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terça-feira, 30 de outubro de 2012

PSICOLOGIA POSITIVA - AS BASES


“Boa saúde, felicidade familiar, paz para todos, dependem do controle e disciplina de nossa mente. Se pudermos controlar nossa mente, podemos encontrar o caminho para a Iluminação, e a sabedoria e virtude virão naturalmente.” Buda

A primeira vez que ouvi falar na coisa foi em 2002, em mais um curso oferecido aos trabalhadores do MHMRTC (a tradução fica ridícula, mas lá vai: Saúde e Retardo Mental do Condado de Tarrant), em Fort Worth, TX. Curiosa para saber que diabos os americanos tinham inventado desta vez, posto que, em minha cabeça crítica, psicologia não pode ser positiva ou negativa, sendo simplesmente o estudo do funcionamento da mente, lá me fui. E fui fisgada, engoli a isca com anzol, linha e tudo.
Para alguém que passou a maior parte de sua vida adulta trabalhando e estudando o pior do que o cérebro pode produzir, falo de esquizofrenia, dependências, distúrbios de personalidade e afins, a proposta desse novo ramo é um alento. Vão entender porque, ao lerem.
Martin Seligman e Mihaly Czikszentmihalhy (e nem tento pronunciar esse nome), os pais desse novo conceito, em 1998, sumarizaram a coisa da seguinte forma: "Acreditamos que uma psicologia positiva do funcionamento humano possa desenvolver intervenções científicas eficazes para construir pessoas, famílias e comunidades mais prósperas, produtivas e pacíficas”. E isso para mim, é bom demais.
Os seguidores da psicologia positiva têm como função “procurar, encontrar e cultivar gênio e talento, tornando a vida de todos os dias mais gratificante, ao invés de apenas tratar doenças mentais”.
E se isso não se chama PREVENÇÃO da mais alta qualidade, então não sei o que é.
Este ramo da psicologia pretende complementar, e não ignorar todo o resto. Não quer ignorar o porquê as coisas não funcionam ou funcionam mal, o que quer é usar o método científico para determinar como as coisas podem funcionar bem, e como cada um de nós pode treinar ou retreinar seu cérebro para o melhor funcionamento possível, dentro de diferentes circunstâncias. E, falou em treinamento do cérebro, tô lá na fila do gargarejo, querendo saber como.
Os pesquisadores da área analisam coisas como estados de prazer ou de fluxo, valores, pontos fortes, virtudes, talentos, assim como as formas pelas quais todas elas podem ser promovidas por sistemas e instituições sociais.
O campo se constrói em cima de 4 alicerces:
1-Experiências Positivas
2-Traços Psicológicos Persistentes
3-Relações Positivas
4-Instituições Positivas
Na realidade, as ideias condensadas na psicologia positiva vem sendo comentadas, em diferentes campos, desde há centenas e centenas de anos, e a base vem da psicologia humanista, de Maslow, Roger e Fromm.
Histórica e religiosamente, felicidade é um tema constante, e vou dar só alguns exemplos:
O Judaísmo e Cristianismo têm uma teoria da ordem divina para sermos felizes, onde felicidade é alcançada, ou vivida, se vividos forem os mandamentos do divino.
O Cristianismo, na idade das trevas (que não à toa tem esse nome), introduziu o conceito de que a verdadeira felicidade só poderia ser alcançada na outra vida, a que vem após a morte (na minha opinião, brilhante, embora cruel, forma de manipulação das massas). Por outro lado, os 7 Pecados Capitais são uma descrição fantástica de auto indulgência e narcisismo, e as 4 Virtudes Cardeais são o que, teoricamente, nos salvam do pecado ou infelicidade (pois é, uma garota pode sair do Colégio Bom Conselho, mas obviamente o Bom Conselho não sai dela).
Já os filósofos gregos, e Sócrates foi o pai dessa ideia, debatiam que felicidade é consequência do autoconhecimento (lembrem-se da inscrição no Templo de Delfos, e que Freud retomou: “Conhece-te a ti mesmo”).
Os epicureus achavam que felicidade é a curtição dos prazeres simples.
Os estoicos acreditavam que felicidade é o ser objetivo e razoável, e descreveram muitos "exercícios espirituais", que podem ser comparados com os exercícios psicológicos empregados em Terapia Comportamental Cognitiva e Psicologia Positiva.
Na Renascença e Iluminismo, o individualismo passou a ser valorizado, pois os indivíduos criativos começaram a ganhar prestígio, sendo considerados artistas, não apenas artesãos.
Filósofos, como John Stuart Mill, acreditavam que ações morais são aquelas que maximizam a felicidade para o maior número de pessoas, sugerindo que uma ciência empírica da felicidade deveria ser usada para determinar quais ações são morais (ciência da moral). Foi com base nessa filosofia que meu nonno me explicou, nos meus confusos 7 anos de idade, que diabos era pecado: “Tudo de ruim que você fizer contra você mesma, as pessoas e animais em geral, e o mundo onde você vive”.

Thomas Jefferson e outros proponentes da democracia acreditavam que “A Vida, A Liberdade e a Busca da Felicidade” são direitos inalienáveis, e que a supressão de qualquer um deles justifica a derrubada de um governo.
Os românticos valorizaram a expressão emocional individual, procurando pelo "verdadeiro eu", que achavam era impedido pelas normas sociais. Foi quando o amor e a intimidade se tornaram as principais motivações para o casamento (isso discutiria por dias, mas aqui não é o momento).
Há muitos outros autores que mereceriam serem citados, mas como este não é um tratado de filosofia, até mesmo porque me falta o conhecimento na área, vamos em frente.
Como vimos, “felicidade” abrange muitos e diferentes fenômenos mentais, e pelo visto, cada um de nós tem sua própria definição. Mais ou menos todos os que se propuseram a fazer escalas para medir o grau de felicidade pessoal ou de uma sociedade receberam críticas enormes de todos os lados, devido ao empirismo de base. Mas, como quem espera sempre alcança, pelo menos era o que dizia minha avó, eis que os avanços das neurociências vêm em nosso auxílio, e, através da neuroimagem e outras técnicas, têm demonstrado as diferenças entre cérebros “felizes” e “tristes”.
Erick Kandel descreveu como a depressão pode ser precisamente diagnosticada, só olhando para exames cerebrais de ressonância magnética funcional. A ideia é que, através da identificação de correlatos neurais para as emoções, num futuro muito próximo, seremos capazes de também descobrir como funcionam os “cérebros felizes”.
A psicologia evolutiva oferece uma abordagem alternativa para entender o que é felicidade e o que vem a ser “qualidade de vida”, pesquisando os funcionamentos cerebrais que nos permitem distinguir entre estados mentais positivos e negativos, e como essas funções melhoram nossa capacidade de sobrevivência e reprodução. A meta é entender exatamente o que vem a ser felicidade e, consequentemente, melhorar as capacidades cerebrais que nos permitam vivenciá-la. Esta perspectiva é formalmente apresentada no livro “Darwinian Happines” (Felicidade Darwiniana), do biólogo evolucionário Bjørn Grinde.
Os achados mais interessantes até o momento foram, por tópico:

Idade
Com exceção da crise de meia idade (entre 40 e 50 anos), as pessoas se tornam mais felizes à medida que envelhecem, pois:
- Emoções de raiva e stress tendem a declinar depois dos 40..
- A preocupação diminui depois dos 50, enquanto o prazer pelas pequenas coisas tende a subir.
(A palavra operativa é “tende”)

As razões para essas tendências vão desde uma maior consciência de nós mesmos e nossas preferências; uma maior capacidade de controlar desejos e manter expectativas mais realistas (a proximidade da morte pode motivar a busca de novas metas); e melhores habilidades sociais, como o perdão, levam anos para serem desenvolvidas. Fato é que as pessoas mais felizes vivem mais tempo, e, embora idosos tenham mais problemas de saúde, têm menos problemas de forma geral.
Adultos jovens tendem a apresentar mais raiva, ansiedade, depressão, problemas financeiros, problemas de relacionamentos e estresse relacionado à carreira.
Os pesquisadores sugerem que depressão nos idosos está geralmente relacionada à passividade e inação, portanto é altamente recomendado que as pessoas continuem fazendo o que gostam de fazer, mesmo na mais avançada das idades.

Dinheiro

Dinheiro faz uma diferença enorme para os pobres (sendo definido como “pobre” qualquer pessoa que não tenha ainda alcançado o preenchimento de suas necessidades básicas, que são: comida, água, abrigo, vestuário, educação e saúde básicas, mas sua influência diminui drasticamente uma vez que a “classe média” é alcançada (Paradoxo de Easterlin).
A riqueza de uma nação está fortemente correlacionada com satisfação com a vida de seus habitantes, mas a correlação entre dinheiro e bem estar emocional é fraca. Prova disso está na lista dos países considerados mais felizes – Dados da OMS - (10 - Suécia, 9 - Canada, 8 - Austrália, 7 -Finlândia, 6 - Israel, 5 - Áustria, 4 - Suíça, 3 - Holanda, 2 - Noruega ,1 - Dinamarca), os quais, como se sabe, são países altamente socializados, onde a disparidade econômica entre seus cidadão é muito pequena, em concordância com as pesquisas que vêm demonstrando que as nações são mais felizes quando as necessidades das pessoas são atendidas.
Já no campo individual, parece que as pessoas se sentem mais felizes quando gastam dinheiro em experiências, tipo viagens, ajuda a outros, do que quando compram coisas.


