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terça-feira, 24 de julho de 2012

MITOS E TRAGÉDIAS NA ÁREA PSI

Sei que anunciei que esta semana falaria de mais mitos, incluindo:


Dependência a drogas é falta de força de vontade; e as pessoas se tornam psicóticas assim, de repente, sem aviso prévio.

Mas, em vista de acontecimentos tão trágicos como o da semana passada no Colorado, vou tentar juntar o mito, a mídia e nossos sintomas sociais, tentando matar um bando de coelhos com uma cacetada só.

Culpa disso foi assistir o Today Show, de manhã cedinho, porque eles estão fazendo uma cobertura fantástica das Olimpíadas, e, como boa não atleta, sou fascinada por elas. Assim, estava eu a postos para me deliciar com o visual da coisa toda, quando, naturalmente, lá vem a entrevista com uma advogada e uma psiquiatra a respeito do caso em Colorado. Prestei atenção. Prestei muita atenção, e o que entendi foi: a) a advogada não faz ideia do que seja um distúrbio psiquiátrico, confundindo psicopatia com esquizofrenia, distúrbio de personalidade com crenças religiosas, e, no todo, fazendo uma salada de nomes pseudo psiquiátricos e pseudo científicos; b) a psiquiatra, mantendo-se no lado politicamente correto do não–me-envolvo, cá–estou-para-esclarecer-sem-dizer-coisa-nenhuma, fez exatamente isso.

Então vamos definir alguns termos:

Esquizofrenia: Distúrbio mental que faz com que a pessoa enfrente enormes dificuldades em:

a)Saber a diferença entre o que é e o que não é real
b)Pensar claramente
c)Ter respostas emocionais normais
d)Agir normalmente em situações sociais.

Ainda não se sabe exatamente o que causa, mas é quase certo que seja de origem genética, sendo mais comum em pessoas que tenham alguém na família com esquizofrenia, autismo ou distúrbio bipolar. Pode ser desencadeada por eventos estressantes em pessoas que tem o risco genético, afeta homens e mulheres do mesmo jeito (só que em homens costuma aparecer mais cedo e os sintomas serem mais acentuados), e os sintomas se desenvolvem lentamente por meses ou anos.

Pessoas com esse tipo de problema tem dificuldade de fazer e manter amigos, estudar e trabalhar.
Também podem ter problemas com ansiedade, depressão, pensamentos e/ou comportamento suicida (veja o post anterior onde isso tudo foi descrito no “atirador do cinema” em São Paulo, e o retraimento social do “atirador do cinema” no Colorado)

No início, os sintomas podem ser tão inespecíficos quanto irritabilidade, tensão ou dificuldade em dormir, mas isso progride para problemas muito mais sérios com pensamentos, emoções e comportamento, tais como:

Comportamentos bizarros (isto é, que absolutamente não cabem na cultura na qual a pessoa vive. Um exemplo perfeito é dado pelo atirador brasileiro, que um dia saiu para correr, sentiu calor e rasgou seus jeans)

Ouvir ou ver coisas que não estão lá - alucinações visuais e auditivas (tive uma paciente uma vez, que começou a quebrar todas as TVs da casa, pois claramente ouviu o Cid Moreira, mais do que uma vez, dizer que “eles iam pegá-la”).

Isolamento (o atirador do Colorado nunca teve um único amigo, do qual alguém possa se lembrar. Mesmo relato em relação ao brasileiro).

Falta de resposta emocional ou emoção totalmente incongruente com a situação (veja as fotos do atirador do Colorado, antes e no tribunal.)

Crenças fortemente arraigadas e que não são reais - delírios (o atirador do Brasil, achava que todo mundo o perseguia, e, como consequência, agrediu vários. O do Colorado, achou que era o Coringa, arqui inimigo de Batman, e agiu de acordo).

Pensamentos que “pulam” de um tópico a outro.

Claro que os sintomas dependem do tipo de esquizofrenia, e o tipo também pode mudar ao longo do decurso.

A confusão começa pelo mito de que doentes mentais são também retardados, e nada pode estar mais longe da realidade. John Forber Nasch, matemático e pesquisador na Universidade de Princeton, ganhador do Premio Nobel de Economia em 1994 (o filme “Uma Mente Brilhante” é uma romantização de sua vida), esquizofrênico paranoide desde adulto jovem, e seu primeiro delírio foi achar que todos os que usavam uma gravata vermelha eram componentes de um complô comunista que visava matá-lo. Sua reação ao complô lhe rendeu a primeira hospitalização, onde foi diagnosticado.

Outros esquizofrênicos famosos incluem um dos filhos de Albert Einstein, Eduard Einstein, considerado, ao contrário de seu pai, aluno brilhante; o filho do famoso Dr. Watson, codescobridor da dupla hélice do DNA; Vaclav Nijinsky, famosíssimo dançarino russo; Syd Barret, da banda Pink Floyd, e tantos outros.

