimentação: como todo e qualquer organismo, o cérebro necessita de alimentação adequada, tanto para desenvolver-se como para simplesmente funcionar, e essa alimentação é a glicose.Assim, havendo estes itens básicos,o funcionamento é adequado para a idade cronológica do sujeito que o possui. Isto quer dizer que, uma criança de 3 anos que esperneia e grita porque não consegue alcançar uma bala no armário da cozinha, está perfeitamente adequada a seu estágio de desenvolvimento mental, usando os recursos que tem para pedir ajuda. Por outro lado, se um adolescente de 15 anos enfia o nariz na cocaína pôr se sentir incompreendido ou solitário, certamente há algo de errado em algum nível cerebral, posto que já deveria possuir o repertório suficiente para pedir ajuda de forma mais adequada e eficaz.

Entramos agora no ponto crucial : porque se, a estrutura desse cérebro está normal, o desenvolvimento e a maturação também o foram, assim como a alimentação para o sistema, esse mesmo sistema se transforma em algo disfuncional?

Usando o computador como exemplo: o hardware está perfeito. O soft também, mas a informação que forneço está errada, a conseqüência só pode ser do computador não cumprir a tarefa que lhe foi designada. E não adianta chuta-lo, berrar com ele ou descabelar-se, uivando "maquininha estúpida", (Já tentei, garanto que não funciona)

O mais prático e eficaz no caso, é começar com o mais simples, isto é, checando a informação que usei. O mesmo acontece com nosso cérebro, que entra num tipo de pane quando as informações recebidas não condizem com o sistema que se está usando.

E aqui é que mora o perigo, pois, ao contrário do computador, que tem sistemas totalmente definidos, não tem cultura nem civilização, não é penalizado se fizer uma bobagem federal, porque o culpado a fim e a cabo é de quem o manipula, o cérebro tem que dar conta de tarefas cada vez mais complexas para as quais nem sempre há uma estrutura muito definida, criando esta estrutura.

Acontece assim:: se aperto a tecla errada do computador, a resposta será sempre errada. Isto porque, o computador é digital. Por outro lado, nosso cérebro é digital e analógico, isto é faz comparações, e todo o estudo da inteligência artificial está baseado na criação de analogias na máquina, tanto que os gênios chegaram à conclusão de que a melhor forma de produzir essa analogia, seria ensinando filosofia ao computador.

Se tenho que apertar um parafuso numa estante e não tenho o tamanho exato da chave de fenda, posso sempre tentar com uma faca de ponta arredondada, um grampo de cabelo, ou qualquer coisa que se pareça com a chave de fenda ou que possa imitar sua função. Só aqui já temos 3 funções mentais que são: criatividade (fazer algo novo), que depende da observação (uma faca arredondada pode funcionar como chave de fenda), que depende da atenção (observei muitas pessoas usando chaves de fenda, aprendi o que é uma chave de fenda e para que serve, e portanto, pude associar com outros objetos parecidos).

Aqui a mente adestrada para, e compara o que está sendo feito com o objetivo inicial, que era o de apertar o parafuso. Se o resultado foi a faca ter escapado de minha mão e ao invés de apertar o parafuso, cortou meu dedo, criou-se um novo objetivo mais premente: tratar do dedo acidentado, para o que, a já citada mente usou outra de suas fantásticas funções: a priorização, que é saber o que é mais importante fazer primeiro : cuidar do dedo ferido ou ignorá-lo e continuar tentando apertar o parafuso, espalhando sangue pela estante, pelo chão e correndo o risco de pegar tétano.

Para que isso pudesse acontecer, muitos ancestrais nossos morreram comidos por bichanos enormes, porque, ao invés de correrem, foram verificar que raios era aquilo.
Os que sobraram foram os que sabiam intuitivamente ou apreenderam, qual é a hora de correr e qual é a hora de lutar, mecanismo este embutido numa parte de nosso cérebro chamada Sistema Límbico, ou Mesencéfalo, que é também a parte que controla nossas emoções e nosso sistema endócrino (hormonal). É a parte que condividimos com os mamíferos de qualquer tipo, de baleia a cachorro. O que nos diferencia dos demais animais é o Neocórtex, parte mais nova do cérebro e que funciona, ou deveria funcionar, para as funções assim chamadas mais nobres do ser humano que são: aprendizado, memória, ética, crítica e julgamento.

