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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FORMIGAS E PENSAMENTOS NEGATIVOS E AUTOMÁTICOS


“Mudar não é necessário.Sobrevivência não é mandatória” - W. Edwards Deming.

Hoje, vamos falar das tais formigas que tem mania de invadir nosso cérebro, também chamadas de pensamentos automáticos e negativos.

Vou colocar em ordem alfabética, porque um não é mais importante que o outro, são todos, democrática e igualmente, irracionais.

Estragam nossa vida e de quem mais estiver por perto, e simplesmente nos impedem de viver nossa plenitude.

Auto Rotulagem: Quando se generaliza uma ou duas qualidades negativas num julgamento negativo global a nosso respeito. Ex: Fui mal numa prova e concluo que “Sou um fracasso!”

Qual pode ser a consequência deste tipo de pensamento? Ou realmente tornar-se um fracasso, ou desenvolver um sólido pânico de fazer coisas novas, pois “se não fizer, não há jeito de fracassar”.


Cartomancia: Prevendo o pior resultado possível em qualquer situação. Sofrendo por antecipação.

“Tenho a mais absoluta certeza que esse prédio que estão construindo vai tirar todo o sol do meu apartamento, vou ter mofo nos armários e vai ser terrível. Essas construtoras não tem qualquer consideração.” Meses depois descubro que o prédio tem 5 andares e eu moro no 12.

Catastrofização (anglicismo - catastrophizing): Esperar pelo desastre, remoendo o mantra “e se...” dos possíveis negativos de qualquer situação.

“Meu Deus, e se ele não ligar? E se esfriar demais? E se meu salto quebrar? E se chover? E se fizer sol? E se não der certo? E se o mundo acabar em dezembro de 2012?”.

Culpar: Culpar Deus e o mundo por nossos problemas/dores/ações, ou ir pelo caminho inverso e nos culparmos pelos males do universo.

Vingativa: As Frenéticas clique aqui
Você fez de mim uma hipócrita
Você fez de mim uma cínica
Você fez de mim uma mulher sem lar, uma malvada!...
...Por isso eu sou vingativa, vingativa, vingativa...

Falácias de Controle: Quando nos sentimos controlados por forças externas, nos vemos como indefesas vítimas do destino. Quando nos sentimos controlados por forças internas, nos vemos como responsáveis pela felicidade ou infelicidade de todos ao nosso redor.

“Toda minha vida foi decidida pelo destino” Sharon Tate.

“São as estrelas acima de nós que governam nosso destino” Rei Lear – W. Shakespeare.
(E quem tiver paciência, vai reler Hamlet e ver o que acontece com um príncipe guiado pelo fantasma do Pai)

Falácia da Equidade:
Quando decidimos que temos “A Verdade e A Justiça” em nós, portanto sabemos o que é justo para todo o resto da humanidade, ficando muito ressentidos quando alguém tem a audácia de ter ideias diferentes.

Os exemplos aqui podem ser tantos, que estou em dúvida por onde começar ou o que colocar, então acabo de me decidir pelo que considero o mal, escrito e escarrado: Genocídio, que é a ação decorrente da falácia acima explicada.

Adolf Hitler – Alemanha (1939-1945): 12 milhões de mortos entre judeus, gays e outras minorias;

Josef Stalin – Rússia (1932-39): 6 milhões de mortos entre os gulags, os expurgos e a fome na Ucrânia;

Ismail Enver - Turquia (1915-20): 3 milhões de defuntos entre armênios, gregos e assírios.

Caso queiram relato completo de todos os genocídios do séc XX e XXI, clique aqui

Falácia da Mudança: Quando esperamos que os outros mudem para atender nossas necessidades. Neste caso, precisamos mudar os outros porque achamos que nossa felicidade depende inteiramente deles.

“Todo mundo pensa em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo” Leon Tolstoi.

Focar no negativo: Filtrando a parte boa, vendo somente o mal em qualquer situação, e, em não bastando, aumentar o tamanho da desgraça.

Um exemplo que tenho é uma historinha de fadas, que minha mãe amava e eu detestava:

A princesa e a ervilha. Uma princesa perdeu-se numa floresta. E tomou chuva, e tomou sol, e ficou com fome e com sede, e rasgou as roupas e ralou os joelhos, até que, já no extremo de suas forças, achou um castelo onde foi recolhida, lavada, alimentada, aguada, e, finalmente, posta para dormir em cima de 7 colchões. Na manhã seguinte, durante lauto café da manhã, foi inquirida se tinha passado bem a noite, quando respondeu que não, que havia algo nos colchões que a incomodara a noite toda, quando então a rainha do castelo disse que finalmente acreditava que a metida era uma princesa mesmo, pois havia colocado uma ervilha debaixo daquele mundo de colchões. Acho que casou com o príncipe, mas não tenho certeza, porque antes do final feliz, costumava informar a minha mãe que teria posto a criatura de volta na floresta, mal agradecida.

Generalização Excessiva: Concluir algo baseado num único evento ou incidente, pensando que, quando uma coisa ruim acontece, vai acontecer de novo, e de novo, ad infinitum.

Com Mais de 30 - Marcos Valle clique aqui
Não confie em ninguém com mais de trinta anos
Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta, oh mais de trinta...

Leitura da Mente: Achar que sabe o que os outros estão pensando ou sentindo, mesmo que não tenham dito nada.

“Eu sei que ele pensou que não fui promovida por meus méritos”
“Eu sei o que aquela piriguete estava pensando a respeito de meu namorado”

Pensamento em Preto-ou-Branco:
Pensar em palavras como - sempre, nunca, ninguém, todos, o tempo todo, tudo, etc.
"Sempre fui assim..." "Ninguém é completamente honesto..."