Uma pessoa com esquizofrenia pode praticar atos horrendos, achando que está fazendo a coisa certa, embora seja muito mais raro do que nos assim chamados “normais”.

Creio que todos se lembram de Andrea Yates, que matou seus 5 filhos, afogando-os na banheira de sua casa, em Houston/TX, em 2001 - outra jovem brilhante, capitã do time de nado, formada em Enfermagem e considerada excelente em sua área no prestigiosíssimo hospital MD Anderson. Sua primeira psiquiatra testemunhou que tinha aconselhado o casal a não ter mais filhos, devido às tentativas de suicídio de Andrea depois do nascimento do terceiro e quarto filhos.

O problema é que, obviamente, há muito mais cobertura da mídia em eventos como esses, do que nos pequenos horrores diariamente praticados. Quantas pessoas morrem, diariamente, devido a assaltos?

Entremeando tudo isso, há o que chamo de “Cultura Hollywood”, que tem como princípio confundir totalmente o meio de campo, e é constituída por jornalistas que não têm ideia do que estão fazendo, celebridades que adoram dar palpite no que não entendem, “peritos” de TV puxando brasa para sua sardinha, e filmes e mais filmes sobre o assunto, mostrando o doente mental como ser violento e perigoso.

Nessa salada, o esquizofrênico é confundido com o psicopata, que é um termo leigo para o que se chama Distúrbio de Personalidade do tipo Antissocial, maravilhosamente descrito no livro “A máscara da sanidade” do Dr. Hervey Cleckley, que define o psicopata como uma perfeita imitação de normalidade, capaz de mascarar ou disfarçar sua falta fundamental de estrutura e emoções genuínas.

Mas disso falaremos no próximo capítulo.

sábado, 21 de julho de 2012

A tragédia do sintoma social

Em choque, como todo o resto do mundo, assistindo a matança em Aurora, no Colorado. O assassino, um jovem brilhante, cursando seu PhD em ciências neurológicas, ironicamente focalizado em marcadores biológicos do comportamento humano.
Pintou cabelo de vermelho e achou de ser o Jocker,o arqui inimigo de Batman.
Não se sabe se há drogas envolvidas no processo, pois ainda não conseguiram entrar em seu apartamento, que parece ser um campo minado, com a quantidade de explosivos lá dentro.
Isso me lembrou 1999, São Paulo, Brasil, sala 9 do cinema do Morumbi Shopping, onde o estudante do 6 ano de Medicina da Santa Casa, Mateus da Costa Meira, matou 3, disparando uma sub metralhadora que, por graça divina, ou porque Deus é brasileiro, encrencou.
Rápida pesquisa em Santo Google, me informa que o supra citado está cumprindo pena na penitenciária Lemos Brito,em Salvador,onde,em 2009 tentou matar o colega de cela. No caso de Mateus, muitas drogas envolvidas, e historico rico em sintomas, que todo mundo descontou,e só foi expulso da faculdade,a 15 dias da formatura, após o delito.Antes disso, ninguém achou que era caso sério um garoto que:
“Parecia ser invisível, apático", diz Ivan Pollastrini Pistelli, professor de Pediatria. Mateus recusou-se a cumprir a escala de plantões hospitalares rotineiros do curso de medicina. A desobediência custou-lhe um confronto com uma junta da Faculdade de Medicina da Santa Casa. Quatro psicólogos e uma psiquiatra chegaram a um diagnóstico preocupante. Constataram que o estudante sofria de depressão profunda, agravada pela solidão permanente. Recomendaram acompanhamento especializado. O psiquiatra José Cassio Nascimento Pitta assumiu o caso. Recomendou internações e receitou uma droga antipsicótica e outra antidepressiva…” Revista Época

