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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

AOS MEUS QUERIDOS GOZADORES

Desde que espalhei a idéia de que estou fazendo mestrado em psicologia positiva, tenho recebido gozações e comentários de amigos e colegas, mais ou menos do tipo:

"Você??? Como assim? Você sempre foi séria na área"
"O que foi que aconteceu? Da neurologia à bobeirinha?" (bobeirinha foi minha tradução graciosa a uma coisa nada graciosa em inglês)
"Mas, agora não entendo! Você sempre criticou autoajuda e essas coisas!" (Informo que não critiquei, só expliquei porque, a fim e a cabo, absolutamente não funciona)
.

E outras na mesma linha. Então, porque sou basicamente preguiçosa para explicar repetidamente, faço-o de uma vez só, no blog, e vou avisar a todos meus gozadores a lerem.

Primeiro começo dizendo o que Psicologia Positiva NÃO é:

Autoajuda do tipo compre meus livros e seja feliz - Culto Religioso de qualquer espécie - Modismo do tipo aprender um segredo que vem sendo passado por séculos de um gênio a outro, ou outra frescurinha new age - Versão reciclada do poder do pensamento positivo - Ser alegrinho o tempo todo, negando emoções tal como tristeza, sorria não importa o quê, ou repetir em frente ao espelho "Todos os dias, sob todos os aspectos, estou cada vez melhor” (a isso se chama Negação, que é um terrível mecanismo de defesa) - Alienar-se do mundo onde se vive, pensando que para ser feliz é necessário nem saber o que acontece.

Bom, creio que cobri a área do NÃO. Espero não ter insultado ninguém com minha visão pessoal e nada positiva dos itens acima citados, e, para quem gosta e/ou acredita, certamente faz bem. Isto posto, vamos ao que é, seu método e metas.

A psicologia positiva é um ramo da psicologia cognitiva, que estuda, aplica, ensina e reforça os pontos fortes que todos nós temos. Tem como meta o desenvolvimento de habilidades que nos façam capazes de lidar, da melhor forma possível, com as adversidades que, com certeza, vamos encontrar na vida.

Como foi que entrei nessa? Farei o mais breve dos resumos. Passei a maior parte de minha vida profissional trabalhando com esquizofrênicos, psicóticos e drogadependentes. E amava. Mas, havia um gosto de "o que é que está faltando?". Aquela sensação de base, de que deveria haver maneiras de não só tratar a coisa, mas preveni-las o máximo possível. Por que infernos um jovem, com tudo a seu favor, se mete a ser um escravo de sua(s) droga de preferência? Será que não dá para, mesmo que alguém tenha a tendência para esquizofrenia, ensinar algo para que não precise se tornar totalmente alienado da realidade? No final da década de noventa, veio a moda do "desequilíbrio" dos neurotransmissores, que explicava, de alcoolismo a epilepsia, de dependência a cocaína, a depressão, etc.. etc... etc...

E virou mantra, repetido ad nauseam, principalmente por todos os AA, NA e congêneres. Ora essa, pensava eu, claro que é um desequilíbrio. Toda doença é um desequilíbrio, se não fosse, doença não seria; seria o funcionamento normal, fisiológico. E mais, por mais que essa idéia de que esses "desequilíbrios” são herdados, não existe uma única doença psiquiátrica, incluindo as drogadependências, para a qual tenham encontrado um gen que a determine.

Não bastasse, a cada droga que aparecia no mercado, criava-se um tratamento para aquela droga, não mais para a pessoa que dela dependia. Viramos hiperespecialistas em doenças e ignorantes em tratar do doente. Há tratamentos para "crack", heroína, e qualquer outra coisa que for aparecendo. Mas, as substâncias ou as doenças não precisam de tratamento. O ser que sofre, precisa.

Descobri com meus pacientes esquizofrênicos, que os ajudando a se contarem a própria história de outro jeito, fazia toda a diferença em como eles passariam a lidar com o problema. Passei inúmeras horas, não só a escutar e interagir com seus delírios, mas também a ensiná-los que não eram esquizofrênicos, tinham sim um problema chamado esquizofrenia.

Se alguém é deprimido, é todo seu ser, nada se pode fazer a respeito. Já se tem depressão, é algo com o que pode ser lidado. Nós não dizemos "sou olhos azuis", dizemos sim, "tenho olhos azuis", porque se não gostar, sempre posso colocar lentes cor de jabuticaba. Basicamente, é a diferença entre sofrer algo e tomar o controle sobre algo.

Aqui nos EUA, onde os AA tomaram o poder, pacientes com dependências têm que dizer que são "dependentes em recuperação", que "não podem vencer sozinhos”, e que se entregam nas "mãos de um poder superior". Aprendi rapidinho que qualquer inserção de pensamento crítico na área não era absolutamente bem vinda, quando numa aula para "counselors" (ex-dependentes que fazem um curso de mais ou menos um ano e passam a tratar de outros dependentes, sem qualquer outra qualificação), achei de informar que, apesar de ser uma ex- adolescente, não me refiro a mim mesma como "adolescente em recuperação". Fui reportada à direção.

E, no meio de tudo isso, ainda o sonho antigo de escrever "neurologia para crianças”, que é minha idéia de que, ao ensinar as crianças como o cérebro funciona, ficaria bem mais simples para entenderem o que estaria acontecendo dentro delas, como forma de prevenção. A boa noticia é que finalmente, estruturei essa parte! Aleluia.

Pois bem, estava trabalhando no MHMR no Texas, quando apareceu a possibilidade de fazer um curso introdutório à Psicologia Positiva. Tive a mesmíssima reação que meus gozadores estão tendo para comigo, mas como o curso sairia quase de graça para os trabalhadores da supracitada instituição, e pelo fato de ser curiosa (não, não tenho curiosidade, sou curiosa, pronto!), lá fui. E qual não é meu agradável espanto ao ser introduzida ao mundo da psicologia experimental, só que desta vez com resultados não apenas baseados em observações teórica e testemunhos, mas basicamente o método científico funcionando na prática. Não podia perder essa oportunidade!

Não vou aqui reproduzir a história toda, que vem crescendo desde os tempos dos bons velhos filósofos gregos, como Sócrates e Aristóteles, mas vou reproduzir questões levantadas em todos os tempos:

O que é saúde? É apenas o estado de ausência de doenças? Como isso funciona?
Como todo mundo tinha uma definição diferente, em 1946 a OMS (Organização Mundial de Saúde) veio com a seguinte definição, em uso até o presente momento:
"Saúde é o estado de completo bem estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidades".

