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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

VIOLÊNCIA E DESCASO: NOSSOS PECADOS CAPITAIS - I


Fico imaginando se tem alguma diferença, quando ambos levam à morte, horror, dores inimagináveis para os que não ainda as sentiram. Final do ano passado e começo deste, caracterizaram-se, ao menos em minha opinião, por horrores sem sentido e sem razão.

Em Dezembro 2012, na cidade de Newtown, Connecticut, um jovem de 20 anos entrou numa escola primária e matou 20 crianças com idades entre 4 e 6 anos, e mais 6 adultos, professoras diretora e psicóloga da mesma escola.
Janeiro 2013, na cidade de Santa Maria, RS, morreram 250 jovens, cujo único pecado foi irem a uma festa, numa casa noturna.
Então, o que tem a ver uma coisa com outra? Várias coisas:

1 - Morte de gente que não estava apresentando nenhum comportamento de risco, não estava vivendo digamos, debaixo de um vulcão ativo, nem foram atingidos por nenhum desastre natural.

2 - Em ambos os casos, houve tremendo descaso por parte de quem deveria ser responsável. No caso americano, a mãe do rapaz que morreu e matou as crianças, por ter em casa um jovem com severos problemas mentais, problemas esses escondidos e não tratados, e ainda por cima, armas de alto calibre, as quais ensinou o rapaz a usar. Pagou com a própria vida, mas levou muitos inocentes juntos. No caso do Brasil, os donos e gerente da tal casa noturna, sem nenhuma prevenção contra fogo, sem sprinklers, extintores não funcionantes, uma única saída, seguranças mal treinados, casa superlotada.

Em ambos os casos, tremendo descaso. Descaso pela vida. Será que há violência maior?

Do latim violentĭa, a violência é a qualidade daquilo ou daquele que é violento ou a ação e efeito de violentar outrem ou violentar-se. A violência é um comportamento deliberado que pode causar danos físicos ou psíquicos ao próximo. Assim, na língua portuguesa (e inglesa) o conceito de violência é meio que resumido. Em francês, inclui um conjunto muito mais amplo de significados. Inclui o físico, o social e o que é chamado de violência simbólica. Por exemplo, podemos falar da violência simbólica contida na linguagem, na arquitetura, nos gestos, na pintura, nas diretrizes do governo, nos problemas de classe ou sexo. É este referencial que vou usar.

Em seu influente estudo sobre a violência (On Violence), Hannah Arendt explorou o equilíbrio entre as estruturas de poder institucional e a violência, um equilíbrio que foi destruído quando meios violentos foram adotados para limpar e reorganizar o mundo através do fascismo, nazismo, coletivismo e imperialismo no século XX. Para ela, estas formas de violência tornaram-se os fatores chave para a percepção existencial da quebra dos laços humanos, sob a filosofia moderna de poder. 1984 de George Orwell define o padrão sobre o assunto. Neste romance, o medo, a dor, e o sofrimento são os resultados do totalitarismo não verificado, num mundo emocionalmente isolado e essencialmente sem sentido.
E finalmente, o que acho que descreve como ninguém o social que vivemos aqui nos USA, "O Filho Nativo", de Richard Wright, que detalha o potencial prejudicial de um homem envolto por brutalidade cultural, cuja raiva só pode ser expressa em assassinato.

Se formos honestos, vamos perceber que violência faz parte de nossa civilização (será este o nome correto?) ocidental, desde... sempre.

Shakespeare, cujo nome numa tradução muito literal significa "lança trêmula", foi um mestre do assunto, só lembrando:

Julieta (Romeu e Julieta)
Enquanto beija seu amado Romeu pela última vez, apunhala a si mesma com a adaga de Romeu e cai mortinha em cima do corpo do tonto, que se matou porque não se deu ao trabalho de escutar o frei.

Ofélia (Hamlet)
Levada à loucura pela crueldade de Hamlet e pelo assassinato de seu amado pai, cai de uma árvore (e não, não sei porque foi que ela subiu) num rio, e, embora a queda tenha sido um acidente, nada faz para se salvar e, portanto, seu afogamento é visto como suicídio.

Otelo (Otelo)
Quando descobre que sua esposa, Desdêmona, a quem assassinou, não é culpada de adultério, apunhala-se, e, claro, cai morto ao lado do corpo dela (sutil mensagem de que, se fosse culpada, teria merecido ser assassinada).

Na realidade, a obra inteira do William, tirando algumas das comédias, é um banho de sangue.

Mas vamos mais longe, nossa Bíblia: (só avisando, não sou muito versada no assunto, mas com a ajuda de Santo Google, foi fácil).

"Vou destruir... homens e animais." Deus está zangado e decide destruir todos os seres humanos, animais, répteis, aves, e "toda a carne em que há fôlego de vida." Genesis 6:7, 17

“Porque enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, para que saibas que não há outro como eu em toda a terra." Exodo, 9:14

“Um rei sábio esmagará aqueles que são ímpios" Provérbios 20:26 (Precursor de Machiavelli, no Príncipe, quando informa que há duas maneiras de acabar com inimigos: ou simplesmente matando-os ou elevando-os a posições acima de sua capacidade).

"Se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis." Lucas 13:3, 5

Os exemplos são tantos, que levei duas horas lendo, e olha que leio rápido, mas acho que defini o ponto, que é, de alguma forma, desde priscas eras, justificamos a violência de alguma forma, como indivíduos e como sociedade.

Coincidentemente, este mês marca o 80º aniversário da ascensão de Hitler ao poder, quando, depois de ganhar cerca de 1/3 dos votos na eleição da Alemanha em 1932, convenceu o adoentado Presidente Paul von Hindenburg a nomeá-lo chanceler em 30 de janeiro de 1933. Fiquei impressionada com o discurso da Angela Merkel, que aqui resumo:

“A ascensão dos nazistas foi possível porque a elite da sociedade alemã trabalhou com eles, mas também, e acima de tudo, porque a maioria dos alemães, no mínimo, tolerou o acontecido... O fato de que Hitler foi capaz de destruir a democracia alemã em apenas seis meses serve como um alerta hoje, do que pode acontecer se o público é apático... Os direitos humanos não se afirmam por conta própria, a liberdade não surge por conta própria, e a democracia não acontece por conta própria. Não. Uma sociedade dinâmica precisa de pessoas que tenham respeito por si mesmas e pelos outros, que assumam responsabilidade. Precisa de pessoas que tomem decisões corajosas e abertas, e que estejam preparadas para aceitar críticas e oposição ".

Pois é. Estamos? clique aqui Tomorrow belongs to me

No próximo blog: Relações entre violência e Doenças Crônicas, Doenças Mentais Problemas de Aprendizado.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O QUE É MESMO ESSA COISA CHAMADA FELICIDADE?


Todos nós queremos ser felizes. Além de ser um estado emocional bom de sentir, felicidade também melhora a saúde no geral, a criatividade e a possibilidade de decidir melhor (é duro ser racional quando estamos tristes, deprimidos, raivosos, abatidos). Então vamos lá ver um pouco do que vem a ser isso.

FELICIDADE E SUAS CORRELAÇÕES

Na última década, as pesquisas sobre felicidade aumentaram de forma espantosa, e os relatos cá estão:

1 - Fatores que não têm muita correlação com felicidade: idade, sexo, ter ou não filhos, inteligência, beleza física e dinheiro (obviamente se estiver acima da linha de pobreza).