Pensar com seus sentimentos: Acreditar em sentimentos negativos, sem nunca
questioná-los ... "Eu sinto que... por isso deve ser verdade".

“Sinto nos meus ossos a falsidade das pessoas”

Pensar em termos de “Devo”, “Preciso”: Pensar nas seguintes palavras: Devo – Devem - Preciso – Precisam:

“As pessoas deveriam seguir meus passos...”, “Preciso fazer tudo perfeitamente”, “Eu deveria poder comer tudo que me desse na telha, sem engordar”.

Personalizar: Investir eventos inócuos com significado pessoal. Pensar que o que outros fazem ou dizem é uma reação a nós ou ao que fazemos.

“Não consegui o emprego que tanto queria...devo ser um desastre de pessoa.”

Próximo post: Se livrando das formigas

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

RODA VIVA


“Somos o que pensamos. Tudo o que somos, surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o mundo” Buddha.

A terapia cognitivo comportamental (TCC) é um tipo de terapia que ajuda a mudar estados emocionais, por modificar algumas formas de pensamento, crenças limitantes e outras distorções cognitivas.

Basicamente, pressupõe que é a nossa interpretação dos eventos, em vez dos próprios eventos, o que causa as consequências indesejadas e/ou os estados emocionais negativos que experienciamos em determinadaa situações.

O foco da TCC está nos seguintes elementos da experiência subjetiva:

A= Ativação (tudo que dispara uma emoção)
C= Crença sobre o evento
C1 = Consequência emocional (estado emocional resultante)
C2 = Consequência Comportamental (nossas ações ou reações)

(Em inglês, é o ABC, onde A = activating event - evento que ativa o processo; B = beliefs - crenças; C = consequences - consequências; C1 = consequence emotional - consequência emocional; C2 = consequence behavioral - consequência comportamental).

Como se vê, nossas crenças determinam os “filminhos” que assistimos em nossa própria cabeça, ou seja, é o significado que damos a um evento que causa nosso estado emocional.

Esse estado emocional, por sua vez, impacta as ações que escolhemos ou as reações que nos escolhem.

Nossas ações são escolhas proativas que fazemos a respeito do que fazer frente a um evento, após considerar todas as opções disponíveis.

Nossas reações são respostas reativas que atuamos automaticamente quando acionadas.

Dou um exemplo:

Ação é quando tenho que tomar banho e tenho que considerar a hora do dia - de manhã, antes de sair - chuveirada rápida para retirar resto do sono do cérebro, tenho hora pra chegar ao trabalho, não dá pra ficar curtindo numa banheira com sais.

Reação é quando, de manhã, e por acreditar que meu cérebro continua dormindo quando saio da cama, sigo a seguinte rotina básica: fazer café, lavar o rosto, escovar os dentes, tomar primeiro xicrão de café, após o que, acredito que meus neurônios começam a fazer algumas conexões.

Espero que tenha ficado claro como minha crença matutina determina meu comportamento, quando estou “funcionando em piloto automático”, sem tomar qualquer decisão.

Respostas reativas são baseadas em limitações ou crenças irracionais, também conhecidas como distorções cognitivas.

(lembre-se do exemplo acima: uma neurologista que acredita que seu cérebro continua a dormir quando ela sai da cama – dificilmente acharia outra crença tão irracional).

Esses "botões" reativos estão em nosso inconsciente, como programas que são executados automaticamente, como uma rede tipo internet, da qual fazem parte todos os pensamentos, crenças, sentimentos, memórias, coisas que dizemos a nós mesmos, e até mesmo nossa fisiologia.

Este é um dos pontos onde a TCC se intersecta com a psicanálise, se lembrarmos como o próprio Freud descreveu a mesma: “A psicanálise não foi idealizada para impossibilitar reações patológicas, mas para dar liberdade ao ego do paciente para que possa decidir de uma forma ou de outra”. Bravo velho Sig!

Fica claro que: reação = patologia, enquanto decisão, escolha = liberdade, saúde.

Ao contrário da psicanálise, a TCC não se preocupa nem um pouquinho com o porquê de nossas crenças, ou de onde elas vêm.

O que faz é identificar, discutir e refutar crenças para que possam ser substituídas por outras, mais precisas e racionais.

Quero aqui fazer um parêntese para a diferença entre lógica e racionalidade.

Lógica, cada um tem a sua, e até esquizofrênicos tem sua própria lógica, que é chamada paralógica esquizofrênica.

Há muitos anos, novinha na área e, como todos os jovens, carregando a certeza de saber de tudo, trabalhava num enorme hospital psiquiátrico, onde um dos pacientes decidiu que eu era Nossa Senhora Aparecida e me seguia prá todo canto.

Até aí, problema nenhum. O problema começou quando ele começou a ter seguidores, e aí complicou. Munida de meu saber, fui confrontá-lo, e aqui vai a conversação que se seguiu:

Eu: Então você acha que sou NS Aparecida?
Ele: Sim senhora
Eu: NS Aparecida é preta?
Ele: É sim senhora.
Eu: Eu sou preta?
Ele: Não senhora.
Eu: Se NS é preta e eu não sou, como posso ser ela?
Ele: Porque a senhora está disfarçada, só pra que eu a reconheça.

10 a zero pro paciente. Lógica irrefutável. Acabei fazendo um trato com ele de que, já que estava disfarçada, não podia ter gente me seguindo, só ele. Funcionou bem.

E isso é racionalidade: decidir o que é melhor fazer, num determinado momento, baseado nas evidências.