Interessante é também a entrevista que a mãe de Mateus, enfermeira, tal qual a mãe de Holmes, concedeu á revista Revista Época:
“Até os 13 anos era normal. Nessa idade, começaram o choro e a depressão. Ele falou: "Minha mãe, eu quero me suicidar". Foi ao psicólogo e fez tratamento por um ano. Depois o atendimento passou a ser de emergência. Ficava agressivo, e a gente chamava o médico. Chegou então a um ponto que parou de aceitar o tratamento e as medicações.
"Minha mãe, não tenho um amiguinho". A situação piorou aos 15 anos. Foi fazer um intercâmbio nos Estados Unidos e a mãe americana não o suportou por causa da agressividade. Retornou logo. A dona da agência de intercâmbio disse que Mateus precisava de ajuda.
Quebrou a costela do pai, deu-me um murro num olho, chutou-me um joelho. Uma vez, agrediu-me porque achou que a roupa não estava passada. Tinha mania de limpeza e de organização.
Pioraram aos 16 anos. Procuramos os médicos. Um deles disse achar melhor que não ficássemos com ele, pois algo podia nos acontecer. Aqui em São Paulo, ele morou num pensionato e teve uma briga séria com um colega. Ligaram-me, e Mateus teve de sair de lá. Eu estava em Salvador, ele me telefonou e disse: "Minha mãe, vou me suicidar". Logo depois, mudou-se para um apartamento. Lá, agrediu o porteiro do edifício. Depois foi para outro prédio, onde ficou até quando houve o problema (os crimes).
Época: A faculdade, em São Paulo, foi informada dos problemas mentais de seu filho?
Alina: Sim. No fim do primeiro ano, quando foi passar férias em Salvador, Mateus tentou suicídio usando um bisturi. Tem nos pulsos as marcas dessa tentativa. Nesse mesmo dia, resolveu correr de calça jeans. Chegou em casa com a calça estraçalhada. Disse que sentiu calor no meio do caminho e cortou a calça toda com um caco de vidro. Tempos depois, feriu-se novamente e voltou a falar em suicídio. No início do segundo ano, estive na faculdade e disse à direção que ele estava depressivo. Fui encaminhada ao serviço de assistência ao estudante. Pedi que a faculdade ajudasse no tratamento. Comunicaram-me que Mateus era um aluno brilhante e não podia ser obrigado a aceitar o tratamento…”
Pula para o Holmes aqui.Quieto demais a vida toda, nenhum de seus colegas de ginasio consegue se lembrar dele. Forma-se em Ciências neurológicas em 2010 pela Universidade da California, não consegue achar emprego e vai trabalhar meio periodo no McDonald. Em Junho de 2011, entra no programa de doutoramento na Universidade do Colorado, em Denver. A Universidade informa que estava tendo problemas acadêmicos, e estava no processo de desligamento da dita universidade.
Nos 60 dias antes do ataque, comprou, em lojas locais, um rifle semi automatico de assalto AR-15, duas pistolas Glock calibre .40, um rifle Remington 12, e 6000 cartuchos de munição.( BBC)
Me abstenho de comentar a esse respeito. Ë tão absurdo que isso seja possível, que me faltam palavras adequadas, além de que meu ponto não é a discussão da venda de armas, mas o sintoma de doença social no qual tem sido cada vez mais possivel esse tipo de acontecimento .
É piadinha universal, baseada em fatos,de que, pelo menos uma vez por ano, há uma desgraça destas aqui nos EUA. Infelizmente, essa cultura está sendo exportada com grande sucesso. Quero crer que todos se recordam de Peter Mangs, na Suécia, em Maio deste ano, que saiu matando imigrantes (BBC)
ou o massacre de Oslo em Julho de 2011 ( The Week)
E é a isso que chamo de sintoma social. Pessoas com problemas mentais de todos os tipos, sempre existiram, o problema me parece que, quanto mais aprendemos sobre comportamento humano, mais nos afastamos de bons diagnósticos e possiveis tratamentos, em nome de crenças mal colocadas e estigmas infames sobre o assunto.
Uma das consequências do movimento anti psiquiatrico(1)dos anos 60 foi a piora do estigma. Basaglia, na italia, fixou-se na esquizofrenia, clamando que era causada por injúrias ao sentido de “self”, causado por erros grosseiros dos pais, principalmente mãe da criatura esquizofrênica,não se importando minimamente com o fato que 1% da população mundial tem algum tipo de esquizofrenia, independentemente dos pais serem bons, maus, péssimos, ou qualquer grau de permeio.
Naturalmente também que ninguém vai querer ser etiquetada de “mãe esquizofrenizante”.
Também com o endeusamento do DSM ( Manual Estatístico e Diagnóstico dos Disturbios Mentais da Associação Americana de Psiquiatria), os bons e velhos princípios de observação, estudo e diagnostico, que nos informavam que os sintomas psicóticos seguem a cultura onde se desenvolvem, vão sendo esquecidos num passado distante. Estão aí as consequências.

(1)Anti-psiquiatria é uma configuração de grupos e conceitos teóricos, que apareceu nos anos 60, desafiando os pressupostos e práticas fundamentais da psiquiatria. O termo foi cunhado em 1967 pelo psiquiatra David Cooper. Maiores influências intelectuais: Michael Foucault, R.D.Laing, Thomas Szaz e franco Basaglia)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

MITOS E BALELAS NA ÁREA PSI


Há alguns anos, li um artigo da Dra. Nada Loda Stotland, a respeito de concepções errôneas em psiquiatria (Am J Psychiatry 2009: 166:1101-1104), no qual ela expos conceitos muito interessantes, como por exemplo,o mito de que os distúrbios psiquiátricos não são condições tão bem definidas quanto outras doenças médicas,não são baseados em evidências,e os tratamentos não funcionam tão bem quanto em outras áreas da medicina.

