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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

PSICOLOGIA EVOLUTIVA E A CONFUSÃO ONDE NOS ENCONTRAMOS


"A não violência leva à mais alta ética, que é o objetivo de toda a evolução. Até pararmos de prejudicar todos os outros seres vivos, ainda seremos selvagens". Thomas Edson.

Psicologia Evolutiva (PE) é uma abordagem das ciências sociais e naturais que examina traços psicológicos, tais como memória, linguagem e percepção, a partir de uma perspectiva evolutiva moderna. Procura identificar quais são os traços psicológicos humanos que são adaptações, isto é, os produtos funcionais da seleção natural. Psicólogos evolucionistas afirmam que muito do comportamento humano é a consequência de adaptações psicológicas necessárias para resolução de problemas recorrentes no ambiente onde viviam nossos longínquos ancestrais.
A teoria vem sendo aplicada em muitos campos, incluindo economia, ambiente, saúde, direito, gestão, psiquiatria, política e literatura.

A psicóloga Leda Cosmides e o antropólogo John Tooby, assim a definem:
"Psicologia evolutiva é a tentativa científica, longamente antecipada, de juntar disciplinas desconexas, fragmentárias e mutuamente contraditórias, num único quadro de investigação logicamente integrado, para a psicologia, sociologia e ciências do comportamento; um quadro que não só incorpora as ciências evolutivas de forma completa, mas que, sistematicamente, trabalha as revisões de pesquisa que tal síntese requer."

Baseia-se nas seguintes premissas:

1 - O cérebro é um dispositivo de processamento de informações e produz comportamento em resposta a insumos externos e internos. Quer dizer que nosso cérebro funciona dependendo do que recebemos do ambiente onde nos encontramos, como também do funcionamento de nossos órgãos a cada momento. É por isso que, quando estamos com dor de barriga, ou simplesmente usando um sapato que incomoda, não conseguimos concentração para qualquer tarefa.

2 - Os mecanismos de adaptação do cérebro foram moldados pela seleção natural e sexual. (As cinzas de Freud estão dando cambalhotas de felicidade!).

3 - Diferentes mecanismos neurais tornaram-se especializados para resolver problemas no passado evolutivo da humanidade. E aqui explica claramente o mecanismo do stress, que não apareceu para que tivéssemos problemas de hipertensão, pânico, ataques cardíacos, só para citar alguns. Apareceu para nos dar motivação para funcionarmos e nos salvar a vida. Assim, quando um ancestral nosso dava de cara com um urso de dez vezes seu tamanho, tinha que decidir se atacava ou fugia. Os bobinhos que atacaram, provavelmente eram jovenzinhos sem grande percepção do perigo, e possivelmente não deixaram descendentes. Os mais espertos fugiram com quantas pernas tinham, e, no fugir, correndo quilômetros de volta à caverna, aproveitavam para "descarregar" o stress todo. Nós, evoluídas criaturas, que fumegamos de ódio num congestionamento, não podemos, nem queremos, largar o carro no meio da rua e correr até o escritório, de forma que não descarregamos nada, e a coisa se torna crônica. A Associação de Cardiologia Americana nos informa que uma andadinha de 20 minutos é suficiente para descarregar qualquer stress, além de que, se feita todos os dias, pode prevenir 75% dos casos de diabetes tipo II.

4 - O cérebro evoluiu com mecanismos neurais especializados que foram projetados para resolver problemas recorrentes, ao longo do tempo evolutivo, dando aos modernos seres humanos mentes da Idade da Pedra. Isso quer dizer que reagimos às coisas tal qual nossos primitivos ancestrais, e é por isso mesmo extremamente importante o aprender a avaliar situações antes de reagir a elas.

5 - A maioria dos conteúdos e processos cerebrais são inconscientes, e problemas mentais que parecem fáceis de resolver são, na realidade, extremamente difíceis, e acabam sendo resolvidos inconscientemente, por meio de complicados mecanismos neurais. Infelizmente, isso nos causa enormes problemas emocionais, mas teremos um post dedicado exclusivamente a este ponto.

6 - A psicologia humana é formada por muitos mecanismos especializados, cada qual sensível às diferentes categorias de informações (inputs). Esses mecanismos se combinam para produzir o comportamento manifesto. Lá vem a importância da educação e do conhecimento.

7- A PE baseia-se na hipótese de que, assim como o coração, pulmões, fígado, rins, etc., a cognição tem uma estrutura funcional baseada na genética e, portanto, tem evoluído pela seleção natural. Como todos os outros órgãos e tecidos, esta estrutura funcional deve ser universalmente compartilhada entre uma espécie, e deve resolver importantes problemas de sobrevivência e reprodução, que incluem habilidades para inferir as emoções de outros, discernir parentes de não-parentes, identificar e preferir parceiros mais saudáveis e capacidade de cooperação. Consistente com a teoria da seleção natural, a PE vê os seres humanos como seres em conflito com outros, incluindo companheiros e parentes. Também reconhece o papel da seleção da evolução em características pró-sociais como o altruísmo. Tal quais os chimpanzés e bonobos, os seres humanos têm instintos sociais sutis e flexíveis, o que lhes permite formar famílias, amizades e alianças políticas ao longo da vida. A partir disso, tem havido inúmeros trabalhos com previsões teóricas em temas como infanticídio, inteligência, padrões de casamento, promiscuidade, percepção de beleza, preço da noiva e investimento parental.

Favor não se chocarem com a frase "preço da noiva", porque, enquanto nossos ancestrais pagavam em vacas ou bodes, ou sei lá mais o que, hoje evoluímos para coisas menores, como um diamante no dedo, posto que, principalmente para quem mora em regiões urbanas e em apartamentos, animais desse porte são extremamente incômodos, além de que, o anel é carregado no dedo, de fácil demonstração.
E não pensem que tenha algo contra diamantes, muito antes pelo contrário.

8 - Universalidade das Emoções: os seres humanos compartilham pelo menos cinco emoções básicas: medo, tristeza, felicidade, raiva e nojo, emoções essas que se combinam de várias formas para produzir, tanto nossas motivações, quanto nossos comportamentos sociais enquanto cultura. Por exemplo, vergonha e orgulho são dois grandes motivadores de comportamentos que definem a posição de uma pessoa numa comunidade, determinando assim as chances, maiores ou menores, de acasalamento e reprodução de sua carga genética.

Segundo a PE, o cérebro humano é composto por mecanismos funcionais, chamados adaptações psicológicas, e por mecanismos cognitivos evoluídos, chamados de módulos cognitivos, mecanismos estes desenhados pela própria seleção natural. Exemplos são: módulos de aquisição de linguagem, mecanismos para evitar incesto, detecção de traições, mecanismos de inteligência e preferências específicas de sexo de acasalamento, e mecanismos de procura de alimentos.
Uma velha amiga minha, médica e não psicóloga evolucionária, dizia: "O problema nos casamentos é que, lá nos tempos de antanho, o caçador chegava em casa com o urso, e era recebido com gritos de viva e olhares maravilhados da esposa. Agora, ele chega, e ela, chateada, informa que já encheu a geladeira, e não sabe o que fazer com o raio do urso". Sábia criatura.