A lógica me colocou contra a parede, a racionalidade salvou o dia.

Minha lógica baseou-se em crenças: “Sei tudo da área, pois acabei de receber meu título de especialista”.

Evidência: Titulo de especialista

Falha na lógica: Titulo de especialista não lhe confere infinito saber. Nada o faz.

A falha na lógica chama-se Pensamento Automático Negativo, que Freud chamou de Neurose de Repetição.

O Dr. Daniel Amen, em seu livro “Mude seu cérebro, mude sua vida” (Change your brain, change your life), chama esse tipo de pensamento de ANTs (formigas, em inglês), e faz uma analogia interessante, isto é, que quando pensamos dessa forma, é como se pequenas formigas se espalhassem cérebro afora... é só lembrar o que acontece quando pegamos numa latinha cheia de formigas: elas tendem a rastejar fora da latinha, pra cima de nossa mão, braços, e vão tão longe quanto permitirmos, antes de jogar a latinha longe e nos sacudirmos freneticamente.

É por isso que esse doutor sugere que evitemos pessoas negativas porque “as formiguinhas deles podem se juntar com as nossas, se acasalarem e se reproduzirem...”.

Há vários métodos para avaliar a qualidade de nossas crenças, para determinar se nos são úteis, e falo de utilidade em seu sentido mais ético, isto é, se fazem nossa vida, a vida de nossos semelhante e a sociedade onde vivemos, algo melhor para todos.

Não me refiro à utilidade egocêntrica do que é melhor pra mim, nesse momento, que se dane o mundo. Isso se chama reinado do ID, se for psicanalista, dependência, caso for psiquiatra, ou pecado, segundo me explicou meu avô quando eu, criança, e tendo sido colocada em colégio de freiras, fiquei confusa com que diabos vinha a ser “pecado”.

Em tendo buscado minha enciclopédia pessoal, no caso meu anárquico e ateu, graças a Deus, avô, disse-me: “Pecado é tudo o que você fizer contra você mesma, contra seus semelhantes, ou contra o mundo onde você vive”.

Aqui vão algumas perguntas que podemos nos fazer para identificar uma crença irracional ou limitante:

1- Como é que sei que isso é verdadeiro?
2- Quais são os benefícios presentes e futuros que essa crença me dá?
3- Quais são as consequências negativas, presentes e futuras, que essa crença
traz?
4- O que é que essa crença diz a meu respeito, a respeito dos outros e do mundo?

Se nossas crenças não passarem pelo teste acima, podemos ter a certeza de que não nos servem mais.

Podem ter servido a algum propósito extremamente importante no passado, mas agora precisam ser atualizadas.

A psicanálise chama a isso “Mecanismos de Defesa”, ou seja, algo no qual nos baseamos, num passado distante, para sobrevivência, mas que agora não funciona mais, é carregar peso morto.

Por exemplo: o exército romano foi imbatível, na época de Julio César, devido à sua formação, as armas inventadas e os escudos. Me diga, como se sairiam numa guerra hoje, frente a um propulsor de granadas?

Assim é com nossas crenças.

Se, quando tinha 3 anos de idade, chorar era uma boa ideia para conseguir que alguém me botasse no colo e me afagasse, certamente não vai funcionar direito nesta minha provecta idade, por vários motivos,sendo um dos principais que, a qualidade dos afagos que preciso, mudou.

E se vocês não acreditam nas consequências nefastas de crenças irracionais, deem uma olhadinha no mundo.

O mundo islâmico está pegando fogo porque uma criatura fez um filme insultando o profeta Maomé, e seus seguidores se sentem no direito de matar e destruir porque, como apareceu nos cartazes que carregavam, “Nossa fé é tudo o que temos”.

Israel está se sacudindo nas tamancas, porque os USA não estão tomando qualquer atitude militar contra o Irã, que diz que está fazendo sua bombinha atômica básica, e por algum motivo superior, os USA deveriam, em qualquer situação, defender os interesses do já citado Israel, o qual, já tem a já citada bomba.

A tal da “guerra contra as drogas” tem sido um desastre econômico, social e moral, mas continua firme e forte, porque é um excelente negócio para a indústria da cadeia, aqui nos EUA.

A busca desenfreada pelo “sucesso”, entendido em nossa sociedade como o ter dinheiro e poder, tem tido consequências globais insanas, tais como o desmatamento da Amazônia, o aquecimento global, e metade do mundo ocidental morrendo por excesso de comida, enquanto cerca de 500 mil crianças, todos os anos ficam cegas por não terem a comida suficiente para retirar a vitamina A necessária para a visão.

E nem vou entrar no campo da política, porque senão isso vira uma novela mexicana, que não é minha meta.

E, como comecei com Buddha, termino com Zeus, só porque gosto.

“Oh vergonha! como ousam os mortais colocar a culpa em nós deuses, pois dizem que os males vem de nós, quando, em vez disso, os causam por sua própria triste imprudência ..." (Odisséia:1,32-34 )

Continuaremos com escolhas e consequências no próximo post.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

VELHO SONHO

Acredito piamente que conhecimento é poder e que prevenção é infinitamente melhor que tratamento.

Assim, estou dando início a um projeto que vem saracoteando em minha cabeça há muitos anos: Neurologia para crianças.

Começo com o pacote para Dependências.

Usei os slides da NIDA, que os distribui gratuitamente para médicos e professores, e pede que sejam repassados.

Os slides deles são ótimos, e não há porque reinventar a roda.

A tradução, comentários e analogias,são meus, e o NIDA não tem culpa alguma.

Para pais e professores, usem, abusem, repassem.