O papel do Neocórtex

Quando olhamos o cérebro humano de cima ou dos lados, quase tudo que vemos é neocortex. É chamado "neo"porque é uma invenção relativamente nova nos mamíferos. Animais como répteis e aves tem cérebros relativamente pequenos com áreas altamente especializadas para processar informações sensoriais e controlar o comportamento. Assim, o neo é só nosso, e possibilita a atividade mental mais complexa que associamos com o sermos humanos. O neocortex humano é tão grande que cobre o cérebro todo, com exceção do cerebelo, pequena protrusão lá na parte de trás do cérebro.Divide-se em 4 lobos: frontal, parietal, occipital e temporal.

O cérebro é composto por dois lobos, esquerdo e direito. O hemisfério esquerdo recebe a maior parte de suas informações e também controla o lado direito do corpo, vice versa para o direito.Em nós, humanos, o esquerdo é especializado para linguagem, raciocínio baseado em regras e habilidades analítica, enquanto o direito especializa-se no reconhecimento de padrões visuais e percepções holisticas ( atenção: uso aqui o têrmo "holistico"com seu significado literal, de "todo", nada a ver com o têrmo "holistico"usado para definir qualquer coisa sem base ou evidência cientifica).

Na maioria das tarefas, os dois hemisférios usam a estratégia napoleonica do "divide e conquista", na qual o hemisfério esquerdo processa os detalhes e o direito percebe a totalidade da coisa.Ambos são ligados por uma espécie de ponte fibrosa, chamada de Corpo Caloso (Corpus Callosum), o qual contém 200 milhões de fibras.

A Função dos Lobos

Frontal: Relacionado com a execução do comportamento, coisa que vai desde o contrôle de musculos individuais no córtex motor primário, até planejamento estratégico de alto nível a respeito do que fazer frente a determinada situação. Divide-se nas seguintes áreas:

Córtex pré Frontal: Crucial para o desempenho de quase todas as habilidades que requeiram inteligência, tais como construir ferramentas, modificar o ambientes para nossos próprios propósitos, e ter relações específicas com até centenas de outras pessoas (inacreditávelmente para os mais jovens, nós humanos fizemos isso muito antes do advento do facebook).

Córtex Orbitofrontal: Essencial para avaliação de recompensas e para o que poderia ser chamado de julgamento moral. Pacientes com lesões nessa área podem ter inteligência normal ou até mesmo superior por medidas de QI, mas carecem dos mais rudimentares conceitos de "boas maneiras"ou ações apropiadas em contextos sociais. Além disso perdem toda e qualquer aversão ao risco, apesar de terem clara conciência das consequências péssimas do mesmo.

Córtex Motor Primário: Controla diretamente os músculos, a partir da medula espinhal.

Córtex Pré Motor: Sua função é monitorar, de forma consciente, as sequências de movimentos, usando retroalimentação sensorial (feedback).Funciona assim: os gânglios da base e o córtex pré frontal, selecionam a meta a ser atingida e aí o pré motor coordena os passos necessários para atingir a já citada meta.Atividade nessa área nos ajuda a aprender NO QUE prestar atenção ENQUANTO desempenhamos alguma sequência motora complicada, e O QUE FAZER quando "atolamos"em algum ponto.
Pense assim: o córtex frontal é polarizado de frente para trás. Lá atrás, pertinho do sulco central, estão os cabos neurais que vão quase que diretamente para os músculos.Logo adiante, estão as áreas que organizam as sequências de movimentos. Mais adiante, as áreas de planejamento abstrato, nas quais selecionamos, dentre uma variedade de estratégias que envolvem musculos e sequências de movimentos completamente diferentes, qual será a melhor para a meta a ser alcançada.

Não se alvorocem. No final verão os desenhos explicativos.