Continuando, após divagação explanatória, aqui vai a definição de alguns termos, para facilitar entendimento:

Adaptação: Traço orgânico projetado para resolver problema(s) ancestral(is). Mostra complexidade, desenho especializado e funcionalidade. Exemplo fisiológico: Ossos e cordão umbilical. Exemplo psicológico: Habilidade dos bebês de aprenderem a falar com um mínimo de instruções.

Exaptação: Adaptação que foi "redesenhada" para resolver um problema adaptativo diferente. Ex. fisiológico: Os pequenos ossos do ouvido interno. Ex. psicológico: Atenção voluntária.

Produto acidental: Subproduto de um mecanismo adaptativo, sem função atual ou ancestral. Ex. fisiológico: a cor branca dos ossos, o umbigo. Ex. psicológico: ainda não se descobriu um. Alguns dizem que a habilidade de aprender a ler e escrever não tinha qualquer função no período ancestral. Pode bem ser, mas hoje tem.

Ruído Aleatório: Variações aleatórias em adaptações ou subprodutos. Ex. fisiológico: saliências cranianas, umbigo côncavo, plano ou convexo. Ex. psicológico: Variações no timbre de voz dentro do mesmo sexo.

Personalidade: os traços de personalidade representam "morfos comportamentais", isto é, alternativas de estratégias comportamentais dependentes da frequência de estratégias comportamentais concorrentes, em determinada população. Por exemplo, se a maior parte da população, em determinada cultura, é crédula, a metamorfose comportamental de ser um "trapaceiro"(ou, no caso extremo, um sociopata) pode ser vantajosa. Também é levado em conta que as adaptações psicológicas são extremamente sensíveis às variações ambientais, principalmente nos estágios iniciais do desenvolvimento. Ex: filhos mais novos têm maior probabilidade do que os primogênitos de serem rebeldes, menos conscientes e mais abertos a novas experiências, o que pode ser vantajoso para eles, dado seu nicho específico na estrutura familiar.

Assim, dentro da PE, a esquizofrenia e o transtorno bipolar possivelmente sejam o efeito colateral de genes com benefícios de aptidões, tais como aumento da criatividade (Alguns indivíduos com transtorno bipolar são especialmente criativos durante as fases maníacas, e os parentes próximos dos esquizofrênicos são propensos a ter profissões criativas).
Um relatório de 1994 da Associação Americana de Psiquiatria demonstrou que a esquizofrenia incide em 1% da população mundial, com a mesma taxa em culturas ocidentais e não ocidentais, em sociedades industrializadas e pastorais, o que sugere que este distúrbio não é causado por nenhuma cultura ou civilização específica, nem é uma invenção social arbitrária, como queria Foucault. Aliás, em minha opinião, é o mais democrático dos distúrbios psiquiátricos.

Já a Sociopatia é uma estratégia evolucionária estável, através da qual, os que fraudam o contrato social se beneficiam numa sociedade constituída, em sua maioria (graças aos céus), por não sociopatas.

A Depressão pode ser uma resposta adaptativa de retirada e reavaliação de situações que tiveram resultados desfavoráveis.

Mas essa é outra história, que fica para a próxima vez, quando discutiremos a visão evolucionária da religião e alguns outros itens interessantíssimos.

"Na lógica formal, uma contradição é sinal de derrota, mas na evolução do conhecimento real, é o que marca o primeiro passo no progresso em direção a uma vitória." Alfred North Whitehead.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Cultura do Narcisismo e a Banalização da Vida


"Relações baseadas na glória refletida, na necessidade de admirar e ser admirado, são fugazes e inconsistentes”. Christopher Lasch.

Em janeiro de 1979, foi publicado, pela primeira vez, o livro “The Culture of Narcissism: American Life in an Age of Diminishing Expectations” (A Cultura do Narcisismo: A Vida Americana numa Era de Expectativas Diminuídas), no qual o historiador cultural Christopher Lasch explora as raízes e ramificações da normalização do narcisismo patológico na cultura americana do séc.XX.
Sua tese é que, nos anos 70, os americanos haviam desenvolvido uma forma de narcisismo, a qual fazia com que a maioria das pessoas necessitasse de constante validação externa para se sentirem vivas, resultando numa “interminável busca de crescimento pessoal, que é, ao mesmo tempo, ilusória e cada vez mais infrutífera”.

E, pela primeira vez, um distúrbio psiquiátrico saiu do domínio do pessoal, socializou-se,e,33 anos depois, faz parte da cultura do dia a dia de nossa sociedade ocidental. Se, na época que escreveu, Lasch pareceu uma mistura de amargura de esquerda ultrapassada, temperada com saudosismo hippie, hoje se tornou profeta.

Concordando ou discordando, amando ou detestando, o que vemos todos os dias?

A transformação da política em espetáculo. Preciso explicar?

A busca de fama e fortuna
, de qualquer jeito, a qualquer preço. Aqui nos EUA, os reality shows a respeito de absolutamente tudo, e pelo visto, que tal que nem no Brasil. No Oriente Médio, os bombardeios suicidas, que, se nada conseguem aqui, na próxima vida vão ter, e agora me perdi no número de virgens, algo entre 50 e 71, a seu dispor, para todos seus desejos.
A ascensão de assim chamadas “celebridades” momentâneas, ou como bem disse Andy Warhol, os “quinze minutos de fama”. Sobre esse assunto, há um filme, também daquela época, Rede de Intrigas (Network), do Sideny Lumet, onde um apresentador de um programa de noticias na TV é informado que sairá do ar em duas semanas, devido à sua queda no IBOPE. Que faz ele? Anuncia ao vivo e à cores que se suicidará no programa. É despedido, jura que vai pedir desculpas, volta ao programa, e decide berrar que a vida é “bullshit”, o que naturalmente aumenta barbaramente os números do IBOPE, e alegra por demais os donos do canal. Daí prá frente, passa a galvanizar a nação, fazendo com que os ouvintes berrem de suas janelas: “Tô danado da vida e não vou mais suportar isso”. Enquanto isso, a chefe do departamento de notícias (Faye Dunaway, absolutamente fantástica), querendo aumentar ainda mais os números, faz um trato com um grupo de terroristas radicais, e aí o programa passa a ser o mais visto da TV. O âncora e a chefe iniciam um romance, e ele larga sua esposa de 25 anos. Depois de um tempo, ele não aguenta mais a devoção fanática e o vazio emocional da amante, termina com ela com a famosa frase: “Diana, você é a encarnação
da TV, indiferente ao sofrimento, insensível à alegria. Para você, a vida se reduz a um entulho de banalidades”. Vai daí que ele descobre que o canal vai ser vendido a um conglomerado da Arábia Saudita, e começa a berrar contra o negócio, estimulando os ouvintes a mandarem telegramas para a Casa Branca para que esta o impeça. Vira um “radical enlouquecido” contra o sistema, o que desagrada por demais aos ouvintes. Daí, o tal grupo de revolucionários é contratado para matar o âncora ao vivo, o que é feito, conforme o combinado. O filme termina com o narrador dizendo: “Esta foi a história de Howard Beale, o primeiro exemplo de um homem que foi assassinado por ter uma avaliação ruim”.