Educação e Inteligência.

As pesquisas sugerem que uma boa educação é o que aumenta a felicidade, e não um QI elevado.
Martin Seligman disse: “Como professor, não gosto da ideia, mas parece que as virtudes cerebrais – curiosidade, amor pelo aprendizado, são menos ligadas à felicidade do que as virtudes intrapessoais de gratidão, bondade e capacidade para o amor”.

“Felicidade é quando o que você pensa, diz e faz estão em harmonia.” Gandhi

Nesta primeira parte, fizemos um enorme resumo das teorias da felicidade na filosofia, religião e sociologia, e suas conexões com nossa vida do dia a dia. Nos próximos, veremos outras correlações, e as possibilidades de felicidade ser ensinada e aprendida, como forma de Prevenção.

NA

7 pecados capitais: Ganância – Gula - Inveja – Ira – Luxúria – Orgulho - Preguiça.

Virtudes Cardeais: Fortitude ou Coragem - Justiça – Prudência – Temperança.

Abraham Harold Maslow (1 Abril 1908 – 8 Junho 1970). Psicólogo Americano, criador da Hierarquia das Necessidades, que é uma teoria de autoatualização. Achava que era mais importante focar nas qualidades positivas das pessoas, do que tratá-las como “um pacote de sintomas”.

Bjørn Grinde,(3 Julho 1952)biólogo, professor da Universidade de Oslo. Trabalha com genética e evolução, e tem como meta usar a psicologia evolucionaria para melhorar saúde e qualidade de vida no planeta.

Carl Ransom Rogers (8 Janeiro 1902 – 4 Fevereiro1987). Psicólogo Americano, um dos fundadores da abordagem humanista da psicologia (abordagem centrada na pessoa), e é também considerado pioneiro da pesquisa em psicoterapia.

Erich Seligmann Fromm (23 Março1900 – 18 Março 1980) Psicólogo, psicanalista, sociólogo, filósofo humanista, associado à Escola de Frankfurt de teoria crítica.

Eric Richard Kandel (7 Novembro 1929) neuropisquiátra, vencedor do Nobel 2000 em Fisiologia e Medicina, pelas suas pesquisas sobre o armazenamento da memória em neurônios. É professor de bioquímica e biofísica no Colégio de Medicina da Universidade de Columbia.

John Stuart Mill (20 Maio 1806 – 8 Maio1873) filósofo e economista inglês. É considerado o filósofo mais influente do séc.XIX, com suas concepções sobre liberdade. Um dos grandes propositores do Utilitarismo, teoria da ética proposta por Jeremy Bentham.

Paradoxo de Easterlin: Um dos conceitos básicos na Teoria da Felicidade em Economia, proposta pelo professor de economia da USC, Richard Easterlin, que discutiu os fatores que contribuem para a felicidade no artigo: “O desenvolvimento econômico melhora a vida dos humanos? Algumas evidências empíricas”, no qual, pela primeira vez foi discutida a correlação entre riqueza, necessidades básicas e felicidade.

Thomas Jefferson (13 Abril 1743 – 4 Julho 1826) foi o principal autor da Declaração da Independência dos americanos (1776) e o terceiro presidente dos EUA (1801-1809).

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

BLOQUEIOS À CRIATIVIDADE


“Podem os que pensam que podem”. Vergilius.

E finalmente, feito gran finale de novela, aqui vai a última parte de Criatividade, pelo menos por enquanto, pois tenho grandes esperanças que, logo, logo, algo mais surja e nos leve um passo adiante nessa fantástica jornada. Ao contrário de novela, o final feliz não é determinado pela autora, mas sim pelo leitor, que vai usar o material como lhe aprouver. Como tudo mais na vida, o problema não é o problema, mas o significado que lhe damos. A Dra. Sara Mednick (e cols) publicou um artigo interessantíssimo a respeito de sono REM (Movimentos Oculares Rápidos), onde comprova que esse tipo de sono melhora o processamento criativo mais do que qualquer outro tipo de sono ou estado de vigília, mostrando que a ciência, mais uma vez, se dobra às observações de centenas de anos. Lembro-me de meus avós dizerem quando havia algo sério a ser resolvido: “durma em cima disso”. Os autores sugerem que, durante esse tipo de sono, formam-se redes de associação no cérebro, a partir de informações prévias que já estavam lá, mas desencontradas. Pelo visto, desligando o “julgamento”, presente quando estamos acordados, permitimos que o cérebro junte o que previamente não fazia sentido, levando à uma solução criativa do problema. Depois disso, fica fácil entender o que atravanca nosso progresso, começando com nossa atitude:

Ó céus, ó vida, ó azar, um problema!

Usualmente, a reação a um problema é um problema maior que o problema em si. A grande maioria de nós, humanos, nega ou evita encarar um problema, até que a coisa toma um volume tão enorme, que qualquer ação a ser tomada, já não vai funcionar. Isso acontece porque raramente aprendemos que há funcionamentos emocionais, psicológicos e práticos adequados e inadequados, acreditando piamente, e por conseguinte permitindo, que nossas emoções dirijam nosso comportamento. Como já disseram os chineses há milênios, e todo e qualquer livro de autoajuda dos anos 80 repetiu isso ad nauseam, crise significa perigo e oportunidade, e nós escolhemos no que vamos focar nossa energia. Pessoas felizes, segundo a psicologia da felicidade de Seligman, acolhem e até mesmo procuram por problemas, vendo-os como desafios e oportunidades para melhoras. Um bom exemplo continua sendo Steve Jobs, que, ao ser chutado da Apple (companhia que ele mesmo tinha fundado), foi pesquisar, achou a ideia dos maluquetos da PIXAR assaz interessante, investiu um monte de seu dinheiro na coisa, durante 3 anos, nos quais perderam dinheiro como eu perco caneta Bic, depois do que, a PIXAR explodiu como foguete em 4 de Julho. Velho Steve vendeu suas cotas, foi chamado de novo na Apple, onde seu salário era e foi até sua morte, um dolar por ano, mas comprando, de novo, a maioria das ações, e o resto é história.

Só vamos relembrar a definição de problema:
a) A diferença entre o que temos e o que queremos
b) Acreditar que possa existir algo melhor do que a situação presente
c) Uma oportunidade para uma ação positiva.

Na psicologia positiva, acredita-se que a busca de problemas desenvolve o sentido de autoconfiança, aumenta felicidade e nos dá uma sensação de controle sobre nossa própria vida.

Impossível!

Essa é a atitude de “entregar o jogo no primeiro tempo” é dar à coisa um poder que não tinha antes e desistir antes de commeçar, é profecia autorealizada.
Dá só uma olhadinha na história das soluções às grandes negativas da história: “o homem jamais voará”, “doenças são castigos divinos, portanto não curáveis”, e por aí vai. Acho que a atitude correta estava sumarizada numa plaquinha na porta do chefe da cadeira de Neurologia, da Universidade da Florida: “O difícil, fazemos já, o impossível leva um pouquinho mais de tempo”. Minha homenagem atrasada ao fantástico Dr. Melvin Greer. clique aqui

Não posso fazer isso! ou Não há nada que possa fazer!

É quando pensamos que a coisa talvez possa ser resolvida por alguém que tenha um diploma específico na área (costuma ser minha idéia inicial quando começo a ler manual de instruções de algum aparelho eletrônico, principalmente os raios dos telefones “espertos”),ou quando pensamos que não somos capacitados o suficiente, inteligentes o suficiente, seja lá o que for o suficiente. Então tá. Os irmãos Wrights eram engenheiros aeroespaciais? Não, eram mecânicos de bicicletas. A caneta esferográfica foi inventada por um revisor de impressora, Ladislao Biro. O descaroçador de algodão foi inventado por um advogado, Eli Whitney. O Kodachrome (primeiro filme colorido para máquinas fotográficas) foi inventado por dois músicos, Leopold Godowsky Jr. e Leopold Mannes , e por aí vai. Os exemplos são inúmeros…sim, mais dois, Windows e um cara de óculos que nem terminou o colegial, chamado Bill Gates, e tudo da Apple por um cidadão que permaneceu no colegial por 6 meses, sim, adivinharam, Steve Jobs. Aliás, é crença comum e mais ou menos universal que as grandes inovações industriais quase sempre vêm de indivíduos (e não grupos de pesquisa), em áreas totalmente diferentes daquelas da área da invenção. Ou seja, uma boa cabeça, com uma atitude positiva, com interesse e foco em soluções, e não no problema, faz o milagre. A história mais do que demonstrou que a vontade e o esforço são muito mais importantes que qualquer aparelhagem de laboratório. E vamos lembrar o seguinte: sempre se pode fazer alguma coisa. Talvez não se possa, nesse momento, erradicar o problema da face da terra, mas sempre se pode fazer algo para melhorar a situação. Por exemplo, meu sonho é conseguir, através da educação, prevenir drogadependências e um montão de problemas psiquiátricos. Vou conseguir? Não faço ideia, mas todo dia procuro espalhar um pouquinho de informação pelos meios que tenho disponíveis, tipo a mídia social, facebook, twitter, blog. E agora acabo de rir de minha própria cara, pois me lembrei de meu sonho de fazer medicina, quando era adolescente. Sonho simples: entraria na faculdade, penduraria um estetoscópio no pescoço, sairia salvando vidas e eventualmente ganharia o prêmio Nobel. Acho que sou pragmática até em sonhos. Só ainda não ganhei o Premio Nobel, oras, todo o resto, de um jeito ou de outro, fiz.