Lobo Parietal: Recebe informação sensorial da pele ( tato/toque, temperatura e dor, via tálamo) e da língua (sempre penso nele quando estou degustando algo como uma bela moqueca de camarão), e processa informação sensorial vinda dos olhos e ouvidos (embora nunca tenha feito um fMRI, tenho a mais absoluta certeza que se acende feito árvore de Natal quando escuto a nona de Beethoven).

Lobo Occipital: Processa os impulsos visuais vindos da retina. O fato de que o sistema visual ganhou um lobo inteirinho só para si, enfatiza a importância de acuidade visual acurada e seu processamento para a nossa sobrevivência.(Pensem só na quantidade de malabarismos que o sistema visual tem que fazer só para tirar o carro da garagem sem bater nas colunas e outros carros ao redor, e que, depois de ter perturbado a paciência de todas as gentis criaturas que me choferaram em São Paulo, Rio e Salvador, conclui que, se quiser dirigir no Brasil, terei que, certamente, voltar a uma auto escola).

Lobo Temporal: combina informações auditivas e visuais. As partes superior e medial (central) recebem informações auditivas a partir do Tálamo, que por sua vez as recebe dos ouvidos. A inferior faz o processamento visual para objetos e reconhecimento de padrões visuais. As partes medial e anterior fazem o reconhecimento visual de ordem superior, isto é, reconhecendo rostos, como também o reconhecimento que depende da memória.

Tálamo

Estrutura que fica logo abaixo do neocortex e que funciona como centro de comando que controla que informação vai para onde entre as diferentes partes do neocortex e o resto do cérebro.
Enquanto o neocortex faz análises extremamente acuradas dos padrões das coisas que estamos olhando, é o Tálamo quem controla ONDE olhamos. Quando o neocortez é avariado, perdemos certas habilidades. Quando o tálamo está lesado, perdemos a consciência.
Uma parte do tálamo, chamada Hipotálamo, controla as funções homeostáticas do organismo, tais como temperatura e ritmo circadiano.
Pense no Tálamo como um portão de entrada para o córtex. Virtualmente todos os sinais provindos dos órgãos dos sentidos são retransmitodos pelo tálamo, assim como os de outras áreas subcorticais. Não bastasse, a maioria das áreas do neocortex comunicam-se através do mesmo.

Sistema Límbico

Abaixo do Neocortex e do Tálamo há varias áreas subcorticais, das quais, a mais importante é uma rede de núcleos distintos e filogenéticamente antigos, chamada de SISTEMA LÍMBICO. (Filogenéticamente antigo significa que existiu em espécies muito mais velhas que os mamíferos, tais como lagartos, aves, e provávelmente, dinossauros). No já citado sistema, há as seguintes estruturas:

Hipocampo: Importantissimo na formação de memórias, recebendo informações de todo o neocortex. Através de receptores sinápticos altamente ajustáveis, chamados de receptores NMDA,pode associar praticamente qualquer constelação de propiedades que definem um objeto e seu contexto.

Amigdala: Primariamente relacionada com processamento emocional, interage com o córtex pré frontal para gerar e processar as emoções primárias de raiva, felicidade, repugnância ou aversão,surpresa, tristeza, e principalmente, medo. Pessoas que tem lesões nessa área, ficam com sua capacidade de reagir e evitar situações perigosas muito diminuida (alguns autores acreditam que parte do problema em personalidades psicopaticas aqui se origina).

Cortex Orbitofrontal: É onde a Amigdala e outras estruturas do Sistema Limbico interagem com parte do Cortex Pré frontal. Funciona assim: Imagine que numa bela sexta feira à tarde, está você alegre e feliz saindo do trabalho e dirigindo-se a seu barzinho predileto para o sagrado ritual da happy hour. Vai daí que, num cruzamento, uma tremenda carreta quase o acerta em cheio. É bem provável que, por um bom tempo, todas as vêzes e principalmente às sextas feiras, sinta uma pontadinha de medo ao se aproximar do já citado cruzamento, isto porque, seu córtex orbitofrontal "armazenou"a circunstância, e sua amigdala o medo.

Cortex Cingulado Anterior: É quem monitora o progresso a respeito de seja lá qual for a meta à qual queremos chegar e manda sinais de "ooops, errado" quando as coisas não estão funcionado como deveriam, para indicar que está na hora de mudança de estratégia.