A mercantilização de quase tudo, quando sabemos o preço de tudo e o valor de nada.

A transformação da educação, desde uma experiência de aprendizado baseada em fatos, numa coisa meio confusa, de adaptação ao momento, isso, na otimista esperança que haja algum tipo de educação.

A maior prova da socialização do distúrbio está no fato que não mais aparecerá no DSM-V ( Manual Estatístico e Diagnóstico das Doenças Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria). Se vivemos assim, não é mais problema, pelo menos não é mais problema a ser classificado, é apenas uma perda de nossa humanidade. E foi exatamente essa barbaridade que me levou a escrever este artigo.

E só para lembrar o que era, e porque vivendo assim nos tornamos menos humanos, vamos relembrar.

"Extasiado diante de si mesmo, sem mover-se do lugar... o rosto fixo, absorvido com este espetáculo, ele parece uma estátua de mármore. Deitado no solo, contemplando dois astros, que são os seus próprios olhos, contempla seus cabelos, sua face, seu pescoço de marfim, sua boca encantadora e a brancura de sua pele. Admira tudo aquilo que suscita sua própria admiração. Em sua ingenuidade, deseja a si mesmo. A si mesmo dedica seus próprios louvores. Ele mesmo inspira os ardores que sente. Ele é o elemento do fogo que ele próprio acende. E quantas vezes dirigiu beijos vãos à onda enganadora! Quantas vezes, para segurar seu pescoço ali refletido, inutilmente mergulhou os braços no meio das águas.Não sabe o que esta vendo, mas o que vê extasia-o, e o mesmo erro que lhe engana os olhos, acende-lhe a cobiça. Crédula criança, de que servem estes vãos esforços para possuir uma aparência fugidia? O objeto de teu desejo não existe. O objeto de teu amor, vira-te e o farás desaparecer. Esta sombra que vês, é um reflexo da tua imagem. Não é nada em si mesma; foi contigo que ela apareceu, e persiste, e tua partida a dissipará, se tivesses a coragem de partir."
Metamorfoses (Origem de Narciso), Ovídio (43 A.C.- 18 D.C.) Do artigo: “Drogadependência e Narcisimo, Streparava,P CLIQUE AQUI

Como bem disse Freud, que nunca esteve em nenhum lugar onde um poeta já não tenha estado antes e descrito muito melhor, faço minhas suas palavras, pois nunca li melhor descrição de Narcisismo do que a acima, de Ovídio, onde fica absolutamente claro que narcisismo é pura e simplesmente uma paixão por uma imagem. Algo refletido, totalmente inexistente.

Segundo Hotchkiss, são 7 os pecados dos narcisistas:

Descaramento, pois, sendo vergonha o que se esconde debaixo do comportamento narcisista, e como este é incapaz de lidar com ela de forma saudável, faz o oposto.
Pensamento Mágico: Eles se vêm perfeitos, usando os mecanismos de defesa de distorção e ilusão, e também projeção para jogar culpa e vergonha nos outros.

Arrogância: Quando o narcisista se sente meio desinflado, feito balão de festa de criança ao término da mesma, a forma que tem para se reinflar é rebaixando ou degradando alguém mais.

Inveja: Para garantir sua superioridade, sempre que esteja lidando com outra pessoa que tenha capacidades ou habilidades evidentes, usa desprezo para minimizar o outro.

Direito (sente-se no direito de...): Narcisistas têm expectativas irracionais de que devem ser tratados melhor do que o resto do mundo. Falhas em trata-los desta forma são consideradas um ataque direto à sua superioridade, e o perpetrador de tão terrível ato é considerado um desastrado, ou ignorante, ou pessoa difícil de conviver. Agora, cuidado, porque qualquer desafio aos desejos de um narcisista é uma rajada de balas na ferida narcísica, o que pode provocar uma raiva insana que ninguém merece, nem quer ver. Tem uma série na TV aqui (HBO), chamada “Boss”. Deem uma olhada, que vale a pena.

Exploração: pode ser de várias formas, mas sempre tem a ver com usar alguém sem qualquer respeito pelos sentimentos ou interesses da pessoa usada. Geralmente,o usado está numa posição subserviente onde a resistência é muito difícil ou impossível. Tenho um exemplo ótimo, acontecido de verdade, aqui nesta terra de liberdade: no final da campanha presidencial, alguns diretores de empresas mandaram e mails para seus empregados, informando que, se o Obama ganhasse, muitos empregos seriam cortados. Chamaram de “informação adequada para que os empregados pudessem tomar decisões com conhecimento de causa”. Obama ganhou. Já tem empresas cortando horas dos empregados para não ter que pagar benefícios médicos.

Limites Mal Delimitados: Os narcisistas não reconhecem nem limites, nem o fato de que os outros são pessoas distintas e não simples extensões de seu desejo, pois entendem que, se não for para preencher suas necessidades, não precisariam existir. Aqueles que abastecimento o narcisista do jeito e com que ele quer, são tratados como se fossem parte dele, e deles espera (exige) que vivam de acordo com suas ( do narcisista) expectativas.

Já Theodore Million identificou 5 variantes de narcisismo, que são:

Narcisista sem princípios: inclui características antissociais, tais como pessoas enganadoras, sem escrúpulos. E se o que sigo nos jornais brasileiros e no facebook é correto, não preciso dar exemplos, vão dar uma olhadinha no processo do tal mensalão.

Narcisista amoroso: é o que engloba traços histriônicos e exibicionistas. Don Juan e Casanova são exemplos históricos.

Narcisista Compensatório: é o que inclui características passivo-agressivas e esquivantes. Um exemplo, são os que se reúnem em grupos de supremacia de alguma raça, e aqui há muitos supremacistas brancos, sendo os mais conhecidos a KKK.

Narcisista Elitista: padrão puro de narcisista, corresponde ao que Wilhelm Reich chamou de Narcisista Fálico.