Perguntava ela se as doenças psiquiátricas não eram reais porque não havia testes diagnósticos em psiquiatria.
O substrato, a localização física dos pensamentos,humor e comportamento é o cérebro, órgão do nosso corpo, o qual não deve ser cutucado à toa,sob pena de sérias consequências. Essa maquininha maravilha tem a consistência de gelatina dura, portanto Raios X não funcionam para saber se há algo quebrado por lá.
Porém, com o advento das tomografias, cada vez mais sofisticadas, principalmente a de emissão de prótons, já podemos ver a diferença entre um cérebro com depressão e outro sem, um cérebro com TDAH e outro sem, e esses achados complementam o que os profissionais diagnosticam, através da entrevista e da observação de comportamentos do paciente.

Será que os psiquiatras adoram etiquetar todo mundo, como forma de encher seus consultórios?
Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), há uma falta crônica de psiquiatras em quase todos os países do mundo, além do fato de que os mesmos costumam ganhar bem menos que os colegas, e isso quando a companhias de seguros médicos pagam consultas psiquiátricas.

Aliás me pergunto, dando asas à minha vasta imaginação, se todo o movimento da antipsiquiatria não foi uma jogada brilhante dos seguros saúde.
Mas disso, não tenho qualquer evidência, então deixo a questão para, se e quando, um dia, resolver escrever um livro de ficção tipo James Patterson.

Então, vou ficar com as questões básicas:

Há alguma base científica para tratamentos psiquiátricos?

Sim, há anos de observação, estudo, tentativa e erro. Os tratamentos psiquiátricos funcionam tão bem ou melhor do que a média de outros tratamentos, e, curiosamente, segundo a conceituadíssima revista médica New England Journal of Medicine, menos da metade dos tratamentos para doenças cardiovasculares são baseados em boa evidência científica.

Como é possível que, só conversando com alguém, se possa tratar uma doença “real”?

Pode sim. Também pode ajudar pacientes com câncer a viver mais tempo e a diminuir a dor em certas doenças. Pode-se ver as mesmas alterações em neuroimagem quando a depressão é aliviada por medicação ou por psicoterapia.

Medicações psiquiátricas não só tornam as pessoas “zumbis”, como também mudam sua personalidade.

Qualquer remédio, até vitamina, pode causar reações sérias em pessoas sensíveis, principalmente quando é tomado ou demais, ou de menos, ou de vez em quando, isto é, não seguindo a prescrição. Sim, medicamentos psiquiátricos alteram a química cerebral e podem sim mudar a personalidade, de doente para saudável.
E, infelizmente, não tenho o talento suficiente para descrever a poesia pura que é assistir, por exemplo, um paciente esquizofrênico, totalmente incapacitado a funcionar no mundo, transformar-se aos poucos numa pessoa capaz, não só de reconhecer seus problemas, como também de poder cuidar de si.

Preconceitos contra problemas psíquicos, e quem cuida deles, remontam há milênios. Nós humanos temos a tendência a demonizar o que não entendemos, e também a sermos tanto mais vociferantes quanto menos entendemos de um assunto.

Já é difícil o suficiente ter uma doença, muitas vezes incapacitante, e tratar da mesma, sem ter que também lidar com o estigma.

O cérebro não é só o órgão mais complexo do corpo, como é também a estrutura mais complexa do universo, e então, obviamente, não há respostas simples.

Tal qual em todos os outros campos da medicina, o que não se sabe continua sendo muito mais do que aquilo que se sabe. Tal qual todos os outros colegas médicos, continuamos pesquisando para entendermos melhor os problemas, de forma a aliviar o sofrimento de nossos pacientes e tratá-los cada vez melhor.

No próximo post discutiremos outros mitos tais como:

Dependência a drogas é falta de força de vontade

As pessoas se tornam psicóticas assim, de repente, sem aviso prévio, e outras pérolas mais.

The Brain—is wider than the Sky - Emily Dickinson

The Brain—is wider than the Sky—
For—put them side by side—
The one the other will contain
With ease—and You—beside—

The Brain is deeper than the sea—
For—hold them—Blue to Blue—


The one the other will absorb—
As Sponges—Buckets—do—

The Brain is just the weight of God—
For—Heft them—Pound for Pound—
And they will differ—if they do—
As Syllable from Sound—



O Cérebro - é mais amplo do que o Céu -
Pois - colocai-os lado a lado -
Um o outro irá conter
Facilmente - e a Vós - também -

O Cérebro é mais fundo do que o mar -
Pois - considerai-os - Azul e Azul -
Um o outro irá absorver -
Como as esponjas - à Água - fazem -


O Cérebro é apenas o peso de Deus -
Pois - Pesai-os - Grama a Grama -
E eles só irão diferir - se tal acontecer -
Como a Sílaba do Som -

Emily Dickinson, Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas, Trad. Cecília Rego Pinheiro, Assírio & Alvim, col. Gato Maltês, 1997

quinta-feira, 12 de julho de 2012

MITOS E LENDAS URBANAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS NA SAÚDE

Neste resto de mês de Julho, vou falar sobre mitos na medicina.