E tive problemas com essa definição, desde o dia que a aprendi, muito tempo atrás, ainda na faculdade.

Como assim, completo? Posso estar bem física e mentalmente, mas ver uma criança pedindo esmola na rua na cidade onde moro, é fato certo e seguro me informando que meu social está todo errado. E, querendo ou não, gostando ou não, faço parte desse social.
E quando estou triste, chorando em cachoeira, deixei de ser saudável porque estou sentindo uma emoção que faz parte do estar vivo?

Alguém que teve depressão clínica, não tem mais, mas a vida continua sem muito sabor, é saudável ou não? Vai ser "deprimido em recuperação” para todo o sempre?

E entra estudo da psicanálise e a obra freudiana. Maravilha. Continuo achando que o velho judeu austríaco foi um pioneiro que mudou a maneira de pensar do mundo. Problema era que, com o tipo de pacientes com os quais trabalhava, a psicanálise simplesmente não funcionava. Lembro-me perfeitamente de um paciente que estava vendo pela primeira vez e perguntei "e então, como está?" e ele, usando sua lógica, me respondeu: "sentado". Coisa que realmente estava, bem ali, na minha frente. Como fazer "livre associação"? E entra Eric Berne e sua análise transacional, uma mistura de psicanálise facilitada e terapias comportamentais cognitivas. Começa possibilidade de funcionamento. E finalmente, resolvo estudar as terapias cognitivas, que realmente conseguem fazer diferença, pois atacam diretamente, com o objetivo de mudança, a maneira de pensar de um indivíduo, com consequentes mudanças em seu comportamento. Pronto. Estava em casa.

Faltava só um ponto: vamos dizer que um paciente com depressão está no grau - 5 (usando números, facilita bastante), então com terapia e medicação, chega ao zero. Como fazer para ir para o grau + 5, vamos chamar de ponto de vida vivida, engajada, com sentido?

Essa questão também é antiga. Lembro de um congresso, bem no inicio dos anos 90, onde um psiquiatra italiano chamado Michele Novellino, para o qual acabei traduzindo as palestras, pois os organizadores devem ter achado que, em sendo o mesmo no RS, onde todo mundo que não é descendente de alemão, é descendente de italiano, não havia necessidade de tradutor. Numa de suas palestras, o ponto levantado foi a observação dele de que mulheres que tinham a tendência a ter relacionamentos amorosos com indivíduos realmente complicados, tipo dependentes, jogadores compulsivos, criminosos, realmente saiam de namorar/casar com supracitados indivíduos, mas também perdiam todo o gosto por outros relacionamentos ou pela vida no geral. Era mais ou menos assim como quando tirado o tumor, ficava um buraco no lugar do mesmo que nunca mais era preenchido. Entendi perfeitamente o conceito, por relacioná-lo ao meu uso de aparelho dentário. Usei o raio do aparelho dos 15 aos 20 anos. Meu sonho era o dia em que o tirasse, o sorrir, o poder enfiar os dentes numa maçã sem ficar presa na mesma, o poder até não escovar os dentes logo depois que pusesse qualquer coisa na boca, enfim tudo seria maravilhoso. E o dia chegou e, para meu desespero, não só não foi tão fantástico quanto imaginei, como além de tudo sentia que faltava algo na minha boca, tive que reaprender a mastigar normalmente e doeu! Gente como doeu!

E creio que esse é realmente o ponto da psicologia positiva: aquele no qual o aparelho (doença, distúrbio, problema) foi retirado, e temos que aprender novas técnicas de vida, que nos permitam, não só estar totalmente integrados na mesma, mas nos dão a possibilidade de fazer as modificações necessárias para que possamos também alterar, melhorar o mundo no qual vivemos.

Utopia? Talvez, mas é uma que faço questão de viver.

Eric Berne

Michele Novellino

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

VIOLÊNCIA E DOENÇAS MENTAIS

Os doentes mentais são violentos? São mais violentos que o resto da população? São um risco para a segurança pública?

Essas questões têm permeado o debate, tanto entre profissionais da área quanto entre público leigo, em torno da relação entre violência e doença mental. Para o post de hoje, vou usar o termo "violência" apenas como atos de violência física contra outrem, já que esse extremamente resumido significado é o que mais gera medo entre o público em geral, e é um dos maiores determinantes da discriminação e estigma social sofridos pelos doentes mentais.

Também usarei o epíteto "doença mental" somente para distúrbios mentais não relacionados a uso de substâncias psicoativas, tais como esquizofrenia e depressão, pois distúrbios mentais relacionados a uso de substâncias vão ser identificados e discutidos separadamente, como fatores de risco.

Em geral, e graças ao trabalho incessante de Hollywood e da mídia histérica, a associação, pelo menos na cabeça do público leigo, entre doença mental e violência é amplamente exagerada, quando, na realidade, os doentes mentais têm muito maior chance de serem vítimas do que perpetradores da mesma. Também é moda a crítica new age aos psiquiatras, que são descritos como seres ligeiramente idiotizados e alienados, muito mais preocupados em "imobilizar quimicamente" os pacientes, do que entender o que realmente está acontecendo. Claro, imbecis existem em qualquer profissão. Há padres pedófilos, advogados desonestos, mães que matam os próprios filhos, portanto com certeza há também psiquiatras insanos. O que ninguém fala é que há cada vez mais instrumentos de avaliação de risco de violência, e cada vez mais fazendo parte do arsenal de competência dos profissionais de saúde mental.

Agora, tudo isso só pode ser usado dentro de um ambiente clínico. Ninguém pode sair pelo mundo aplicando o MMPI (Inventário Multifásico de Personalidade de Minesota), em minha opinião o mais acurado teste de personalidade já inventado. Não, pelo menos aqui nos USA, é contra a lei a aplicação do supracitado, a não ser em avaliações clínicas, em ambiente estruturado. Em empresas aqui usam demais o Briggs Myers, divertidinho, que mede as preferências psicológicas, dizendo se somos intro ou extrovertidos, pensadores ou sensitivos e nada a respeito de traços de caráter. Já completei o BM umas 4 vezes, em momentos diferentes, e me descobri 4 pessoas totalmente diferentes, embora até onde saiba, não padeço de qualquer distúrbio de personalidade múltipla e nem acredito que exista. Informo que fiz o teste pela internet, pois há inúmeros sites oferecendo-o gratuitamente.