Narcisista Fanático: inclui características paranóides. É o caso de indivíduos cujo desenvolvimento da autoestima foi severamente cerceado na infância, e que, por conseguinte, desenvolveu fantasias de onipotência. São os que estão lutando contra delusões de insignificância e falta de valor intrínseco e, para tanto, desenvolvem fantasias grandiosas. No caso de não conseguirem reconhecimento ou suporte, assumem algum papel heroico, ou procuram ser adorados por seguidores, inventando missões grandiosas. Creio que todos se recordam, ou pelo menos ouviram falar, de Jim Jones e Charles Mason.

Daí vai que, se o DSM decidiu que todo o descrito acima “não pode mais ser classificado como desviante de normas sociais”, a próxima vez que ouvir alguém dizer que o já amplamente citado livro é a “Bíblia da Psiquiatria”, vou brigar. Feio.

NA: Caso estejam interessados, deem uma olhada nas seguintes séries de TV e filmes, que coloquei em ordem alfabética.

American Psycho
Crime and Punishment (espero que tenham traduzido como Crime e Castigo)
Dallas
House,M.D
Nip/Tuck
The Picture of Dorian Gray (O retrato de Dorian Gray, tem o livro também do Oscar Wilde)
There will be blood (Sangue Negro, no Brasil e Havera Sangue, em Portugal

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

VIRTUDES


“Um retorno aos princípios numa república, às vezes, é causado pelas virtudes simples de um homem. Seu exemplo tem tal influência, que os homens de bem se esforçam para imitá-lo, e os ímpios têm vergonha de levar uma vida tão contrária a seu exemplo.” Niccolò Machiavelli

O conceito de Virtude para mim, sempre esteve ligado às aulas de catecismo com as freiras, onde naqueles idos tempos, a ideia de virtude para meninas de boa família, basicamente, resumia-se a permanecer virgem até o casamento, ou pelo menos foi como entendi a coisa, dado que passava a maior parte do tempo quieta na cadeira, mas com minha cabeça em grandes viagens muito longe e distantes dos virtuosos ensinamentos, de forma que provavelmente não é culpa delas meu desisteresse. Já a palavra “virtuoso” estava ligada à musica, então conhecia o Paganini no violino, Liszt e Czèrny no piano, os dois últimos furiosamente odiados devido aos exercícios que tinha que repetir diariamente, com a supervisão semanal da professora de piano, sua laranja debaixo das mãos e o raio do lápis com o qual batia nos dedos dos infelizes alunos. Como dá para notar, virtude não foi exatamente algo ao qual aspirei em momento algum, e tão logo me vi livre das aulas de catecismo e das de piano, muitos anos depois, nunca mais pensei no assunto.

Mas, como nessa vida, o que não é aprendido, retorna, eis que lá vou eu voltar a ouvir sobre “virtudes” de novo, desta vez ligadas à psicologia positiva. Aí, prestei atenção.

Por definição, virtude é uma qualidade ou traço positivo, considerado bom, e destarte, valorizado como fundamento dos princípios e da moral na cultura onde se vive.Virtudes pessoais são valorizadas por promoverem grandeza pessoal e coletiva, sendo seu oposto, o vício.

É evidente então que filosofias e religiões estão repletas de conceitos de virtudes, sendo que, em nossa sociedade ocidental, temperança, prudência, coragem e justiça são consideradas as 4 virtudes cardeais, entremeadas, em nossa cultura judaico cristã, que define as virtudes como o amor a Deus, com o seguimento de suas leis, que são resumidas nos 10 Mandamentos.

Os muçulmanos têm como virtudes, entre outras, integridade, generosidade, humildade, bondade, cortesia, pureza, respeito, tolerância, sensatez, dignidade, clemência e compaixão, firmeza, franqueza, esperança, paciência, perseverança, disciplina, moderação, sinceridade, frugalidade, lealdade, honestidade, contrição e espiritualidade.

Na tradição Bahai, temos: Veracidade (fundamento de todas as virtudes humanas), Justiça (a mais amada por Deus), Amor (a base sobre a qual Deus criou os humanos), Humildade (condição para ser o recipiente da graça divina) e Confiabilidade (a vestimenta preferida por Deus).

No Induísmo, temos o altruismo, moderação, honestidade, limpeza (entendida como cuidados pessoais para saúde e higiene), universalidade (tolerância e respeito para tudo e todos), paz e não violência (os praticantes são vegetarianos, pois são proibidos de matar qualquer coisa), reverência (para os mais velhos e professores).
No Budismo, temos a visão, atenção concentrada (para ver as coisas como são), compaixão, altruismo, equidade (aprender a aceitar vitórias e derrotas com o mesmo distanciamento, e também não distinguir entre amigos e inimigos, entendendo cada ser como seu igual).

Já Benjamim Franklin, ao qual não bastou ser inventor e político, também fez uma lista de virtudes. Conta a lenda que ele ia para todo canto carregando um caderninho onde media a cada dia o quanto tinha vivido de suas virtudes, as quais passo resumidinhas: temperança, silêncio, ordem, resolução, frugalidade, diligência (ideia de não perder tempo, cortar fora tudo o que é desnecessário, ação), sinceridade, justiça, moderação, higiene, tranquilidade, castidade, humildade (ele achava que a ideia era imitar Sócrates – não o jogador do corinthians, mas o filósofo - e Jesus).
Como dá para notar, as virtudes são praticamente iguais em todas as visões, filosóficas e/ou religiosas, com algumas exceções interessantes entre as culturas orientais e ocidentais, onde nas orientais, a ideia de virtude é viver em paz com todas as coisas da natureza, enquanto em nossa cultura ocidental, é tambem conquistar essa mesma natureza, o que, provavelmente, é a base de nossas diferenças e de nossas guerras desde sempre.

O que me fascinou no estudo das virtudes dentro da psicologia positiva, foi a colocção das mesmas num contexto multicultural, focalizando nos traços comuns a todas as culturas.

Martin Seligman e Christopher Peterson, em seu livro “Character Strengths and Virtues”, lançaram a primeira tentativa da comunidade científica de identificar e classificar os traços psicológicos positivos dos seres humanos, criando o quadro teórico para o desenvolvimento de aplicações práticas para a psicologia positiva. Assim o CSV (Character Strengths and Virtues – Pontos Fortes do Caráter e Virtudes - tradução minha, pois ainda não há tradução do livro para o português) identifica 6 classes de virtudes, chamadas de “virtudes nucleares ou de base” (core virtues), as quais consistem de 24 “pontos fortes”, que foram definidos comportamentalmente, usando testes psicométricos. Foi também a primeira vez que as virtudes deixaram de ser conceitos e passaram a ser formas de ação ou comportamento.

O livro sugere que essas 6 virtudes são consideradas “boas” pela grande maioria das culturas e durante a história, e mais, que essas características, quando praticadas, acarretam aumento de felicidade, pessoal e coletiva.