Pode ser copiado em pequenas apostilas,e distribuidas.

Mas o melhor jeito que conheço, é aprender junto com as crianças.

Faça do aprender algo divertido, e não um montão de regras enfiadas goela abaixo.

Duvidas e comentarios : mandem uma mensagem no blog.

Prometo que respondo o mais rápido possível.

Salute!

Dra. Patrizia D. Streparava

NEUROBIOLOGIA DAS DEPENDÊNCIAS

terça-feira, 18 de setembro de 2012

CRENÇAS, COMPORTAMENTOS E CONSEQUÊNCIAS I


Ao abrir o computador hoje,e ver que o filme “Instinto Fatal”está fazendo aniversário de 25 anos, fiquei tentadíssima a falar sobre a velha e boa histeria.

Só não o fiz pelo fato que falar sobre as crenças foi a promessa que fiz no último post, além do fato do artigo estar prontinho para consumo.

Mas com certeza, esse aniversário não passará em branco.

Então, vamos ao que interessa nesse momento.

Comecemos por definir as 4 palavrinhas:


CRENÇAS:a) um estado de espírito ou hábito no qual a confiança é colocada em alguma pessoa ou coisa; b) convicção da verdade de alguma declaração, de algum ser ou fenômeno.
O antônimo é DÚVIDA

COMPORTAMENTO: a) a forma como uma pessoa se conduz; b) a resposta ao ambiente, de um indivíduo ou grupo; c) qualquer coisa que um organismo faça, envolvendo ação e sua resposta a estímulos.
Os antônimos são PENSAMENTO e INAÇÃO.


CONSEQUÊNCIA: a) conclusão derivada da lógica (também chamada de inferência); b) algo produzido por uma causa ou necessariamente na sequência de uma série de condições.
Os antônimos são ANTECEDENTE, NEXO, CAUSA, RAZÃO, OCASIÃO.

FATO: a) informação apresentada como tendo realidade objetiva; b) a qualidade de ser real; c) algo que tem existência real.
Os antônimos são IRREALIDADE e CRENÇA
(Todas as definições e antônimos vêm do dicionário Merriam-Webster)

Ao contrário da mui difundida crença de que colecionamos informações do mundo exterior para formarmos novas crenças,a realidade é que só prestamos atenção nas informações que suportam nossas crenças pré existentes.

Assim, se acredito que meu namorado é absolutamente fantástico, sem falhas, incrível,só vou prestar atenção nos comportamentos dele que estimulem essa minha crença,ignorando qualquer informação do contrário.

Usualmente é o que nos leva, após o casamento,a nos “decepcionarmos” com a criatura, chorando em cima das “horríveis mudanças“ que aconteceram com o cidadão em questão, quando a única coisa que aconteceu foi que, em se arrefecendo a paixão e em vivendo juntos, fica extremamente difícil achar que uma cueca largada no meio da sala é um ato “fantástico”.

Tentamos, e tentamos muito, manter nossas crenças, apesar de tudo, e crescimento implica em sofrer “choques de realidade”, superá-los e abrir nosso leque de experiências e percepções.

Aliás, como já disse velho Freud, “A mudança, qualquer mudança, só pode ocorrer quando a dor do viver supera a dor de mudar”.

É assim que nossas crenças moldam nossa realidade.

Se uma pessoa acha que nunca vai encontrar emprego (crença), não vai se motivar a se preparar para o mercado de trabalho (mudança de comportamento), e, mais tarde, quando tentar encontrar um trabalho, falhará (e aí a crença vira verdade).

Nossas crenças funcionam como “filtros” para a informação.

“Filtramos” as informações que recebemos baseados em nossas crenças, e absorvemos apenas aquilo que coincide com o nosso sistema de crenças.

Isso afeta o nosso comportamento, pois , vendo apenas aquilo em que acreditamos, não consideramos qualquer outra evidência que possa ser fornecida.

Exemplos disso são bem visíveis em campanhas eleitorais.

Se sou PT, vou tentar achar alguma lógica (desculpa) para a coligação de Lula e Maluf. Se sou tucano, vou achar legal o Serra se candidatar a tudo que é coisa. Se sou evangélica, vou votar em qualquer coisa que seja contra os gays (e até hoje custo a entender o porque de tanto ódio contra as criaturas).

O problema todo está em que FATOS não alteram CRENÇAS, e as crenças que temos a nosso próprio respeito, a respeito da vida em geral, a respeito dos outros humanos que coabitam este planeta, são responsáveis pelo que somos, como nos comportamos e no que nos tornamos.


O processo de formação da crença é iniciado quando uma sementinha é plantada em nossa mente. Pode ser uma observação feita por uma pessoa com autoridade (pais e familiares), um conselho dado por um amigo próximo, ou até mesmo uma frase que se ouviu de um estranho:

“Joãozinho é tão bonzinho! Pena que seja meio lento de raciocínio”
“Mariazinha é tão linda! Não vai precisar de mais nada na vida”
“O vestibular pra medicina é dificílimo”
“A economia está impossível!”
“Esse menino não vai dar nada na vida”
“Esse cara é um vencedor”

Estes são exemplos de sementes, e mais não ponho por falta de espaço, mas, se pensarmos no que ouvimos, e, de preferência, no que ouvimos repetidamente, podemos ter uma boa ideia de quais são nossas crenças mais arraigadas.

Todas as vezes que uma informação “tropeçar” na semente, ainda podemos escolher se queremos ou não, pois a crença ainda não está de todo formada, mas, o que costumeiramente ocorre, simplesmente por uma questão de economia de energia, é que deixamos que as informações que melhor irrigam nossa semente sejam introduzidas e, como consequência, em pouco tempo temos sólida crença.