2 - Fatores que se correlacionam moderadamente com felicidade: saúde, atividade social e espiritualidade/religiosidade.

3 - Fatores fortemente relacionados com felicidade: genética, satisfação nos relacionamentos amorosos e sociais, e satisfação no trabalho.


Mas só as correlações não são suficientes, e queremos saber o que raios CAUSA felicidade, e aí entramos num campo muito difícil de ser medido. Mas, alegrem-se, até o momento já sabemos de algumas coisas:

Os genes são responsáveis por cerca de 50% da variância na felicidade. As pesquisas nos mostram evidências espantosas: ganhadores da loteria e tetraplégicos recém lesados, não mostram grande mudança na felicidade, como seria de se esperar. Presumivelmente, os genes moldam a felicidade por moldar a personalidade, o que se sabe, é, em pelo menos 50%, um traço adquirido.

Então, quais são os traços de personalidade mais correlacionados com felicidade?

Extroversão é um dos maiores indicadores de felicidade, assim como conscienciosidade, afabilidade, autoestima e otimismo.

Danou-se. E agora, o que acontece se não tiver esses tratos? Calma, calma que aqui vem a boa nova: a maioria de nós os tem até mesmo sem sabê-lo. Vamos a um exemplo: introversão pode ser piorada pela falta de habilidades sociais. Vai daí que, quanto mais dessas habilidades aprendermos e praticarmos, descobriremos que somos muito mais extrovertidos do que jamais pensamos. O mesmo conceito se aplica a conscienciosidade, afabilidade, autoestima e otimismo. O que as pesquisas têm mostrado cada vez mais, é que, sejam lá quais forem os traços de personalidade herdados, não há nada que treino e prática não possam melhorar.

A FELICIDADE É RELATIVA E SUBJETIVA

A felicidade não é determinada por fatores objetivos, mas pelo que SENTIMOS A RESPEITO DELES.

Felicidade também é um conceito extremamente relativo. Obviamente vou me sentir muito mais feliz na Indonésia ganhando $50.000, onde a média é $12.000, do que em Beverly Hills, ganhando $100.000, onde a média é $ 300.000.

Felicidade também é relativa a depender de nossas EXPECTATIVAS. No geral, nós humanos somos bem ruinzinhos no prever a força de nossas reações emocionais a eventos futuros. Nós superestimamos o quão miserável nos sentiremos depois da quebra de uma relação romântica, se falharmos no obter uma promoção no trabalho ou mesmo se adoecermos.

Também superestimamos o prazer que sentiremos ao comprar um belo carro, ganhar a promoção ou nos mudarmos para a cidade de nossos sonhos.

Conclusão: abaixe suas expectativas a respeito do prazer que vai sentir com esses eventos. O prazer será momentâneo, depois tudo volta ao quanto a antiga musa canta.

Há cada vez mais estudos mostrando que as pessoas estão no pico de sua felicidade quando estão num estado de "fluxo", que é definido como aquele estado no qual "estamos totalmente envolvidos em numa tarefa interessante, desafiadora e que nos é intrinsecamente gratificante." Essa experiência de "nos perdermos no momento" é o que os esportistas chamam de "estar na zona". Nunca fui suficientemente boa em nenhum esporte para sentir isso, mas senti em diferentes situações, assim de pensar que havia passado mais ou menos meia hora, e ao checar o relógio, lá se tinham ido 3 ou 4, coisa assim de olhar de novo porque a impressão era de que o relógio estava errado.

Localizar o fluxo tem muito a ver com a execução de tarefas que correspondem a nosso nível de habilidade. Quando uma tarefa está muito além de nosso nível de habilidade, nos sentimos derrotados. Quando é muito fácil, nos sentimos entediados. Somente quando uma tarefa é difícil, mas possível, vamos nos sentir bem em fazê-la. Os antigos diziam: "cabeça vazia, oficina do demônio", nada mais correto na observação do comportamento. Hoje em dia, vemos tantos adolescentes "entediados", não por falta de estímulos, que os há em demasia, mas pela pura falta de desafio, falta do aprendizado da delícia que é fazer algo bem feito, pelo puro prazer de fazê-lo, ganhar algo porque se trabalhou para isso, ao invés de ter tudo na mão e de graça, às vezes antes mesmo de ter desejado.

O melhor remédio quando estamos "entediados" é alcançar esse “estado de fluxo”.

Agora, contrário à crença popular, forçar o pensamento positivo piora as coisas.

Tentar NÃO pensar a respeito de algo que nos chateia, tem exatamente o mesmo efeito de quando alguém nos diz: não pense nas crianças esfomeadas na Nigéria - imediatamente começamos a pensar nelas.

Apesar do fato de que "estar perdido no momento" pode prover nossos momentos mais felizes, as pesquisas também têm demonstrado que, quando não estamos no "fluxo", a prática de mindfulness, isto é, o prestar atenção em nossa situação, em nossas ações e sentimentos, pode reduzir a dor e a depressão, stress e ansiedade, e produzir uma porção de outros efeitos positivos.

Então a pergunta que não quer calar: Como podemos ser mais felizes?

Felicidade é uma coisa extremamente complexa. Além do mais, temos que nos lembrar da diferença entre "felicidade experienciada" e "felicidade rememorada". Em suma: não há um caminho simples e direto para a felicidade, assim como não há nenhuma pílula para a mesma, e os tontos que definiram os antidepressivos do tipo Prozac como "pílulas da felicidade", não tinham ideia do que estavam falando.

Além disso, felicidade é alcançada de diferentes maneiras por diferentes pessoas.

Uma pessoa que está sofrendo de depressão clínica vai se sentir melhor tomando um antidepressivo do que aprendendo habilidades sociais. Uma mulher saudável, extrovertida, consciente, cheia de amigos, vai continuar a se sentir infeliz se estiver presa num casamento infame.

Algumas pessoas foram criadas por pais que não encorajaram o desenvolvimento de uma autoestima saudável, e essas pessoas têm que usar um montão de tempo e energia para superar esse problema.

Para alguns, a estrada é longa, para outros é curta, então abaixo vai um sumário dos vários métodos possíveis para nos tornarmos mais felizes. Estão classificados numa escala sem qualquer ordem. Nenhum é mais importante que o outro, cada um de nós vai preferir este ou aquele, e só coloquei os números como forma de organização, mais nada. Cada um de nós tem que pensar a respeito de que pessoa é, o que o faz feliz ou infeliz, quais são as metas e sonhos, e a partir daí, determinar qual é o melhor ou melhores métodos a serem usados. Uma dica posso dar: antes de qualquer coisa, pare de procrastinar.

1 - Se tem alguma doença séria, tipo depressão, ansiedade, paranoia, esquizofrenia, etc.. Procure ajuda profissional. JÁ!

2 - Desenvolva os hábitos e habilidades relacionados com extroversão, tipo, ficar mais tempo conversando, conversar com totais estranhos na fila do supermercado, ajudar uma velinha atravessar a rua, botar um sorriso na cara enquanto estiver andando, desligar a TV e ler um bom livro, fazer algum trabalho voluntário.