A palavra operativa aqui é o verbo PRATICAR. Isso significa aprendizado e ensinamento (ninguém nasce virtuoso ou desvirtuado, mas se aprende, desde o primeiro momento – vide post anterior). Também, depois de aprendido, a prática diária se faz necessária. A neurociência nos mostra que são necessárias apenas 2 semanas para a criação de um novo hábito, mas poucos instantes para retornarmos aos antigos padrões, pelo simples fato que estão mais profundamente gravados em nossa memória operativa (que é aquela coisa que nos faz escovar os dentes após as refeições, por puro hábito, sem qualquer pensamento consciente do quanto é bom para a saúde geral o ter boa saúde bucal).

É também a razão e o porque da indústria da autoajuda. Vamos a um workshop ou lemos um livro, ficamos entusiasmados, mudamos tudo, e 3 dias depois estamos de volta ao que a antiga musa canta. É o porque tantos e tantos tratamentos terapêuticos falham, não por causa de falha intrínseca na teoria aplicada, ou do professional aplicante, mas pelo simples fato explicado por um velho ditado que escutei em Taubaté das sapucaias, tantos e tantos anos atrás: “Todo mundo quer ir para o céu, problema está que ninguém quer morrer antes”.

E mudança, sem exceção, implica na “morte” de algo, para que coisas novas possam surgir. É a base do Cristianismo, e finalmente entendi porque italianos comemoram mais a Páscoa do que o Natal. Porque nascer, todo mundo nasce de um jeito ou de outro, mas é o “renascer” que define o divino.

Então, desde que a meta da psicologia positiva é ajudar indivíduos, organizações e comunidades a identificar seus pontos fortes e usá-los para aumentar e suster seus respectivos níveis de bem estar, vamos ver quais e o que são essas virtudes. Informo que as virtudes, traduzi diretamente do livro. Já os exemplos são puramente por minha conta e risco.

SABEDORIA E CONHECIMENTO

Conhecimento é entendido como o fruto do esforço que é usado para o bem. Sabedoria é uma forma de inteligência nobre, “na presença da qual ninguém se ressente e todos apreciam.” A virtude de sabedoria e conhecimento inclui traços positivos relacionados à aquisição e uso de conhecimento (forças cognitivas) a serviço de uma vida boa. A função cognitiva possui especial relevância nas 5 forças de caráter que compõem a virtude da sabedoria, a saber:

Criatividade - inclui originalidade, inventividade, interesse, procura de novidade e abertura à experiência. É definido como o interesse intrínseco do indivíduo pela experiência e conhecimento em si mesmos. Pode ser específico e que aprofunda o conhecimento em um assunto, bem como global, generalizado e diverso. É entendida como a produção de comportamentos e ideias reconhecidamente originais (novas, surpreendentes, incomuns ou o melhorar de coisas já existentes), que sejam adaptativas e contribuam para melhorar a vida pessoal e/ou de outrém. Os exemplos são muitos, então cito alguns de minha lista de preferências, tais como, Thomas Edson e a lâmpada; Dra. Zilda Arns e sua formula de mistura alimentar para crianças desnutridas (a fórmula não é dela, mas foi ela que espalhou a coisa); os Curie, Maria e Pierre, com o RX; Tim Berners-Lee e o world wide web; Dr. Sacks e a vacina contra poliomielite. Pessoas curiosas perseguem novidade, variedade e desafio em sua experiência no mundo. Têm sede de saber. Acham todos os assuntos e tópicos fascinantes.

Abertura a novas idéias - É definida como a vontade do indivíduo de procurar ativamente por evidência contra suas crenças favoritas, planos ou objetivos e de pesar esta evidência de forma justa. Seu oposto é raciocinar de modo a favorecer e confirmar aquilo em que já se acredita. É ser capaz de mudar de ideia, saber considerar as evidências contrárias ao seu próprio pensamento, bem como examinar a informação de forma racional e objetiva. Inclui pensamento crítico e critério. Aqui me lembro de JK (Juscelino Kubitcheck) que, quando lhe perguntaram se já tinha voltado atrás em alguma decisão, soltou: “Claro que sim, não tenho compromisso com o erro”.

Gosto pelo aprendizado - Descreve a maneira pela qual o indivíduo assimila informações e habilidades novas de forma genérica, e/ou o interesse individual bem desenvolvido com o qual o indivíduo assimila um conteúdo específico. Diz respeito a gostar de aprender sobre uma ou várias coisas, mesmo quando não há incentivos exteriores para isso. Um bom exemplo são senhores e senhoras de idade, que, ao invés de sentar dentro de casa e se lamenter pela juventude perdida, vão aprender dança flamenca, passam a escrever poesia, enfim, vivem sua plenitude sem se deixar barrar por rótulos.(E aqui vai minha homenagem à Mena e Eugênia – quando crescer, quero ser igualzinha a vocês).

Perspectiva - Refere-se ao produto do conhecimento e da experiência, mas que transcende a acumulação de informação. É a coordenação desta informação e seu uso deliberado para aumentar o bem estar. Em um contexto social, permite ao indivíduo ouvir os outros, avaliar o que dizem, e então oferecer bons (sábios) conselhos. Diria que exemplos excelentes são todos os pais e mães e tio e tias e avós e professores que, ao invés de dizer: “No meu tempo….”, “Na sua idade eu já trabalhava…”e outras repetições monolíticas, escuta, avalia e pondera tipo: “Você acha que há um outro jeito de fazer isso?” “O que você poderia fazer para melhorar a situação?”.


CORAGEM

Alguém que não recua diante de ameaças, desafios, dores ou dificuldades. Vai além do heroísmo demonstrado diante da morte iminente por guerreiros no campo de batalha, incluindo posturas intelectuais (bravura moral) ou emocionais (bravura psicológica) que sejam impopulares, difíceis ou perigosas. O indivíduo dotado de valentia consegue superar as reações naturais ao medo (resposta de fuga) enfrentando a situação assustadora. Inclui heroísmo e bravura. Mahamata Gahndi, Madre Tereza, Galileu Galilei, Sir Edmund Percival Hillary, Irena Sendler, Papa João XXIII, Sigmund Freud, Dante Alighieri, Dalai Lama. Inclui a Persistência, que é a continuação de uma ação voluntária em direção a um objetivo, apesar dos obstáculos, dificuldades ou desencorajamento; Integridade, que é o ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros; e Vitalidade, que é o aspecto dinâmico do bem estar marcado pela experiência subjetiva de energia e vivacidade.
HUMANIDADE

Todas as virtudes envolvidas na relação com o outro, isto é, o comportamento pró social (qualquer ato ou padrão de comportamento socialmente construtivo, ou que de alguma forma beneficia outra pessoa ou grupo), ou altruístico (colocar a preocupação com os outros acima da preocupação consigo próprio). São atos de generosidade, bondade ou benevolência, consensualmente reconhecidos e valorizados, e que elevam aqueles que os testemunham. Incluem:

Amor - postura cognitiva, comportamental e emocional voltada para o outro, que toma três formas prototípicas: amor pais-filho, amor filho-pais e amor a outro ser humano fora da familia (amor romantico, amizade, vínculos emocionais entre membros de equipes, colegas de trabalho, etc.). Define-se por atos de troca, ajuda, consolo e aceitação. Envolve sentimentos positivos fortes, compromisso e até mesmo sacrifício.