Muitos psiquiatras, principalmente os que trabalham em Prontos Socorros ou serviços de atendimento de emergência, reportaram casos de violência em pacientes psiquiátricos. No Canadá, onde a violência entre a população em geral é muito menor do que no vizinho de baixo, os USA velho de guerra, e a maioria dos psiquiatras é treinada no manejo e tratamento de comportamento violento, 50% deles reportaram o terem sido atacados por um paciente, pelo menos uma vez. Isso absolutamente não é demonstrativo de violência maior entre doentes mentais, mas apenas uma consequência do fato que, por lei, só vai para tratamento de emergência quem pratica um ato muito violento contra si ou outrem.

Toda a pesquisa feita a respeito de antecedentes dos atos violentos (em ambiente hospitalar), demonstrou que a grande maioria dos incidentes teve antecedentes sócio estruturais tipo: clima emocional na enfermaria, falta de liderança clínica, superlotação, restrições na ala, falta de atividades, ou transições entre atividade mal estruturadas.

Apesar de todos os estudos e pesquisas, o que conta mesmo é a "percepção" do público a um evento, percepção essa modelada cada vez mais pela TV, e agora internet, que continuam vendendo a ideia de violência aleatória, sem sentido e imprevisível, o que, naturalmente, é igual à doença mental. Na realidade, as pessoas se sentem mais seguras em saber que alguém foi esfaqueado e morto durante um assalto, do que esfaqueado e morto por um psicótico.

Numa série de pesquisas cobrindo vários fatos reais na Alemanha, Angermeyer and Matschinger (1) demonstraram que o desejo do público de manter um distanciamento social dos mentalmente doentes aumenta marcadamente após cada ataque que tenha sido muito enfatizado pela mídia, e nunca volta para valores anteriores ao sucedido. Pior, esses incidentes correspondem a um aumento na percepção pública da ideia que o doente mental é perigoso e imprevisível.

Já aqui nos EUA, Pescosolido e cols (7) entrevistaram amostras de público americano em diferentes estados, para avaliar pontos de vista a respeito de doenças mentais e seus tratamentos. Os entrevistados avaliaram os seguintes grupos como muito prováveis de perpetrar algum ato violento:

Drogadependentes: 87,3%
Dependentes de Álcool: 70,9%
Esquizofrênicos: 60,9%
Depressivos Severos: 33,3%
Confusos no geral: 16,8% (adorei essa classificação, e há dias nos quais sinto que a mim se aplica perfeitamente)

Embora a probabilidade de violência tenha sido universalmente superestimada, os entrevistados classificaram corretamente os toxicodependentes como grupos de maior risco. Da mesma forma, superestimaram o risco de violência entre esquizofrênicos e depressivos, mas os identificaram corretamente entre os grupos de menor risco.

Como estamos vivendo a era onde "percepções" são mais validadas do que fatos, essa percepção do doente mental como ser predisposto à violência, além de ser base para todo o estigma e discriminação, também fornece justificativas para o "bullying" e outras vitimizações do mesmo, fatos estes que passam completamente despercebidos da mídia e, por conseguinte, do público leigo.

Pela graça do Senhor dos Desgraçados, a comunidade científica está muito mais interessada em checar se os mentalmente enfermos cometem mais ou menos atos de violência que os assim chamados normais, do que ficar soltando diagnósticos televisivos, de forma que o que até agora temos em termos de pesquisa na área é:

O Estudo de Avaliação de Risco de Violência da Fundação MacArthur (6), considerado como a mais sofisticada tentativa de clarificar o problema, trouxe os seguintes dados:

1 - A prevalência de violência entre aqueles com um grave distúrbio mental, que NÃO abusam de substâncias, é indistinguível da de "sujeitos controles", que também NÃO usam drogas.
2 - Pessoas com esquizofrenia têm a menor taxa de violência (14,8%), quando comparados com distúrbio bipolar (22%) ou depressão maior (28,5).
3 - Abuso de substâncias é um fator de risco enorme para violência, sendo que, quando no contexto de uma situação onde o drogado tem algum distúrbio mental e recusa-se a tomar seus medicamentos (ou sequer foi diagnosticado), o risco aumenta exponencialmente.
4 - No geral, incidentes violentos entre pessoas com transtornos mentais graves foram desencadeados pelas condições de sua vida social, pela natureza e qualidade de suas interações sociais mais próximas:
membros da família ou amigos: 87% (violência tipicamente ocorre na casa), igual a não doentes mentais
completos estranhos: 10,7%, bem baixo se comparados com não doentes mentais (22.2%)

As famílias de doentes mentais, onde foi encontrada a maior parte dos incidentes violentos, caracterizaram-se como tendo relacionamentos de ameaça mútua, hostilidade e dependência financeira, abuso de substâncias simultâneamente, e quando os serviços ambulatoriais de saúde mental eram utilizados com pouca frequência.

Um estudo de Programática Epidemiológica (4) demonstrou que a violência numa comunidade poderia ser diminuída em 10% se fossem eliminados os principais transtornos mentais, mas a queda seria de 30% se as dependências e abusos de substâncias fossem eliminados.

Quer me parecer que está claro que distúrbios mentais não são as causas necessárias ou suficientes para violência, cujo maior determinante continua sendo socioeconômico e sociodemográfico (jovem do sexo masculino e de baixo status sócio econômico); claro está também que o público superestima a relação entre violência e doenças mentais e o risco pessoal de sofrer violência daí decorrente.

O pior é que ABUSO DE SUBSTÂNCIAS parece ser o maior determinante de violência, com ou sem doença mental.

Aqueles que usam e abusam de drogas são os principais contribuintes para a violência na comunidade, representando 7 em cada 10 crimes cometidos.

Também acho que todo mundo se concentra muito mais nos problemas com gente que tem distúrbios mentais do que com as interações sociais que levam à violência, de forma que muito pouco sabemos a respeito da natureza dessas relações e dos determinantes dessa mesma violência, perdendo nossas oportunidades de pensar e fazer prevenção primária.

