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terça-feira, 28 de agosto de 2012

DEPENDÊNCIAS: A TERRA DE NINGUÉM I

A relação entre drogas e nós, humanos, é longa e interessante.



Quem não se lembra de Noé, que, após 40 dias socado num barquinho com tudo que era tipo de bichos, a primeira coisa que fez ao pisar em terra firme foi tomar um sonoro e merecido porre?

Os gregos tinham seus bacanais, os índios das Américas suas festas, e qualquer grupo humano sempre usou, de alguma maneira, alguma coisa para alterar a percepção da realidade ou para recriá-la.

Até a invasão da América do Sul pelos espanhóis, o uso de drogas costumava ser parte de rituais festivos e/ou religiosos, sem qualquer efeito colateral na vida do dia a dia de seus usuários.

No início, os invasores não deram muita bola para essa mania dos índios de mascarem as folhas da coca, mas, tão logo perceberam os efeitos, a primeira coisa que fizeram foi taxar fortemente o produto.

Foi somente em 1855, que o alemão Friedrich Gaedcke isolou o alcaloide das folhas, e a partir daí, todo mundo começou a usar nas mais variadas formas, como droga milagrosa, e, só no começo do séc. XX, começou-se a estudar seus efeitos aditivos.


Já com o ópio, no início do séc. XIX, mercadores britânicos começaram a contrabandeá-lo para a China, como forma de contrabalançar seus gastos com a compra do chá para vender na Inglaterra.

Em 1939, a China colocou restrições seríssimas à importação de ópio, confiscando o mesmo dos mercadores ingleses. Pronto, foi o que bastou para a Inglaterra atacar a China, que perdeu a guerra, e foi forçada a assinar o Tratado de Nanjing (1842) que, além de ceder Hong Kong aos britânicos, abriu inúmeros portos ao comércio do ópio pelos já citados súditos de sua majestade.


Bom, há centenas de exemplos a serem usados, mas esses dois bastam para apontar que, com drogas, o que vem obviamente funcionando desde cerca de 1600, é seu comércio e o incrível lucro com elas obtido.

O último relato que tenho da ONU, de 2003, estima esse mercado em cerca de US$ 400 bilhões anuais, lá juntinho com o mercado das armas e do petróleo.

E, da mesma maneira que esse tipo de mercado prolifera e se reinventa, reinventam-se e proliferam centenas de “tratamentos” sob as mais diversas égides. Ficamos tão especializados, que já não se trata o paciente, mas sim o “crack”, a “cocaína”, o “álcool”. E muito curiosa fico a respeito de saber como é que se trata uma substância.

Mas, para falarmos de drogas e drogados, é preciso antes de tudo, uma definição.

Assim droga, pelo dicionário médico, é qualquer substância que, ao entrar num organismo, por qualquer via, neste provoca alterações químicas. Por essa mesma definição, há apenas 4 coisas que não são consideradas drogas, a saber e por ordem alfabética: água, ar, comida e sexo, pelo simples fato que são as bases de nossa sobrevivência como indivíduos e como espécie.

E é exatamente aqui que nós humanos conseguimos usar os acima citados como se drogas fossem.

Para os felizes de nós que vivemos em São Paulo, conseguimos até enxergar a droga do ar que respiramos. Logo, logo, ninguém mais precisará de antibióticos ou antidepressivos, bastando beber água da torneira para se drogar.

Comida, nem comento, com as consequências do diabetes tipo II, colesterol elevado, e outras cositas mais.

E chegamos ao sexo que, desenhado para ser uma das experiências mais prazerosas da interação humana, acaba sendo usado e abusado por poder, para esquecimento ou falta do que fazer.

Esquecemos que “drogas” não nos atacam. Nós as procuramos, pagamos e ingerimos, e a prova cabal está no fato de que nunca, jamais, em tempo algum, uma garrafa de bom prosecco geladinha correu atrás de mim berrando: “me bebe, me bebe”.

Assim é que dependências são fenômenos de pensamento e comportamento, com pensamento obsessivo e comportamento compulsivo.

Pensamento obsessivo é quando não se para de pensar numa coisa (Qualquer coisa: namorado/a, droga de preferência, o porquê o colega de trabalho não sorriu pra mim hoje, não faz diferença).

Comportamento compulsivo é quando uma pessoa se comporta de determinada maneira, não porque quer, mas por que precisa (ou acha que precisa, o que não faz a menor diferença).

Concluindo, a drogadependência é um distúrbio obsessivo-compulsivo, e não faz absolutamente a menor diferença qual droga a pessoa use, sendo, portanto, totalmente inoperante o tratamento da substância.