Isso é criancice!

Em nossos esforços para parecermos maduros e sofisticados, muitas vezes ridicularizamos atitudes criativas, brincalhonas. Agora, falando sério, se resolvemos um problema na nossa vida ao decidirmos fazer piada a respeito, ao invés de meter a mão na cara do outro, é criancice? Winnicott desenvolveu toda uma teoria psicanalítica a respeito do brincar e sua relação com saúde mental, demonstrando o quanto que isso é preciso. E, além disso, quem amadurece são frutas e vegetais. Gente cresce e se desenvolve.

Que é que vão pensar de mim?

“E chi se ne frega?”, como dizem na Itália. Apesar disso, há forte pressão social para nos adequarmos ao que é “comum”, “conformista” e não criativo, dentro da sociedade onde vivemos. Pior, estamos cada vez mais nos dividindo em subgrupos, desde os que seguem os ditames da moda de Vogue, aos roqueiros metálica, dos geeks e nerds aos mauricinhos e patricinhas, cada um carregando seus rótulos como se fossem medalhas, e o desvio do rebanho é taxado de “ridículo”. Algumas pessoas têm um “instinto de rebanho” tão forte, que faz com que as ovelhas pareçam individualistas radicais. Então, que é mesmo que as pessoas estão pensando a seu respeito? Primeiro, você não sabe, e só saberá se perguntar diretamente e a pessoa for honesta o suficiente para dizer a verdade. Segundo, que diferença faz? Vai mudar algo em sua vida se o Zé da esquina achar que sua roupa é ridícula? Se a Mariazinha da praça pensar que seu corte de cabelo está fora de moda? O simples fato é que, alguém vai falar mal de você em algum momento, não importa quão maravilhosa/simpático/esforçada/brilhante, você seja. Até Jesus Cristo teve detratores, e tantos, que foi parar na cruz. Então, já que isso vai acontecer mesmo, vou dar aqui uma de Marta e dizer, relaxa, mas troco o goza por: deixe fluir sua criatividade e individualismo, que é apenas outra forma de gozo. Aliás, se a história está correta ao demonstrar que todos os grandes contribuidores para melhoras no planeta foram, em algum ponto, ridicularizados e, algumas vezes, encarcerados e torturados, pense que o ridículo deveria sim ser usado como medalha de honra.

E se falhar?

O velho e bom Thomas Edson achou mais ou menos 10.000 maneiras de como a lâmpada não funciona. Falhas ao longo do caminho devem ser esperadas e aceitas, pois são ferramentas do aprendizado. Falhar é muito melhor do que a inação. Os que nunca falham, não só são basicamente inúteis para a humanidade, mas são também incapazes de desfrutar da sensação de realização que vem depois de uma longa luta.

Resumindo tudo, o que basicamente destrói o pensamento criativo é:

Preconceito

Fixação Funcional/Estereótipos (quando enxergamos algo pelo nome que tem, ao invés de em termos do que pode fazer: por exemplo, uma mesa é uma mesa, é uma mesa. É fixação funcional quando não posso mais sentar em cima da mesa, porque a gente só senta em cadeira)


Impotência aprendida
(é a sensação de não ter o conhecimento, materiais, habilidade, ou qualquer coisa suficientes para fazer alguma coisa, e daí nem tenta)

Bloqueios Psicológicos (está ligado com preconceito, por exemplo, quando se diz que não se come comida japonesa, porque não se gosta de peixe cru, sem nunca ter experimentado, desconsiderando que há muito mais coisas na culinária daquele país além do sushimi)

E o que faz o mundo girar, além do Money, como brilhantemente cantado por Liza Minelli em Cabaret (clique aqui), são a curiosidade, os desafios, o descontentamento construtivo (contrário de queixa), a crença de que, fora a morte, no resto se pode dar jeito, a habilidade de suspender, pelo tempo necessário, a crítica e o julgamento negativos, o conseguir ver a parte boa da coisa, mesmo num momento ruim, e finalmente, acreditar que não só problemas podem ser resolvidos, como são a melhor oportunidade para crescimento e aprendizado, e que possuímos todas as habilidades necessárias para impedir que o problema se torne uma catástrofe.

E, para terminar, a soma numa música : clique aqui

Próximo blog, Psicologia Positiva.

NA


Donald Woods Winnicott (7 Abril1896–28 Janeiro1971): Inglês, pediatra e psicanalista. Conhecido principalmente por suas ideias sobre “Mãe suficientemente boa”, “Objeto Transicional” e “Verdadeiro e Falso Self”, embora, em minha opinião, o tratamento e prevenção em psicopatias que desenvolveu durante a Segunda Guerra é obra de gênio.


Martin E. P. "Marty" Seligman (12 Agosto 1942): Americano, psicólogo, educador , autor e criador da Teoria da Impotência Apreendida. É professor de psicologia na Universidade da Pensilvânia.






Publius Vergilius Maro (15 Otubro 70 AC – 21 Setembro 19 AC): poeta romano

Sara Mednick, PhD, professora assistente de Psiquiatria na Universidade da Califórnia, em San Diego.

Thomas Alva Edison (11 Fevereiro1847 – 18 Outubro 1931): inventor, dentre outras coisas do fonógrafo, da câmara para cinema e da lâmpada. É considerado o inventor mais prolífico da história, com 1093 patentes em seu nome.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

RECUPERANDO A CRIATIVIDADE ESQUECIDA


“Viver criativamente significa ser você mesmo, e não apenas cumprir com os desejos de outras pessoas.” Matt Groening.

Acredite ou não, todos temos capacidades criativas, as quais abandonamos com o crescimento e aculturação. Mesmo assim, elas continuam lá, de forma latente, podendo ser despertadas, não exatamente como na história da bela adormecida, mas através de um pouquinho de treino e de compromisso conosco mesmos.

Vamos também deixar claro que não há treino (ainda) capaz de nos tornar um Einstein, Leonardo, Beethoven ou Mozart, posto que essa “chama” da genialidade, embora exaustivamente estudada, continua tão elusiva quanto uma fantasia.

Vamos rever o que é mesmo Criatividade e como pode ser vista:

Como uma habilidade: a definição mais simples de criatividade é a habilidade de imaginar ou inventar algo novo. Naturalmente, não é criar coisas a partir do nada (caso você acredite, essa é uma habilidade específica de Deus), mas a habilidade de criar idéias novas, mudando, combinando ou usando de formas diferentes idéias preexistentes. Algumas idéias são impressionantes, fantásticas, brilhantes, mudam o paradigma de uma disciplina; outras (a grande maioria delas) são simples, boas, práticas, coisas que ninguém ainda tinha pensado a respeito.
Como exemplo, o filminho no youtube que alguém me mandou, mostrando uma japonesinha separando a gema da clara num ovo. Absolutamente brilhante, em minha opinião de estabanada criatura, capaz de fazer melecas enormes com essa simples tarefa.
 Clique aqui

Como uma atitude: é a habilidade de aceitar mudanças e novidades; a vontade e o prazer de brincar e se entreter com idéias e possibilidades; a flexibilidade nas perspectivas; o hábito de curtir o que é bom e gostoso, e, ao mesmo tempo, procurar maneiras de melhorar a coisa. Usualmente, somos socializados para aceitar apenas o que é definido como “normal”, o que acaba sendo extremamente limitante. Dizia meu avô que “a necessidade é mãe de todas as virtudes”, e embora tenha “googlado” a tal frase mais do que uma vez, ainda não descobri quem é o autor, mas gosto dela e para mim é fato. Já imaginaram o grau de fome da primeira criatura que comeu um camarão? Porque, convenhamos, aquilo é feio! Os franceses a desenvolverem todos seus molhos, porque a carne que comiam já vinha meio podre?
A criatura que achou que misturando o pó de cacau, aquela coisa amarga de doer, com leite, dava a delícia do chocolate? E assim ad infinitum.

Como Processo: ao contrário do mito de que os criativos produzem suas coisas assim, de repente, num ataque de brilhantismo, na realidade a coisa é produto de trabalho sério e contínuo, para melhorar idéias e soluções, fazendo alterações graduais, refinando a obra. Há muitas histórias de companhias que tomaram a invenção do inventor, para poderem vender o produto, pois senão, o inventor ia ficar remexendo naquilo, sempre tentando melhorar.
Comecei a comer a sopa de peixe do Rufino há muitas e muitas luas atrás. Fiz todo o possível para conseguir a receita, sempre com recusa por parte do criador da citada sopa. Hoje, depois de muita porcaria, juro que a minha é melhor que a dele!

A pessoa criativa sabe que sempre há espaço para melhora, e como faz muito tempo que não tomo a sopa original, posso achar o que quiser, posto que não tenho fatos para atrapalhar minha crença.