Bondade - ser bom para outras pessoas (fazer favores, praticar boas ações, cuidar dos outros). Bondade e amor altruísta requerem o reconhecimento de uma humanidade comum, na qual o outro é digno de atenção e afirmação por nenhuma razão utilitária, mas por sua própria causa.

Inteligência Pessoal e Social
- capacidade de entender e administrar emoções; avaliar acuradamente os próprios sentimentos, emoções, desempenho e motivos; agir sabiamente em relacionamentos; identificar conteúdo emocional nas expressões e gestos dos outros e usar esta informação para facilitar as interações.
Tenho certeza que cada um de nós tem sua própia lista de heróis nessa área, então, só como exercício, pensem neles e porque os colocou nessa galeria.
JUSTIÇA
É a noção compartilhada de que há que existir um padrão para proteger o conhecimento intuitivo do que é justo. Inclui:

Cidadania - responsabilidade socias, lealdade, trabalho em grupo. É o que faz com que não se jogue latas de cerveja no meio da rua, pois isso não só atrapalha os outros, como a nós mesmos e ao ambiente onde vivemos.

Equidade - tratar a todos com respeito e consideração.

Liderança - o conjunto de qualidades cognitivas e temperamentais que faz com que individuos possam orientar, dirigir, inspirar, motivar e sustentar outros na busca de um bem comum.Vou dar um exemplo do que está acontecendo no Brasil no momento, pela minha observação de postagens no facebook, que é o julgamento dos envolvidos no caso do mensalão. Pelo que me parece, a figura do presidente do Supremo Tribunal Federal está encarnando Justiça com Liderança.
TEMPERANÇA
É a capacidade de monitorar e gerir nossas própias emoções, motivações e comportamento, sem ajuda externa. Está ligada ao controle de impulsos indesejáveis, autocontrole e capacidade de fazer o que é certo e evitar o que é errado. Estão também definidas em parte, pelo que uma pessoa se priva de fazer. Contém:

Humildade e Modéstia - Humildade é a certeza de não ser o centro do universo e Modéstia é o comportamento resultante.

Prudência - raciocínio prático e auto gerenciamento que nos ajuda a atingir objetivos de longo prazo de forma efetiva, por meio da ponderação das consequências de nossas ações, realizadas ou não. Pessoas prudentes não sacrificam objetivos de longo prazo por prazeres momentâneos, pois têm em mente o que no final trará maior satisfação. Não confundam com medroso, paralisado, exageradamente cauteloso, tenso ou tímido.

Autocontrole ou Auto regulação - é quando exercemos controle sobre nossas respostas e reações, de formas a atingir os objetivos de viver à altura de padrões morais, de desempenho, ideais, normas, expectativas, e é também quando nos forçamos a fazer algo no momento que adoraríamos fazer o oposto. Acho que um belissimo exemplo é o poema “Se” que Rudyard Kipling escreveu quando do nascimento de seu primeiro filho.
TRANSCENDÊNCIA

É a conexão com algo maior, ou a crença de que há um sentido ou propósito maior do que si mesmo. Está separada de religiosidade e espiritualidade, embora possa contê-las. Pode ser algo ou alguém que inspire esperança, reverência ou gratidão; qualquer coisa que faça com que as preocupações diárias pareçam insignificantes, e o eu, pequeno. É aquilo que nos lembra o quão pequenos somos, mas, ao mesmo tempo, nos eleva. É o que sinto todas as vezes que olho para aquela foto do Hubble, da galáxia chamada “O Olho de Deus”; quando vejo ao meu redor a mudança das estações; quando vi aquele duplo amputado disputar as Olimpiadas; no nascimento de crianças normais, sem nenhum dos zilhões de problemas que sei que poderiam ter ocorrido; quando escuto a Nona Sinfonia do Beethoven ou a Cavalgada das Valquírias do Wagner; quando vejo o David e o Moisés, ou o Barishnikov dançando. Inclui:

Apreciação pela beleza e excelência
- reverência, admiração, elevação. É a habilidade de encontrar, reconhecer e ter prazer na existência do bom, tanto no mundo físico (ambiente), quanto no social (talento e virtude nos outros). O que define esta força de caráter é a experiência emocional da reverência, assombro e admiração quando na presença da beleza ou da excelência.

Gratidão - Gratidão deriva da percepção que fomos beneficiados pelas ações de outrém, algo como se tivéssemos recebido um presente.

Esperança
- que inclui otimismo, tendência ao futuro, orientação ao futuro. Representa uma postura cognitiva, emocional e motivacional em direção ao futuro. Pensar sobre o futuro, esperar que os eventos e resultados desejados se tornem realidade, agir de forma a torná-los mais prováveis, e sentir-se confiante de que isto irá suceder dados os esforços apropriados.

Bom humor - que é aquela coisa muito mais fácil de reconhecer do que de definir. Inclui jovialidade. É o reconhecimento de que, seja lá o que for, há sempre um lado divertido, é a criação de uma incongruência, uma visão que permite perceber um lado leve, mesmo na adversidade, e a capacidade de fazer outros rirem.

Espiritualidade - inclui religiosidade, fé e propósito.É considerada a mais humana e sublime das forças de caráter, sendo definida como a posse de crenças coerentes a respeito do significado do universo e o seu lugar nele, bem como na crença em um propósito maior. Pessoas com esta força têm uma teoria a respeito do sentido maior da vida que molda suas condutas e os conforta.

Então, meus prezados, ao contrário de minha falta de aprendizado no assunto quando criança, acabo por descobrir o prazer intrínseco das virtudes, e, já que muitas me faltam, está mais do que na hora de começar a desenvolvê-las. O convite para essa viagem de descobrimento é extendido a parentes, amigos e conhecidos.

Per aspera ad astra!

E como sou criatura de contrastes, o próximo post será sobre a cultura narcisista e de vitimização.

Se (Rudyard Kipling)

Se és capaz de manter tua calma, quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DESAMPARO APRENDIDO - DESAPRENDA

“Todas as manhãs, quando abro meus olhos, digo a mim mesmo: sou eu que tenho o poder de me fazer feliz ou infeliz hoje, e não os acontecimentos. Posso escolher o que vou sentir. O ontem está morto e o amanhã ainda não chegou. Só tenho um dia, hoje, e vou ser feliz nele”. Groucho Marx


Desamparo Aprendido é a condição na qual um animal, humanos incluídos, aprende a se comportar de forma impotente, e não muda sua resposta, mesmo quando há oportunidades de sair da situação. Nessa teoria, a depressão e outros distúrbios mentais podem ser o resultado da falta de percepção de controle sobre situações experienciada pelo indivíduo em questão. Assim, define-se que tem desamparo aprendido, qualquer organismo que tenha sido menos sensível ou ineficaz no determinar as consequencias de seu comportamento.