Quanto mais “indícios” recolhemos, mais forte se torna nossa crença, até atingir um ponto em que acreditamos que aquilo é fato e não pode ser mudado.

Lembro-me de que, há muitas luas atrás, quando Lula e Collor disputaram a presidência, a Globo inventou para o Collor o epíteto de “caçador de marajás”, e, embora nunca um “marajá” tenha sido citado como caçado, esse pequeno fato não alterou em nada a percepção da criatura. Desnecessário se faz aqui lembrar das consequências.

Numa nota mais pessoal, lembro-me de meus queixumes a meu avô, durante minha triste e desengonçada adolescência, quando ele me disse: “Patrizia, quem não te quer, não te merece”. Achei aquilo o máximo, e guardo comigo como um tesouro, agindo em consequência.

Uma dica básica: para sabermos o que é fato e o que é crença, é só prestar atenção nos adjetivos.

Assim, se mostro a mesa da minha sala de jantar e digo “isto é uma mesa”, estarei enunciando um fato, mas se digo “esta é a mesa mais bonita que já vi na vida”, o fato desaparece e estarei mostrando meu bom gosto ou falta do mesmo, a depender de quem me ouve ou vê a já citada mesa.

No próximo post, veremos a interrelação entre acontecimentos, crenças, comportamentos e consequências.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

TRATAMENTOS DEPENDÊNCIAS – PARTE II


Comecei essa série de posts definindo dependências e seus tratamentos, como terra de ninguém, devido à imensidão de formas e tipos de tratamentos, que vão do basicamente médico, com medicação e ponto, até os moralistas-religiosos, onde o “vício” é falta de conhecimento da luz do Senhor, e basta se converter e serás curado.

Caso estejam interessados, fiz um Power Point  História do Tratamento das dependências.

No ultimo post, falei de um tipo de tratamento, que são as Comunidades Terapêuticas, das quais o melhor exemplo é a Comunidade de San Patrignano, na Itália.

Hoje, vou discutir algumas ideias, tanto de tratamentos quanto do que é chamado de “REDUÇÃO DE DANO”, e que é, basicamente, prevenção terciária.

Comecemos então com este último, e vamos de volta ao final dos anos 80 na Suíça, onde em Zurich, um parque chamado Platzspitz foi colocado à disposição dos usuários de heroína.

Lá, eles podiam usar à vontade, trocando as agulhas usadas por agulhas limpas, numa tentativa de diminuir a incidência de mortes por transmissão de doenças infecto contagiosas. O parque ganhou o apelido de “Parque da Agulha”.

Os comentários mundo afora variaram desde o “ó como os suíços são evoluídos”, até o criticismo sem lógica dos donos da moralidade do mundo.

Lembro-me de, como médica formada há pouco e como neta de avó suíça, provavelmente muito mais pelo segundo motivo, que meu pensamento foi: “Danados dos suíços que acharam um jeito de fazer Eugenia e ainda serem aplaudidos”.

Problema foi que as casas e apartamentos em volta do parque, que por sinal era belíssimo, começaram a cair de valor no mercado imobiliário, pois afinal não é nada legal abrir sua janela numa manhã ensolarada e dar de cara com defuntos no parque.

Assim que, suíços sendo suíços, em 4 de fevereiro de 1992, o parque foi “limpo” de todos os adictos.

Seguiu-se um problema socioeconômico: aumento enorme do roubo de carros, o que também não podia ser aceito naquela regrada sociedade. Já imaginaram que vergonha se um chefe de cartel colombiano vai depositar seu dinheirinho no Banco e, no meio tempo, seu Mercedes é eviscerado? Não, não podia funcionar.

Daí, inventaram um dos mais brilhantes sistemas que conheço: Redução de Danos.

Por definição, redução de danos refere-se a uma série de políticas públicas de saúde, destinadas a reduzir as consequências negativas de certos comportamentos humanos, mesmo que esses comportamentos sejam arriscados ou ilegais.

Naturalmente, os mais preocupados com moralidade do que com saúde criticam essas iniciativas, por acharem que tolerar comportamento de risco ou ilegal envia mensagem para a comunidade de que estes comportamentos são aceitáveis. Como se, desde que o mundo é mundo, nós humanos tivéssemos precisado de apoio para nos comportarmos estupidamente.

Mas, voltando ao sistema suíço, é o seguinte:

a)Para dependentes, a heroína é fornecida sob receita médica,e os locais de injeção são supervisionados.
b)Sistema de trocas de agulha (incluindo os intercâmbios nas prisões)
c)Divulgação e serviços de metadona, alojamentos para dependentes e hospitais/dia para usuários.
d)Projetos para aumentar a integração dos usuários de drogas no local de trabalho, postos médicos para usuários de drogas e moradores de rua,e projetos que prestam assistência aos trabalhadores(as)do sexo.
e)Autoajuda entre os usuários de drogas injetáveis.

A redução de danos é identificada como um dos quatro pilares da política de drogas federal suíça.

Pesquisas e estudos de monitoramento mostram que a Suíça fez progressos consideráveis na redução do uso de drogas e problemas relacionados.
Essa abordagem também contribuiu para os debates sobre outras políticas nacionais e internacionais de drogas.


Um salto geográfico, e vamos aos USA e Stanton Peele, considerado um dos 10 mais na área de dependências no mundo. Infelizmente só comecei a tomar conhecimento de seu trabalho já em meados dos anos 90, embora esse psicólogo e advogado tenha iniciado seu trabalho nos anos 70, mas, antes tarde do que nunca, vamos aos pilares de suas teorias:

1 - Dependência não é causada por substâncias.