Há também os Métodos Criativos, e aqui vou trazer só os clássicos, que são:

Evolução: Método da melhora incremental. Idéias novas são criadas a partir de outras idéias, soluções novas a partir das preexistentes, as novas um pouquinho melhores que as anteriores, e assim por diante. O fazer algo um pouco melhor, gradualmente torna essa coisa muitíssimo melhor e, às vezes, completamente diferente. Pensem no avião, no carro, no telefone, desde aquele negócio inventado pelo Graham Bell até o IPhone5, com tantas capacidades que, juro, não sei usar a metade e provavelmente não aprenderei, pelo simples fato de que não gosto de telefone.
O método evolucionário de criatividade tem um princípio básico: “Cada problema que já foi solucionado, pode ser solucionado de novo de um jeito melhor”. Pensadores criativos não compram a idéia de que uma vez que um problema foi solucionado pode ser esquecido, ou a noção de que “se não estiver quebrado, não conserte”. A filosofia de um pensador criativo é a de que não há “melhoras insignificantes”.

Síntese: Com esse método, duas ou mais idéias preexistentes se combinam numa terceira e nova idéia.
Combinando a idéia de um livro e uma fita cassete, surgiram os livros que podem ser escutados, idéia ótima tanto para cegos quanto para ganhar tempo enquanto se dirige.

Revolução: Quando a melhor idéia é uma completamente diferente, que não existia antes. Por exemplo, usando a filosofia evolutiva, os professores podem se perguntar: “Como posso melhorar minhas aulas?”.
A idéia revolucionaria foi a do professor que achou de inventar, por exemplo, os trabalhos em grupo, mudando a pergunta “como posso melhorar minhas aulas” para “como os alunos podem aprender melhor?”.
Outro exemplo que vi por aqui outro dia: a tecnologia evolutiva para acabar com cupins nas casas foi a de desenvolver pesticidas mais potentes e seguros para formas de vida “não cupins”, como os humanos e bichos de estimação que moram nas casas. A mudança revolucionária foi o abandonar os raios dos gases em favor, ou do nitrogênio líquido, que congela as praguinhas, matando-as, ou as microondas, que as cozinham. Agora, a verdadeira enorme revolução veio da pergunta: “Como é que se previne a praga?” A resposta foi uma isca para cupins que é colocada no solo, em volta de todo o perímetro da casa.

Reaplicação:
É o olhar a algo velho de um jeito novo, ir além dos rótulos; é o remover preconceitos, expectativas e suposições, e descobrir como algo pode ser reaplicado. Exemplos disso vejo todo santo dia no facebook, com as idéias de reciclagem, tipo usar garrafas plásticas para fazer hortazinhas suspensas, usar pneus velhos para fazer vasos, etc...etc…etc…

Ainda me lembro do primeiro exemplo disso que vi na vida, quando minha avó, ao aposentar seu velho ferro de passar roupa, aquele pesadão de ferro mesmo, que se enchia de brasas ardentes, plantou, dentro do mesmo, gerânios vermelhos. Ficou lindo demais.
Ou o gênio que descobriu que detergente, desse usado para lavar pratos, funciona lindamente para remover o DNA de bactérias no laboratório.
Ou seja, é ver além do óbvio, o que é possível.

Mudança de Direção:
muitos avanços criativos ocorreram quando a atenção é desviada de um ângulo do problema para outro, o que é chamado de visão criativa (creative insight).
O exemplo que uso é do departamento de autoestradas da Califórnia: estavam eles tentando fazer com que bandos de adolescentes deixassem de usar uma vala de drenagem como local de skateboarding . Botaram uma cerca, os meninos fizeram um rombo na mesma. Botaram outra cerca mais resistente, mesmo resultado. Colocaram placas ameaçadoras, nada. Daí alguém resolveu mudar a direção e perguntou: “Qual é o problema aqui? Não é o fato de que os meninos continuam a atravessar as barreiras, mas sim que eles querem praticar skateboard na vala. O que podemos fazer para que eles não queiram mais fazer isso?” A solução foi botar concreto na base da vala, removendo a curvatura, e criando um ângulo agudo, tornando impossível a atividade. Acabou o problema do skateboarding e das cercas.

Este exemplo foi escolhido, por revelar uma verdade crítica na solução de problemas: A META É RESOLVER O PROBLEMA, NÃO IMPLEMENTAR UMA OU OUTRA SOLUÇÃO EM PARTICULAR.
Quando uma coisa não funciona, mude para outra!
Não há compromisso com determinado caminho, apenas com a meta.

A fixação numa determinada forma de solução pode se tornar um problema se não entendermos isso. Tornamo-nos excessivamente comprometidos com algo que não funciona e o resultado é apenas muita frustração.
Exemplos disso, vi minha vida toda na área médica, e, o que não vi, li na história da medicina. Aliás, evidências disso estão nas notícias de todos os dias.

Vejamos então: lá por 1641, Renée Descartes decidiu que mente e corpo são duas entidades separadas, inventando o Dualismo, que até hoje atravanca o progresso em várias áreas, e é por causa dele que temos as doenças mentais e as outras, como se o cérebro não fizesse parte de nosso corpo, andasse numa cestinha que carregamos, e usamos de vez em quando, isso quase 500 anos depois. As evidências em contrário que se danem.

O oriente médio está em chamas porque as pessoas têm brigado de “Meu Deus é melhor que o seu”, “Minha verdade é evidente, a sua é mentira”, e seguimos os livros sagrados não como medida de viver em comum, mas como “verdades incontestáveis”, sem parar para pensar porque é que algo há de ser “incontestável”.

Aqui nos EUA, tenho seguido com interesse e, confesso, enorme dose de ironia, a briga para tirar a Teoria da Evolução das salas de aula, porque afinal de contas, é só uma teoria, e se essa é para ser estudada, então Criacionismo tem que ser também.
A parte ironica é pensar que, se ensinarem todos os Criacionismos, não vai dar tempo de ter aula de mais nada.

Então, a fim e a cabo, criatividade é a curiosidade por todas as coisas. É a capacidade de nos maravilharmos com o mundo, é o poder mudar de idéia, como famosamente disse J.K.: “Claro que mudo de idéia! Não tenho compromisso com o erro”.

É o nos permitirmos observar, tentar, errar e continuar fazendo. Basicamente, é olhar o mundo com olhos de criança, e trabalhar duro, feito adulto.

“Criatividade requer a coragem de largar nossas certezas”
. Erich Fromm.

No próximo post, veremos o que destrói a criatividade.

NA: Abaixo vai uma listinha das obras usadas para este post.

Cognition, Creativity, and Behavior: Selected Essays: Robert Epstein, ISBN-10: 0275944522, 1996

Eric Seligman Fromm
(23 Março 1900 – 18 Março 1980, Frankfurt, Alemanha).Psicologo social, psicanalista, sociologo, humanista, filósofo.Em 1941 escreveu “Fugindo da liberdade”, considerado obra seminal da psicologia social.A base de sua filosofia humanista é a reinterpretação da saida de Adão e Eva do paraíso, onde considera a busca do conhecimento uma virtude, e não um pecado.

Matthew Abraham Groening (15 Fevereiro 1954). Criador da série “Os Simpsons”entre outras.

Understanding Creativity: The Interplay of Biological, Psychological, and Social Factors:John S. Dacey, Kathleen H. Lennon, ISBN-10: 0787940321, 1998.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

DEPENDÊNCIAS E CIRCUITO DE RECOMPENSA

Segunda e última parte de como o cérebro funciona em relação às drogas.
Para pais e professores para que possam iniciar a discussão do assunto com crianças/adolescentes de dez anos até...quantos quiserem.
Gratuito, podem baixar, copiar, distribuir.
Continuo acreditando que prevenção através do conhecimento é o melhor remédio.

DROGAS E CIRCUITO DE RECOMPENSAS CLIQUE AQUI

terça-feira, 16 de outubro de 2012

PENSAMENTO CRIATIVO


“Aquele que pensa pouco, erra muito” - Leonardo da Vinci.

No post anterior, vimos a definição mais aceita de criatividade, assim como os quatro elementos que a compõe. Hoje, vamos falar do pensamento criativo, juntando fome com vontade de comer.

R. J. Sternberg, num artigo revolucionário no Creativity Research Journal, revisou o conceito de pensamento criativo, incluindo itens como "investimento" e "propulsão”, e sugerindo que há oito tipos de contribuição criativa (ou pensamento criativo):

Replicação – confirma que determinado campo (problema, situação, pesquisa, arte) é correto.
Ex: Qualquer experimento científico que reproduza os mesmos resultados. Sabemos que a fórmula da água é H2O, porque, todas as vezes que se juntam duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio, dá água, e, se colocarmos duas moléculas de oxigênio, vai dar a maravilha desinfetante que é a água oxigenada.

Redefinição - a tentativa de redefinir o campo ou como este é visto.
Um exemplo que adoro é a redefinição de desenho animado como feita pelo PIXAR.

Incrementação - um contributo criativo que move o campo para a frente, na direção que já está seguindo.
Essa é mole, só pensar no telefone celular.

Avanço - o que avança o campo além do ponto anterior.
Aqui os exemplos são infinitos, ciências médicas, engenharia, física, etc.

Redirecionamento - move o campo numa direção nova e diferente.
Temos o exemplo de Steven Spilberg e George Lucas, com “Guerra nas Estrelas”, que moveu o campo da cinematografia numa nova direção.