Gânglios da Base: Formados pelos cinco maiores núcleos, Caudado, Putamen, Globo Pálido, Substância Negra e Nucleo Subtalâmico, abrangem um sistema altamente interconectado que interage com Tálamo e Neo Cortex para controlar o comportamento.

Pois bem, aqui foi um enorme resumo de como funciona essa massaroca de células entre nossas orelhas, e se alguém me disser que conhece algo mais intrigante, maravilhoso e complexo, ganha um pirulito.

No próximo e final capítulo, veremos a fisiologia das emoções e seu papel no que nos faz únicos.
















segunda-feira, 22 de abril de 2013

O que é Neurociência

Cumprindo a promessa que fiz aos que estiveram no Curso de Psicologia Positiva, esta é a primeira parte de uma série de 3. Aqui veremos um resumo de como se desenvolveu a neurociência e quais são seus componentes. Parte 2 será o que são e como funcionam as emoções e parte 3 algumas das aplicações das neurociências em medicina, educação e psicologia.

Neurociência ou Ciência neural é o estudo de como o sistema nervoso se desenvolve, sua estrutura e o que é que ele faz.

Neurocientistas estudam o cérebro e como este comanda o comportamento e as funções cognitivas, tanto em seu funcionamento normal, quanto em seus distúrbios neurológicos, psiquiátricos e de desenvolvimento.
Costumeiramente, é usado no plural, neurociências. Tradicionalmente classificada como subdivisão da biologia, atualmente é vista como ciência interdisciplinar, estreitamente ligada a outras disciplinas tais como matemática, linguística, engenharia, ciências da computação, química, filosofia, psicologia e medicina.
Muitos pesquisadores acham que neurociência é a mesma coisa que neurobiologia, mas neurobiologia é a biologia do sistema nervoso, enquanto que neurociência se refere a qualquer coisa que tenha a ver com o sistema nervoso, pois estuda os aspectos celulares, funcionais, evolucionários, computacionais, moleculares e médicos do mesmo.

De acordo com o Medilexicon (dicionário médico), neurociências são “As disciplinas científicas relacionadas ao desenvolvimento, estrutura, função, química, farmacologia, avaliações clínicas e patologia do Sistema Nervoso”.

Ao que se sabe, os mais antigos escritos sobre o cérebro datam de 1700 AC no Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, onde a palavra "cérebro" é mencionada 8 vezes, e descrevem os sintomas, diagnóstico e resultados de duas pessoas que tiveram fraturas compostas no crânio. Edwin Smith (1822- 1906) era um antiquário e colecionador americano que deu nome a este papiro.

Lá pelo ano 500 AC, várias visões do cérebro começam a emergir na Grécia Antiga.

Alcmaeon escreveu que cérebro é o lugar onde está a mente, tendo sido provavelmente a primeira pessoa na história que escreveu isso.

Em seguida vem bom velho Hipócrates, dizendo que o cérebro é o locus da inteligência.

Aristóteles deu um de seus raros chutes fora, dizendo que o cérebro era um mecanismo de refrescamento do sangue, sendo o coração o centro da inteligência. Dizia que os humanos se comportavam mais racionalmente que os outros animais porque nossos grandes cérebros esfriavam o sangue quente, prevenindo assim atos de "sangue quente” ou irracionais.

Galeno de Pergamon, anatomista grego que trabalhava em Roma, disse que o cérebro era onde se processavam os sentidos, posto que era fofinho, enquanto o cerebelo controlava os músculos, posto que bem mais denso que o resto do cérebro.

Com a chegada do microscópio (o qual se acredita ter sido inventado na Holanda, lá por 1590), aconteceu um mais profundo entendimento do cérebro.

Camilo Golgi (1843-1926), médico, patologista e cientista italiano, usou o cromato de prata para mostrar como se parece um neurônio.

Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), patologista, histologista e neurocientista espanhol, levou em frente os trabalhos de Golgi e desenvolveu a "doutrina neuronal", isto é, a hipótese que coloca o neurônio como a unidade funcional do cérebro. Em 1906, ambos ganharam o Nobel de Medicina e Fisiologia pelo trabalho conjunto de categorização dos neurônios.