Mesmo assim, todas as pesquisas mais recentes têm demonstrado que a melhor estratégia de prevenção de violência é a identificação precoce e o tratamento de problemas de abuso de substâncias, assim como maior atenção ao diagnóstico e tratamento das mesmas, tanto entre os que sofrem de distúrbios mentais, quanto na população em geral.

Tratei de pacientes esquizofrênicos por muito tempo, e sofri uma única agressão feia, e, infelizmente, a culpa foi minha. Fui chamada para ver uma paciente que estava agitada no hospital. Não conhecia a paciente, já que minha área era a ala masculina, mas, como não tinha mais ninguém lá, fui e abri a porta do quarto da mesma, de supetão, sem aviso prévio. Fui brindada com um lançamento de cama, e, por sorte, porque era nova, magrinha e rápida, me enfiei num canto em posição fetal. Os pés da cama bateram nas paredes e comigo não aconteceu nada, mas um dos enfermeiros teve um braço quebrado.

De outra vez, lição aprendida, conversei por cerca de uma hora com um paciente esquizofrênico e a senhora sua mãe que queria que ele me matasse. Até puxei a cadeira para que a senhora se sentasse, e a convenci que não merecia ser morta. Detalhe, ela estava falecida há 10 anos.

Para compensar, trabalhando com dependentes no glorioso estado do Texas/USA, a maioria dependente de metanfetaminas, tive os vidros de meu carro estilhaçados, pneus retalhados e outras cositas mais, comportamento que acabou quando passei a ir ao trabalho com minha cachorra Lucky, um great pyrenee de 80 Kg, da qual a maioria tornou-se amiga para a vida toda.
Abaixo vai a bibliografia usada neste artigo e dados estatísticos.

1 - Angermeyer MC. Matschinger H., Violent attacks on public figures by persons suffering from psychiatric disorders. Their effect on the social distance towards the mentally ill. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 1995;245:159–164
2 - Cascardi M. Mueser KT. DeGiralomo J, et al. Physical aggression against psychiatric inpatients by family members and partners. Psychiatr Serv. 1996;47:531–533.
3 - Hiday VA. The social context of mental illness and violence. J Hlth Soc Behav. 1995;36:122–137.
4 - Link BG. Stueve A. Psychotic symptoms and the violent/illegal behavior of mental patients compared to community controls. In: Monahan J, Steadman HJ, editors. Violence and mental disorder: developments in risk assessment. Chicago: Chicago University Press; 1994. pp. 137–159.
5 - Marzuk P. Violence, crime, and mental illness. How strong a link? Arch Gen Psychiatry. 1996;53:481–486
6 - Monahan, J., Steadman, H., Silver, E., Appelbaum, P., Robbins, P., Mulvey, E., Roth, L., Grisso, T., & Banks, S. (2001). Rethinking Risk Assessment: The MacArthur Study of Mental Disorder and Violence. New York: Oxford University Press.
7 - Noffsinger SG. Resnick PJ. Violence and mental illness. Curr Opin Psychiatry. 1999;12:683–687.
8 - Pescosolido BA. Monahan J. Link BG, et al. The public's view of the competence, dangerousness, and need for legal coercion of persons with mental health problems. Am J Public Hlth. 1999;89:1339–1345.
9 - Swanson JW. Mental disorder, substance abuse, and community violence: an epidemiologic approach. In: Monahan J, Steadman HJ, editors. Violence and mental disorder: developments in risk assessment. Chicago: University of Chicago Press; 1994. pp. 101–136.
10 - Swartz MS. Swanson JW. Hiday VA, et al. Violence and severe mental illness: the effects of substance abuse and nonadherence to medication. Am J Psychiatry. 1998;155:226–231.
11 - Wessely S. Violence and psychosis. In: Thompson C, Cowen P, editors. Violence. Basic and clinical science. Oxford: Butterworth/ Heinemann; 1993. pp. 119–134.

FATOS A RESPEITO DE DOENÇA MENTAL E VIOLÊNCIA:

1. A grande maioria das pessoas com doenças mentais não é violenta. (Institute of Medicine, 2006, American Psychiatric Association, 1994).
2. O público está totalmente mal informado a respeito da relação entre doença mental e violência. (Pescosolido, et al., 1996, Pescosolido et al., 1999).
3. Crenças inexatas sobre a doença mental e violência levam ao estigma e discriminação generalizadas (DHHS, 1999, Corrigan, et al., 2002).
"O estigma faz com que as pessoas evitem viver, conviver, trabalhar, alugar ou contratar pessoas com transtornos mentais - especialmente distúrbios graves, como esquizofrenia. Isso leva a baixa autoestima, desesperança, isolamento, impedindo ainda a busca de cuidados necessários. Respondendo ao estigma, as pessoas com problemas mentais internalizam as atitudes públicas e tornam-se constrangidas e envergonhadas, fazendo com que escondam os sintomas e não procurem tratamento". (New Freedom Commission, 2003).
4. A ligação entre doença mental e violência é promovida pela indústria do entretenimento e pela mídia.
"Personagens (em horário nobre da televisão) retratados como tendo uma doença mental são descritos como o mais perigoso de todos os grupos demográficos: 60% deles envolvidos em crimes ou violência." (Mental Health American, 1999).
"A grande maioria das notícias sobre doentes mentais, concentra-se nas características negativas (por exemplo, imprevisibilidade e insociabilidade). Notavelmente ausente são histórias positivas de recuperação, mesmo com a mais grave das doenças mentais". (Wahl, et al., 2002).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

NOSSO CÉREBRO É UMA FARRA OU 5 FATORES BIZARROS QUE SECRETAMENTE INFLUENCIAM NOSSAS OPINIÕES

Esta é a tradução de um artigo, cujo link para o original está no final. O que estiver entre parênteses, é opinião minha e o autor não tem nada a ver com isso, além do que, a tradução é bem livre.