Redirecionamento a partir de um ponto no passado
- move o campo de volta a um ponto anterior para avançar numa direção diferente.
O melhor exemplo que me vem à memória é o descobrimento do Haloperidol, pelo Dr. Janssen, que estava pesquisando medicação antihemética, e acabou inventando um potente antipsicótico.

Recomeço / reiniciação - o campo é deslocado para um ponto de partida diferente.
Esse é Von Braun na cabeça, o qual, após inventar as V2 que quase destruíram Londres na segunda guerra mundial, transferido que foi para a NASA, e partindo da mesma base, botou o homem na Lua.

Integração - combinação de duas ou mais formas diferentes de pensar sobre determinado campo, numa forma única.
O melhor exemplo é o Pensamento Integrativo, área da Neurociência Aplicada, inventada por Graham Douglas em 1986, no qual descreve o pensamento integrativo como o processo de integração da razão, intuição e imaginação da mente humana, visando o desenvolvimento de um continuum holístico de estratégias, táticas, ações, análises e avaliações para resolver um problema em qualquer campo, definindo problema como a diferença entre o que se tem e o que se quer.

Isso posto, vamos aos fatos com os quais vivemos.

A maior parte de nosso pensamento, em nossa cultura ocidental, incluindo nosso sistema educativo, enfatiza a análise: somos ensinados a compreender enunciados, seguir ou criar um argumento lógico, descobrir respostas, eliminar os caminhos errados e focar no que é considerado “correto”, em detrimento de outro tipo de pensamento, aquele que explora ideias, gera possibilidades, e procura por mais do que uma resposta “correta”. Continuamos sendo educados dentro do princípio de “ou...ou” ao invés de “isto e mais aquilo”, pois ambos os processos são vitais para nosso desenvolvimento.

Só para clarear bem o conceito, podemos definir os dois tipos de pensamentos da forma abaixo:

PENSAMENTO CRÍTICO PENSAMENTO CRIATIVO

Analítico ................................................. Gerador

Convergente ............................................... Divergente

Vertical ...................................................Lateral

Probabilidade ..............................................Possibilidade

Julgamento ................................................. Sem julgamento

Focado ......................................................Difuso

Objetivo.................................................... Subjetivo

Resposta ................................................... Mais perguntas

Cérebro Esquerdo ............................................Cérebro Direito

Verbal ......................................................Visual

Linear ......................................................Associativo

Raciocínio ..................................................Inovação

Sim, mas… ...................................................Sim, e?

Na vida do dia a dia, ambos os tipos de pensamento nos são extremamente importantes e necessários, pois, primeiro, temos que analisar o problema que se nos apresenta, gerar as possíveis soluções, escolher e implementar o que nos parece a melhor solução, e finalmente, avaliar a eficácia da solução escolhida. Dá pra notar que sambamos de um tipo de pensamento a outro, sendo analíticos e criativos, mesmo porque essa separação de função de cérebros direito e esquerdo é puramente elucidativa e não como o cérebro funciona na realidade, sendo ambos os hemisférios interdependentes.


Por exemplo: Acabo de receber uma estante modular, toda desmontadinha. Abro o manual de instruções (análise do problema: o que tenho - estante desmontada; o que quero - estante montada). Separo as partes e os parafusos e descubro que vou necessitar de uma chave de fenda. Não tenho chave de fenda em casa (pura estultice da autora), mas penso que uma faquinha de ponta arredondada, pode funcionar tão bem quanto (pensamento analógico e criativo, gerando possibilidades). Uso a faquinha como se fora uma chave de fenda para virar os parafusos (mistura de pensamento analítico, pois aprendi como se usa uma chave de fenda, e criativo, usando uma faca como se…). Funciona! (Oba! Sou um gênio). Baseada em minha genialidade previamente determinada por fatos (pensamento analítico), não presto muita atenção no parafuso seguinte, a faca escapa e corto o dedo (anta escalafobética, grito a mim mesma). Sangue se espalha. Que faço? (pensamento analítico: o que é mais importante nesse momento? Cuidar do dedo ou continuar a tarefa? Escolha: ou isso ou aquilo, mais pensamento analítico). Boto bandaid no dedo e limpo o sangue esparramado (tarefas específicas, pensamento analítico na escolha). Retorno à tarefa de apertar os parafusos, desta vez com redobrado cuidado (redirecionamento a partir de um ponto no passado – pensamento criativo). Termino de montar a estante: objetivo alcançado - problema resolvido.

Viu só? É simples e a gente faz isso o tempo todo, sem sequer pensar a respeito, pelo simples fato que fomos ensinados a pensar que criatividade é o campo de um Pablo Picasso, de um Beethoven e outros desse calibre. Fazemos isso em detrimento de nossa própria criatividade, pois fomos condicionados a nos comparar, a ter exemplos definidos do que é bonito, feio, gostoso, nojento, adequado, inadequado, e por aí vai. Nosso treino, desde a mais tenra idade, é a respeito do que pensar ou deixar de pensar, ao invés de como pensar. Fomos condicionado a crer que “pensar” é tarefa árdua, e não apenas mais uma função do cérebro, tal como espalhar o sangue pelo corpo é função do coração.

Por acaso se pensa, a cada “tum-tá” da bomba cardíaca, que o “tum” é o sangue chegando ao coração, e o “ta” é o mesmo saindo? Não, porque a coisa funciona por si mesma, como o pensamento criativo funciona naturalmente nas crianças até mais ou menos os quatro anos de idade, após o que, em geral, vai se perdendo essa capacidade em nome de um aprendizado, não se levando em consideração que o cérebro é extremamente espaçoso, como coração de mãe, onde sempre cabe mais um.

Filhos bastardos desse “treinamento comparativo”, são as mazelas que fazem tão mal ao mundo onde vivemos: fanatismo por qualquer coisa, de religião a política, de ciência a sonho; racismo de todas as formas e sua irmã gêmea, a culpabilização ou busca pelo bode expiatório; o dar mais importância a “se estar certo” do que a ser feliz; a busca pelos ideais inculcados de consumo (beleza, juventude, riqueza e sucesso) a qualquer custo.

Mas, a boa nova é que a criatividade perdida pode ser recuperada. Como? Conto no próximo post.

“Seu tempo é limitado, então não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa. Não caia na armadilha do dogma - que é viver com os resultados do pensamento de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição”. Steve Jobs

Sonhar mais um sonho impossível clique aqui

NA - Para este post, baseei-me nos trabalhos dos seguintes gênios (na minha opinião):

Michael Mumford - psicólogo americano e diretor do Centro de Pesquisa Social Aplicada, na Universidade de Oklahoma. Seu trabalho está centrado em criatividade, inovação, planejamento e liderança ética. Um dos artigos dele que mais gosto é “Creative Thinking: Processes, Strategies, and Knowledge” (Pensamento Criativo: Processos, Estratégias e Conhecimento), The Journal of Criative Behavior, Vol.46, Issue 1, pg 30-47, Março 2012.

Robert Jeffrey Sternberg (8 Dezembro 1949 – Newark, NJ), psicólogo americano, cujo currículo é tão enorme que não dá para colocar aqui. Entre suas grandes contribuições à psicologia, talvez a mais importante seja a Teoria Triárquica da Inteligência, embora tenha várias outras teorias influentes relacionadas com sabedoria, criatividade, estilos de pensamento, amor e ódio. E, maravilha das maravilhas, dá prá ler a obra dele como se fosse um livro do Critchon (aquele que escreveu o Jurassic Park).

Pequena bio dos citados neste post.


George Walton Lucas Jr.(14 Maio 1944- Modesto, California) é um produtor de cinema americano, roteirista, diretor e empresário, fundador, presidente e executivo-chefe da Lucasfilm. Seu primeiro filme, enquanto ainda estudante, THX-1138:4EB (não faço idéia de como traduzir isso), foi enorme fracasso. Chateado mas não a ponto de desistir, foi trabalhar em seu Segundo projeto, American Graffiti…e o resto é história. Em 1977, Star Wars ( Guerra nas Estrêlas), rendeu US$ 513 milhões no primeiro mês após lançamento.



Graham Douglas
é um dos pioneiros no campo da Ciência Aplicada da Mente, criador do Aperfeiçoamento Integrativo . Não consegui achar em lugar algum quando e onde nasceu, mas pela foto dele, dá para notar que é novinho.



John Michael Crichton
(23 Outubro 1942 – 4 Novembro 2008), médico, escritor, produtor, diretor de cinema. Considerava-se criativo demais para ser um bom médico.São dele Jurassic Park e uma das séries mais longas da TV, ER. Seu primeiro best seller “The Andromeda Strain” foi publicado enquanto ainda era estudante de medicina.



Steven Allan Spielberg
(18 Dezembro 1946- Cincinati-Ohio) é um diretor de cinema americano, roteirista, produtor, designer de vídeo games e empresário. É considerado uma das pessoas mais influentes no cinema, e, entre seus filmes temos clássicos como Jaws (Tubarão-1975),Close Encounters of the Third Kind (Contatos Imediatos do terceiro Grau-1977), Raiders of the Lost Ark (Os Caçadores da Arca Perdida-1981) , ET (1982).