Pois lá estavam Seligman e Maier em seu laboratório na Universidade da Pensilvânia, em 1967, estudando os mecanismos da depressão, quando, por puro acaso, notaram que os cães (tadinhos), com os quais estavam fazendo os experimentos, começaram a se comportar de maneira oposta à que tinha sido descrita por Skinner, isto é, mesmo quando a oportunidade de escape era dada aos bichinhos depois de receberem choques, eles simplesmente continuavam na jaula e não mais reagiam. O único mecanismo de enfrentamento que passavam a usar era o de serem estóicos e viverem com o desconforto da melhor forma possível. Outra descoberta foi que, ao contrário de todos os outros animas, o ser humano apresenta uma condição única chamada de APRENDIZADO VICÁRIO OU MODELAGEM, isto é, nós humanos podemos aprender, seja lá o que for, não só por passar pela experiência, mas também pela simples observação do comportamento de outrém.

Esse achado explica, de forma clara, muitos comportamentos humanos destrutivos, tais como alcoolismo e dependências quimicas, para os quais nunca jamais se encontrou qualquer base genética. Aliás, sendo honesta, com excessão da esquizofrenia, não há qualquer base genética para nenhum distúrbio mental.

No desamparo, há um aumento do 5-HT (serotonina) no núcleo dorsal da rafe. Outras regiões cerebrais envolvidas com a expressão de comportamento de impotência são a amigdala e estria terminalis.

Estou trazendo todas essas informações em neurobiologia, porque esse tipo de comportamento, ou seja, perceber eventos como sendo incontroláveis, faz com que as pessoas, independentemente de sua origem, idade, credo, cor, se tornem incapazes de lidar com suas emoções, de solucionar problemas ou definirem e alcançarem metas, tornando-se passivas, com variações extremas de humor, e com dificuldade de aprendizado, o que se traduz em sérios problemas de saúde, física e/ou mental. Exemplos disso, vemos todos os dias, como as pessoas que continuam obesas, não fazem qualquer tipo de exercício e, às vezes, nem procuram tratamentos, por acharem que nada podem fazer ou que nada adianta. Essa ideia de impotência frente aos acontecimentos aumenta o estresse, formando um círculo vicioso.

Um dos exemplos mais acachapantes que vi, foi de uma senhora de 40 anos, que, além da dependência a metanfetaminas, também era obesa (o que de per si, é uma dificuldade enorme, pois as anfetas cortam o apetite), mas também com Diabetes II desde os 30, quase cega, com seríssima neuropatia diabética e sem metade do pé esquerdo, perdido para a doença. A citada seguia um regime de doces e Dr. Pepper, uma espécie de coca cola muito popular no Texas, tão absurdamente doce que de olhar, aumenta a glicemia. Pois apesar de todos os avisos e ameaças dos médicos que a tratavam, me disse que comia e bebia o que lhe dava vontade, pois “Deus dá e Deus tira”, e não havia nada que ela pudesse fazer a respeito. Faleceu 3 meses depois da entrevista.

O desamparo aprendido pode ser usado como mecanismo de defesa, para sobrevivência em circunstâncias difíceis, como por exemplo, em crianças ou adultos que sofrem situações de abuso. Quando todas as tentativas de luta, defesa, ou de escape da situação pareceram não funcionar.
Todo mundo conhece algum caso de alguma esposa/namorada/amante que passa por situações terríveis, todos se perguntam porque ela não larga do cara. Porque aprendeu o desamparo que,infelizmente, muitas delas chamam de “amor”. E a corrente se expande quando uma criança, observando sua mãe a obedecer passivamente as demandas de um esposo abusivo, passa a acreditar que baixa autoestima e passividade são coisas normais relacionadas a casamento.
Estudos em saúde mental também demonstraram que pessoas que possuem uma tendência a explicar acontecimentos na vida de forma pessimista, têm suas chances de ter depressão grandemente aumentadas.

O sociólogo Harry White, em seu livro “Identity and Control” (Identidade e Controle), sugeriu que a noção de desamparo aprendido pode ser extendida muito além da psicologia, para o campo da ação social, pois, quando uma identidade cultural ou política falha em atingir as metas desejadas, o que sofre é a percepção coletiva de capacidade. Um exemplo disso são os “Códigos Negros”, isto é, as leis sobre negros, e não necessariamente escravos, aqui nos EUA, que aprendi num dos cursos de Diversidade Cultural. Só vai uma delas, que dizia que qualquer pessoa que ensinasse um negro a ler, escravo ou não, receberia 3 meses de prisão e uma multa de US$25, um dinheirão naquela época.
Outro exemplo que acho impressionante são os conselhos dados às mulheres nas revistas femininas dos anos 50. Há preciosidades tais como:
“Ser uma esposa de sucesso é carreira de tempo integral que requer, entre outras coisas, as qualidades de um diplomata, o conhecimento de negócios, o saber cozinhar, o conhecimento de uma enfermeira, de um politico, de uma professora e de uma dançarina de cabaré”. E se a pobre vivente não possuisse essas qualidades intrínsecas, estaria fadada a uma vida de solteirona infeliz, dado que era ensinado que, para mulheres, a única felicidade possível seria através do casamento.
“Se um homem abandona o lar, é certamente porque a esposa não foi capaz de satisfazer seus desejos ou de ajudá-lo a relaxar quando necessário.”
É engraçado pensar que isso é coisa dos anos 50, quando, com palavras diferentes, vemos as mesmas situações ocorrendo o tempo todo. Há cerca de um mes, li um artigo no Estadão, onde era descrita a situação de jovens no Brasil, principalmente mulheres, que não desenvolvem qualquer competência que os habilite a entrar no mercado de trabalho, quer por não terminarem o 1o. grau escolar, quer por engravidarem muito cedo, continuando assim o círculo pobreza - falta de habilidades - pobreza.