3 - Desenvolva sua autoestima e otimismo. Esse pedaço é complicado, porque excesso de autoestima leva a narcisismo, o que não é nada bom. O que ajuda, é fazer listas todos os dias de tarefas que têm que ser feitas. Quanto mais tarefas for desenvolvendo, mais contente vai ficar consigo mesmo/a. Quanto a otimismo, sempre que pensar em quão errado ou quão ruim algo vai ser, pense também como pode ser bom e que passos pode tomar para que isso aconteça.

4 - Aumente sua afabilidade. Isto quer dizer, aumente sua empatia, comece a tentar ver as coisas sob a perspectiva de outras pessoas. Tente observar quantos bilhões de pessoas têm um fardo muito mais pesado que o seu, ao invés de olhar para os poucos mais afortunados. Leia o livro de San Michele, do Axel Munthe.

5 - Melhore sua consciência, que envolve uma série de tendências como: organização, ética no trabalho, o ser confiável, planejamento, etc...

6 - Seja grato/a. Curta os momentos, sempre. Pense a respeito de memórias felizes, e, ao fim do dia, escreva 5 coisas pelas quais você está grato/a, sei lá, ter podido curtir o gosto de uma trufa da Godiva, estar saudável, ter assistido o momento histórico de um presidente negro ser eleito pela segunda vez, ter falado com sobrinhos e amigos distantes no Facebook, os óculos novos com os quais volta a enxergar o mundo, o que achar melhor. Pode parecer bobeirinha, mas juro que funciona.

7 - Descubra qual é seu propósito na vida, e viva-o. Pelo que parece, um dos benefícios da religião é que fornece às pessoas religiosas um sentido de significado e propósito. Se você não tiver nenhuma divindade mágica, vai ter que achar propósito por si mesmo. Pode levar um tempo, porque é natural que se experimentem várias e diferentes coisas, mas uma vez encontrado o que o motiva profundamente, vai fundo. Naturalmente podem ser encontradas mais do que uma motivação ou diferentes motivações ao longo da vida. O ter um forte sentido de significado e propósito carrega consigo uma variedade de efeitos positivos.

8 - Encontre um trabalho que o realize. Muito poucas pessoas trabalham com o que gostam, e chegar a esse ponto de realização pode ser difícil e complicado. Para descobrir que carreira tem as tarefas que você gosta, pode fazer o teste RIASEC (teste tipológico que mede personalidade relacionada a carreiras) , ou observar o que gosta de fazer, mesmo que não ganhe com isso, e ver se há carreiras nessa área.

9 - Melhore o relacionamento com seu parceiro/a ou ache outro. Do mesmo jeito que para o trabalho, isso pode ser difícil e complicado. Se acha que seu relacionamento não está funcionando, talvez seja a hora de terminar a coisa e usar seu tempo para seu desenvolvimento pessoal, o que, de per si, irá melhorar futuros relacionamentos. Caso queira melhorar a relação, há várias coisas que podem ser feitas, como por exemplo:
Faça frequentemente coisas novas e excitantes com seu parceiro
Diga coisas positivas para e a respeito de seu parceiro 5 vezes mais frequentemente do que costuma fazer.
Pelo menos uma vez por semana, escreva porque seu relacionamento é muito melhor do que alguns outros que conhece.
A cada crítica que fizer ao parceiro, contrabalance com pelo menos 2 coisas positivas.
Olhem-se nos olhos mais frequentemente.

10 - Passe mais tempo ao ar livre andando, nadando, usando a bicicleta, enfim, mexendo os músculos.

11 - Aprenda a passar mais tempo no "fluxo". Largue mão de tarefas impossíveis e favoreça as que estão dentro de suas capacidades. Transforme tarefas chatíssimas em coisas interessantes, adicionando desafios a você mesmo. Quando não estiver no "fluxo", preste atenção em seu comportamento, em como suas emoções estão funcionando, e em como suas ações o levam a favor ou contra suas metas. Pratique "atenção concentrada" (mindfulness) regularmente. Meditação ajuda.

12- Evite consumismo. As coisas que possui, acabam, de alguma maneira por possuí-lo.

O procurar a felicidade como um fim em si mesma, pode ser contraprodutivo. Ficar checando o tempo todo para ver se se está "realmente feliz"é uma forma perfeita de não se estar. Muito melhor ir em busca de algumas das metas acima expostas, e a felicidade vai chegar meio assim como um efeito colateral.

Um aviso final: Não vai se encontrar felicidade lendo tudo a respeito ou fazendo cursos.A felicidade chegará quando fizer as coisas recomendadas.

Lembre-se que, no princípio era o verbo, e verbo, significa ação.

Vídeo muito interessante a respeito de consumismo como nova religião Clique aqui

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O DSM-5 é um guia, não uma Bíblia. Simplesmente ignore suas 10 piores mudanças.

Venho colocando meu bedelho nesta briga faz alguns anos, e era minha idéia escrever um artigo, alertando sobre o problema. O fato é que o Dr. Allen escreveu antes, e muito melhor do que eu poderia. Vai daí que traduzi, ao pé da letra, o artigo dele. Não resumi, nem coloquei qualquer adendo, pois nem há mais o que dizer. Se você trabalha na área de Saúde Mental, é educador, é paciente ou tem familiares com problemas, leia esse artigo, e espalhe para quantos puder. É um alerta sério.

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Este é o mais triste dos momentos nos meus 45 anos de carreira, estudando, praticando e ensinando psiquiatria. O Conselho de Curadores da Associação Americana de Psiquiatria (APA) aprovou um DSM-5 ruim que contém muitas mudanças inseguras e cientificamente sem base.

Meu melhor conselho aos psiquiatras, à mídia e ao público em geral: SEJA CÉTICO E NÃO SIGA CEGAMENTE O DSM-5 POR UMA ESTRADA QUE O CONDUZIRÁ AO CRASSO EXCESSO DE DIAGNÓSTICO E AO EXTREMAMENTE PREJUDICIAL EXCESSO DE MEDICAÇÃO.
SIMPLESMENTE IGNORE AS 10 ALTERAÇÕES QUE NÃO FAZEM SENTIDO.

Resumo histórico: O DSM-5 teve um início ruim e nunca foi capaz de estabelecer bases corretas. Seus líderes articularam uma meta prematura e irrealizável: produzir uma mudança de paradigma na Psiquiatria. Ambição excessiva combinada com uma execução desordenada leva, inevitavelmente, a muitas propostas arriscadas e mal concebidas.

As propostas foram vigorosamente combatidas. Mais de 50 associações de profissionais da saúde mental solicitaram uma revisão fora da esfera do DSM-5, para um julgamento independente da evidência de base, e para avaliar o equilíbrio entre riscos e benefícios. Revistas profissionais, a mídia e até o público geral opinaram, expressando espanto generalizado sobre as decisões tomadas, que às vezes pareciam não só não ter qualquer suporte científico, mas também pareciam desafiar o simples bom senso.

Os autores do DSM-5 não foram capazes de se auto corrigirem, nem estiveram dispostos a ouvir os conselhos de pessoas de fora. Ao invés disso, criaram uma roda fechada, como os brancos no velho oeste, colocando as carroças em círculos para se defenderem dos índios, totalmente surdos às advertências repetidas e generalizadas de que a coisa causaria enormes erros de diagnóstico.