Paul Adriaan Jan, Baron Janssen (12 setembro 1926, Turnhout, Bélgica – 11 novembro 2003, Roma, Itália). Em 1953, descobriu sua primeira droga, a ambucetamida, um antiespasmódico, muito eficaz em dores menstruais, e, em 1958, o Haloperidol, que revolucionou o tratamento da Esquizofrenia. Não bastasse, desenvolveu outros analgésicos como o droperidol e etomitate, amplamente usados em anestesia e o difenoxilate, que todo mundo já usou, pois é o famoso Lomotil, para diarreia. No total, descobriu mais de 80 medicamentos, sendo que quatro deles estão na lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial de Saúde.


PIXAR   clique aqui



Wernher Magnus Maximilian, Freiherr von Braun
(23 Março 1912 – 16 Junho 1977), alemão naturalizado americano, físico nuclear, engenheiro aereoespacial.Foi um dos principais líderes do programa de foguetes V-2 na Alemanha nazista. Em 1945, entregou-se aos americanos e passou a trabalhar para o Exército dos EUA, e depois para a NASA, sendo o primeiro diretor do Centro de Vôo Espacial Marshall. Entre outras coisas, arquitetou e desenvolveu os foguetes Saturno, usados para as missões Apollo, colocando o homem na lua.

Não vou colocar a bio do Steve Jobs, dado que, em tendo morrido ano passado, todo mundo já sabe, nem a de Leonardo da Vinci para que não pensem que sou tendenciosa em relação ao italiano gozador.



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CRIATIVIDADE E PENSAMENTO CRIATIVO - INTRODUÇÃO


Como tudo nesse mundo depende e/ou está correlacionado a um momento histórico, a criatividade não ia ser exceção.

Para os antigos filósofos gregos, nem sequer existia, sendo o termo cunhado só na Renascença e ligado ao conceito de imaginação. Antes disso, era vista como uma “manifestação do divino” em humanos.


Thomas Hobbes
foi o primeiro a definir “imaginação” como o elemento de base do conhecimento, e William Duff foi o primeiro a identificar a “imaginação” como uma qualidade do gênio e separou os termos talento (produtivo, mas sem inventar nada novo) de gênio.


Fato é que a criatividade só começou a ser seriamente estudada no final do séc.XIX, e pelos mais errados dos motivos, quando Francis Galton, com seu ponto de vista eugênico, resolveu estudar os aspectos herdados da inteligência, principalmente o da criatividade como um dos aspectos da genialidade.

Aliás, essa nossa característica muito humana, de descobrir coisas fantásticas a partir de motivos totalmente espúrios, não cessa de me espantar, e se alguém duvida do que estou falando, reveja a história das drogas nos USA e a relação com a supremacia branca, e os trabalhos de Menghele em genética. Isso para não falar nas centenas de vidas desaparecidas na corrida ao espaço da extinta URSS.

Pronto, divaguei. Voltando à criatividade, a mesma é hoje definida como: "a invenção ou o ato de originar qualquer coisa nova (um produto, solução, obra de arte, obra literária, brincadeira, piada, etc.) que tem algum tipo de valor”. Lembrem-se que valor, não é preço. Valor, no caso, é algum tipo de significado. Por exemplo, os primeiros borrões de um bebê, que são orgulhosamente pregados na porta das geladeiras mundo afora por avós orgulhosíssimas de seus geniais pimpolhos, tem valor impagável no imaginário afetivo dessas senhoras, categoria na qual me incluo.

A gama de interesse acadêmico em criatividade inclui uma infinidade de definições e abordagens que envolvem várias disciplinas como psicologia, ciência cognitiva, educação, filosofia (particularmente a filosofia da ciência), tecnologia, teologia, sociologia, linguística, estudos de negócios e economia, fazendo correlações entre criatividade e inteligência, criatividade e funções neurológicas e mentais, as relações entre criatividade e personalidade, potenciais para promoção de criatividade através da educação e aplicação de recursos criativos para melhorar a eficácia dos próprios processos de ensino e aprendizagem.

Teorias da criatividade (particularmente a investigação do porquê algumas pessoas são mais criativas que outras) tem-se centrado em uma variedade de aspectos.

Os fatores dominantes são normalmente identificados como "os quatro P´s" no inglês: process, product, person and place (processo, produto, pessoa e lugar), para nós 3 P´s e 1 L (PPPL).

Foco no processo é mostrado em abordagens cognitivas, que procuram descrever os mecanismos de pensamento e as técnicas para o pensamento criativo, sendo Gilford e Wallas seus maiores expoentes.

Foco no produto aparece geralmente em tentativas de medir a criatividade (psicometria) e em ideias criativas, enquadradas como memes de sucesso.

Foco sobre a natureza da pessoa criativa considera hábitos intelectuais, tais como franqueza, níveis de ideação, autonomia, conhecimento, comportamento exploratório e assim por diante.

Foco no lugar considera as circunstâncias em que floresce a criatividade, tais como graus de autonomia, o acesso a recursos e a natureza das relações com o meio ambiente.

Estilos de vida criativos são caracterizados por atitudes e comportamentos usualmente em estridente discordância com a maioria dos viventes naquele momento histórico, bem como enorme flexibilidade no pensamento.

Para clarear o conceito, coloco abaixo alguns exemplos que fazem parte de minha galeria pessoal de heróis, de formas que qualquer um pode concordar ou discordar à vontade. O único fato indiscutível é que, todos eles sem exceção, chacoalharam o pensamento e a estrutura do lugar e época onde viveram e brilharam.


Prometeu: figura mítica (mitologia grega), um dos Titãs, que cria os humanos a partir do barro,e, roubando o fogo do Olimpo, lhes dá vida. Na tradição clássica, torna-se a figura que representa o esforço humano na busca de conhecimento científico, e o risco de consequências inesperadas. Também foi considerado (na era romântica) como a encarnação do gênio solitário, cujos esforços para melhorar a existência humana terminaram em tragédia (Zeus, como castigo, o prendeu no topo de uma montanha, onde um urubu safado comia seu fígado, o qual se refazia depois de comido, numa tortura eterna).


Aspásia de Miletos (460 – 455 AC): Prostituta em Atenas, tornou-se amante de Péricles, conhecido como pai da era de ouro da Grécia, discutiu filosofia com Sócrates e foi perseguida por todos os bem pensantes da época. Quando Péricles morreu, conheceu um pastor de ovelhas, Lysicles, com o qual casou-se, e ensinou-lhe etiqueta e oratória. Agora bem educadinho, o pastor tornou-se um político extremamente proeminente em Atenas. Há piadas a esse respeito com a Hillary Clinton e a Michelle Obama, que dizem que elas estão com o marido no carro, e param para colocar gasolina. Vem o frentista, que, vejam só, foi namorado de adolescência da Hillary ou Michelle (a escolher), ao que o marido (Bill ou Obama) comenta: Veja só onde você estaria se tivesse casado com ele. Quando elas respondem: ele estaria sentado no seu lugar. Brave ragazze!


Leonardo di Ser Piero da Vinci (15 de abril de 1452 - 2 de maio de 1519): pintor, escultor, arquiteto, músico, cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, geólogo, cartógrafo, botânico e escritor. Sua genialidade sintetizou o ideal humanista do renascimento - um homem de "curiosidade insaciável" e "imaginação inventiva febril". Gozador inveterado de si mesmo e do mundo a seu redor - “A função dos músculos é puxar e não empurrar, exceto no caso dos órgãos genitais e da língua.”
Favor notar que essa descrição foi feita quando a Igreja ainda condenava à morte quem dissecasse um corpo humano, e Leo, com a ajuda de um amigo frade, ia futricar o cemitério à noite, e, entre futrica daqui e futrica de lá, descreveu pela primeira vez a anatomia do coração e sistema circulatório, descrição essa validíssima, até os dias de hoje.


Rainha Elizabete I
(7 Setembro 1533 – 24 Março 1603): Filha de Henrique VIII e Ana Bolena, tinha só 3 anos quando a mãe foi decapitada, e, não bastando, foi declarada filha ilegítima. Apesar de tudo isso, não só se tornou rainha, como fez com que a Inglaterra dominasse os mares, acabando com a famosa Armada Espanhola, com uma manobra totalmente brilhante - pegou os piratas, tornou-os pares do reino, e com eles dividiu o que fosse tomados dos navios espanhóis. Foi adiante e reduziu em muito o número de conselheiros da coroa, trocou o sistema monetário, passou uma lei que fazia com que todos os homens capacitados aprendessem a trabalhar a terra, criou tratados com França e Irlanda para encerrar as hostilidades, e estimulou as artes. Shakespeare, Marlowe, Johnson e Spencer que o digam.

Galileo Galilei (15 Fevereiro 1564 – 8 Janeiro 1642): físico, matemático,
astrônomo e filósofo. É considerado o pai da moderna astronomia observacional, e, além de melhorar o telescópio e provar a teoria de Copérnico, também descreveu as manchas solares, os quatro satélites de Júpiter (que mais tarde foram chamados de Luas Galileanas, em sua honra) e as fases de Vênus. Perdeu os olhos por, como bom italiano, ter sido incapaz de fechar a boca. Quero crer que todos se lembram do “Eppur si muove” (e, no entanto, se move), quando, na última chamada no tribunal da Inquisição, onde já havia renegado todas suas descobertas, viu um pêndulo e não se segurou. Cego, mas nem por isso menos combativo, recrutou sua filha freira para explorar os céus.