Na realidade, não são mitos, pois, por definição,mito é uma história tradicional, antiga,que lida com seres sobrenaturais ou heróis,servindo como fundamento da cosmovisão de um povo,por explicar aspectos do mundo natural ou por delinear a psicologia, costumes ou ideais de uma sociedade. (MW thesaurus).Um exemplo de mito é o de Eros e Psiquê.

Então, vou falar mesmo é de lendas urbanas, que por definição, são histórias apócrifas, contadas em segunda mão, plausíveis o suficiente para serem críveis, e versam sobre alguma coisa horrível, embaraçosa, irônica ou exasperante que aconteceu a alguma pessoa. (MW thesaurus).

As minhas preferidas,até o advento da internet,eram,e não necessariamente nessa ordem:

a)qualquer variação sobre o tema da desgraça que algum médico famoso teria provocado em algum membro da família do contante;
b)a famosíssima: “é natural, então não faz mal”,logo seguida de “é química, péssimo”, ao que, jovem e desavisada, costumava responder com um mal criado: “cicuta, naturalíssima, não fez nenhum bem para Sócrates, nem nunca fez bem a nenhum vivente um copo de petróleo pela manhã, em jejum.”

O problema das lendas urbanas é que trazem em si a credibilidade de um Doutor ou Professor na frente do nome de alguma criatura de quem nunca, jamais, alguém ouviu falar.

Quando é uma coisa tão absurda, quanto a famosa dos anos 90, em que cidadão acordava numa banheira de gelo, num hotel, sem os rins, é simples, é só perguntar como é que uma pessoa vai acordar sem os rins.

Com a internet, a coisa alcançou níveis epidêmicos, pois, sem pensar, apertamos o botão de “avançar”, sem nos determos para pensar nas famosas perguntinhas do pensamento critico: QUEM – COMO – QUANDO – POR QUE – ONDE.

Há alguns anos fui inundada, em duas línguas, por e-mails me pedindo para assinar uma petição para parar a produção de um filme onde Jesus Cristo seria retratado como homossexual.
Respondi para dois remetentes, um no Brasil e outro aqui mesmo, perguntando qual era o nome do filme e quem o estava produzindo. Gozado é que ninguém tinha a menor ideia, mas isso não os impediu de acreditar piamente na coisa.

No Brasil, não sei se tem, mas aqui há um site chamado SNOPES, que traz todas as checagens, e mesmo assim, as pessoas não se dão ao trabalho de olhar, sempre que uma lenda preencha suas crenças ou atice os medos básicos, que são o solo fértil de nossos preconceitos.

Mas não vou aqui falar de sociologia, que nem é minha área. Quero falar das desgraças que assolam o reino, quando essas lendas e esses preconceitos são usados na área de saúde, e quero começar com o que considero um dos mais perigosos:

O QUE É NATURAL NÃO FAZ MAL, ligado ao seu irmão gêmeo MEDICAMENTOS SÃO QUIMICA E, SE NÃO FOSSE A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA GANHAR TANTO DINHEIRO COM ISSO, JÁ TERÍAMOS CURAS PARA TODOS OS MALES.

Exemplos de coisas muito naturais:


Alho e Cebola (gênero Allium): Contém tiossulfato, que, em altas doses, é extremamente tóxico para cães e gatos.

Batata (Solanum tuberosum): Contém glicoalcalóides que, em altas doses, podem produzir diarreia, cefaleia e distúrbios gastrointestinais sérios.

Curare (Strychnos toxifera): Extratos da folha, muito usados na ponta de flechas de várias tribos indígenas na América do Sul. É um veneno que mata por asfixia, pois paralisa os músculos. Em 1850, George Harley demonstrou a eficácia do curare no tratamento do tétano e do envenenamento por estricnina. Em 1940, foi introduzido como relaxante muscular em anestesia, e continua sendo usado.


Maçã (Malus domestica): Suas sementes contém amigdalina, que é um componente cianogênico. Ninguém ainda morreu disso porque há que se comer enorme quantidade das mesmas, e, usualmente,ninguém come as sementes.

Nóz moscada (Myristica fragrans): Contém miristicina, que é inseticida e ascaricida (mata os vermes chamados áscaris- lombriga), e tem efeitos neurotóxicos, naturalmente em doses extremamente mais altas do que nas usadas na cozinha.