Lembremos que quando ele começou a trabalhar no campo, no início dos anos 70, heroína era a única substância considerada como causadora de dependência, e que agora o DSM está considerando colocar a dependência a jogos de azar, sexo e comida, como doença também.

Assim ele acredita, e eu concordo, que dependência é a respeito da intensidade da experiência e do envolvimento em certas atividades, e não a atividade em si, seja ela consumir drogas, ou álcool, ou pornografia online, ou jogos em Vegas.

2 - A verdade é que, a maioria das pessoas se recupera naturalmente de um vício.

Essa ideia ele desenvolveu a partir do documento “Alcoolismo não é mais o que costumava ser”, publicado pelo Instituto Nacional do Álcool e seu Abuso (NIAAA), baseado numa enorme pesquisa do Estudo Epidemiológico Nacional sobre o Álcool e Condições Relacionadas (NESARC), cujas conclusões foram:

a) Vinte anos após o início da dependência do álcool, cerca de 3/4 dos indivíduos estão em plena recuperação.
b) Apenas 13% das pessoas com dependência de álcool receberam tratamento especializado.
c) Ao contrário da opinião largamente comercializada do alcoolismo como uma doença insidiosa que inexoravelmente leva a pessoa a um desenlace terrível, cerca de 75% de todos os alcoólicos superaram sua "doença" sem qualquer tratamento formal em um hospital, ou centro de reabilitação, ou prática de doze passos.

3 - A redução de danos é a mais importante inovação do século 21 na política de dependência e tratamento.

A abordagem de abstinência total é irremediavelmente irrealista, pois impõe uma ideia de “tudo ou nada”. Promovendo apenas a abstinência, destroçamos as possibilidades de mudança e distribuímos mal esforços e recursos.

É muito mais sensato ajudar as pessoas (especialmente os jovens) a desenvolverem habilidades na vida diária para alcançarem objetivos específicos a curto prazo, do que se concentrarem em nunca mais beber ou usar drogas novamente. Também é mais barato e eficiente, pois tratamentos residenciais são simplesmente demasiado caros para funcionar como uma medida de saúde pública.

Esta parte, discordo totalmente, digo a parte do serem caros. San Patrignano é completamente gratuito, sustentando-se por doações e pela venda do que produzem. Em São Paulo, nos anos 90, com meu Projeto Phoenix, demonstrei que pode haver excelente tratamento a preço INPS (era como se chamava na época). Por isso, ganhei menção honrosa da Câmara Municipal da Cidade. Pode haver sim, excelente tratamento de baixíssimo custo.

4 - Tratamento é muito mais do que simplesmente prover suporte para o dependente parar de usar, seja lá o que for que estiver usando.

Por muitos anos, o tratamento psicológico padrão, particularmente a terapia cognitivo comportamental (TCC), foi muito negligenciada pelos profissionais da área.

Na verdade, muitos psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais treinados se esquivaram do tratamento de alcoólatras e outros dependentes, por se sentirem “intimidados” pelos rótulos e pelas afirmações “científicas” de que os dependentes respondem de maneira diferente aos problemas e dilemas humanos do que outros indivíduos.

Mas, quando avaliadas empiricamente, abordagens TCC padrão têm se revelado altamente eficazes no tratamento das dependências.

Depois de examinar as taxas de sucesso de um grande número de terapias concorrentes, um estudo recente publicado no Jornal de Tratamento de Abuso de Substâncias identificou as cinco terapias mais eficazes no tratamento das dependências: Terapia Comportamental Cognitiva (TCC), Abordagem Comunitária de Reforço (ACR), Entrevista Motivacional (EM), Prevenção de Recaídas e Treinamento de Habilidades Sociais.

Em contraste, o AA, a educação sobre drogas e a reabilitação baseadas nos doze passos foram extremamente ineficazes.

No entanto, estas terapias são amplamente disponíveis, em grande parte porque, oito décadas depois de sua criação, o AA tem sido resistente aos avanços médicos e psicológicos que ocorreram neste ínterim.

Pode ser que seja possível fundir estas técnicas com o tratamento de doze passos tradicionais, como alguns afirmam, mas as duas abordagens são basicamente incompatíveis.

O modelo comportamental de tratamento permite que os pacientes determinem sua própria visão de sucesso - seja a abstinência ou a moderação.

Mas nenhum programa de 12 passos permite este tipo de autodeterminação. Na verdade, as pessoas que consideram qualquer coisa, fora a abstinência total, são atacadas como se estivessem em negação ou exibindo "pensamento fedorento." (traduzi "stinking thinking"ao pé da letra, como "pensamento fedorento". Procurei no site brasileiro dos AA por outra tradução, mas não encontrei. Se alguém souber, por favor informe)

Este tipo de decisões duras com clientes, suas motivações e os seus sentimentos, é claro, não é recomendado em psicologia.

5- Capacitação versus Impotência.

Autoeficácia é um componente crítico da TCC, que se esforça para convencer as pessoas que elas têm a capacidade e competência para gerir suas próprias vidas.

Todo o sucesso é atribuído aos próprios pacientes, refletindo sobre sua autoimagem, o que os ajuda a aprender a melhorar suas habilidades de autogestão e reconstruir sua confiança.

O conflito entre o modelo de 12 passos de impotência - "Rendemos nossas vontades e nossas vidas para o nosso Poder Superior" - e a estratégia de tratamento emergente de autocapacitação não é inteiramente insolúvel. Por exemplo, os componentes de solidariedade e de partilha do AA podem apoiar a meta de autoeficácia.