No próximo post (prometo que ainda essa semana), veremos os tipos mais conhecidos de tratamentos, seus prós, contras, sucessos e falhas.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A FUTILIDADE DO MAL


Semana passada prometi que nessa falaria de alguns psicopatas de filme, e outros tantos reais.Fiel à promessa, artigo estava prontinho. Mas, como a vida têm essa mania de acontecer enquanto a gente faz planos, eis que domingo, Wade Michael Page,supremacista branco, tocador de rock nazi, expulso do exército, sem emprêgo, família ou interesses a não ser seu própio ódio, entra num templo Sikh com seu revolver e um monte de munição e sai matando, até ser morto pela polícia.


Óbviamente que, no minuto que isso aconteceu, a mídia toda caiu matando, chamando a criatura de “insano”, como o outro atirador, de duas semanas atrás, James Holmes, em Aurora, Colorado.


Concordo que, quem comete um ato desses, óbviamente “são” não pode ser, mas existe um mundo de diferenças entre a insanidade de James Holmes e a de Wade Michael Page, as mesmas diferenças que existem entre Hamlet e Iago, e agradeço a Shakespeare por ter tão bem descrito ambas, facilitando tudo.


Hamlet, melancólico, retraido, estudioso, indeciso e hesitante, vê e conversa com o fantasma de seu falecido pai, o qual lhe pede para vingá-lo. Hamlet começa a se comportar tão estranhamente que sua mãe e seu novo marido procuram a ajuda de amigos de Hamlet (Rosencrantz and Guildenstern) para vigiá-lo. Naturalmente, nada funciona e como bom drama do velho bardo, há um mar de sangue, mortes e assassinatos.Holmes, atuou em cima de seus delírios e alucinações, ambos deram tôdas as dicas possiveis de que algo sério estava acontecendo, mas, por algum motivo, senão não seria uma tragédia, há uma série de “mal entendidos”que impedem as pessoas de tomar as atitudes que deveriam ser tomadas. Fiel ao recontar a tragédia, a psiquiatra de Holmes, não só levou o caso do rapaz à banca de revisão da faculdade, como foi à polícia do campus, 2 semanas antes do tiroteio. Imaginem a preocupação dessa profissional, para quebrar o sigilo! Ninguém fez nada, o desastre no cinema aconteceu.


Iago, por outro lado, é o maior exemplo de assassino calculista, de sangue frio e motivado por inveja dos que considera melhores do que êle.Tenta destruir a reputação e o bom nome de Cássio, soldado honrado, e a felicidade de Otelo, o mouro valente. Por que é que êle faz isso? Por sentir-se preterido, pois Cássio e Otelo ganharam suas promoções pela coragem que demonstraram, qualidade totalmente ausente em Iago. Não bastasse a honra e coragem, Otelo ainda tem sua espôsa, Desdêmona, que ama e pela qual é amado, enquanto a relação marital de Iago pode ser chamada de tudo, menos de amorosa.


Parece claro, quanto mais dados emergem, que Wade Michael Page decidiu viver pelo código de Iago, cheio de ódio e sadismo, tal qual Nidal Malik Hasan,o assassino de Fort Hood(em 5 de Novembro de 2009, matou 13 e feriu 29, justamente uma semana antes de ser mandado para o Afganistão – formado em medicina e psiquiatria às custas do exército,aguarda julgamento, em cadeira de rodas,continua recebendo seu salário e todos seus gastos médicos tem sido pagos pelo exército)e Anders Behring Breivik,o fanático da Noruega (em 22 de Julho de 2011 matou 77 pessoas –a maioria adolescentes - num campo de férias. Sua motivação: detestava a idéia da Noruega se tornar um país multicultural. Reação magnifica da justiça norueguesa: definiram-no como “doente mental”embora tanto seus advogados quanto ele mesmo jurem que não é, coisa com a qual totalmente concordo mas, ao defini-lo como “doente”,tiraram-lhe toda a pompa e superioridade que tentava ter.O veredicto sairá em 24 de Agosto).

Então, essa é básicamente a grande diferença entre um psicótico, que na grande maioria das vezes só é mesmo risco para êle mesmo, e o psicopata, que é um risco para todos.

Seria muito bom que todos nós estivessemos conscientes dessa distinção, e pudessemos ver os psicopatas pela pequenez covarde que os distingue, ao invés de continuar a vê-los como Cavaleiros escuros,que é a própia definição do Batman, a contrapartida rica do Coringa.

E para mim chega de falar deles. O próximo post será a continuação dos mitos em psiquiatrica e a respeito de Drogadependentes.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O PSICOPATA MORA AO LADO


Continuando com os mitos na area psi, vamos ao mito do psicopata como sinônimo de psicótico.

Psicopatia é um distúrbio da personalidade caracterizado por :
Fanfarronice e charme superficial; Falta de empatia; Decisões tomadas sempre em
interesse próprio, mesmo quando isso é eticamente questionável; Mentiras crônicas;
Falta de remorso; Falta de responsabilidade pelas próprias ações, sempre culpando
outrem; Emoções de pouca profundidade; Foco na auto gratificação às expensas dos
outros; Comportamento do tipo levar vantagem em tudo; Manipulação.