Psilocibina: do cogumelo Psilocybe semilanceata, chamado pelos Astecas de “teonanacatl”ou cogumelo divino. Usado desde priscas eras por seus efeitos alucinatórios, atualmente está sendo estudado por seus efeitos extremamente benéficos no tratamento de distúrbios obsessivos compulsivos, como também em cefaleia em salvas e ansiedade relacionadas a estados terminais de cânceres.

Pronto, só alguns exemplos para clarear o conceito. Isso sem levar em conta que a maioria dos nossos medicamentos provém de fontes naturais.

A famosa aspirina (ácido acetil salicílico) vem do salgueiro, planta usada em chás para tratamento de febre, desde 400 AC (pelo menos que se saiba, não há registros antes dessa data); e a boa e velha Penicilina vem do musgo (Penicillium fungi). A lista é longa e não é minha meta fazer um tratado sobre “As fontes naturais de nossos medicamentos e venenos”, se bem que pode ser uma boa ideia para um e-book.

A ideia é falar sobre conceitos equivocados que tanto afetam tratamentos, principalmente no campo da saúde mental.

Caso queiram saber mais sobre mitos, aconselho a obra de Joseph Campbell

sexta-feira, 6 de julho de 2012

TDA/TDAH – TRATAMENTO




O objetivo do tratamento é controlar os sintomas,incluindo desatenção, hiperatividade/irritabilidade e impulsividade,e,se seguido consistentemente,costuma melhorar o funcionamento do indivíduo nas mais diversas situações(escola,trabalho, casa, situações sociais).


O tratamento é multifacetado,usualmente consistindo de medicações e terapias de modificação de comportamento(terapias comportamentais/cognitivas),mas deve ser adaptado para atender as necessidades únicas de cada indivíduo,assim como as de sua família.


A abordagem mais eficaz para o tratamento de crianças e adolescentes com TDAH inclui:


Educação a respeito do diagnóstico e tratamento do TDAH para pais e filhos
Medicação para TDAH
Terapias cognitivo/comportamentais
Envolvimento da escola (professores, conselheiros, psicólogos)


MEDICAMENTOS


A linha de frente para tratamento do TDAH inclui: medicamentos estimulantes, não estimulantes e antidepressivos, sendo os estimulantes mais comumente prescritos.
Seja lá qual for a medicação usada, é importantíssimo o acompanhamento médico constante para: ajustamento da dosagem, lidar com efeitos colaterais, se e quando aparecerem, e medir a eficácia ou não da medicação usada.
Lembrem que uma medicação que fez maravilhas numa pessoa pode causar horríveis efeitos colaterais em outra. Não existe nenhuma medicação na inteira farmacopeia que funcione tipo unanimidade.

ESTRATÉGIAS E INTERVENÇÕES COMPORTAMENTAIS



Embora o TDAH não seja causado por fatores ambientais, pode, sem nenhuma dúvida, ser por eles influenciado. Um ambiente caótico, desestruturado e desorganizado exacerba os sintomas, enquanto aquele estruturado e previsível pode ser de grande ajuda no alívio dos sintomas.
Muitas pessoas com TDAH respondem bem a um sistema de recompensas com consequências claras para os comportamentos. Esse sistema é chamado de modificação comportamental e funciona bem com a maioria de crianças e adultos com TDAH.


TREINAMENTO PARA PAIS


Lidar com uma criança com TDAH é desgastante para os pais, que podem se beneficiar com treinamento na área, de forma a adquirir novas técnicas para gerir o problema de comportamento em casa. É importante também para esses pais frequentarem grupos de apoio, para que não se sintam sós e lutando em vão contra o mundo.


TREINAMENTO DE HABILIDADES SOCIAIS


O objetivo é ajudar o indivíduo com TDAH a aprender comportamentos novos e mais adequados para interação social, de forma a fazer com que este interaja e se relacione com outros de maneiras mais saudáveis.


PSICOTERAPIA


É onde o indivíduo vai processar suas emoções e sentimentos, e desenvolver estratégias para lidar com as consequências negativas do TDAH, a saber: relacionamentos destruídos (qualquer um: amizades, namoros, casamentos…) e autoestima destroçada.


TREINAMENTO (Coaching)


Um treinador (coach) em TDAH faz parceria com seus clientes para criar estrutura e organização diárias, proporcionando apoio e incentivos na definição de metas e recompensas, e para mantê-los concentrados, mesmo frente a obstáculos.


GRUPOS DE SUPORTE


Tanto os indivíduos com TDAH quanto seus entes queridos (pais, irmãos, cônjuges, etc…), podem encontrar forças e incentivos em grupos de apoio. Compartilhar problemas e soluções é um reforço tremendo!