Felizmente, algumas das propostas mais absurdas foram eliminadas, devido à enorme pressão externa (notadamente "risco psicótico", "misto de depressão e ansiedade","dependência a sexo e à internet", "estupro como distúrbio mental", "hebefilia","avaliações de personalidades complexas", e o drástico abaixamento de limiares para muitas doenças já classificadas).

Mesmo assim, a APA teimosamente se recusou a realizar revisões independentes, e deu sua aprovação final a 10 idéias temerárias e não testadas, sumarizadas abaixo.

A história da Psiquiatria está entupida com "diagnósticos da moda", que olhando em retrospecto, fizeram muito mais mal do que bem. A aprovação da APA ao DSM-5 iniciará mais meia dúzia de modismos, que serão prejudiciais para os indivíduos com diagnóstico incorreto, e muito caros para a nossa sociedade.

Os motivos dos que fizeram o DSM-5 foram questionados de todas as formas. Foram acusados de conflito de interesses financeiros, pois alguns têm ligações com a indústria farmacêutica, e também porque muitas das mudanças do DSM-5 vão aumentar os lucros da já citada indústria, por adicionar à nossa já existente superdosada sociedade mais prescrições descuidadas.

Mas conheço todo aquele povo, e sei que essa acusação é injusta e falsa. De fato, tomaram algumas decisões muito ruins, mas fizeram isso com o coração puro e não porque queriam ajudar as empresas farmacêuticas. O deles é um conflito de interesse intelectual e não financeiro, que resulta da tendência natural de peritos altamente especializados em darem mais valor às suas ideias de estimação, a quererem expandir suas próprias áreas de interesse e pesquisa, e serem indiferentes às distorções que ocorrem na tradução do DSM-5 para a prática clínica da vida real (especialmente na atenção primária, onde 80% dos medicamentos psiquiátricos são prescritos).

Já a profunda dependência da APA sobre os lucros gerados pela publicação do DSM-5 como empresa cria uma motivação muito menos pura. Existe um conflito de interesses inerente e influente entre o DSM-5 e a confiança pública, e o DSM-5 como um best-seller.

Quando os prazos de entrega foram consistentemente perdidos devido ao mau planejamento e desorganização, a APA escolheu discretamente cancelar a etapa de testes de campo, coisa extremamente necessária para controle de qualidade.
O atual projeto foi aprovado e está sendo acelerada sua impressão, com testes de campo incompletos, por uma única razão: para que os lucros de sua publicação possam preencher o grande buraco no orçamento, devido ao custo exorbitante (US$ 25 milhões) de sua preparação.

Isto não é maneira de se preparar ou aprovar um sistema de diagnóstico.

O diagnóstico psiquiátrico tornou-se muito importante na seleção de tratamentos, na determinação de elegibilidade para benefícios e serviços, na alocação de recursos, na orientação de decisões judiciais, na briga contra o estigma, e na influência de expectativas pessoais, para ser deixado nas mãos de uma APA, que provou ser incapaz de produzir manual seguro, confiável e amplamente aceito.

Em Psiquiatria, novos diagnósticos são mais perigosos que novas drogas, porque influenciam se ou não, milhões de pessoas usarão drogas, muitas vezes prescritas por médicos de atenção primária, após breves visitas.

Antes de sua introdução, novos diagnósticos merecem o mesmo nível de atenção à segurança que se dá a novos medicamentos. Obviamente a APA não tem competência para isso.

Então, cá está minha lista das 10 mais perigosas modificações do DSM-5.

Sugiro que os psiquiatras simplesmente não as sigam (ou pelo menos, as usem com extremo cuidado e atenção a seus riscos); que os potenciais pacientes sejam profundamente céticos, especialmente se o diagnóstico proposto está sendo usado como justificativa para a prescrição de medicação (para você ou para o seu filho); e que os contribuintes questionem se alguns deles são adequados para reembolso.

Meu objetivo é minimizar o dano que pode ser feito pela obediência desnecessária a decisões imprudentes e arbitrárias do DSM-5.

1- Transtorno do Humor de Desregulação Disruptiva: O DSM-5 vai transformar birras em distúrbio mental, baseado na obra de apenas um grupo de pesquisa. Não temos idéia de como este novo diagnóstico, que não foi testado, vai funcionar na vida real, mas meu medo é que exacerbe a utilização, já excessiva e inadequada, de medicamentos em crianças. Durante as 2 últimas décadas, a psiquiatria infantil já provocou três modismos: triplicação do Transtorno de Déficit de Atenção, um aumento de mais de 20 vezes no Transtorno Autista, e um aumento de 40 vezes no Transtorno Bipolar na infância. O campo deveria se sentir envergonhado por este histórico lamentável, e deveria envolver-se com a tarefa crucial de educar os profissionais e o público sobre a dificuldade de diagnosticar com precisão as crianças e os riscos de sobremedicá-las, e não adicionar um Transtorno novo, que provavelmente se transformará em outro modismo, e mais medicação usada inapropriadamente em crianças vulneráveis.

2- O Pesar e Luto normais serão um Transtorno Depressivo Maior, medicalizando e banalizando nossas expectáveis e necessárias reações emocionais à perda de um ente querido, com comprimidos e rituais médicos superficiais, substituindo as consolações profundas da família, amigos, religião e da resiliência que vem com o tempo e com a aceitação das limitações da vida.

3- A característica cotidiana de esquecimento típico da velhice vai agora ser diagnosticada como Transtorno Neurocognitivo Menor, criando uma enorme população de falsos positivo para pessoas que não estão em risco especial para demência. Como não há tratamento eficaz para esta "condição" (ou para a demência), o rótulo fornece absolutamente nenhum benefício (só cria grande ansiedade), mesmo para aqueles com risco verdadeiro de desenvolver demência. É uma desgraça para os muitos que serão erroneamente diagnosticados.

4 - Provavelmente aparecerá uma moda passageira de Transtorno de Déficit de Atenção em Adultos, levando a uso indevido de drogas estimulantes para melhorar o desempenho e contribuindo para o já enorme mercado ilegal de medicamentos.

5 - O comer em excesso por 12 vezes em 3 meses já não é apenas uma manifestação de gula e de fácil disponibilidade de comida saborosa, mas foi transformado pelo DSM-5 numa doença psiquiátrica chamada Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica.

6 - As mudanças na definição de autismo vão diminuir seu diagnóstico em 10% (de acordo com estimativas do Grupo de Trabalho do DSM-5), talvez 50% (de acordo com grupos de investigação independentes). Esta redução pode ser vista como benéfica, na medida em que o diagnóstico de autismo será mais preciso e específico, mas os grupos de apoio compreensivelmente temem uma interrupção nos serviços escolares necessários. Serviços escolares deveriam ser vinculados às necessidades de aprendizado de cada aluno, e não a um diagnóstico psiquiátrico controverso, criado para propósitos clínicos e não educacionais, e extremamente sensível a pequenas mudanças na definição e avaliação.

7- Os que abusarem, pela primeira vez, de drogas serão mesclados, por definição, com viciados de longa data e seriedade, apesar de seu prognóstico e suas necessidades serem completamente diferentes. Isso sem falar no estigma da coisa.