De muitas formas, nossas opiniões nos definem. Gritamos em maiúsculas nas mídias sociais, gastamos nosso tempo em discussões com o colega de trabalho porque ele prefere a marca errada de telefone, perdemos tempo tentando enfiar "as ideias certas" na cabeça dos outros com "ideias erradas". Apesar disso tudo, o pessoal de vendas e cientistas sabem que nossas opiniões não são tão constantes quanto acreditamos. A cada dia, dezenas de coisas estranhas e aparentemente insignificante torcem nossas preferências. Se não acreditar, veja abaixo:

A TEMPERATURA AFETA NOSSO GOSTO POR FILMES
Se der uma olhadinha na lista dos filmes românticos mais populares, vai notar algo esquisito: metade da lista dos 10 maiores sucessos foi lançada, nos Estados Unidos, em Novembro ou Dezembro (inverno), e isso apesar do fato de que, normalmente, os blockbusters lançados no verão (julho) são os que teoricamente fazem mais dinheiro. Assim, os curiosos dos cientistas foram investigar a coisa e descobriram a mesma tendência em filmes alugados: os românticos são mais alugados no inverno. Daí também descobriram que, na Europa, dá para mapear que gênero de filme que vai fazer mais sucesso, apenas medindo a temperatura média do país. Enfim, tudo aponta para o fato de que simplesmente apreciamos um bom romance quando o tempo está frio.

OK, você pensa, talvez isso nada tenha a ver com preferências, talvez os grandes estúdios simplesmente coloquem mais filmes românticos no mercado na estação fria (embora se estiverem tentando fazer dinheiro em cima do dia de São Valentim - dia dos namorados, nos EUA e Europa, é no meio de fevereiro - eles lançam o filme uns meses antes).

A experiência funcionou assim: Colocaram metade das pessoas em uma sala fria e tomando chá gelado, e a outra metade em salas aquecidas tomando chá quente. Depois de um tempinho, ambos os grupos tiveram que responder a respeito de que filme haviam gostado mais dos 4 diferentes gêneros oferecidos: romance, mistério, ação e comédia, e os da sala fria escolheram o filme romântico.

A teoria é que, o cérebro está tentando nos manter aquecidos, pois pensamos em sensações românticas como "quentes" (palmas das mãos suadas, rubor, aceleração dos batimentos cardíacos). Também associamos proximidade com outras pessoas com "calor" (quando dizemos que a relação entre duas pessoas está acabando, usamos a palavra "esfriou"), e então quando sentir frio, você quer ver pessoas sexy ficando cada vez mais perto uma das outras, isto é "esquentando" por 90 minutos.

Nossos cérebros, de forma inconsciente, nos dizem o que precisamos durante o tempo frio, e assim nos faz "ansiar" por este "calor" psicológico. Infelizmente, para que isso seja conseguido, temos que nos submeter a uma overdose de Katherine Heigl e Ashton Kutcher, mas hei, ninguém nunca disse que a sobrevivência seria fácil.


DESEJAMOS MUITO MAIS QUALQUER COISA, SE APENAS A TOCARMOS

Pessoas realmente persuasivas sabem que tudo é toque: vendedores ou políticos são rápidos no dar um tapinha nas costas ou um aperto de mão, a garçonete sabe que se tocar seu braço vai ganhar gorjeta maior, e se a coisa que está vendendo é um produto físico, sabem perfeitamente que é melhor deixar os clientes colocar seus dedinhos gorduroso na coisa. É por isso que vendedores de automóveis são tão ansiosos em fazê-lo testar o veículo (a técnica é conhecida como "A sensação da roda vai selar o acordo"). Por que? Porque para nós, humanos, o toque é quase uma forma de controle da mente. Seja lá o que for, se tocar algo, vai se apegar à coisa. Não só as pessoas estão mais propensas a comprar algo que tocaram, mas estão realmente dispostos a pagar mais - é por isso que, se o produto vem em uma caixa, a loja vai colocar um modelo de exibição no qual se pode mexer à vontade. E nem conta se não se conseguir muita informação sobre o produto. O colocar nossas mãozinhas sobre um objeto faz com que a ele nos sintamos conectados, podendo até mesmo nos dar uma falsa sensação de posse.

Também faz diferença de como o objeto é sentido pelas nossas mãos, e não estamos apenas falando que julgamos uma camisa baseados no quão macia ela é, isso até que faria sentido. O que quero dizer é que um estudo demonstrou: água servida num copo firme tem melhor sabor que a servida num copo pouco sólido, apesar do fato de ser exatamente a mesma água. Mesmo aqueles que foram informados a respeito do copo mais firme, continuaram achando que a água era melhor porque o copo era sentido mais adequado ao toque. Ou você acha que é à toa que a água Fiji, caríssima, vem em garrafas muito mais densas, contendo o dobro do plástico das outras? Ou que a Perrier continua usando as velhas boas garrafas de vidro? (Aliás, lembro-me muito bem da avó de uma grande amiga minha que, para nos fazer tomar o raio da Emulsão Scott, sim aquela do cara carregando o peixe nas costas, e que as crianças, com exceção de meu irmão, que gostava da coisa, corriam tão logo sentiam o cheirinho, começou a nos oferecer a coisa nuns copos de cristal vermelho, da Boemia. Não cheguei a gostar, mas era muito mais tragável.)

Se quiser saber o futuro da lavagem cerebral baseada no toque, é simples, envolve todos os produtos que se gosta de tocar. A Sony já está tentando isso com seu robô QRIO - uma coisa que vagamente se parece com um cachorrinho, e que reconhece rostos e responde ao toque. Soltou um bando dessas coisas num grupo de crianças de 2 anos. Usualmente, crianças dessa idade tratam robôs do mesmo jeito que outros brinquedos, ou seja, jogando-os para cima e para baixo, contra as paredes, etc. Mas, QRIO é diferente: como tem sensores para toque, cada vez que é tocado, solta risadinhas de prazer, e quando começou a fazer isso, as crianças os reconheceram como um ser vivo, e, ao invés de atirá-lo contra a parede, as criancinhas começaram a tocá-los gentilmente, como se fosse outra criança e até puseram um cobertorzinho em cima para que pudesse tirar uma soneca.

Está na cara, a primeira companhia que fizer um telefone celular que soltar ruidinhos de prazer quando tocado, vai dominar o mercado.


SEU NOME PODE INFLUENCIAR SUAS ESCOLHAS DE VIDA

Vamos supor que você viva em Milwaukee. Agora dê uma olhada na lista telefônica e veja quantas pessoas chamadas Mildred vivem na cidade. As chances são que esse nome apareça muito mais vezes do que seria de esperar. Estatisticamente falando, a mesma coisa ocorre com Jack em Jacksonville, Virgil em Virginia e Fred em Fresno.