TRATAMENTOS COMPLEMENTARES


Exercícios:O exercício físico eleva a produção dos neurotransmissores dopamina e norepinefrina quase que de imediato, atuando assim meio que como um estimulante. Também ajuda a lidar com impulsividade e com a necessidade de gratificação imediata, por estimular as funções executivas do córtex frontal, que faz com que o individuo adie a satisfação, podendo assim fazer melhores escolhas, por ter tempo de pensar nas consequências. Na realidade, exercício melhora tudo, em todo mundo, com ou sem TDAH, e o efeito de exercício no aprendizado é assunto para outro artigo.


Nutrição: Uma dieta equilibrada enfatiza frutas, legumes, grãos integrais, laticínios com baixo teor de gordura, carnes magras, aves, peixes, feijão, ovos e nozes. Muito pouco em gorduras saturada e trans, açúcares e sal. É chover no molhado dizer que essa dieta é ideal, tendo ou não TDAH.

Brincadeiras ao ar livre para melhorar foco:
Um estudo publicado no Jornal dos Distúrbios da Atenção ( Journal of attention disorders) em 2008 demonstrou que uma caminhada de apenas 20 minutos num parque, melhora a atenção e o foco. O estudo foi feito pelos especialistas e pesquisadores em ambiente e comportamento pediátricos (Faber Taylor e Kuo) da Universidade do Illinois.



Sono: Uma boa noite de sono é imprescindível para o bom funcionamento de qualquer pessoa, e não tê-la é problemático para os que apresentam TDAH. Então aqui vão algumas dicas:
Mantenha horários regulares (deite e acorde sempre na mesma hora)
Desenvolva e mantenha uma rotina relaxante, tipo banho morno, ler, ouvir sons relaxantes, visualizar pensamentos positivos, tomar chá de camomila ou um pouquinho de leite e meia maçã, enfim, qualquer coisa que funcione para você.
Fora com o computador
Tire o computador do quarto, e pare de usá-lo pelo menos 1 hora antes de ir para a cama.



Pessoalmente, prefiro fazer todo o possível para melhorar o sono da forma mais natural, do que prescrever medicações para dormir, embora haja casos que, faça lá o que se fizer, não funciona. É raro. Uma boa rotina, principalmente se iniciada na infância, costuma ter efeitos duradouros.


Trabalhar com a memória: Qualquer exercício ou jogo que envolva reconhecimento de padrões, atenção, memória e matemática. Sudoku é muito bom prá isso.


Se a pessoa não responder a essa abordagem multifacetada, é bom reavaliar o diagnóstico, as condições concomitantes (tipo problemas de aprendizado, depressão, ansiedade), família, escola e o próprio tratamento.


Para finalizar, quero dizer que entendo perfeitamente a confusão, desespero, raiva, tristeza e todas as outras emoções, principalmente em pais de crianças recém diagnosticadas com o problema. Também entendo o pavor de ouvir o medico dizer que vai dar um estimulante para a criança (por essa razão não coloquei o nome das medicações disponíveis, só as classes, para não dar mais pano prá manga, tipo “mas a Dra. Lá do blog disse que essa medicação é mais nova do que essa outra que está sendo receitada para meu filho/a”) Já há confusão suficiente, e minha idéia é diminuí-la, não adicionar gasolina ao fogareiro.


O que quero alertar é que esse é o momento certo para se tornar presa de algum “esperto” que vai dizer o que se quer ouvir, e oferecer tratamentos “alternativos”, “naturais”, “holísticos”, ou seja, lá que nova palavra for inventada.
Vamos a um exemplo: se seu filho/a fosse diagnosticado com diabetes e o medico ou a nutricionista lhe dissesse que teria que lhe dar duas vezes ao dia apenas 150 grãos de arroz, você não iria contar os grãos um por um, todos os dias, duas vezes ao dia, sem falha? Com toda a certeza. Ou se lhe dissesse que teria que pesar os comprimidos de insulina e que o comprimido não poderia ter mais do que 28 mg, você não iria lixar o raio da coisa até chegar na medida exata? Sem dúvida alguma. Então, por que não dar o mesmo respeito que damos ao pâncreas, órgão que tem problemas no caso de diabetes, para outro órgão problemático, o cérebro, no caso do TDAH?


Entendo que temos milhares de anos de heranças negras a respeito do cérebro e da mente, uma de suas funções. Vamos dos gregos, que deusificavam os epiléticos, à inquisição que os demonificou.


Nossas crenças são muito mais fortes do que qualquer dado de realidade, até mesmo porque a realidade costuma ser muito menos fascinante do que a crença, pois esta explica coisas para as quais a realidade não oferece, de momento, nenhuma explicação ou alívio. Entendo isso. Posso não gostar nem um pouquinho, mas entendo.