8 - O DSM-5 criou uma ladeira escorregadia, introduzindo o conceito de Vícios (Adições ou Dependências) do Comportamento o que, eventualmente, pode se espalhar e se tornar um transtorno mental em cima de tudo o que adoramos fazer. Cuidado com o excesso de diagnóstico descuidado de viciados em internet e em sexo, porque vão aparecer programas de tratamento lucrativos para explorar esses novos mercados.

9 - O DSM-5 obscureceu a fronteira, já de per si não muito clara, dos Transtornos de Ansiedade Generalizada e as preocupações da vida cotidiana. Pequenas mudanças na definição podem criar milhões de novos "pacientes" ansiosos e expandir a prática, inapropriada e já muito disseminada, da prescrição de medicamentos ansiolíticos, criando mais viciados.

10- O DSM-5 piorou o problema já existente de erro diagnóstico de TEPT em contextos forenses.

O DSM-5 largou sua pretensão de ser uma mudança de paradigma no diagnóstico psiquiátrico e, em vez disso (num dramático giro de 180 graus), faz agora a alegação, igualmente enganosa, de que é um documento conservador, que terá um impacto mínimo sobre a taxa de diagnósticos psiquiátricos e na conseqüente prestação de tratamentos inadequados.

Esta é uma reivindicação insustentável porque, por razões completamente incompreensíveis, nunca tomou o passo, simples e barato, de estudar o impacto do DSM em tarifas, de seguro saúde a preço de medicação, em contextos do mundo real.

Exceto para o autismo, todas as mudanças do DSM-5 afrouxam os diagnósticos e ameaçam transformar a nossa atual inflação de diagnóstico, em hiperinflação.

Dolorosas experiências anteriores com o DSM nos ensinaram que, se alguma coisa no sistema de diagnóstico pode ser mal utilizada e se transformar em modismo, será.
Muitos milhões de pessoas com pesar normal, gula, distrações, preocupações, reações aos estresses, as birras de infância, o esquecimento da velhice, e os "vícios de comportamento" em breve serão classificadas erroneamente como psiquiatricamente doentes e receberão tratamento inadequado.

Pessoas com reais problemas psiquiátricos, que podem ser diagnosticados adequadamente e tratados eficazmente, já estão sendo gravemente enganadas. O DSM vai piorar o quadro, desviando a atenção e os escassos recursos para longe do realmente doente e para as pessoas com os problemas diários da vida, que serão prejudicadas, e não ajudadas, quando são rotuladas como doentes mentais.

Nossos pacientes merecem mais, a sociedade merece algo melhor, e os profissionais de saúde mental merecem mais ainda do que isso.

Cuidar de doentes mentais é uma profissão nobre e eficaz. Mas temos que conhecer nossos limites e nos atermos a eles.

O DSM-5 violou o mais sagrado (e mais freqüentemente ignorado) princípio da medicina - PRIMEIRO, NÃO CAUSE DANOS (Primum non nocere).

É por isso que este é um momento tão triste.

Allen Frances, MD - December 4, 2012

Allen J. "Al" Frances é psiquiatra. Foi Presidente da Força Tarefa para o DSM-IV. Foi Presidente do departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina de Duke, na Duke University. É professor emérito lá mesmo.
Em 2012, alertou a comunidade psiquiátrica de que, se essa versão do DSM-5 não fosse modificada, iria "medicalizar a normalidade".

ARTIGO ORIGINAL

sábado, 12 de janeiro de 2013

ANSIEDADE - TRATAMENTOS


No post anterior, vimos o que são os diversos Transtornos da Ansiedade. Só recordando:

Transtorno Generalizado da Ansiedade
Ataques de Ansiedade (Transtorno do Pânico)
Transtorno Obsessivo Compulsivo
Fobias
Transtorno da Ansiedade do tipo Social
Transtorno do Estresse Pós Traumático

As causas psicológicas para estes transtornos incluem, mas não são limitados a:

Visão excessivamente cautelosa do mundo manifestada pelos pais da pessoa ansiosa.
Estresse acumulado ao longo do tempo.
Dificuldade com assertividade. Pessoas ansiosas no geral têm um estilo de comunicação bem educado e cortês, e caracteristicamente não assertivo. Esta abordagem, que usa bastante cuidado para se comunicar, parece contribuir para a preocupação sobre o que os outros possam pensar e, posteriormente, disparar ataques de ansiedade (pânico). Bourne, E. (2005). Tipicamente, usam frases como: "Posso lhe fazer uma pergunta?”.
Excesso de sensibilidade.

A ansiedade, em suas variadas formas, também é recorrente em famílias, e continua se discutindo se há um fator genético (nada ainda encontrado) ou se é comportamento apreendido, com consequente mutação em DNA ao longo de gerações (hipótese com a qual mais concordo).

DIAGNÓSTICO

É feito através da história do paciente, atual e pregressa, história familiar e exames complementares para afastar causas clínicas. Por exemplo, se a ansiedade está relacionada a anemia, tratando da anemia, a mesma desaparece.
Assim, para que um transtorno de ansiedade seja diagnosticado, é necessário que haja:

Preocupação excessiva com diversos eventos ou atividades, a maior parte do tempo, e por pelo menos seis meses.
Dificuldade em controlar a preocupação.
Ter pelo menos três dos seguintes seis sintomas associados com a ansiedade, na maior parte do tempo, durante os últimos seis meses: inquietação, fadiga, irritabilidade, tensão muscular, dificuldade em adormecer, dificuldade de concentração.

Usualmente, pacientes com ansiedade também apresentam sintomas de depressão clínica e vice-versa.

TRATAMENTO

Como todo o resto dos transtornos psiquiátricos, o tratamento baseia-se no tripé: Terapia – Medicação -Terapias Complementares, que incluem mudança de estilo de vida (tal qual Diabetes, por exemplo).

As terapias mais usadas e que até o momento têm mostrado melhores resultados são:

Terapia Cognitivo - Comportamental (TCC)


Concentra-se em identificar, entender e mudar padrões de pensamento e comportamento. Os benefícios são geralmente observados em 12 a 16 semanas, dependendo do indivíduo. Neste tipo de terapia, o paciente está ativamente envolvido em sua própria recuperação, tem um senso de controle, e aprende habilidades que são úteis ao longo da vida. TCC tipicamente envolve leitura sobre o problema, registros da vida e atividades dos pacientes entre as consultas, e tarefas de casa, nas quais os métodos de tratamento são praticados. Durante as sessões de terapia, os pacientes aprendem novas habilidades, as quais repetem e aplicam fora do ambiente terapêutico.

Terapia de Dessensibilização

É uma forma de terapia cognitiva e um processo para reduzir o medo e as respostas de ansiedade. Nela, o paciente é gradualmente exposto a uma situação ou objeto temido, aprendendo a tornar-se menos sensível ao longo do tempo. É particularmente eficaz para transtorno obsessivo compulsivo e fobias.

Terapia de Compromisso e Aceitação (TCA)

Este tipo de terapia usa estratégias de aceitação e atenção concentrada (mindfulness = viver o momento e experimentar coisas sem julgamento), juntamente com comprometimento e mudança de comportamento, como uma forma de lidar com pensamentos, sentimentos e sensações indesejados. Desenvolve habilidades para aceitar as experiências, colocando-as em diferente contexto, clarear ideias sobre valores pessoais, e se comprometer com a mudança de comportamento necessária.