Por que? Parece que as pessoas se mudam para lugares que tenham nomes similares a seu próprio. E caso você ache que é pura besteira, espere para ler o resto. Em ciência, é chamado EFEITO DO NOME E DA LETRA, e pode influenciar, de forma sutil, toda sua vida. Por exemplo, seu nome afeta também suas visões políticas por alterar sutilmente seu comportamento na hora do voto. Na eleição presidencial de 2000 dos Estados Unidos, foi checado que, pessoas cujo sobrenome começava com B tenderam a votar no Bush, e aquelas com G no Gore.
O mesmo acontece com investidores em Wall Street, que tendem a usar companhias que soem semelhantes ao próprio nome, assim como se seu nome é Michel, provavelmente comprará pneus Michelin.

Procurando emprego? Sua companhia de preferência pode ter suas mesmas iniciais, e a primeira letra de seu nome pode determinar sua escolha de vida. Há um excesso de dentistas cujo nome começa com D e advogados (lawyers em inglês) com nomes tais como Larry e Laura.

A teoria é que tudo isso acontece porque nossos cérebros são bobinhos egoístas que pensam que os pedaços do alfabeto que iniciam nossos nomes são, de alguma forma, melhores letras (não à toa já foi provado que o som mais agradável ao ouvido humano é o som do próprio nome, e é por isso que políticos espertos tem um "soprador" sempre por perto, para lhes lembrar o nome das pessoas - aliás isso foi muito bem demonstrado no filme "O diabo veste Prada").

Alguns psicólogos acreditam que isto se liga a um fenômeno chamado "egoísmo implícito": nós respondemos de forma mais favorável a tudo o que nos faz lembrar de nós mesmos, não importando o quão ilógico e arbitrário.

GESTOS PODEM MANIPULÁ-LO

Se for destro, você vai preferir, instintivamente, coisas que estejam à sua direita, e vice-versa se canhoto for. A teoria é que, embora pensemos com o cérebro, são nossas mãos que interagem com o mundo, e assim "enganam" o cérebro para que este goste das coisas que estão ao alcance da mão que preferimos usar. Está mais do que provado que lembramos mais de fatos associados a gestos do que coisas dissociadas, o que provavelmente explica porque algumas pessoas gesticulam tanto quando estão contando uma história (qualquer um sabe como é isso se já viu um italiano falando, tanto que meus amigos sempre brincaram comigo, dizendo que a única forma de me emudecer, seria algemando minhas mãos).

Então vamos aos fatos: vamos supor que você testemunhou um assalto a um banco. Os policiais chegam a você e lhe pedem para descrever o assaltante. O policial pergunta: "Ele tinha barba?" E faz isso passando a mão no próprio queixo, como se você não soubesse que diabos é uma barba e ele tivesse que desenhar. Nesse momento você pensa: "Sim, acho que sim, acho que tinha barba sim". Adivinhe só: o gesto do policial acabou de programar sua memória.

A Universidade de Hertfordshire fez uma série de testes nos quais os participantes eram entrevistados a respeito de um vídeo que tinham acabado de assistir. Enquanto faziam as perguntas, os pesquisadores deliberadamente faziam gestos enganosos, por exemplo, colocar a mão no queixo para sugerir barba ou botando o dedo no pulso para sugerir relógio. Olha só no que deu: Os indivíduos do teste foram três vezes mais propensos a acreditar que o cara no vídeo tinha uma barba se o entrevistador fingiu passar a mão num cavanhaque inexistente enquanto perguntando sobre isso. Estes não eram "lapsus lingua" onde você diz "barbudo", apesar de pensar "barbeado". O gesto, na verdade, fez uma lavagem cerebral nos sujeitos do teste, fazendo-os honestamente acreditar que o cara tinha uma barba. E sim, quando um político ou um advogado se levanta e faz os gestos com as mãos para sublinhar seu ponto de vista, tipo apontando para a plateia, batendo a palma da mão com o punho, pode saber que a coisa funciona totalmente (Quem não me acredita, pode fazer a seguinte experiência: vai assistir um culto, digamos numa Assembleia de Deus, e me conta se, depois do discurso inflamado do pastor, você não está prontinho para pagar seu dízimo.Aliás, passei por um experimento desses a alguns anos atrás: Foram colocadas gravações dos discursos do Hitler, com as músicas que tocavam na época e tudo mais. Eu não entendo uma palavra de alemão. Depois de meia hora, estava pronta para sair marchando. Tem um filme excelente e velho, mostrando esse fenômeno. Chama-se "The Wave - A Onda"tradução minha, não faço idéia de como foi traduzido em português).

Há guias detalhados sobre o que exatamente você deve fazer com as mãos, se você quer que o público compre o que você está vendendo. É por isso que um presidente não pode simplesmente dizer: "Eu vou acabar com nossos inimigos" - ele (ou ela) precisa realmente fazer um gesto em direção a virilha para obter o efeito total.

O ANALIZAR POR DEMAIS SEUS PRÓPRIOS PENSAMENTOS PODE MUDAR SUA OPINIÃO PARA PIOR.

Então você acabou de ler tudo isso e diz: "Estão vendo? Aqui está a razão pela qual é importante pensar logicamente a respeito de todas as nossas opiniões. É porque respondemos sem refletir que fazemos escolhas tão imbecis, e somos facilmente manipulados."

Certo. Que tal se lhe disser que, em muitos casos, longo pensar a respeito de uma decisão acaba por fazê-la mais errada ainda?

Já foi convencido a deixar de gostar de algo? De repente você assistiu a um filme meio besta e adorou, divertiu-se às pampas. Daí você conversa com seu amigo "connoisseur" de cinema, e este lhe demonstra todas as falhas na trama, o absurdo da história, a falta de lógica dos personagens...bem depois de algum tempo você não admite mais nem para si mesmo que você curtiu o filme. Mesmo quando você está pensando em sua experiência pessoal no cinema, tudo que lhe vem à mente são as falhas do roteiro. Aí você pensa que o amigo o levou a uma percepção "acertada" do filme, mas todas as pesquisas mostram que é igualmente simples ser levado a uma conclusão totalmente errada. Pesquisadores testaram isso com experimentos onde os indivíduos foram convidados a opinar sobre coisas como que curso universitário preferiam ou que marca de geleia tinha melhor sabor.