Lá pelo final do séc.19, Hermann von Hemholtz (1821-1894), médico e físico alemão (faltava ser chinês com um nome desses!), Hohannes Peter Müller (1801-1858), fisiologista, anatomista comparativo, ictologista e herpetólogo, também alemão, e Emil du Bois-Reymond (1818-1896), médico e fisiologista idem, idem, demonstraram não só a excitabilidade elétrica dos neurônios, mas também como o estado elétrico dos neurônios adjacentes era afetado.

Ao mesmo tempo, Pierre Paul Broca (1824-1880), médico, cirurgião, anatomista e antropólogo francês, trabalhou com pacientes com danos cerebrais, concluindo que diferentes regiões do cérebro tinham diferentes e específicas funções.

John Hughlings Jackson (1835-1911), neurologista inglês, através da observação de pacientes com epilepsia, descobriu como o córtex motor era organizado por seguir a progressão das convulsões pelo corpo do paciente.

Carl Wernicke (1848-1905), psiquiatra, anatomista e neuropatologista alemão (vocês hão de notar que os alemães eram bons nisso), descreveu as partes do cérebro responsáveis pela fala e compreensão da linguagem.

De 1950 em diante, o estudo científico do sistema nervoso avançou em passos gigantes, principalmente pelo progresso em outras áreas como ciências da computação, eletrofisiologia e biologia molecular.

Atualmente, os ramos da neurociência podem ser categorizados nas seguintes áreas (neurocientistas usualmente trabalham em várias áreas ao mesmo tempo):

Neurociências Afetivas: Como os neurônios se comportam em relação às emoções. Ciência de laboratório.

Neurociências Comportamentais: É o estudo das bases biológicas do comportamento, ou de como o cérebro afeta o comportamento.

Neurociência celular: É o estudo dos neurônios, incluindo sua forma e propriedades fisiológicas a nível celular.

Neurociência Clínica: Estuda os distúrbios do sistema nervoso (neurologia) e os distúrbios da mente (psiquiatria)

Neurociência Cognitiva: Estuda as funções cognitivas superiores que existem nos humanos e suas bases neuronais. Ligada à linguística, todas as outras neurociências, psicologia e ciências cognitivas. Os neurocientistas cognitivos podem tomar duas direções: comportamental/ experimental ou modelagem computacional - em ambos os casos, é o estudo da natureza da cognição a partir do ponto de vista neural.

Neurociência computacional: Procura entender como o cérebro computa a informação, através do uso de computadores para estimular e modelar as funções cerebrais, através do uso de técnicas matemáticas e físicas.

Neurociências Culturais: Estuda como crenças, práticas e valores culturais são tanto moldados, quanto moldam o cérebro, mentes e genes durante diferentes períodos.

Neurociências do desenvolvimento: Estuda como o sistema nervoso se desenvolve sob o ponto de vista celular e quais são os mecanismos de base desse desenvolvimento.

Neurociência Molecular: É o estudo do papel desempenhado por moléculas individuais no SN

Neuroengenharia: É o uso de técnicas de engenharia para melhor entender, repor, consertar ou melhorar sistemas neurais.

Neuroimagem: Braço das imagens médicas que se concentra no cérebro e SN. É usada para diagnosticar doenças ou definir saúde do cérebro. Também muito usada no estudo do cérebro, como funciona e que atividades o afetam.

Neuroinformática: integra a informação de todas as áreas das neurociências, para entender o cérebro e tratar suas doenças. Inclui o adquirir, guardar, compartilhar e publicar informações, análise, modelagem e simulações.

Neurolinguística: É o estudo de que mecanismos cerebrais controlam a aquisição, compreensão e expressão oral da linguagem.

Neurofisiologia: É o estudo das relações entre o cérebro e suas funções, a soma das partes do corpo e como elas se interelacionam. Basicamente, é o estudo de como funciona o SN usando técnicas fisiológicas, tais como estimulação por eletrodos, canais de sensibilidade à luz ou íons ou tinturas voltagem-sensitivas.