Terapia Comportamental Dialética (TCD)

Integrando técnicas cognitivo comportamentais com conceitos de meditação oriental, combina aceitação e mudança. Pode ser individual e/ou em grupo, para aprender a atenção plena (mindfullness), bem como habilidades de eficácia interpessoal, tais como o tolerar e regular as próprias emoções.

Terapia Interpessoal (TI)

É uma terapia de suporte, de curto prazo, geralmente entre 12 a 16 sessões de 1 h/semana. As sessões iniciais são dedicados à coleta de informações sobre a natureza da angústia da pessoa e sua experiência interpessoal.


Dessensibilização e Reprocessamento dos Movimentos Oculares (EMDR)


Sob certas condições, os movimentos dos olhos parecem reduzir a intensidade de pensamentos perturbadores. Um tratamento conhecido como dessensibilização e reprocessamento do movimento ocular parece ter um efeito direto sobre a forma como o cérebro processa a informação. Basicamente, ajuda o paciente a ver o material perturbador de forma menos angustiante. Parece ser semelhante ao que ocorre naturalmente durante os sonhos ou sono REM (movimentos oculares rápidos). Parece ser bastante eficaz para transtorno de estresse pós-traumático. (Não conheço a técnica, só li a respeito, mas está sendo muito usada em todos os Hospitais para Veteranos, com soldados de volta das guerras, com sintomas de DPTS e traumatismos cerebrais não perfurados).


MEDICAMENTOS

Tratamento medicamentoso da ansiedade é geralmente seguro e eficaz, frequentemente usado em conjunto com a terapia e feito por profissional treinado. A medicação pode ser uma opção de tratamento a curto ou a longo prazo, dependendo da gravidade dos sintomas, outras condições médicas, e outras circunstâncias individuais. No entanto, muitas vezes leva tempo e paciência para encontrar a droga que melhor funciona para cada um.

Para os transtornos da ansiedade, há 4 classes de medicamentos:

Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) - Citalopran - Escitalopran – Fluoxetina -Paroxetina - Sertralina.

Bloqueiam a recaptação de Serotonina no cérebro, de forma que mais serotonina fica disponível, o que melhora o humor. Embora tenham muito menos efeitos colaterais do que os antidepressivos tricíclicos, dentre os mais comuns estão: insônia, disfunções sexuais (principalmente perda da libido) e ganho de peso. São considerados como tratamento eficaz para os transtornos da ansiedade, embora em caso de Fobias as doses requeridas sejam bem maiores.

Inibidores da Recaptação de Serotonina e Norepinefrina (IRSN) – Duloxetina - Venflaxina

Agem do mesmo jeito que os ISRS´s, só que deixando dois neurotransmissores disponíveis: a serotonina e a norepinefrina. Dentre os efeitos colaterais mais comuns estão: problemas estomacais, leve elevação da pressão arterial, insônia, dor de cabeça, disfunções sexuais. São tão efetivas quanto as anteriores, mas, por alguma razão ainda desconhecida, funcionam melhor nos Transtornos Generalizados da Ansiedade.

Benzodiazepínicos: Alprazolam – Clonazepam – Diazepam - Lorazepam

Usados para tratamento de ansiedade a curto prazo, pois seu uso a longo prazo causa tolerância (vai precisar de doses cada vez maiores para produzir o mesmo efeito) e dependência. Atuam por provocar relaxamento muscular.

Antidepressivos Tricíclicos: Amitriptilina - Imipramina - Nortriptilina


Atualmente pouco usados, devido à quantidade de sérios efeitos colaterais tais como hipotensão ortostática, constipação, retenção urinária, boca seca e alterações visuais.

TRATAMENTOS COMPLEMENTARES E ALTERNATIVOS

Técnicas de relaxamento

Relaxamento ajuda no tratamento de fobias e/ou transtorno do pânico. As técnicas de relaxamento também têm sido utilizadas para aliviar a ansiedade em situações estressantes. São mais eficazes do que nenhum tratamento, mas não tão eficazes quanto a terapia cognitivo comportamental.

Yoga

Pela combinação de posturas, exercícios respiratórios, meditação e filosofia de vida. Faz parte do protocolo para Tratamento de Ansiedade da Clínica Mayo.

Acupuntura

Embora ainda não se entenda exatamente como funcione, há evidência de que ajuda bastante no tratamento.

Basicamente, como qualquer outro tratamento, o fundamental está na relação de confiança/ competência entre o paciente e o profissional da saúde, lembrando os elementos fundamentais dessa relação:

1- O paciente tem o direito de receber todas as informações possíveis de seu médico e discutir os benefícios, riscos e custos das alternativas de tratamento adequadas a seu caso específico.
2 - O paciente tem o direito de decisão sobre os cuidados de saúde que lhe são recomendados, podendo aceitá-los ou recusá-los.
3 - O paciente tem direito a cortesia, respeito, dignidade, capacidade de resposta e atenção propicia às suas necessidades.
4 - O paciente tem o direito à continuidade dos cuidados de saúde.
5 - O médico tem a obrigação de cooperar na coordenação dos cuidados indicados com outros profissionais de saúde que tratem do paciente.


Em minha pouco modesta opinião, concordo totalmente com velho Hipócrates, que dizia que o que realmente cura é a relação do médico com seu
paciente.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O que é Ansiedade


Para iniciar bem o ano, falemos de ansiedade, o assim chamado mal do século. Era do século passado, mas desconfio que continua firme e forte neste também.

Ansiedade é a reposta mental e fisiológica a um estressor. É caracterizada por medo, preocupação e irritabilidade, relacionados a situações percebidas como incontroláveis ou inevitáveis.

A palavra operativa é "percebida", isto é, não importa a realidade da situação, mas sim como é vista pelo sujeito.

Na realidade, a ansiedade é uma reação perfeitamente normal a um problema e uma mão na roda em situações de perigo. Quando se torna excessiva, passa a ser um distúrbio. Assim, são a intensidade e frequência que determinam se é uma reação normal ou anormal.

Se o nível de ansiedade interfere com as atividades diárias e prejudica a capacidade da pessoa de viver a vida normalmente, passa a ser classificado como transtorno ou distúrbio.

Sons da ansiedade
Sons da ansiedade: http://www.youtube.com/watch?v=fgwt6Bi397o

Os distúrbios da ansiedade englobam:

Distúrbio Generalizado da Ansiedade: Preocupação crônica. Ansiedade o tempo todo sem nem mesmo saber por que.

Ataques de Ansiedade (Distúrbio do Pânico): Caracterizam-se por ataques de pânico repetidos e medo constante de sofrer outro ataque. Usualmente vêm acompanhados de agorafobia, que é o medo de estar em lugares onde a ajuda seja difícil em caso de um ataque, tipo lugares públicos como um shopping ou lugares confinados, como aviões.

Distúrbio Obsessivo-Compulsivo: Caracteriza-se pelo aparecimento de pensamentos e/ou comportamentos que parecem impossíveis de serem controlados. Obsessivo é o pensamento, por exemplo, de que o mundo está cheio de germes e que todos estão prontinhos para atacá-lo em massa, se não fizer coisas como lavar as mãos constantemente (comportamento compulsivo). O melhor exemplo foi um seriado aqui chamado Monk, um detetive em São Francisco, com DOC. Absolutamente perfeito.