Em outras palavras, se a construção de capacitação através de terapias baseadas em evidências é o método mais eficiente e realista para evitar abuso de substâncias, bem como para o tratamento de pessoas que já estão viciados ou dependentes, por que devemos nos apegar ao modelo de abstinência 12 passos e sua mensagem de rendição?

Sim, é verdade que muitas pessoas foram ajudadas pela abordagem dos AA, mas uma parte muito maior nunca foi.

Há um reconhecimento crescente, especialmente entre os mais jovens, que, para a maioria das pessoas, AA simplesmente não funciona.

Assim, quando o NIAAA declara que "O alcoolismo não é o que costumava ser", o que está realmente dizendo, diplomaticamente, é que estamos enchendo as mentes de muitos viciados e alcoólatras com noções que tornam muito mais difícil para eles se recuperarem.

De fato, pensamento fedido. O que nos leva de volta para a grande transformação que está ocorrendo na definição médica de vício ou dependência.

É difícil para qualquer grupo de pessoas reconhecer a medida de como eles pensam sobre si mesmos, as substâncias que utilizam, e seus outros envolvimentos, para não mencionar a natureza do vício em si, a gravidade de seu vício e suas chances de recuperação.

Chegar a um acordo com esta verdade escorregadia marcará uma revolução ainda maior, em teoria, nas dependências e seus tratamentos, no século 21.

Concluo dizendo que, tendo trabalhado na área das dependências por cerca de 25 anos, em diferentes países, minhas visões sobre o assunto mudaram com o tempo, com o aprendizado e com a experiência.

Ainda bem, digo eu. O lado escuro da situação é que a maioria continua a defender um ponto de vista, uma instituição ou uma ideia, ao invés de defender o bem estar e as possibilidades dos pacientes.

Tenho fé que chegará o dia em que a melhora dos indivíduos seja muito mais importante que nossas crenças sobre o assunto.

Aguarde os próximos post sobre crenças, comportamento e consequências.

Bom fim de semana.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

TRATAMENTOS DROGADEPENDÊNCIAS


Começo informando que a definição de drogadependência que vai abaixo não é necessariamente aquela com a qual concordo totalmente, mas como é a (quase) universalmente aceita, tenho que colocá-la.

Assim, a toxicodependência (drogadependência) é definida como uma doença complexa, caracterizada por intenso e, às vezes, incontrolável desejo pela(s) droga(s), junto com a busca compulsiva da mesma, e o pensamento, e consequente comportamento, persistem mesmo em face de conseqüências devastadoras.

Embora o caminho para a dependência começe com o ato voluntário do uso, ao longo do tempo, a capacidade da pessoa de optar por não fazê-lo torna-se comprometida, e o buscar e consumir a droga torna-se compulsivo.

Este comportamento resulta em parte pelos efeitos da exposição prolongada do fármaco no funcionamento do cérebro, e em parte pela estrutura psíquica de base do indivíduo.

A dependência afeta múltiplos circuitos cerebrais, incluindo os de recompensa e motivação, aprendizagem e memória, e aqueles de controle do comportamento.

Concordo com as alterações nos circuitos, obviamente, posto que podem ser demonstradas, e as consequências são a disrupção de inúmeros, senão todos, os aspectos de vida do dependente.

Por esta simples razão, seu tratamento não é simples.

Programas de tratamento eficazes normalmente incorporam muitos componentes, cada qual dirigido a um aspecto particular do problema e suas consequências.

O tratamento deve ajudar o indivíduo a parar ou controlar o uso, manter um estilo de vida onde possa ter escolhas e não dependência, e conseguir um funcionamento produtivo na família, no trabalho (estudo) e na sociedade onde está inserido.

As pessoas não podem simplesmente parar de usar drogas por alguns dias e achar que estão curados (embora este também seja comportamento padrão de dependentes).

A maioria dos pacientes requer tratamento a longo prazo e/ou múltiplos episódios de tratamento para atingirem o objetivo final de serem capazes de cuidar de sua própria vida.

PRINCÍPIOS DE UM TRATAMENTO EFICAZ


Pesquisa científica desde meados de 1970 mostra que o tratamento que pode ajudar os pacientes a parar de usar, evitar recaídas e recuperar o controle sobre suas vidas, isto é, tratamentos eficazes, implicam nos seguintes pontos:

* Não há nenhum tipo de tratamento que funcione bem com todos os tipos de dependentes

* O tratamento deve ser facilmente disponível.

* Um tratamento eficaz atende a múltiplas necessidades do indivíduo, e não apenas seu abuso de drogas.

* É fundamental que o indivíduo permaneça em tratamento por um período de tempo adequado.

* Terapias indivíduais e/ou em grupo (sendo as mais eficazes as comportamentais/cognitivas).

* Medicamentos são um elemento importante no tratamento para muitos pacientes, especialmente quando combinados com aconselhamento e outras terapias comportamentais.

* O plano de tratamento de um indivíduo, assim como sua evolução dentro do mesmo, devem ser continuamente avaliados e modificados conforme necessário para garantir que suas necessidades (as do paciente) sejam atendidas.

* Sempre lembrar que,a maioria dos drogadependentes tem outros distúrbios mentais, os quais provavelmente os levaram à dependência.

* Embora esteja na moda e na mídia (pelo menos aqui nos EUA), a desintoxicação por medicamentos é apenas o primeiro passo no tratamento, e não provoca, de per si, qualquer modificação a longo prazo. É apenas um passo, caríssimo para dizer a verdade, e, na maioria das vezes, desnecessário.