Usualmente o psicopata tem QI mais alto que a média da população,e é o“ponto
cego” da psiquiatria e psicoterapias em geral, pelo simples fato de que, nas raras
ocasiões em que procura qualquer tratamento psi, é por estar “deprimido” por algum
choque em seu narcisismo, abandonando o tratamento tão logo o terapeuta o ajude a
inflar novamente seu ego.

O termo “psicopata” não é usado em psiquiatria ou psicologia (que utiliza a terminologia“Distúrbio Antisocial da Personalidade”), mas é amplamente usado em Criminologia,Direito, mídia de qualquer tipo e público leigo, os quais (todos os anteriormente citados)em geral, confundem psicopata com psicótico, embora psicopatas raramente sejam psicóticos.

Usualmente, para determinação de psicopatia, usa-se a Lista de Verificação de Psicopatia de Hare (PCL- R), onde há 20 itens em 4 facetas que são:1- Interpessoal; 2-Afetivo; 3-Estilo de Vida; 4-Antissocial.

Pelo fato dos resultados desse teste causarem consequências sérias na vida de uma pessoa, deve ser aplicado por clínicos especializados em situações controladas, e por essa razão não coloquei aqui o teste inteiro, nem como é feito, só uma ideia geral.

Há também o Inventário de Personalidade Psicopática (PPI), o Inventário Multifásico de Personalidade de Minesota (MMPI) - meu preferido, e não só para psicopatia - o Inventário Psicológico da California (CPI),e outros menos cotados.

Coloquei toda essa informação para continuar clareando o mito de que não há testes aplicáveis em psiquiatria.

Ainda não sabemos o que causa a psicopatia, mas o que se sabe até o momento é que
a genética é responsável por 50% do problema, o resto é o ambiente.

Estudos neurológicos e sociais demonstraram que:

1-Psicopatas não têm as mesmas respostas fisiológicas ao medo, como a maioria das
pessoas, tais como taquicardia, sudorese, boca seca, tremores e tensão muscular.

2-Psicopatas quase não têm respostas fisiológicas a palavras de alto conteúdo emocional como “amor” e “morte”, o que sugere que eles processam estímulos emocionais
de formas diferentes.

3-No caso de irmãos gêmeos,se um é psicopata,o outro tem muito mais chances de
também sê-lo do que a população em geral.

3-Estudos com crianças adotadas indicam que as crianças podem herdar traços
psicopáticos de um pai psicopata, mesmo quando são criados por pais diferentes.

4-Foram achadas formações e neurotransmissores diferentes em cérebros de
psicopatas.

5-Abuso não causa psicopatia, mas pode moldar a forma de como o distúrbio se
manifesta. Assim, psicopatas criados em familias amorosas e estimulantes, acabam
por se tornar, por exemplo, empresários desonestos(o filme “Wall Street” é um exemplo perfeito),um “Don Juan” ou um criminoso não violento (me vem à mente o seriado “White Colar”) enquanto outro, criado num lar violento e/ou negligente, torna-se criminoso violento (os da minha geração devem se lembrar do Charles Manson,
aquele que destripou a Sharon Tate grávida de 8 meses - a história de vida dessa criatura é um filme de terror. Filho não desejado de mãe prostituta juvenil, nunca teve um lar, nunca soube quem era seu pai, nunca conseguiu ir consistentemente a uma escola).

6-Algumas culturas tem muito mais psicopatas do que outras. Nos EUA, onde prevalece
individualismo e auto promoção, temos estimados 4% de psicopatas na população e
75% de todos os criminosos em séries do mundo, enquanto no Japão, onde há a ética
da conexão social e responsabilidade pessoal, a estimativa de existencia de psicopatas é de 0,03 a 0,14%.

Como há psicopatas em toda e qualquer cultura, acredita-se que nasce o mesmo
número de psicopatas em todo lugar, mas, em alguns lugares, as manifestações do
comportamento psicopático são fortemente desencorajadas, enquanto que em outros
são encorajadas, isto é, há grandes chances de um psicopata se dar bem nos EUA e não no Japão.

7-Psicopatas são notoriamente irresponsáveis quanto a controle de natalidade, seguindo a segunda lei da seleção natural, isto é, tendo o maior número de filhos
possivel e não cuidando deles, mas pela força dos números alguns sobreviverão(fator K da natureza:o animal tem maior número de filhotes quanto menores são as chances de sobrevivência).


8-Psicopatas tendem a ser sexualmente promiscuos, abandonando amantes e família
regularmente na busca de nova conquista.

9-Alguns indivíduos que sofreram traumatismo cerebral na área frontal, tendem a exibir comportamentos psicopáticos,tais como dificuldade de planejameno a longo prazo,agressividade, falta de controle dos impulsos, baixa tolerância à frustrações e
impulsividade.

E, apesar disso tudo, por eles somos todos incrívelmente fascinados.

No proximo post, veremos psicopatas de filme e alguns da vida real.