Fobia: Medo exagerado e/ou irreal de situações, objetos ou atividades específicas. As mais comuns incluem medo de animais (tipo baratas, ratos, cobras), de avião e altura. Em casos de fobias severas, a pessoa pode ir a extremos para evitar o que teme. Infelizmente, a evasão só reforça a fobia.

Distúrbio da Ansiedade do tipo Social: Pavor de ser humilhado em público e/ou de ser visto pelas pessoas de forma negativa. Em casos extremos, os que disto sofrem podem passar a evitar completamente qualquer situação social.

Transtorno do Estresses Pós Traumático
: Ansiedade extrema, usualmente como consequência de um evento extremamente traumático onde houve (ou foi percebido) risco de vida. É como se fosse um ataque de pânico constante, sem remissão, com vívidas lembranças (flashback) e pesadelos sobre o acontecimento, hipervigilância e o evitar pessoas, lugares, qualquer coisa que possa lembrar o acontecido. Aqui nos EUA estamos passando por uma séria crise com os militares voltando das guerras com esse transtorno. Para ter uma idéia, o departamento para Veteranos de guerra aqui, nos dá as seguintes estatísticas:

Ocorreu em 11 a 25% dos que participaram nas guerras no Iraque e Afeganistão; 10% dos que participaram da primeira guerra contra o Iraque, aquela que durou só um mês e 30% dos que foram para o Vietnam. Considerem que essas estatísticas são feitas em cima apenas dos que procuraram tratamento. Por outro lado, o governo anunciou que vai (aliás, já está) contratando 1.600 psiquiatras para tentar reduzir a crise de suicídios nas forças armadas. Estimam eles que, para cada soldado que morre em batalha, 25 se suicidam em casa.

SINTOMAS
Os sintomas destes distúrbios são categorizados em duas classes:

Emocional:

Pessoas com transtorno de ansiedade, qualquer um deles, geralmente estão em constante preocupação e/ou obcecados a respeito de qualquer coisa na vida. Isso pode se manifestar através de pesadelos frequentes, obsessões a respeito de perigo em qualquer coisa, irritabilidade e agitação.

Fisiológico:


Mais comuns: palpitações, mal estar estomacal, tonturas, urinar mais frequente do que o costumeiro, falta de ar, tremores e contrações musculares, diarréia, tensão muscular, dores de cabeça, fadiga não relacionada com excesso de trabalho ou exerção física, insônia, aumento da pressão arterial (hipertensão), sudorese independente da temperatura.

CAUSAS

Pode ser causada por fatores ambientais, médicos, genéticos, neuroquímicos, abuso de substancia ou somatória de todos os anteriores.

Fatores ambientais e/ou externos

Trauma sequencial a abuso, vitimização ou morte de alguém amado.
Estresse em relacionamentos pessoais (casamento, amizades, divórcio).
Estresse no trabalho, escola ou situação financeira.
Estresse consequente a algum desastre.
Falta de oxigênio causada por altura.

Fatores Médicos

Estresse consequente a doença séria.
Efeito colateral de certas medicações.
Sintoma de doenças tais como: anemia, asma, infecções e vários problemas cardíacos.
Falta de oxigênio causada por enfisema ou embolismo pulmonar.

Uso e Abuso de Substâncias

Cerca de metade dos pacientes que utilizam os serviços de saúde mental na terra de tio Sam por causa de transtornos da ansiedade, qualquer um deles, tem alguma dependência ou à álcool ou a benzodiazepínicos (Valium, Diazepan, Diempax, Xanax e muitos outros)
Intoxicação por cocaína ou anfetaminas
Abstinência de drogas ilícitas como heroína ou prescritas como Vicodin, benzodiazepínicos ou barbitúricos.

Genética

Estudos têm sugerido que, em havendo histórico familiar de ansiedade, a pessoa tem mais probabilidade de também vir a ter algum distúrbio da mesma, mas como não foi encontrado qualquer gen específico para o caso, não se sabe bem se é geneticamente determinado, ou apenas familial, isto é, comportamento apreendido.

Neuroquímica


Todas as pesquisas têm demonstrado que pessoas com níveis anormais de certos neurotransmissores (principalmente dopamina, serotonina e norepinefrina) têm maior tendência a sofrer de ansiedade. O que acontece é que, quando os neurotransmissores não estão funcionando como deveriam, há uma disrupção da comunicação interna, no cérebro, tendo como consequência reações inapropriadas a situações, o que leva à ansiedade.

COMPLICAÇÕES

Distúrbios da ansiedade são condições sérias que, se não tratados podem causar ou piorar muito outros problemas tais como: Síndrome do Colon Irritável, úlceras estomacais, problemas de pele (acne) e de cabelos (alopécia), insônia, suicídio, violência doméstica, violência no geral, perda de memória, etc...

No próximo post veremos como se faz o diagnóstico e tratamento(s).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O MOVIMENTO ANTIPSIQUIÁTRICO E NOSSA RESPONSABILIDADE.


Seguindo a série de terrores acontecidos aqui nos USA, e a briga entre a NRA (National Rifle Association - Associação Nacional de Armas), que propõe que se armem os professores nas escolas, e os que defendem um discurso mais aberto sobre doenças mentais, entro de cabeça no pampeiro, talvez como forma de tanto fazer um "Mea Culpa", quanto poder ajudar a arrumar o mal feito.

Primeiro, quero dizer o que penso sobre distúrbios mentais:

1 - Acontecem em pessoas que não pediram para tê-los, não gostam de tê-los, não foram causados por escolhas estapafúrdias de vida, tipo muitos casos de diabetes tipo II em obesos ou câncer de pulmão em fumantes. Mesmo assim, diabéticos e fumantes não sofrem, nem jamais sofreram, o estigma que sofrem os que têm doenças mentais.

2 - Todo mundo e seu vizinho se dão ao direito de dar palpites sobre o assunto, desconhecendo por completo anatomia, fisiologia e patologia de um órgão chamado cérebro, que faz tanto parte de nosso corpo quanto o coração, pulmões, pâncreas, enfim, todos os outros. Ninguém que tenha um problema cardíaco escolhe seu cardiologista por este ter tido um infarto, pois é a única maneira de "entender" o paciente, muito antes pelo contrário, procuramos por qualificações claras que nos mostrem que a criatura tem o treino necessário para cuidar do assunto. Da mesma forma que não procuramos por um oftalmologista cego. Mas, quando se trata de um problema no cérebro, ou "mental", como queiram, aí não. No caso, vai-se de pai de santo, padre, "holísticos” generalizados, qualquer coisa para não encarar a seriedade do problema, porque, lá no fundinho de nós mesmos, continuamos, tal qual na Idade Média, a morrer de medo do desconhecido, e o cérebro permanece sendo a última fronteira. E, ao invés de adquirir conhecimento, que é a única forma de dissipar medos arcanos, vamos alegremente em frente, fazendo estragos enormes por pura e simples falta de conhecer.