* O tratamento NÃO precisa ser voluntário para ser eficaz, apesar de toda a barulheira de gente que, quero crer, tem boas intenções, mas não tem qualquer conhecimento real do problema.

* O uso de drogas durante o tratamento deve ser monitorado continuamente, posto que recaídas ocorrem (e como ocorrem!)

* Os programas de tratamento devem avaliar os pacientes para a presença de HIV/AIDS, hepatite B e C, tuberculose e outras doenças infecciosas, bem como fornecer programas educativos para redução de riscos, e para ajudar os pacientes a modificar comportamentos que os colocam em risco de contrair ou espalhar doenças infecto contagiosas.

Isto posto, vamos à parte prática.

Embora pouco se fale sobre o assunto (e isso não sei por que) e muito mal se fale a respeito de medicamentos (o que entendo, já que, quando mal usados ou abusados, se constituem num sério problema), há várias medicações que vem sendo usadas há muitos anos para ajudar no tratamento das dependências, e são elas:

(Coloquei por tratamento de substância)

Tratamento Álcool

Acamprosate, Dissulfiran, Naltrexona e Topiramato.

O Acamprosate reduz os sintomas de abstinência prolongada, tais como insônia, ansiedade, agitação e disforia (estado emocional desagradável, como depressão, ansiedade e/ou irritabilidade). Costuma ser mais eficaz quanto mais grave for a dependência.

O Disulfiram interfere com a degradação do álcool, resultando na acumulação de acetaldeído, o qual, por sua vez, produz uma reação muito desagradável, que inclui náuseas e palpitações no caso de ingesta de álcool.

O Naltrexone bloqueia os receptores opióides no sistema de recompensa do cérebro, reduzindo em muito as recaídas.

Tratamento Opiáceos (tem gente que chama de Opióides)
Buprenorfina, Metadona e Naltrexone.

A Buprenorfina e a Metadona agem nos mesmos alvos da heroína e morfina no cérebro, suprimindo assim os sintomas de abstinência e aliviando os desejos compulsivos pela droga (cravings).

O Naltrexone funciona bloqueando os efeitos da heroína ou outros opiáceos nos receptores do cérebro, e por isso mesmo só deve ser usado em pacientes que já foram desintoxicados.

Esses medicamentos ajudam os pacientes a se desprenderem da busca da droga e consequente comportamento criminoso relacionado e se tornarem mais receptivos aos tratamentos comportamentais.


Tratamento Tabaco

Já existem inúmeras terapias de reposição de nicotina sem necessidade de receita médica, incluindo emplastros (patch),vaporizador (spray), goma de mascar, pastilhas e cigarros eletrônicos.

Caso nada disso funcionar, há a Bupropiona e a Vareniclina, que embora tendo mecanismos de ação diferentes, ambas ajudam na prevenção de recaídas.

TRATAMENTOS COMPORTAMENTAIS (Podem ser com ou sem internação)

Ajudam o paciente a se envolver no processo de tratamento, modificar suas atitudes e comportamentos relacionados ao abuso de drogas, e a aumentar e/ou desenvolver habilidades/competências de vida saudáveis (a UNICEF define habilidades de vida como as habilidades psicossociais para um comportamento adaptativo e positivo, que permitem aos indivíduos lidar eficazmente com as demandas e os desafios da vida cotidiana. São agrupados em três grandes categorias: habilidades cognitivas para analisar e utilizar informações, habilidades pessoais para desenvolvimento do gerenciamento da própria vida, e habilidades interpessoais para se comunicar e interagir eficazmente com os outros).

Dentre os inúmeros tipos de tratamento, vou dar meus dois preferidos, os quais conheço de dentro para fora, e tenho seguido nos últimos 25 anos, e são, de novo por ordem alfabética:
San Patrignano (Itália)e Stanton Peele e seu Life Process Tratment (Tratamento do Processo de Vida ,(USA)


Filosofia que rege o tratamento em San Patrignano:

“Nós não consideramos os dependentes como alguém doente e intratável, destinado a viver com a sua condição até a morte. Em vez disso, os vemos como alguém com um problema, indivíduos únicos, cheios de potencialidades e capacidades que precisam e devem se redescobrir e aprender a se expressar....”

“Aprender uma profissão é uma etapa fundamental na recuperação. Não se pode reconstruir a própria dignidade por pedidos ou pretensão, mas por arregaçar as mangas no trabalho para a sua reconstrução e defendendo-a com o seu próprio trabalho...”

“Ao longo dos anos, as oportunidades de formação profissional aumentaram consideravelmente, mudando e evoluindo com base nas necessidades da sociedade, o que nós sempre tivemos em máxima consideração. Os clientes, portanto, recebem o melhor dos treinamentos. Mais do que nunca, os clientes têm a possibilidade de escolher entre uma variedade de programas de formação, porque nós sentimos que é justo que todos sejam incentivados a perseguir seus próprios interesses e talentos apaixonadamente, cultivando-os com seriedade e compromisso.”

Naturalmente traduzi apenas algumas partes pois o discurso é longo para este blog, mas as partes que escolhi são as que me são caras, como profissional, como ser humano e como italiana rebelde por princípio e convicção. Falta apenas dizer que lá tomei um dos melhores vinhos de minha vida, vinho este produzido na comunidade, desde as uvas, e lá também consumido pelos própios produtores. E se isso não é o mais belo ensino do que é auto gerenciamento e aprendizado de vida, então juro que não sei o que é.

A discussão a respeito de Stanton Peele e suas idéias (as quais compartilho), fica para o próximo, senão isso vai ficar mais comprido que Guerra e Paz, o que absolutamente não é minha intenção.

Salute!