Em seu livro “Gross National Happiness,” (Felicidade Interna Bruta - tradução minha, não achei o livro traduzido para o português), o Dr. Brooks argumenta que, o que é crucial para o bem estar, não é quão alegre nos sentimos ou quanto dinheiro fazemos, mas sim o significado que encontramos ou damos à vida, ou seja, o sentido de “sucesso merecido”, isto é, a crença que criamos algum valor(es) em nossa vida e na de outrém.
Combina com os achados de Seligman, que define: “quando recompensas e castigos são dados de forma arbitrária, os animais (humanos incluídos) param de tentar acertar e se tornam “passivos”, que é exatamente o desamparo aprendido. Um exemplo ao vivo e à cores é Las Vegas. A primeira vez que vi, tinha vinte e poucos anos, então qualquer coisa acima dos 35 parecia velho, mas o que me horrorizou foi ver aquele mundo de velhinhos, de ambos os sexos, muito mais mulheres que homens, sentados em frente às maquinas caça níqueis, com baldinhos de moedas ao lado, aquele olhar perdido no nada, a manusear a maçaneta do lado da maquininha. Nenhuma alegria na coisa, uma repetição de movimentos totalmente mecanizada. Quando alguém acertava, era uma explosão histérica por 5 minutos, e depois tudo voltava ao que era antes. Na época, nem desconfiava que existisse algo chamado de “desamparo aprendido”, mas a cena ficou gravada para sempre em minha mente, e meu pedido fervoroso a um ente supremo foi: “Senhor, qualquer coisa menos isso”.

Então, para evitar ou curar essa condição, a Psicologia Positiva indica, antes de qualquer coisa, dar uma boa olhada nos elementos básicos do bem estar, identificando quais são aqueles que lhe são mais significantes, definir metas e monitorar o progresso. O simples fato de notar quanto tempo se gasta por dia na conquista de cada meta faz uma enorme diferença, pois fica fácil de ver as discrepâncias entre nossa meta e o que fazemos para alcançá-la. Também é uma boa idéia questionar nossas metas e atividades. Por exemplo, se minha meta é conseguir outro mestrado, porque diabos perco tanto tempo me explicando o quão dificil vai ser?

Outro ponto importante é que a Psicologia Positiva não prescreve nenhuma fórmula, mágica ou não, para a felicidade pessoal, e é exatamente por isso que a revisão de nossos valores e metas pessoais é fundamental. Se é sua meta ser a melhor jogadora de buraco de seu grupo, vai em frente. Se for ser a avó do ano, que a força esteja contigo! Lembre-se ainda que, metas e valores mudam como muda nossa vida, em diferentes grupos sociais, em diferentes idades, em países diferentes.
Como regrinha básica, tenho cá comigo que, quando me pego dizendo a mim mesma “sempre”, “todo mundo”, “nada de novo debaixo do sol” e outras preciosidades generalizantes, significa que estou atacada de preguiça mental e que não quero me dar ao trabalho de modificar algo, e é geralmente onde mora o perigo. Mas essa é minha regrinha e não uma verdade universal a ser seguida.

Para melhorar nosso nível de satisfação na vida, é importante rever nossa vivência nas seguintes areas: (em ordem alfabética)

Atenção Concentrada (Mindfulness): a prática da atenção concentrada em coisas como gratidão e otimismo torna as pessoas mais felizes por desenvolver sentido de pertencimento, o que diminui a sensação de solidão e, consequentemente, o stress.

Cuidar
: Voluntários, ou qualquer um que cuida de outrém ou de animais de forma consistente, têm menos depressão do que os que não fazem. E, embora o cuidar ou se voluntariar possa fazer parte de um grupo organizado ou clube, pode também ser uma coisa tão simples quanto dar uma mãozinha a um colega de trabalho que está tendo dificuldade com alguma tarefa.

Envolvimento Espiritual e Significado
: Estudos e mais estudos têm demonstrado a íntima relação entre práticas espirituais ou religiosas, significado e felicidade. A prática espiritual pode ser meditação, atenção concentrada (mindfulness) ou o rezar. É o que é chamado de “propósito”ou “vocação”. Notar que isso é absolutamente pessoal, é o contrário absoluto do sair querendo enfiar nossas crenças nos outros. Conforma-se com o que disse Jesus Cristo a respeito de ir rezar dentro do quarto, se lhe der vontade, e se opõe ao que disse São Paulo de sair evangelizando o mundo. Talvez porque São Paulo era guerreiro de base e, depois do tombo do cavalo, desenvolveu epilepsia, mas isso é só minha opinião e nunca li estudo nenhum a respeito.

Exercício: Saúde e bem estar, que se definem como exercício, alimentação adequada e exposição ao sol, estão associados com melhor saúde mental, desde priscas eras (lembre-se do “Mens sana in corpora sano” dos romanos), e menor incidência de depressão.

Fluidez: É quando se está tão profundamente envolvido em alguma atividade, que perdemos a noção do tempo. Geralmente acontece quando há desafio em quantidade suficiente para gerar tensão (e não estresse patológico),e isto provoca crescimento em alguma área. Quem melhor explicou isso, embora tenha chamado de teoria da relatividade, foi Einstein quando disse: “relatividade é quando alguém se senta numa chapa quente, e um minuto parece uma eternidade, enquanto que quando se está conversando com alguém que se gosta, as horas se tornam minutos”.

Relacionamentos: pessoas que tem amizades longas e duradouras são mais felizes do que as que não têm. O número não importa, o que importa é a qualidade, nível de cooperação em atividades e a troca de sentimentos pessoais. Velho Juca Chaves não me deixa mentir  CLIQUE AQUI

Virtudes e Pontos Fortes: Estudos realizados no campo da psicologia positiva têm levantado cada vez mais evidências a respeito de mostrar que as pessoas mais felizes são aquelas que descobriram suas virtudes (ex: humanidade, justiça) e seus pontos fortes (ex: persistência e pensamento critico), e as usam para alguma finalidade maior que seus própios objetivos pessoais. Isso me lembra gente tipo madre Tereza e Dr. Linvigstone.

A parte que mais gosto nas ciências comportamentais é exatamente essa de definir que, seja lá o que tenhamos aprendido ou concluído em nossa vida, temos a capacidade de aprender coisas e diferentes. E se pudemos aprender algo que acaba não nos fazendo muito bem, podemos usar nossa energia para aprender algo que nos faça bem.

No próximo post, vamos de volta ao passado falar sobre o conceito, antigo como o mundo, de Virtudes.

NA

Albert Einstein (14 Março 1879 – 18 Abril 1955) físico teórico alemão, desenvolveu a teoria da relatividade, revolucionando o campo da física. Humanista convicto e, depois de participar da fissão do átomo, tornou-se um dos mais ativos defensores do pacifismo.

David Livingstone (19 Março 1813 – 1 Maio 1873) escocês, médico missionário, explorador, cruzado contra a escravidão.

Martin E. P. "Marty" Seligman (12 Agosto 1942) Americano, psicólogo e educador, foi quem desenvolveu a teoria do Desamparo Aprendido


Madre Teresa de Calcutá
(26 Agosto 1910 – 5 Setembro 1997), freira, ícone com a famosa frase: “Como cidadã, sou Indiana, pela fé, sou freira católica, mas por vocação, pertenço ao mundo”. Só falta a prova de um segundo milagre para ser santificada, que beatificada já foi em 2003.