3 - Qualquer um, que tenha vivido perto de alguém com algum problema mental, percebe que, tirando o mesmo, são pessoas como todas as outras, com contas para pagar, trabalho a fazer, filhos prá criar, enfim, tal qual você e eu, e mais outros bilhões de viventes neste grande supermercado de meu Deus. Então, estes de nós, que tivemos a imensa sorte de não termos tido o problema, precisamos entender a complexidade do mesmo, paremos de julgar e comecemos a fazer algo para aliviar o sofrimento, até mesmo por um ponto de vista de autopreservação, pois, considerando os dados da ONU, uma em cada duas pessoas é afetada por algum tipo de problema mental em algum momento de sua vida, de formas que amanhã posso ser eu ou você.

Não vou aqui escrever de novo toda a história da psiquiatria, e, se quiser um imenso resumo, procura no blog, que foi um dos primeiros posts que fiz. Neste, vou começar com o movimento antipsiquiátrico, o qual, no começo de minha carreira, engoli com isca, anzol e linha, daí o "Mea Culpa", e suas consequências, boas e péssimas.

O citado movimento já entrou na meia idade, desde que foi iniciado há cerca de 50 anos atrás, baseado numa crise de autoconcepção entre a psiquiatria biológica e psicanalítica, numa década caracterizada por outros movimentos radicais, e foi disseminado pelo trabalho de 4 pensadores, a saber: Michel Foucault, na França, R. D. Laing, na Inglaterra, Franco Basaglia, na Italia, e Thomas Szasz, nos USA. Eles defendiam o conceito de que a realidade e a liberdade pessoal são independentes de qualquer definição de normalidade que a psiquiatria clássica quisesse impor. Fazia muito sentido, pois até lá, qualquer pessoa, que se supusesse poder ser um perigo para si mesmo ou outrem, ou tivesse qualquer problema que o/a impedisse de viver independentemente, era institucionalizada, geralmente para o resto da vida.

Eu mesma, no início da década de 80, trabalhei num hospital psiquiátrico em São Paulo, com 500 leitos, no qual, a grande maioria dos pacientes nem recebia visitas de familiares. Era o princípio paternalista de nossa sociedade, onde, quem podia mais decidia os destinos dos que podiam menos.

Os 4 pensadores acima citados, como se diz, chutaram o pau da barraca, denunciando a situação e provocando mudanças radicais no sistema, com desenvolvimento de atitudes mais éticas e aumento dos direitos dos paciente. Isso foi muito bom, e todos nós ganhamos.

Os grandes "depósitos" de insanos foram fechados e mudamos o foco para tratamentos baseados na comunidade. Tenho a honra de ter sido colega de turma dos fundadores do primeiro Hospital Dia para psicóticos em São Paulo, A Casa, dos doutores Nelson Carrozzo e Moisés Rodrigues da Silva Jr.

A idéia, totalmente brilhante, foi de criar hospitais dia, casas de passagem, ambulatórios, enfim, toda uma infra estrutura necessária para tratar quem precisasse, e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade, liberdade e independência dos tratados, o máximo possível.

O plano, fantástico. A execução do mesmo, lamentável.

Foi muito mais fácil fechar instituições do que aparecer com o capital necessário para criar e manter serviços comunitários, os quais, na maioria dos países que conheço, nunca foram nem suficientes, nem adequados, e assim a consequência foi, e é, o de deixar milhões de pessoas que necessitam de assistência, ao Deus dará.

Os dados que se seguem são do CDC (Centro de Controle de Doenças) daqui dos USA, pois procurei seriamente e não encontrei estatísticas brasileiras na área.

_ 40% dos "sem teto” daqui, isto é, pessoas que vivem na rua, têm algum tipo de distúrbio mental, principalmente na área das psicoses, especialmente esquizofrenia.

_ 70% dos presos têm algum tipo de doença mental.

Ou seja, a grande maioria dos que foram previamente institucionalizados está agora na rua ou na cadeia. Esta foi a liberdade que lhe foi dada.

Não estou aqui sugerindo que se volte ao passado. Estou sugerindo que nos importemos com o problema.

Estou sugerindo que realmente desistigmatizemos as doenças mentais, isto é, paremos de confundir direitos dos doentes mentais com a noção estapafúrdia de que doença mental não existe, é só um constructo de psiquiatras e companhias farmacêuticas, num complô universal para...bom, para que, não sei - minha imaginação, por mais vivida que seja, não chega lá. Para isso, precisaria do talento do Preston ou do Child, e é por isso mesmo que gosto tanto dos livros deles.

Precisamos reconsiderar o equilíbrio entre a necessidade de, adequadamente, avaliar, tratar e fornecer serviços para as pessoas com doenças mentais, e os direitos e liberdades de todos os indivíduos.


Precisamos começar a usar esse maravilhoso órgão que temos entre as orelhas, para pensar em coisas como evidências biológicas das doenças mentais. Será possível que todos os cientistas, mundo afora, do Japão à Europa, da Rússia aos EUA, em todos os continentes, estão unidos na mesma conspiração, quando dizem que, com os avanços da neuroimagem, podemos fazer diagnósticos de doenças mentais, tal qual se faz o diagnóstico com marcadores biológicos para câncer?

De onde saiu a idéia de que tomar medicação para problemas psiquiátricos equivale a uma lobotomia química? Se você tem pressão alta, vai parar de tomar sua medicação porque, como qualquer outra, pode ter efeitos colaterais?

Concordo que, com o bombardeio de todos os tipos de mídia a respeito de "doenças famosas”, tipo distúrbio bipolar ligado ao ser artista, e com um bom punhado de artistas vindo a público falar de seu problema; distúrbios da ansiedade, com outras tantas pessoas famosas a falar disso, e consequente venda de benzodiazepínicos mais do que pãozinho quente; depressão e antidepressivos, com o pai de todos, o Prozac, sendo chamado de "pílula da felicidade"; qualquer pessoa de bom senso ficaria ressabiada.

O que a mídia não conta é que a maioria dos benzodiazepínicos, ansiolíticos e antidepressivos, é receitada por todo mundo na área médica, clínicos gerais, cardiologistas, ginecologistas, menos psiquiatras.

O que a mídia não conta é que a medicação ainda mais usada para o distúrbio bipolar é o velho Lítium, remédio que, por estar no mercado há tanto tempo, tem centenas de genéricos, é baratíssimo e a indústria farmacêutica não faz qualquer propaganda da coisa, por esse mesmo motivo.

O que a mídia não fala é na velha Esquizofrenia e Distúrbios Psicóticos em geral, porque não têm "status", porque os que padecem desse distúrbio continuam sem voz, pois é chique ser bipolar como a Catherina Zeta-Jones, mas é feio ser esquizofrênico.

E assim, de um jeito mais moderno, continuamos tão avestruzes quanto os mineiros do século XIX, que construíam nas casas um cômodo sem janelas, onde ficava o "maluco” da família, lá escondidinho das visitas. E quem não me crê, leia as crônicas do Fernando Sabino e do Dr. Hélio Pellegrino.

O problema é que o delírio do esquizofrênico segue a cultura onde vive.

Não vemos mais Napoleões, Sílfides, Elfos, Moisés ou Jeovás. Temos o Coringa, com acesso a armamentos automáticos, e temos as famílias, que continuam com a mesma vergonha e segredo da idade das trevas.

Enquanto isso não mudar, continuaremos a ver horrores, não porque o número de insanos aumentou, mas simplesmente porque nossa possibilidade para compaixão e compreensão diminuiu.

Michel Foucault


R. D. Laing

Franco Basaglia



Thomas Szasz