Catarina, a Grande: Sophie Fredericke Auguste von Anhalt-Zerbst (2 Maio 1729 – 17 Novembro 1796), casou-se com o grão duque Pedro de Holstein da Russia, criatura meio retardada. Por sua conta e risco, a senhora venceu duas guerras contra o Império Otomano, melhorou a legislação russa, descentralizando o poder, iniciou a colonização do rio Volga, fundou escolas de Medicina e Hospitais, o Instituto Solmony de Educação para mulheres e a Academia de Letras. Iniciou o Instituto para Controle das Doenças e separou a Igreja do Estado. Tá bom ou quer mais? No ínterim, achou tempo pra ter uma saudável porção de amantes.


Charles Robin Darwin (12 Fevereiro 1809 – 19 Abril 1882): naturalista britânico e inventor da Teoria da Evolução, explicitada no famoso livro “A Origem das Espécies”, no qual determina que todas as espécies vivas descendem de um ancestral comum, e que a sobrevivência é determinada pela capacidade de adaptação. O pobre homem jamais disse ou comentou a respeito da sobrevivência do mais forte, como foi e vem sendo acusado por detratores que, obviamente, ouviram o galo cantar, mas não sabem bem onde. Foi completamente confuso em seus estudos, começando com a ideia de se tornar ministro, passando por escola de Medicina, e finalmente indo por conta própria por onde o levou sua curiosidade. No ínterim, foi um hipocondríaco convicto e um trabalhador que hoje seria chamado de workaholic. Uma das coisas que acho divertidíssimas do inglês é a lista que fez a respeito de casar-se ou não, sendo que na coluna “vantagens”, escreveu: “Companhia durante a velhice, bem, pelo menos melhor que um cachorro”.


Sigismund Schlomo Freud
(6 Maio 1856 – 23 Setembro 1939): neurologista austríaco e pai da psicanálise, o velho brigão foi estoico até na decisão do momento de sua morte. Foi um dos primeiros estudiosos da paralisia cerebral, descreveu as propriedades analgésicas da cocaína, mas se atrasou no publicar o artigo, sendo batido por Karl Koller, e, pecado dos pecados, ousou falar em libido e sexo em plena era Vitoriana. Seus livros foram queimados em praça pública pelas hordas nazistas, o que produziu a seguinte observação do mestre: "Olha só o progresso que estamos fazendo! Na Idade Média, eles teriam me queimado. Agora eles se satisfazem em apenas queimar meus livros ".


Marie Curie (7 Novembro 1867 – 4 Julho 1934): nascida Maria Skladowska em Varsóvia, Polônia. Em 1989, ela e marido Pierre, descobrem o Polônio e o Radium. Ela foi a primeira mulher a receber o prêmio Nobel em Física. Introduziu nas escolas um método diferente de ensino, baseado na demonstração de experiências. Após a morte do marido, tornou-se a primeira mulher chefe de laboratório, na Sorbonne, em Paris, e foi em frente pra ganhar o prêmio Nobel em Química, em 1911. Marie tem duas crateras com seu nome, uma na Lua e outra em Marte, assim como o jeepinho lunar da NASA. Foi a primeira mulher a ser enterrada no Panteon de Paris, por méritos próprios. E que méritos, digo eu, humilde admiradora.

Madre Tereza: Agnes Gonxha Bojaxhiu (26 Agosto 1910 - 5 Setembro 1997) nasceu em Skopje, agora capital da Macedônia, e, em 1937, fez os votos de pobreza, castidade, obediência e serviço aos pobres da ordem de Santa Tereza de Lisieux. Começou como diretora de colégio em Kolkota e, em 1950, criou as Missionárias da Caridade. Em 1952, criou a Casa para os Destituídos e, em 1979, ganhou o prêmio Nobel da Paz. Essa mulher é um exemplo fantástico de que, com votos, sem votos ou apesar dos mesmos, o que conta é a personalidade destemida.



Valentina Vladimirovna Nikolayeva Tereshkova
(6 Março 1937, em Maslennikovo, Rússia): em 16 de Junho de 1963, tornou-se a primeira mulher no espaço, orbitando a terra 68 vezes em 71 horas. De 1974 a 1990, serviu como membro do Supremo Soviete. Foi nomeada heroína da União Soviética. Antes disso tudo, trabalhava como trabalhadora na industria têxtil.

Há muitos outros exemplos na minha galeria, como, por exemplo, Steve Jobs, falecido ano passado, mas o propósito aqui é um exercício que aprendi fazendo um curso de Liderança, que não sei bem até hoje porque diabos fiz, provavelmente por dois motivos: um, que essa palavra é repetida feito mantra nesta terra, e dois, como já trabalhava no local, o custo foi praticamente nulo.

Pois nesse curso, tinha esse exercício de criar uma galeria de pessoas que se admirava, explicando porque se admirava, para observar a que tipo de grupo humano queremos pertencer. Foi fácil, porque minha galeria de heróis vem sendo criada e revista há anos, mas gostei da ideia do exercício, e mais ainda, gostei de aprender de que grupo quero fazer parte.

Então, para finalizar a primeira parte, façam a lista de seus heróis e do porque os escolheu. Se não gostar, simples, mude seus heróis. Primeiro passo para desenvolvimento da criatividade.

Lembre-se das Frenéticas: "…você escolheu errado seu super herói…"clique aqui

Ou da frase de Tomas Edson: “Nunca falhei. Encontrei 10.000 maneiras de como a lâmpada não funciona.”

NOTAS

Thomas Hobbes de Malmesbury: foi o filósofo inglês que, em seu livro “Leviatã” de 1651, definiu as bases de nossa filosofia política, a partir do ponto de vista do contrato social. Criatura totalmente ambígua em seus escritos, conseguiu, ao mesmo tempo, defender o absolutismo como única forma de governo, e alinhavar os fundamentos do pensamento liberal.

William Duff (1732 - 1815)foi um ministro presbiteriano escocês, e um dos primeiros escritores a analisar a natureza do gênio como propriedade da psicologia humana. Sua obra “Essay on Original Genius” (Ensaio sobre o Gênio Original), é considerada como referência na área.

Sir Francis Galton (16 Fevereiro 1822 – 17 Janeiro 1911),além de ser primo do Darwin, também foi antropologo, eugenista, explorador, geografo, inventor,metereologista, geneticista e estatistico.Foi o primeiro a aplicar métodos estatísticos para estudar as diferenças humanas e os conceitos de inteligência como parte de funções herdadas.Foi pioneiro em Eugenia, cujo nome ele mesmo cunhou, assim como a frase: “natureza versus criação”.Seu livro "Hereditary Genius -1869”
(Genialidade Herdada), foi a primeira tentativa de estudo científico sobre genialidade.

Joy Paul Guilford
(7 Março 1897 – 26 Novembro 1987) foi o psicólogo americano que desenvolveu os estudos psicométricos da inteligência humana, rejeitando o parâmetro numérico de Charles Spearman, propondo as famosas três dimensões (operação, conteúdo e produto) necessárias para descrição da já citada inteligência.

Graham Wallas
(31 Maio 1858 – 9 Agosto 1932) foi um psicólogo social e educador inglês, cofundador da Escola de Economia de Londres. Acreditava que uma análise sociopsicológica poderia explicar os problemas criados pelo impacto da revolução industrial na sociedade moderna, e que o desenvolvimento e melhora da humanidade dependem das melhorias na educação.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PENSAR POR NÓS MESMOS, OU DÁ-LHE, JOCASTA!



“Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo tipo de pensamento que usamos para criá-los”. Albert Einstein

Desde priscas eras, nós humanos indagamos o que é pensar (ato de) e em que consiste o pensamento (consequência do verbo antes citado).

Não é meu objetivo aqui descrever todas as escolas de pensamento em psicologia e filosofia, tanto por falta de conhecimento, quanto por este blog não ter como meta o se tornar uma enciclopédia,de forma que falarei brevemente sobre aquelas que tenho estudado, para poder chegar ao cerne da questão proposta.

Pensamento geralmente se refere a qualquer atividade mental ou intelectual envolvendo a consciência subjetiva de um indivíduo.

Pode ser tanto o ato de pensar, quanto as ideias ou arranjos de ideias resultante do ato.

Por estar subjacente a quase todas as ações e interações humanas, tem sido uma meta de várias disciplinas, incluindo, entre outras, biologia, filosofia, psicologia, sociologia, neurologia, etc.

Pensar nos permite fazer sentido ou modelar o mundo de maneiras diferentes, e representar ou interpretar a nós mesmos, aos outros e ao mundo ao nosso redor, de forma que estas representações nos sejam significativas, ou que estejam de acordo com nossas necessidades, anseios, objetivos, planos, compromissos, finalidades e desejos.

Psicólogos e neurocientistas tem se concentrado no pensar como “um esforço intelectual que visa encontrar uma resposta a uma pergunta ou uma solução a um problema”.

Jean Piaget, o pioneiro da psicologia do desenvolvimento, estudou a formação do pensamento, desde o nascimento até a maturidade, e, em sua teoria, define que este se baseia em ações sobre o meio ambiente.

Segundo ele, o ambiente é compreendido através de assimilações de objetos em esquemas de ação disponíveis, e estes esquemas, por sua vez, acomodam os objetos na medida em que deles necessitam.