Por isso mesmo é que estou fazendo este alerta: por favor, não destruam as possibilidades de uma criança em nome seja lá de que crença for. Converse com os profissionais envolvidos no tratamento, pergunte, torre a paciência até se sentir satisfeito, tudo bem. Mas não vá para situações de risco.


Abaixo coloquei um link para um site que dá o nome de famosos com TDA/TDAH. É em inglês, mas pode pegar o nome da criatura e colocar no Wikipédia. É interessantíssimo, e mostra claramente que somos quem escolhemos ser, com, sem ou apesar dos problemas que nos afetam.

 FAMOSOS COM TDAH

terça-feira, 3 de julho de 2012

TDAH – DIAGNÓSTICO - ATRAPALHADOS IV


Nenhum dos sintomas de TDAH é, de per si, um problema, pois a maioria das pessoas perde o foco, se distrai ou fica irritadiça de vez em quando.

 Além disso, os sintomas de TDAH podem ser facilmente confundidos com outros problemas, incluindo dificuldades de aprendizado e problemas emocionais, que requerem tratamento totalmente diferente.

 Por isso é extremamente importante procurar profissional da área, altamente capacitado, e com longa experiência no assunto.

Para complicar as coisas, não existe um único teste que determine com toda a certeza o diagnostico, pois a tomografia por emissão de pósitrons (PET SCAN), além de ser extremamente cara, por enquanto tem sido usada quase que só em pesquisas.

O medico em questão, vai ter que usar uma série de ferramentais, tais como: lista de sintomas, perguntas e respostas sobre problemas presentes e passados, e uma série de exames para descartar outras possibilidades.

O danado do TDA/TDAH pode se apresentar de formas diferentes em diferentes pessoas, e, assim, há grande variedade nos critérios e medidas para as testagens.

 É importantíssimo ser aberto e honesto com o profissional  que está fazendo a avaliação, de forma que este possa chegar às conclusões da maneira mais precisa possível.

FATORES IMPORTANTES NO DIAGNÓSTICO

Sintomas Característicos: Desatenção (ser muito distraído), hiperatividade (ou inquietação) e impulsividade.

O profissional vai levar em conta os seguintes fatores:

a)    Quão severos são os sintomas?

Para ser diagnosticado com TDA/TDAH, os sintomas do paciente precisam impactar a sua vida negativamente, principalmente nas áreas de estudo/trabalho, finanças e responsabilidades de qualquer tipo.

b)   Quando os sintomas começaram?

Considerando que esse é um transtorno que se inicia na infância, se apareceu depois dos 10 anos de idade, provavelmente é outra coisa.

c)  Há quanto tempo os sintomas vêm incomodando e/ou preocupando o paciente?

Há que ser por um período maior do que 6 meses.

d)   Quando e onde os sintomas se apresentam?

Os sintomas precisam estar presente numa variedade de situações/locais, como casa, escola, trabalho. Se aparecem num só lugar ou numa só situação, então a culpa não é do TDA/TDAH.

ENTENDA O QUE SIGNIFICA O DIAGNÓSTICO

É normal sentir-se triste ou assustado com o diagnostico, mas tenha em mente que é apenas o primeiro passo para conseguir uma melhora no padrão de vida.

No geral, depois que se sabe com o que está se lidando, pode-se iniciar o tratamento, que significa controlar os sintomas e, consequentemente, poder se sentir mais confiante em todas as áreas da vida que antes pareciam confusas e sem solução.

Um diagnóstico pode ser sentido como um rótulo carimbado na testa, mas ajuda muito se pensarmos na coisa simplesmente como uma explicação.

Explica, por exemplo, porque é que se teve tanto problema com coisas que para os outros pareciam tão fáceis, tais como prestar atenção, se organizar, terminar o que se começa, entender o que se ouve. Sob esse aspecto, o diagnóstico pode ser um alívio, mostrando que os problemas não eram preguiça ou falta de inteligência, mas sim um distúrbio a respeito do qual se pode fazer algo.

Que também fique claro que ter o diagnostico de TDA/TDAH não significa uma vida de terror e sofrimento. Os sintomas vão de leves a severos, como tudo mais na vida, mas independentemente do grau que você ou seu filho/a apresentem, há muitas coisas que podem ser feitas para lidar com a situação, principalmente:

a)    Aprender o máximo possível a respeito de TDA/TDAH
b)    Adotar hábitos de vida saudáveis
c)    Entender que o tratamento é responsabilidade sua
d)    Saber que apoio é importantíssimo.

E se você olhar bem para os itens acima, vai notar que não há qualquer diferença de qualquer outra condição/problema/doença neste grande supermercado de Deus.

No próximo e final capítulo, veremos o que existe em termos de tratamento, e algumas famosíssimas criaturas com esse diagnostico e a marca que fizeram no mundo.