Paleoneurologia: É o estudo do cérebro através de fosseis

Neurociências Sociais: É o estudo interdisciplinar dedicado ao entendimento de como sistemas biológicos implementam os processos comportamentais e sociais. Usam conceitos e métodos biológicos para informar e refinar teorias de comportamento social, ao mesmo tempo em que usa conceitos sociais e comportamentais para refinar teorias de função e organização neurais.

Neurociência de Sistemas: Segue os caminhos do fluxo de informações no SNC e procura definir os tipos de processos que ocorrem, usando essa informação para explicar funções comportamentais.

Abaixo, veremos algumas imagens explicativas dos conceitos relatados. Termino dizendo que uma das muitas coisas que aprendi com neuro, foi a precariedade de nossas certezas. O que hoje é certeza, amanhã irá fazer parte da historia do desenvolvimento das neurociências, e este é um conceito não só altamente liberador, no sentido que permite o desenvolvimento, como também uma aula de humildade, coisa que nunca entendi pela explicação das freiras, e só fui entender depois de muitos anos na prática.


neurônio visto pelo microscópio pela técnica de Golgi -(Golgi neuron:Colorado College neuroanatomy and Histology)


neurônio visto por técnicas de neuroimagem (Faculty washington Edu


hieróglifo da palavra "cérebro" no papiro de Edwin Smith (New York Academy of Medicine)


Médicos examinando o cérebro do lider revolucionário Leon Trotsky em 1940 (Joe McNally/Getty Images)


Cirurgia estereotáxica para implantação de eletrodos de estimulação profunda (Joe mcNally/Getty Images)





terça-feira, 16 de abril de 2013

REPENSANDO

Segunda feira, levando sobrinha ao Aeroporto de Salvador, calor de matar, parada na Lagoa do Abaeté. As dunas e brancura em volta da lagoa escura, que com tanta lindeza me lembrava, não estão mais lá. Sensação que me roubaram mais uma memória. Estamos voltando para o carro, estou pensando que detesto o termo "Felicidade Autêntica", tanto quanto detesto o termo "Psicossomática", e que coisa mais interessante é essa vida, que, na mesma medida que detesto os termos, amo a prática dos mesmos.

E surge à nossa frente uma senhora, bem entrada em seus 80, vestida de saída de praia cor de bata de bispo, cabelinho branco feito as dunas que não estão mais lá, a cantar "ó abre alas, que eu quero passar", feliz como cavalo selvagem.
Assim, do nada, simplesmente porque estava a fim. E continuo meio para baixo, porque perdi as dunas, porque adorei a companhia de minha sobrinha e queria que continuasse, porque estou cansada mesmo, porque tem mil e um pensamentos desencontrados em minha cabeça, meio assim como as ilusões óticas de asfalto quente.

E penso na mágica da Bahia, que não entendo, mas me encanta, desde que li Jorge Amado pela primeira vez: "Capitães de Areia". Essa capacidade baiana única do sincretismo religioso, da vivência de crenças incompatíveis em termos de cânones e dogmas, e perfeitamente integradas na vida do dia a dia.

Essa fábrica de cantores, compositores, artistas, que parecem brotar do mar baiano. A impressão de que todo mundo aqui é .conhecido ou não, nem por isso menos importante.

E na suprema ironia de ter vindo dar esse mini curso de psicologia positiva logo aqui.