O "truque" foi que alguns dos participantes foram convidados para simplesmente provar ou experimentar algo e seguir em frente, enquanto outros foram convidados a "realmente" pensar sobre sua decisão antes de torná-la oficial. Os sujeitos que mais refletiram sobre suas opiniões, estavam muito menos de acordo com a opinião de especialistas que os outros que não "refletiram". Quanto mais pensaram, mais errados se tornaram. Como isso é possível?
É o seguinte: quando somos forçados a pensar ou expressar o porquê gostamos de algo, somos imediatamente induzidos para opiniões que possam realmente explicar ou que possam ser verbalizadas. Em outras palavras, experimentamos 5 geleias e achamos que a número 4 é a que tem gosto melhor, porque naquele instante, nossos sentidos estão levando em consideração milhares de coisas diferentes das quais não temos a menor consciência, mas pressionados para explicar em detalhes qual a que gostamos mais e porquê, passamos imediatamente a pensar em coisas facilmente quantificáveis, assim, de repente passamos a pensar que a geleia numero 2 tem mais framboesas, a número 1 tem uma cor linda. Na realidade nenhuma dessas coisas afetou nosso gosto, só estamos tentando fazer parecer que nossa decisão pode ser explicada por uma cadeia lógica, enquanto nossa língua já tinha acertado da primeira vez. É mais ou menos como o exemplo do filme antes. Enquanto estava assistindo, a soma de todas suas partes nos encantou, mas em seguida, alguém nos obrigou a fazer uma lista de prós e contras, e ai percebemos que não dá para defender nossa curtição, pelo menos não de forma lógica.

O fato é que, quando forçados a nos limitarmos a qualidades simples e fáceis de discutir, subitamente a mágica acaba, e usamos a lógica para destruir nossa curtição do momento.

Legal nosso cérebro, né não?

5 bizzarre factors that secretly influence your opinions



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

VIOLÊNCIA E APRENDIZADO


Violência e/ou o medo dela têm sérias implicações em termos de desempenho, frequência e graduação escolar.
A presença da violência impacta não apenas os indivíduos que a cometem ou sofrem, mas também todas as instituições e a comunidade, interferindo com o aprendizado e sucesso nos estudos.

Embora as estatísticas abaixo sejam todas americanas, dado que não achei nada parecido no Brasil, tenho certeza que podem ser extrapoladas, pois, infelizmente, temos a triste tendência de copiar os piores hábitos dos hermanos aqui do norte. Então vamos aos fatos:

Um em cada 4 estudantes do ensino fundamental e médio é vítima de violência na escola ou em torno da mesma. (1)
Medo, na escola e na comunidade, tem efeitos mensuráveis sobre a frequência escolar,
o comportamento e as notas (2)


Crianças no início do ensino fundamental, e que tem história de exposição à violência ou dela são vítimas, têm, em média, 7 pontos a menos na medida de QI (quociente de inteligência) e maior dificuldade em aprender a ler e escrever. (3)

Crianças de escola fundamental e média em ambiente urbano, e que testemunharam atos violentos na comunidade, apresentam níveis mais baixos de excelência acadêmica, o que persiste ao longo do tempo. (4)


No nível da comunidade, violência causa:

Ruptura das redes sociais essenciais para um ambiente de apoio básico, para que possam existir escolas de qualidade (5)

Desestimula o investimento em instituições comunitárias como escolas (6)

No nível individual:

Afeta a saúde emocional dos pais, influenciando sua capacidade de atender a questões escolares (7)

Gera estresse e ansiedade entre as crianças, afetando sua capacidade de se concentrar no aprendizado, e pode causar distúrbios dos stress pós traumático (8)

Leva à diminuição da frequência escolar, por medo do que pode acontecer indo para a escola, ou/e dentro da mesma (9)

No nível institucional (escola):

Cria um ambiente de restrição e de medo, que interfere no processo de aprendizagem e desenvolvimento da criatividade e na capacidade de pensamento crítico e exploratório. (10)

Desgasta os recursos necessários para garantir ao estudante o aprendizado de disciplina, pertencimento e cidadania (11)

Instila medo nos professores e administradores, afetando assim sua capacidade de se concentrar em educar e apoiar os alunos. (5, 10, 11)

Cria um ambiente de medo, que afeta a capacidade para recrutar e manter professores e administradores de qualidade (4,10,11)

O que significa isso tudo? Significa que estamos numa situação perversa, que só pode gerar mais violência.

Lembro perfeitamente que quando era criança, o estudar em escola pública era muito mais difícil que em escola particular. Não havia cursinhos para o vestibular, o colégio bastava para tanto. E aí aconteceu 1964 e a Ditadura. Não lembro exatamente em que ano aconteceu precisamente o que, mas recordo perfeitamente de ter ido fazer cursinho junto com o terceiro ano do que, na época, chamava-se científico. Também me lembro que assim, de repente, faculdades particulares foram abrindo em tudo que era lugar. Também me lembro, durante a faculdade, do medo que permeava o falar. Ninguém sabia se estávamos falando com um amigão querido ou alguém infiltrado para dedar os perigosos "esquerdistas" estudantes. O que lembro bem foi a decadência terrível do ensino público, que era (e deveria continuar sendo), a coisa mais democrática a ser oferecida. Agora há que se pagar excelentes colégios particulares, para que o jovem tenha a possibilidade de entrar numa Universidade Pública, tipo USP, que continua sendo gratuita.

Embora a diferença seja que aqui, a cada semana tem um desastre do tipo gente entrando em escolas e atirando, ou matando o motorista de ônibus e pegando as crianças, aí no Brasil, embora seja raríssimo tiroteio dentro de escola, a violência em torno da mesma, ou espalhada pela cidade toda, é diária e contínua. Só para lembrar alguns dados que peguei de jornais brasileiros:

Globo news 29/11/2012 "- Brasilia

"Na maior universidade da capital, um professor acabou no hospital após ser agredido por um estudante. Em uma escola pública de ensino básico, um aluno foi morto a facadas pelo colega. “A violência nas escolas reproduz a violência na sociedade, não é um fenômeno intramuros isolado”, afirma a coordenadora de Ciências Humanas e Sociais da Unesco no Brasil, Marlova Noleto."