Como resultado da interação entre assimilação e acomodação, o pensamento se desenvolve através de uma sequência de etapas qualitativamente distintas quanto a seu modo de representação, complexidade, inferência e compreensão.

Assim o pensamento evolui de sua base em percepções e ações na fase sensório-motora dos dois primeiros anos de vida até as representações internas na primeira infância.

Posteriormente, as representações são gradualmente organizadas em estruturas lógicas, as quais inicialmente atuam na realidade concreta (estágio de operações concretas), e em seguida passam a formar princípios abstratos que se organizam a partir da fase anterior (estágio das operações formais).

Assim, pensamento é um processo, no qual é necessária uma base de desenvolvimento, como em qualquer outro processo.


Entra Freud e seu modelo do “aparato psíquico” de 3 partes - Id, Ego e Superego -, onde o Id contém “nossas tendências instintivas e desordenadas”, o Ego é a “parte realista da psiquê”, e o Superego tem sua “função moralista e crítica”.

Agora vem a parte brilhante do danado, isto é, definir o inconsciente como “uma FORÇA senciente da vontade, influenciada pelo desejo humano e operando bem abaixo da mente perceptiva consciente”.

Não bastasse, vai em frente informando que, o inconsciente é “o depósito dos desejos instintivos, necessidades e tendências psíquicas”, e enquanto reminiscências e necessidades possam ficar escondidas ou inacessíveis à consciência, são elas que, na realidade, dirigem os pensamentos e sentimentos do indivíduo a partir desse domínio.

Para ele, o inconsciente não inclui tudo aquilo que não é consciente, mas apenas o que é ativamente reprimido do pensamento consciente, ou o que não queremos saber conscientemente.

Esta visão coloca o indivíduo numa briga contínua com seu inconsciente para manter oculto o que lá está, ou seja, o inconsciente acaba sendo um enorme depósito para idéias ou desejos socialmente inaceitáveis, memórias traumáticas e emoções dolorosas, e o mecanismo que faz isso funcionar chama-se REPRESSÃO.

Resumindo, o inconsciente é uma força que só pode ser reconhecida pelos seus efeitos, isto é, os sintomas.

Para complicar o meio de campo, vem Jung com sua ideia de “inconsciente coletivo” de uma sociedade, grupo ou toda a humanidade, o qual, segundo ele, “é um sistema interconectado, que por sua vez é o produto das experiências comuns, contendo os conceitos de ciência, religião e moralidade, ou seja, o reservatório de experiências de nossa espécie”.

Infelizmente para mim, inconsciente coletivo me lembra um peixe que comi num restaurante chiquésimo, na época, na Oscar Freire, em São Paulo. Lá veio esse “peixe”, quadrado, com gosto de mais ou menos coisa alguma, e que tive que declarar (em alto e bom som, para a vergonha do amigo que estava comigo), que jamais tinha pensado em comer o inconsciente coletivo dos peixes.

E assim, numa simples frase, não só disse o que pensava a respeito da teoria, como também, seguindo a lei da economia de energia, deixei evidente a quem ouviu, o que pensava de ter que pagar um preço absurdo por um absurdo incomível. E viva os atos falhos e os lapsos de linguagem!

Seja lá que teoria você prefira, os fatos são:

a) Pensar é um processo
b) O processo é aprendido
c) O “pensar por si mesmo” é um processo de contínuo aprendizado e revisão, e que depende de (surpresa! surpresa!) como foi que aprendemos ou fomos ensinados a respeito de pensar, o que, para maioria dos seres humanos remonta à figura mítica de mamãe.

Caso vocês não se lembrem da história de Édipo, faço aqui um resuminho.


Édipo é a figura trágica e principal, na famosa peça de Sófocles, Édipo Rei, e representa o tema de base das tragédias gregas: a natureza imperfeita da humanidade e a impotência do indivíduo contra o curso do destino. Mais tarde, Freud fará uma festa com a história.

Mas voltando, havia esse rei de Tebas, Laio, casado com sua rainha, Jocasta.
O oráculo de Delfos havia predito que, se Laio tivesse um filho, este o mataria e se casaria com a viúva, ou seja, sua própria mãe. Assim, quando Jocasta deu a luz ao filho, embrulharam o bebê e o entregaram a um caçador para que o matasse.
O caçador, não tendo coragem de matar o bebezinho, fez algo de uma caridade ímpar: pregou os dois pés do pimpolho no tronco de uma árvore e se foi.

Eis que por ali passaram alegremente Polibus e sua esposa Merope, reis de Corinto, que, ao ouvirem os uivos do pobre pregado, foram lá, o despregaram da árvore e o criaram como filho.
E assim cresceu Édipo, que quer dizer “aquele que anda com os pés tortos”, alegrinho pensando que era filho deles.
Um belo dia, lá vai ele consultar o oráculo de Delfos, e fica sabendo da profecia, quando, apavorado, pensando que era filho de Polibus, achou por bem fugir para não matá-lo.

(Favor notar que não pensou nem um segundinho em ir falar com Polibus e Merope, e tentar esclarecer a situação).

Vai daí que, deprimido e com raiva de seu destino, está lá ele andando distraído, quando quase é atropelado por uma carruagem que vinha no sentido oposto, dirigida por um velhinho, com o qual naturalmente briga e acaba por matar.

Continua andando em direção a Tebas e, em lá chegando, fica sabendo que o rei tinha morrido e a cidade está sob o domínio da Esfinge. Impávido colosso, lá vai ele e responde acertadamente ao enigma proposto pela mesma (sim, sim, é a mesma esfinge do “decifra-me ou te devoro”, não tem tantas delas dando sopa por aí!), e como recompensa da cidade agradecida, ganha a mão (e o resto) de Jocasta, a rainha, em matrimônio.

Vão em frente e tem dois meninos, Eteocle e Polinicio, que não cheiram nem fedem na história, e duas meninas, Antígona e Ismênia, essas sim vão remexer as águas.

Como Édipo não tinha só os pés tortos, mas, em minha opinião, muitas ideias também, ele quer porque quer saber quem raios matou Laio, e como quem procura acha, descobre que foi ele mesmo.

Jocasta, a inocente, se dá conta então que casou, não só com o assassino de seu marido, como também seu próprio filho, e, chocada, se enforca.

Édipo, então, agarra um broche da roupa dela e enfia em seus olhos, cegando-se (avisei que ele tinha ideias estranhas). Não bastando, é exilado, e lá vai ele, cego e torto, guiado por suas duas filhas, até encontrar refúgio e finalmente morrer em Colonus, pertinho de Atenas.

Freud usou essa tragédia para cunhar o famoso “Complexo de Édipo”, no qual, segundo ele, o menino, ansiando pelo amor exclusivo da mãe, tem inveja do pai e deseja que este desapareça.

E é aqui que discordo do mestre, metida que sou, e acho que é mais um complexo de Jocasta, como tão bem demonstrado pela própria mãe do Freud, dona Amália.

É a mãe que absolutamente interage com o bebê. É a mãe que vai ensinar ao bebê as primeiras experiências e passar a ele (bebê) sua visão de mundo. É a mãe que vai ou não permitir que o bebê cresça e se separe (psicologicamente falando).

E é ela que vai ensinar ao infante como pensar, em que pensar e porque pensar, ou não.

Então, pensar por si mesmo, equivale à superação desse complexo, equivale a crescer, equivale a questionar tudo, inclusive a si mesmo, para não andar pelo mundo cego, torto e cometendo despautérios.

Equivale a questionar as profecias que nos são enfiadas goela abaixo desde o nascimento:

“Joãozinho saiu ao tio Romualdo, um avoado...”
“Mariazinha saiu à vó Mariquita, tão linda, vai ter todos os homens a seus pés...”
“Chiquinho é tão inteligente, vai ser o gênio da família”

Na maioria das vezes, equivale a questionar a esfinge, perguntando à mesma quem lhe deu o poder do questionamento.

Quando não questionamos, somos presas do destino, individual ou coletivo (só pra agradar meus amigos sociólogos e junguianos), o que se reflete em como vivemos nossa vida na sociedade à qual nos sentimos pertencer.

E como, embora os gregos tenham inventado o Édipo, nós, os italianos, o elevamos à categoria de arte, o próximo post será sobre pensamento criativo e suas consequências.

"Só porque gostei de algo em algum momento no tempo, não quer dizer que sempre vou gostar, ou que tenha que ter gostado da mesma coisa em todos os momentos, como um ato impensado de lealdade para com quem sou como pessoa, baseado unicamente em quem eu era. Ser fiel a mim mesmo é me permitir crescer e mudar, e desafiar quem eu sou e o que eu penso. A única coisa que eu sou com certeza é inseguro, e isso significa que estou crescendo, e não estagnado ou encolhendo.“ Jarod Kintz

NA:Citando Freud, de novo, disse ele que, todas as vezes que se aventurava por novo caminho, os poetas lá tinham estado antes. Como concordo, vejam essas duas maravilhas sobre o poder do pensamento.
A primeira é o "Vá pensiero", do Nabuco de Verdi, ao som da qual os italianos primeiro se rebelaram contra o Império Austro-Hungárico, e muito mais recentemente, se livraram do Berlusconi - Escute até o fim, depois dos aplausos  clique aqui
E a segunda, é sobre o mesmo tema, no jeitinho inimitável brasileiro, Pensamento, clique aqui