E resolvo ler o último livro do Seligman, que ainda não tinha lido, descobrindo, para meu deleite e prazer, que ele também não gosta do nome que acabou sendo ligado a sua pesquisa, por motivos de venda de livros, e não porque fora escolhido como princípio.
Nas palavras do próprio (tradução livre da que vos fala): "Quando escrevi ‘Authentic happiness’ (Felicidade Autêntica), queria ter dado outro nome, mas o editor achou que ‘felicidade’ no título ia vender mais livros, vai daí que me vi tachado pela palavra. Também detesto a palavra "autentico/a", parente próximo do excessivamente usado ‘self’, num mundo de super inchados ‘Eu´s’. O problema básico com o título e com ‘felicidade’ não é somente porque pouco explica o que escolhemos, mas também porque o ouvido moderno, ao ouvir ‘feliz’, imediatamente escuta ‘alegre’, ‘divertido’, 'bom humor’, ‘risonho’. Tão irritante quanto o acima, tudo também ficou ligado à carinha sorridente, sempre que alguém fala, escreve ou pensa em Psicologia Positiva (confesso que cometi o despautério nos slides do curso, mas honestamente fiquei sem saber o que colocar e foi a mais simples das soluções, e, logo no começo, quando vi o primeiro slide estampadão na parede, me lembrei de Mencken e sua famosa frase: ‘Para cada problema complexo, há uma resposta clara, simples e completamente errada’. Pronto, certamente lá estava, não somente cometida, mas enorme, para todos verem). Historicamente, ‘felicidade’ não está tão intimamente relacionada a sentimentos edonistas tais como ‘divertido’ e ‘jovial e folgazão’, termos nos quais Thomas Jefferson não pensou quando declarou que temos o direito de buscá-la, e certamente nada tem a ver com minha ideia a respeito de psicologia positiva."
"Psicologia Positiva, como a entendo, é a respeito do que escolhemos. Escolhi ter uma massagenzinha no pescoço no aeroporto, simplesmente porque aquilo me fez sentir bem. Escolhi para meu próprio benefício e não porque ia dar mais significado à minha vida ou por qualquer outra razão. Muitas vezes escolhemos o que nos faz sentir bem, só por essa razão, mas é extremamente importante perceber que nossas escolhas não podem ser feitas somente em cima de como nos fazem sentir. Escolhi assistir o excruciante recital de piano de minha filha de 6 anos, não porque me fez sentir bem, mas porque é parte de meus deveres como pai e portanto, parte do que dá sentido à minha vida''.


Então, muito obrigada à Bahia por ter me acolhido e relevado as soluções facilitadas e erradas, mas principalmente por ter me ajudado a definir não só o que quero, pelo fato de querer e gostar, mas o que realmente dá significado à minha vida, neste momento de entrada, no que já fui chamada ao desembarcar: IDOSA. Tão logo superei o choque, me dei conta que, no Brasil, já tenho idade pra me aposentar, o que define a “idosice”, mas tenho também a memória de várias "idosas" que aqui conheci, com o entusiasmo, força de vida e poesia, impossíveis de serem alcançados pelos jovens eternos, tão preocupados com a imagem, de per si narcísica, da beleza eterna.

Então muito obrigada D. Arlete pelo seu scrapbook tão cheio de vida, obrigada à senhora da Lagoa e seu cantar, à moça da loja no aeroporto que declarou que minha cunhada na Inglaterra certamente haveria de ter um pescoço, à Lu pelas suas "lambrusquetas" e as amigas dela que me acolheram como se fosse a velha tia conhecida e me proporcionaram, as 3, não só uma noitada inesquecível, como também uma visão renovada dos "jovens de hoje", nos quais incluo minha xará e seu namorado. Que juventude mais bonita! À Márcia e toda sua família, pelo carinho impagável, às Pinas, que além de serem nome de macarronada de frutos do mar, são as 3 Marias de fé, esperança e acolhimento. À cunhada em Taubaté pela acolhida e pelo feijão do qual terei saudades eternas. Ao sobrinho, pela formatura e por ser quem é. À Grace, por ser o que é, e pelo ser, nas palavras de Lu "para tudo na vida há a Grace". À Marilza e Julio, meus amigos desde colégio, os quais quero ser quando crescer. Serginho, Lídia, Kiko, Miriam, Isa, e com certeza vou esquecer um montão de nomes de minha vida passada, mas que estão tão presentes hoje, e por todos aqueles amigos virtuais que provavelmente não terei a possibilidade de conhecer pessoalmente. E pronto, quase que esqueço meu irmão, que me deve 100 reais pela aposta que sei que ganhei, e que me fez recordar porque é bom e é um desafio o ter um irmão.
E agora, antes de me tornar lacrimejante, e já pedindo desculpas pelos que não foram citados devido à certa estultice no campo da memória... ciao.