“As percepções de alunos, pais e membros do corpo técnico pedagógico de escolas públicas e privadas em 14 capitais brasileiras estão reunidas no livro "Violências nas escolas", o maior e mais completo estudo já feito sobre o assunto na América Latina. A pesquisa foi desenvolvida nas áreas urbanas das capitais dos Estados de Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo e em Brasília (DF)”.

UOL Educação

"Violência urbana: Homicídios no Brasil superam números de países em guerra. Na semana passada, uma adolescente de 15 anos foi assassinada por causa de um aparelho celular em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. Ela foi mais uma vítima da onda de violência na maior metrópole do país, que em apenas uma semana deixou pelo menos 50 mortos."


Creio que é suficiente. Ficamos horrorizados com os "loucos americanos", mas quem é pior? E o problema também não está em se decidir quem é mais maluco, embora mister se faça esclarecer que, violência, assassinatos e horrores causados por doentes mentais somam menos que 5% de todos os casos de violência, só que quando eles cometem algum, é notícia de TV por uma semana. Mais, quando um doente mental comete um ato desatinado, não o faz por ganância, arrogância ou por pertencer a alguma gangue. O faz seguindo suas vozes internas que confundem e atrapalham a percepção de realidade.

Creio que o grande problema é que nos adaptamos à violência. Faz parte de nosso dia a dia, e o que fazemos para combatê-la é colocar grades em portas e janelas, vamos morar em redutos cada vez menores, de "gente de bem", pagando absurdos por sistemas de segurança manejados por muito mal pagos e menos ainda treinados "zeladores”. Ensinamos nossas crianças a não falarem com estranhos, a serem levadas e trazidas por nós mesmos até a porta da escola, estacionando em fila tripla e, surpresa das surpresas, quando fazemos isso, não achamos que estamos cometendo qualquer violência contra os pobres coitados que têm que usar a mesma rua, para, por exemplo, irem ao trabalho. Não consideramos violência quando um vereador ganha pelo menos 200 vezes mais do que um professor, vereador este, que em minha opinião de italiana do contra, como meu pai me chamava de vez em quando, tem infinitamente menor utilidade que um professor. Não consideramos violência o fato de que se paga absurdos para ter um convênio médico que pode nos deixar na mão a qualquer momento, dependendo do que decidirem os que lá estão decidindo sobre nossa saúde. E são tantos os exemplos que se continuar isto fica maior do que guerra e paz (o livro).

Na realidade, a grande solução já apontada por filósofos, sociólogos, estudiosos do assunto, pensadores, poetas e escritores (espantosamente, nunca por um político), está em nós mesmos, em nossa capacidade de nos juntarmos, praticarmos e ensinarmos a nossas crianças que "meu direito termina quando começa o seu", que ter o tênis do momento não o faz uma pessoa melhor, apenas mais um escravo das tendências, e que as velhas e boas virtudes tais como as ensinaram Aristóteles e Platão (honestidade, conhecimento, justiça, generosidade, persistência, compaixão, integridade, altruísmo, lealdade e autocontrole), ainda são, não apenas o melhor antídoto contra as vicissitudes da vida, mas a única maneira de alcançar a felicidade.
Abaixo vai uma lista dos trabalhos nos quais me baseei para as estatísticas que abrem este post. Os números 12 e 13 são links em português que merecem ser lidos.

1-Everett SA, Price JH. Students’ perceptions of violence in the public schools: a metLife survey.
2- Shakoor BH, Chalmers D. Co-victimization of African-American children who witness violence: effects on cognitive, emotional, and behavioraldevelopment. J Natl Med Assoc. 1991 March; 83(3): 233–238 and Bowen NK, Bowen GL. Effects of Crime and Violence in Neighborhoods and Schools on the School Behavior and Performance of Adolescents ,Journal of Adolescent Research July 1999 vol. 14 no. 3 319-342.

3- Delaney-Black V, Covington C, Ondersma S, Nordstrom-Klee B, Templin T, Ager J, Janisse J, Sokol RJ. Violence exposure, trauma and IQ and/or reading deficits among urban children. Arch Pediatr Med. 2002;156;280-85.

4- Henrich CC, Schwab-Stone M, Fanti K, Jones SM, Ruchkin V. The association of community violence exposure with middle school achievement:a prospective study. J Applied Dev Psych. May/June 2004;25 (3); 327-48 e Schwartz D, Gorman AH. Community violence exposure and children’s academic functioning. J Educational Psych. March 2003;95 (1); 163-73 )

5- Schwartz D, Gorman AH. Community violence exposure and children’s academic functioning. J Educational Psych. March 2003;95 (1); 163-73.

6- Buka SL, Stichik TL, BiIdthstle I, Earls FJ. Youth Exposure to Violence: Prevalence, Risks, and Consequences. American Journal of
Orthopsychiatry, 2010, 71 (3):298–310.

7- Margolin G, Gordis EB. The Effects of Family and Community Violence on Children. Annual Review of Psychology. February 2000,
Vol. 51: 445-479.

8- Schwartz D, Proctor L. Community Violence Exposure and Children’s Social Adjustment in the School Peer Group: The Mediating Roles of Emotion Regulation and Social Cognition. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 2000, 68:670–682. e Glew GM, Ming-Yu Fan, Katon W, Rivara FP, Kernic MA. Bullying, Psychosocial Adjustment, and Academic Performance in Elementary School.Arch Pediatr Adolesc Med. 2005;159:1026-1031.

9- Ratner H, Chiodo L, Covington C, Sokol RJ, Ager J, Delaney-Black V. Violence Exposure, IQ, Academic Performance, and Children’s Perception of Safety: Evidence of Protective Effects. Merrill-Palmer Quarterly. Volume 52, Number 2, April 2006, pp. 264-287.

10- Glew GM, Ming-Yu Fan, Katon W, Rivara FP, Kernic MA. Bullying, Psychosocial Adjustment, and Academic Performance in Elementary School, Arch Pediatr Adolesc Med. 2005;159:1026-1031.

11- Nansel TR, Overpeck M, Pilla RS, Ruan WJ, Scheidt P. Bullying Behaviors Among US Youth Prevalence and Association With Psychosocial Adjustment. JAMA. 2001;285(16):2094-2100.

12- Representação da Unesco no Brasil VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS

13- Violência nas escolas  VERGONHA BRASILEIRA